Ao viajar, me deparo com os mais diversos quadros da vida real. A minha mais recente viagem machucou com um cajado a minha vida. Mas não foi por maldades feitas a mim. Foram maldades feitas por nós a outras pessoas, involuntariamente. São pensamentos que, às vezes, temos, e que não queríamos ter, por pessoas que nem ao menos conhecemos, e apenas são vítimas de uma sociedade preconceituosa. O quadro que vi foi deprimente, mas me fez pensar, e agradecer pela minha vida: um casal, visivelmente pobre, com cinco filhos e uma gestação. Um desprazer enorme, mas não pude deixar de fixar os olhos naquelas crianças. Elas exalavam um mau cheiro, uma catinga fria, que provocou uma certa repugnância nos passageiros. A menor delas, um menino de uns dois anos, era o mais fedido de todos. E o que mais andava. Ao se mexer, o cheiro dominava o ambiente, e constrangia a todos. A mãe, uma mulher de vinte e poucos anos, bruta, gritava com as crianças. Isso também constrangia a todos. O marido parecia subordinado à mulher. Todos pareciam temê-la, como se estivessem ameaçados. Ao ouvir o início do choro de um dos pequenos, ela batia em sua cabeça e o mandava ficar quieto. Não me envolvi no caso - não conheço aquela família nem aquela mulher nem sei se aquilo é corriqueiro na casa deles. Como diriam nesta minha terra, a mulher estava com o bucho pela boca. Parecia estar perto de parir. Logo, mais uma boca para comer numa casa que parecia estar saturada de seres humanos. Ouvi o homem contar piadas batidas de sogra, e falou que a sua (sogra) morava com eles (comentários acompanhados de "velha chorona", "Deus me livre" e "não sei como agüento ela", além de inúmeros palavrões. Palavrões. Farão parte do vocabulário restrito da prole daquele casal. Eram palavrões a toda hora. Nunca ouvi tantos em tão curto espaço de tempo. As crianças, crescendo naquele meio, não serão diferentes. Algumas podem ser tão brutas quanto a mãe, e outras, tão submissas quanto o pai. A realidade choca, e nos faz pensar em soluções. As soluções encontradas por mim são meras hipóteses. Se o casal tivesse só um filho, seria mais fácil o investimento em educação, mesmo se fosse uma escola pequena, depois melhor. Poderiam capacitá-lo a entrar numa Universidade e "ser alguém na vida" para ajudar os pais. Mas com seis filhos, o dinheiro que serviria para um, será dividido. Fica bem mais difícil o sucesso profissional de um dos filhos. Além disso, mesmo que fossem para a escola pública, o estímulo de estudo se desgraça. A escola estadual ou municipal é, infelizmente, um caos no nosso país. A infra-estrutura é escassa, e a maioria dos professores não se sentem motivados a dar aula, nem mesmo quando ainda estão no auge da paixão pela profissão. Não me senti muito bem com essas observações...
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