Alexandra fala sobre a infância, a família e a adolescência

Entrevista a Selecções do Reader's Digest, Máxima e Jornal Expresso em simultâneo
Selecções do Reader`s Digest - Comecemos pela história da sua vida.
Alexandra Lencastre - Nasci no Hospital Militar em Lisboa. A minha mãe é madeirense e chama-se Gisa, o meu pai é de Coimbra e chama-se Jacinto. A minha mãe fez colégio de freiras, numa família bastante tradicional, irmãos e primos a viverem na mesma casa; o meu pai veio interno para o Valsassina, depois faculdade de Economia, revoluções. Conhecem-se estes polos opostos e apaixonam-se; ele pela pureza, ela pela transgressão. E têm filhos.
SRD - O seu pai e a sua mãe eram muito novos quando vos tiveram.
AL - E por causa disso, as circunstâncias ultrapassaram a sua vontade. Ou seja, a consciência que têm da infância que proporcionaram aos filhos é ligeiramente diferente da consciência que eu e o meu irmão temos do que foi a nossa infância. Eram dois jovens empenhados em mudar o mundo. Esqueceram-se que as circunstâncias eram demasiado intensas para que duas crianças passassem por ali como se passassem por um corredor vazio.
SRD - Que circunstâncias eram essas?
AL - Eram duas maneiras de estar na vida distintas. De um lado, a família burguesa das férias na Ericeira com os mesmos rituais e o mesmo chapéu de sol, o que nos dava uma enorme segurança; do outro lado, a exigência e o rigor onde as dificuldades não eram escondidas. Não se deixava comida no prato, não havia muitas espécies de fruta. Eles próprios são o produto das suas famílias, e nós fomos absorver as coisas boas e as coisas menos boas de ambas. O meu pai fazia questão de nos dar uma educação liberal. Não compreendia como é que os seus filhos chegaram à adolescência conservadores! Mas a geração que vem a seguir é sempre reactiva.
SRD - O que atribuiria imediatamente a um lado e a outro?
AL - A família da minha mãe simboliza tudo o que tem a ver com colo, mimo, sestas, com o «não faz mal», «já passou», «vais ver que consegues», «gostamos de ti na mesma». A família do meu pai tem a ver com o «trabalho é um valor», «não vales nada», «com a tua idade o teu avô estudava e trabalhava». Há um lado feudal onde as mulheres têm menos importância. Contudo, vivia-se um matriarcado, que na família do meu pai era económico e na família da minha mãe amoroso. Ver as líderes da famílias serem tão distintas, orientarem-nos para zonas tão diferentes é um bocadinho confuso. Foi também enriquecedor. Mas para uma criança... Aprende-se muito cedo a representar.
SRD - A representar para poder estar nos dois polos, com dois registos?
AL - Sim. Se num lado podia descansar, porque não fazia mal, no outro, muita coisa fazia mal. Num lado podia ser criança à vontade; no outro tive de crescer muito depressa.
SRD - E o seu irmão?
AL - Ele não gosta nada de ser falado, mas é omnipresente.
SRD - A influência dele, o querer ser como ele, o ser protegida por ele, é fundamental na sua vida?
AL - Absolutamente.
Que imagens tem da infância?
Tive uma infância muito feliz. Os primeiros três anos vivi na casa dos meus avós, em Campo de Ourique, e senti durante algum tempo - mesmo quando fomos viver só os quatro num apartamento no Restelo - um sentimento assim de... segurança. Tínhamos vinte pessoas para almoçar, a família era enorme. Havia sempre duas empregadas internas, mais uma que vinha passar e outra coser... Todos faziam parte da família. O meu avô proporcionava o bem-estar a todos.
De que forma?
Era uma espécie de guardião da família. Estes primeiros anos pareceram-me muito tentadores com excepção de um grande ciúme que tinha do meu pai. Tinha uma grande paixão pela minha mãe e ele era um intruso.
Que fazia a sua mãe?
Trabalhava imenso, mas só começou a ter uma ocupação quando eu tinha 7 anos. Depois tive experiências horríveis na escola. Primeiro comecei na Academia de Música de Santa Cecília, que era um colégio particular, caríssimo na altura - os meus avós pagavam o colégio, porque os meus pais não tinham hipótese de o fazer - e foi aí que comecei a viver as primeiras desventuras. Por não pertencer a uma família com muito dinheiro e com nome, fui retirada das aulas de piano, por exemplo, por não ter piano em casa para estudar (e ao que parece até tinha imenso jeito). Depois saí desse colégio e fui para o Algés e Dafundo, onde já fazia natação desde os 3 anos.
Também uma escola privada?
Não sei bem... Era uma escola triste. Não tive vaga logo para o edifício onde existiam classes mistas. Fui completamente ostracizada. Para já, existiam aí umas oito Alexandras na minha turma (devia ser moda), e não tive direito a ser chamada pelo nome. Sempre fui uma criança muito nervosa e ansiosa, talvez por ter nascido e crescido neste ambiente de colo. Todas as coisas práticas da vida me assustavam imenso.
Natal...
O Natal ideal para mim foi aos três anos de idade, imediatamente antes do meu irmão Pedro me ter contado a tão triste verdade.
A família estava completa, nenhum ente querido tinha ainda desaparecido, e o meu mundo, visto de baixo, era lindo, cheio e barulhento.
De colo em colo, podia olhar nos olhos de cada um com justiça, frontalidade e ternura. Podia também receber beijos repenicados das tias, ficar com as bochechas cheias de bâton da avó, levar uns apertos de amor dos tios e primos, e receber festas que não voltam que me despenteavam os caracóis sem que eu me importasse.
A mesa parecia um presépio e o presépio parecia o céu. A árvore era enfeitada por todos, com ordem e sabiamente orientados pela tia Mana, a tia mais velha.
Os cheiros – dos doces aos amargos – eram de entontecer. Sentia que todos os sabores me pertenciam e que já era meu dever experimentar e opinar. “Delicioso”, dizia muito séria, mas muito cómica.
Acho que a maior confusão na minha cabeça era ouvir dizer no colégio ou nas ruas que era o Menino Jesus que trazia presentes aos meninos. Na minha casa e família, separava-se a festa de Natal – do Pai Natal, das renas, dos guizinhos e toneladas de papel para desembrulhar febrilmente – da celebração do nascimento do Menino Jesus. Gostava de ter uma máquina do tempo para levar as minhas filhas a experimentar este Natal.
Se tivesse de fazer um filme sobre si, nessa fase, que imagens escolheria?
Seria um filme de terror. A ideia da morte sempre me perseguiu desde muito cedo. Não podia ver a minha mãe de olhos fechados. Tinha crises de pânico, por não querer apanhar sol ou adormecer, com medo de cegar. Vivi muito cedo o dilema da religião e da política. Aos 10 anos fui falar com um padre, e perguntei o que podia fazer para me tornar uma menina melhor e dormir descansada. Apanhei um idiota, na igreja de Santa Isabel, que me disse que tinha de rezar, não só pela minha família, como por todas as famílias e crianças que padecem. Ficava desde as 10 horas da noite, quando me mandavam deitar, até às duas da manhã, a rezar por toda a gente. Não dormia e por isso fui a um médico que me receitou um xarope.
Entrou numa turma só de meninas. Quando começou a relacionar-se com rapazes?
Comecei por querer imitar o meu irmão. Durante muitos anos queria ser rapaz. Eliminava qualquer indício de feminilidade. Conscientemente. Achava ridícula qualquer manifestação de fragilidade, de futilidade. Era muito cáustica. Dava-me muito melhor com os rapazes. Hoje em dia é o contrário.
SRD - Só começou a ser menina na acepção mais estereotipada da palavra da adolescência em diante. Até aí era uma criança quase sem sexo. Não era marcadamente menina, nem menino.
AL - Não era uma Maria-Rapaz típica. Era Maria-Rapaz porque me esforçava para ser uma Maria-Rapaz. Para poder acompanhá-lo. Claro que me fartava de esfolar os joelhos... Mas a grande confirmação exterior era o meu irmão. Isto no universo tão limitado e tão vasto como pode ser o de uma criança. Cresci com profundo desejo de ser rapaz. Ser rapaz correspondia a uma noção de ideal e principalmente de liberdade. Percebi que o mundo estava feito à medida dos rapazes; eles podiam sujar os calções com o óleo das bicicletas, podiam fazer barulho. Havia uma força vital, ou até brutal, que era aceite e mesmo vangloriada eram rapazes. Eu queria fazer parte desse mundo. Jogava à apanhada, não corria tão depressa como eles, mas queria, queria... Ser rapaz era ter liberdade, era poder sujar os calções. Lembro-me de ouvir a minha mãe dizer que gostava de ter quatro rapazes; como o segundo filho foi uma rapariga, parou. Ela própria tinha noção que as mulheres sofriam muito mais. Já não sei quem disse que os homens lutam e caçam e as mulheres intrigam e choram. De facto... Havia no ser mulher uma nota de lamento. Foi desse lamento que fugi até aos 16, 17 anos.
Sim, mas o peito começou a crescer, todos os outros sinais físicos de mulher foram aparecendo. Como se deu com isso?
Muito mal. Vou dar um exemplo. Fiz natação dos 3 aos 13 anos e comecei a ver uma transformação no meu corpo que não me agradava. Sentia o «feedback» exterior e também sentia que não agradava. Era diferente das outras raparigas. Tinha uns ombros muito largos e um peito grande, era baixa e tinha umas pernas de que não gostava. Sentia-me cada vez mais masculina. Portanto, quando as hormonas começaram a falar mais alto, não tinha lugar para as encaixar.
Quem foi o seu primeiro namorado?
Tinha 12 anos. Chamava-se «Pixas», por isso, se calhar, não posso dizer... Apaixonei-me por um, o Pedro Jardim, aos 11 anos. Começámos a namorar quando eu tinha 13, e foi o meu namorado desde aí até aos 17. Foi o primeiro namorado mais consequente. Achava que íamos casar e ter filhos, essas coisas... Mas ele era muito frágil.
A primeira vez que fez amor, marcou-a muito?
É um assunto complicado para mim, se calhar não quero responder. A questão do sexo... Sempre fui um bocadinho marota. Essas questões interessavam-me e eu lia os livros proibidos que tinha em casa, nas prateleiras mais altas: Henry Miller, Sartre, Camus... Tinha uma grande expectativa em relação ao amor e ao sexo, e não separava as coisas. Só que depois isso não fluía... Nunca fui uma adolescente popular, porque era excessiva em zonas onde não era bem aceite dentro do meu círculo de amigos, porque gritava, cantava, esperneava, gostava era de jogar à bola, não era feminina e não me penteava, nem me arranjava... Então, sentia algumas pulsões e tinha desejo... Tive sonhos eróticos bastante cedo. Mas o meu ideal de beleza nunca teve nada a ver com o que sempre fui. Era um ideal redondo, e eu era angulosa, arrapazada, com uma maneira de andar pouco elegante, com músculos, nunca fui sensual... Sentia qualquer coisa cá dentro, mas ficava ali... Isto não interessa...
Interessa sim.
Então, resumindo: sempre vivi mal na minha pele. Sempre quis ser o que não era e daí talvez a vontade de ser actriz. Como fuga.