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domingo, 27 janeiro, 2008
O mundo da prosa – Um passeio sentimental pela Belém de 1888

Um caso de incesto em plena Belém imperial há exatos 120 anos atrás. Escândalo, por certo. Este é o tema do primeiro livro naturalista que teve Belém como cenário e causou impacto no ambiente cultural da cidade, que já vivia os primeiros reflexos do boom da Borracha e do enorme fluxo de riquezas que ela traria.

O autor é Marques de Carvalho, um ardoroso adepto do naturalismo, crente no “irresistível determinismo do temperamento”. Mais de um século depois sua obra permanece praticamente desconhecida.

O romance proibido entre Hortência e seu irmão Lourenço, jovens pobres, caboclos, vai ter um final trágico, como era conveniente naqueles tempos. A irmã acabaria assassinada, vítima de uma paixão impossível.

Nos trechos reproduzidos a seguir, um passeio de Hortência pelas ruas da cidade. Ela parte de sua humilde casa, na antiga Estrada da Constituição (atual Gentil Bittencourt) até o Hospital da Santa Casa (no Largo da Sé, onde hoje está instalada a Casa das 11 Janelas). Ao percorrer ruas e travessas, Hortência nos revelará muito da cidade e seus costumes. Vale a pena ler e se deixar transportar, como num túnel do tempo, para aqueles mornos dias dos Oitocentos.

“(...)

A Hortência seguiu pelo corredor e logo achou-se fora de casa, no meio da estrada da Constituição[1].

Poderiam ser 9 horas do dia. Um resplendente sol jubiloso atravessava ufano as vastidões do infinito, cobertas dum imaculado azul-claro, muito indefinido e vago, produtor de uma saudosa e doce tranqüilidade de espírito. Às margens da estrada, em grandes trechos de terrenos desprovidos de construções, cobertos de baixos e úmidos matagais, farfalhavam misteriosamente viridantes (verdejantes) ramarias bonitas, esvoaçavam borboletas de variados matizes, zumbiam rumorejantes e traquinas insetos de asas transparentes e cintilantes dorsos.

Mulheres seguiam rua abaixo ou rua acima, conduzindo trouxas, balaios, baldes ou embrulhos. Alguns homens, brancos ou mulatos, caminhavam também apressados, de guarda-sol aberto, resguardando-se das ardenitias (ardores) solares. (...)

Bem depressa chegou ao lado do cemitério da Soledade[2] – muito sossegado e alegre, na paz de seus túmulos de mármore, cobertos de musgo, todos inundados de sol, no meio de folhagens estreladas de flores variegadas em matizes. No centro da planície, Hortência avistou um coveiro velho, de longas barbas algentes, sachando (escavar com o sacho, pequena enxada de boca larga) o terreno de uma sepulturazinha rasa, coberta de craveiros floridos, encerrados em gradil branco, muito vistoso, pintado de novo. (...)

Mas, à esquina do cemitério, na confluência da estrada de S. Vicente de Fora[3], aparecia um aguadeiro, seguido do seu carro puxado por forte boi melado, de cornos retorcidos em largas espirais. O dono do carro trazia calça e blusa de grosso brim azul escuro, novo, com enormes botões brancos lustrosos. Era um português farto de bigode louro e cútis tostada pelos ardentes ósculos do sol. Gotas de suor brilhavam-lhe na testa, por baixo do chapéu de palha do Chile, e na ponta do nariz. Assobiava ternamente uma canção popular de raz-os-Montes, cuja letra começa assim:

Quando eu quis, tu não quijeste, (bis)

O sibilante som do assovio executava ternuras melancólicas dulcíssimas, qual um suspiro intenso de amorosa saudade (...) Hortência, porém, cruzara-se com o carro. O aguadeiro interrompeu o assovio, cravou no rosto da rapariga um profundo olhar fino como a ponta de uma agulha envenenada e disse-lhe a sorrir matreiramente:

- Ó mulatinha bonita, dás-m’um beijo?

- Vá à merda, respondeu-lhe Hortência meneando o corpo num gesto enérgico de enfado e pudicícia.

(...)

Ela, porém, seguia adiante, com direção à rua da Trindade[4].

Esta corria, larga e toda luminosa debaixo do sol, para os lados de Batista Campos e para a rua da Cruz das Almas[5]. Uma carroça repleta de bagagens velhas passava, com seu monótono barulho oco de rodas mal fixadas nos eixos. O cavalito alongava a tábua do pescoço, enterrava obliquamente as patas na areia do solo, bufava pelas grandes narinas cinzentas, estendia o magro dorso reluzente de suor sob as chicotadas do carroceiro – um preto baixo, reforçado, vestido de drill azul, pés no chão, cabeça coberta por um velho chapéu de massa preta, safado e cheio de buracos. A carroça ia em destino a Batista Campos, deixando o sulco das rodas atrás de si. Hortência tomou a direção oposta, voltou à direita, caminhou para o largo da Trindade.

Este conservava-se pacificamente silencioso, como seu víride capim rasteiro sorridente ao sol, num ar de fazenda marajoara, dominado pela modesta e simpática igreja que lhe dá o nome, e que nesse momento lançava para o céu o delgado campanário povoado de sinos imóveis e calados. Bois pacatos ruminavam compassadamente, deitados na frescura do chão, com as patas recolhidas sob o largo ventre penugento e palpitante (...)

Assim chegou ao largo de Sant’Ana[6], em cuja pequena área rumorejavam as ramas de três árvores raquíticas, pouco altas. Um interminável arruído de rodas de carros subia da baixa, do bairro comercial. Era a exalação vital da humanidade operosa, incessantemente movimentada, no afanoso labutar pela vida. (...) Carregadores passavam com tabuleiros cheios de mercadorias à cabeça. Cozinheiras malandras regressavam do mercado, sem atentarem no adiantado da hora, com um cínico desprezo pelo estômago dos patrões. Acres emanações de cachaça de pior espécie saiam duma taberna à esquina da rua, na confluência desta com a praça.

Enveredou Hortência pela rua Nova[7], seguindo-a em toda a sua extensão. Foi sair ao lado de uma enorme construção em andamento, onde trabalhavam centenas de operários nus da cintura para cima, expondo ao sol a lisa pele das costas. Seguiu para o largo do Palácio[8], que atravessou transversalmente, caminhando por sinuosa vereda traçada entre forte capinzal que crescia na praça. E logo chegou à calçada do Colégio[9]. Estava a poucos passos do largo da Sé[10], defronte do edifício do hospital. O hospital! Esta palavra ressoou-lhe no cérebro como o eco doloroso de um enorme grito de angústia, exalado pela ilimitada garganta da humanidade sofredora. (...)

Chegara à porta do estabelecimento, ao tempo em que lá também parava um velho e desconjuntado carro mortuário, puxado por dois antiqüíssimos cavalos lazarentos e comandados por um cocheiro preto de fisionomia de beberrão.

- Por certo alguém que vai enterrar-se, pensou estremecendo.

Efetivamente, quatro homens saíam de uma sala do pavimento inferior, carregando a pulso um comprido caixão preto, muito simples e tristonho, causador de impressões bem desagradáveis.

Hortência estacou a súbitas, penetrada de maus pressentimentos...

Marques de Carvalho (1866-1910). Hortência (1888, impresso na tipografia da Livraria Moderna Editora, Belém; Edição especial Cejup/Secult, 1977, p.45-53)




[1] Estrada da Constituição – Atual Avenida Gentil Bittencourt.

[2] Cemitério da Soledade – Inaugurado em 8 de janeiro de 1850, pelo então Presidente da Província Jerônimo Coelho, Cemitério de Nossa Senhora da Soledade teve vida curta, apenas 30 anos. Fecharia seus portões em 1880, deixando em seus túmulos e sepulturas as marcas da sofisticação que seriam características do apogeu do ciclo da Borracha (1890 até a primeira década do século XX).

[3] Rua S. Vicente de Fora – Atual Avenida Serzedelo Correa.

[4] Rua da Trindade – Ernesto Cruz, em seu clássico As ruas de Belém, não tem referência a esta rua.

[5] Rua da Cruz das Almas – Atual Arcipreste Manoel Teodoro.

[6] Largo de Sant’Ana – Permanece com a mesma denominação. A igreja de Santana, que lhe dá o nome, é uma das mais importante obras do arquiteto italiano Antonio Landi (Bolonha, 1713; Belém, 1791).

[7] Rua Nova – Atual Senador Manoel Barata.

[8] Largo do Palácio – Atualmente Praça D. Pedro II, conforme denominação estabelecida em 1840. Antes, em 1821, foi  Largo da Constituição. Pouco depois, em 1823, passou a ser denominado de Largo da Independência.

[9] Calçada do Colégio – Atual padre Champagnat.

[10] Largo da Sé – “Antigo e pequeno descampado, onde se ergueria a antiga Matriz de Nossa Senhora da Graça. Em 1720, teve a sua elevação a Sé episcopal. Talvez, já nesta ocasião, aquele descampado a ela fronteiro receberia, popularmente, a denominação de Largo da Sé”.Cf. Barata, Carlos de Almeida .“Belém do Grão-Pará e suas ruas (1616-1910).

(Igreja de Santana. Ilustração de Rudolf Riehl  in As Ruas de Belém, de Ernesto Cruz).



postado por 25586 as 10:48:12 #
5 Comentários

Danilo Almeida Cardoso:
Segue abaixo onde é possível encontrar o livro RUAS DE BELÉM:

Editora Cejup Ltda.
Travessa Alenquer, entre Dr. Assis e Dr. Malcher
nº 99-B - Cidade Velha

Fone: 3222-6995

Preço: R$45,00
28/01/2011 11:25:46  

André Luiz P. Nunes:
Excelente esse livro. Sou um estudioso de naturalistas brasileiros e portugueses e pretendo usar essa magnífica obra, a qual tive a honra de ler, pois é uma honra ler raridades bibliográficas e tão grande magnitude, na minha dissertação de mestrado na Uerj.
Parabéns pela abordagem.
Saudações acadêmicas e viva o naturalismo!!!! Um dos períodos mais férteis da nossa literatura.
André Luiz P. Nunes
01/07/2008 00:36:07  

carlos eduardo pereira:
Onde encontrar o livro de ernesto cruz...ruas de belém???

Você poderia me informar??
14/04/2008 17:00:48  

carlos eduardo pereira:
Sensacional! Coisa muito boa é revermos em páginas hostórias...fatos deliciosos do passado. Eneida Vilas Boas Costa de Moraes nos dá também esse prazer.
14/04/2008 16:57:27  

carlos eduardo pereira:
Sensacional
14/04/2008 16:54:19  

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