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quarta, 15 agosto, 2007
Carta de amor desesperado.


Sabes, Alenquer, que abandonei o Rio de Janeiro em plena mocidade, com um livro de poemas lançado e elogiado, quando ela era a Cidade Maravilhosa ainda capital do Brasil. Troquei o Rio por Alenquer, interrompi a minha carreira literária e os meus estudos de Direito, só para te ver de novo. Voltei para casa dos meus pais como um filho pródigo. E me perdi nos teus campos, nos teus rios e nas tuas ruas. Me embrenhei pelas tuas matas e fiz do teu povo cúmplice das minhas serestas. Dos meus sonhos, dos meus amores, das minhas esperanças e de minhas loucuras. Fui teu vereador, teu promotor e teu juiz. Depois fui teu representante na Assembléia Legislativa do Estado. Fui teu representante no governo. E eu e o teu povo reconstruímos o teu trapiche, fizemos o teu campo de pouso. Conservamos as linhas arquitetônicas da Prefeitura e reconstrímos o Grupo Escolar Fulgêncio Simões. E cada bairro tinha seu clube: União Esportiva, no centro; Aningal, no Aningal; e, na Luanda, o Internacional. Construímos teu estádio e os clubes disputavam o melhor futebol. Era um tempo feliz para o teu povo, que produzia castanha, balata, juta, semente de juta até para exportar. Tinha as tuas grandes e pequenas fazendas de gado e um povo trabalhador agasalhado nas colônias, produzindo alimentos até para abastecer Belém e Manaus. Chegaste a ter usinas de beneficiamento de arroz e beneficiamento de pirarucu melhor que o bacalhau. Te davas o luxo de exportar os teus peixes de pele e quardar os teus peixes de escama para a tua gastronomia. E tua frente da cidade era limpa e desembaraçada, para o teu olhar acompanhar a correnteza do nosso pequeno e tortuoso rio. Não tinha as favelas que hoje enfeiam a tua fachada.Chegaste a ser, em importância, a terceira cidade do Pará. Não tinhas um trapiche caindo, uma prefeitura destelhada, um campo de pouso interditado, um estádio em ruínas e três clube sociais definitivamente fechados. Tinhas famílias, Alenquer. Tinhas grandes fazendeiross, milhares de agricultores, pequenos criadores e uma produção que te sustentava. Tinhas sociedade. Tinha liberdade. Tinhas identidade. O teu povo tinha cidadania da qual muito se orgulhava. Hoje, és município falido. Pior do que isso, és um município de um povo falido, que depende de Óbidos, de Monte Alegre e de Santarém para sobreviver. Comercialmente, és um subúrbio desssas cidades. És um município que vive somente do dinheiro da Prefeitura, isto é, do dinheiro arrecadado pelo Estado e pela União. E, lamentavelmente, parece que do dinheiro do trânsito do narcotráfico. Eu, que te amo tanto, tenho que estar desesperado. Desesperado por ver teus rios, nas tuas estradas e nas tuas ruas uma população de crianças e jovens completamente abandonada. Sem perspectiva de qualquer trabalho. Jovens, homens e mulheres que não tem um destino, porque a cidade, o município, não oferece qualquer perspectiva profissional para essa juventude maravilhosa. E não é só o ensino que não capacita nas escolas. É o município mesmo, a cidade mesma que não oferece oportunidade. Não tem mais agricultura, não tem mais comércio independente, não tem qualquer indústria, não tem serviços nem mesmo artesanato, que possam empregar a mão-de-obra ociosa, quanto mais os milhares de jovens que saem da adolescência e das escolas. Esvaziaram-se a tua ricas várgeas, dizimaram-se os castanhais, os cumaruzais e os balatais que a natureza nos confiou tão pródigos. E os nossos rios e os nossos lagos tão piscosos, hoje servem apenas de reservas para outras cidades. A terra roxa, a terra fértil, que foi atravessada pela nossa única estrada, além de perder a sua floresta, foi transformada em capoeiras e pastos. A outrora florescente pecuária está estagnada. Os laranjais do Cuipéua estão acabando e nehuma plantação de espécies permanentes existe nas nossas terras. As instalações em ruínas da Cibrazem, com seus armazéns e frigoríficos desativados e o próprio prédio da Cooperativa, são os exemplos maiores dessa defasagem. Mesmo assim, Alenquer, eu te amo tanto que tenho que estar desesperado. Não é só por tua causa. É por causa de mim mesmo, que fui arrancado do teu seio há 30 anos, desde 1964. Deves te lembrar de mim passando pelos teus rios e pelas tuas ruas quase nu, descalço, amarrado e algemado. Só porque dedicava toda a minha vida ao teu povo. E aí, eu fui acusado também de comunista e subversivo. E por 20 anos completamente marginalizado da vida pública. Nada do que eu fui depois, Procurador Geral do Estado, Deputado Federal e Constituinte, dependeu do teu voto. Belém, Marabá, Ananindeua me elegeram cidadão de novo. E eu estou vivo, como escritor e pensador, não para chorar por ti, mas para te amar desesperadamente.

                                                                                                    Benedicto Monteiro.


postado por arcozellos as 10:56:39 #
3 Comentários

Ney Rbeiro Malheiros:
Em 1985 a 1990 - visitei a inesquecivel cidade Alenquer bem como apreciei as iguarias nativa da região e do seu povo irmão hospitaleiro ! Sou ex-piloto civil aeroanutico e contador por profissão, natural de Corumbá MS. Portanto, Alenquer, na sua base térrea andei por todos os cantos me deixando extasiado pelas belezas mil. Amo Alenquer !
Mauro, assenta nos anais do tempo que estive um dia por lá!
Não acredito que a cidade esteja falida, Deus, evidentemente conduzirá seu desenvolvimento a bem da comunidade.
Ainda hei de voltar um dia...
sexta, outubro 08, 2010 02:51 

Mauro Sampaio:

Entro em contacto como Neto de Alenquer , que nasceu e viveu no Rio de janeiro e actualmente vive em Portugal.

Ao ler as palavras de Bené Monteiro , meu primo , pois sou Neto de Renato Burlamaqui Monteiro , fiquei preocupado com esta Bela cidade que é Alenquer , mas compreendo e acho que todos nós devemos nos preocupar com um presente / futuro saudável para a Vila .

José Brito Silveira conseguiu também , colocar a questão de uma forma prática e bastante elucidativa então o que é possível fazer ???

Existe uma coisa simples , todo Europeu sonha com uma visita
rústica e genuína a Amazónia , e enganam-se os brasileiros especialmente os de Alenquer que os Europeus estão a espera
de Hoteis de Luxo etc etc, querem qualidade segurança simpatia e autenticidade de percursos , culinária e História
Alenquer tem tudo isso e muito mais .

Fica aqui uma idéia , turismo , turismo , turismo , não polui
emprega e gera riqueza ,necessita actualmente de pessoal com formação média e alta , movimenta o comércio e dignifica a Vila nada de adormecer pessoal
este é o futuro.

Difundir a Vila pode ser feito directamente com organismos
de turismo europeus , não é necessário estender a mão ao Estado e esperar por eles excepto no apoio para infraestruturas iniciais.

O pontencial de Alenquer é incomensurável só não percebe quem não quer.
Um forte Abraço ao Neto da Vila que ainda não a visitou , estou em falta...

Mauro Burlamaqui Sampaio









sexta, agosto 31, 2007 09:36 

Alex José Brito Silveira ( Alex Ximango):
Quero somente parabenizar o Bené Monteiro por essa bela carta, que percebemos é fruto de uma profunda indignação com a leniência econômica de Alenquer.
O que me tranqüiliza, é o fao de não ser culpa apenas dos governos que se instalaram na prefeitura do município, mas sobretudo, a uma conjuntura economica-ambiental por que vem sofrendo toda a região amazonica, com pouquissimas exceções. Esse processo é penoso para com os amazonidas, nos relega a uma completa submissâo política e economica à outras regiões deste nosso país, para não me alongar, vou aqui listar alguns fatos que nos colocam nesta situação: A lei que reza sobre a utilização de terras na Amazônia ( 80% reserva); O engessamento econômico pelo isolamento terrestre da região com restante do país ( a recusa de pavimentar estradas estratégicas para o desenvolvimento da região, como BRs 163, 210, 319 entre outras.); A dificultação na aquisição de créditos nas instituições financeiras, especialmente estatáis como BASA, Banco da Brasil e BNDES, decorrente muitas das vezes pela desregularização fundiária em que se encontram a maioria de nossos produtores rurais; Além do não desenvolvimento de uma política de qualificação provinda de uma política de educação dentro de um plano de desenvolvimento regional.
Esses fatos levantados aquí a meu ver nos dão elementos para pensarmos e procurarmos saídas para essa situação em que está colocada a nossa querida cidade de Alenquer, Pois o desenvolvimento economico e social desta cidade só interessa a nós que somos seus filhos, que mantemos com essa cidade uma relação de amor, como a deste grande Ximango, um dos maiores Ximangos que tenho notícias que é Bené Monteiro.

Alex José Brito Silveira ( Alex Ximango)
Acadêmico de Ciências Sociais-UFAM-Universidade Federal do Amazonas.
quinta, agosto 30, 2007 11:26 

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