A viagem de Henrique Veltman até em Alenquer - Num Fiat 147 disfarçado de taxi, resolvemos enfrentar uma viagem de duas horas até Alenquer, outra cidade da Amazônia onde, segundo nossos informantes de Belém "não há mais judeus". É uma viagem, no mínimo, empolgante. A mais de 120 km horários, o Fiat voa por um caminho de terra . Macacos, saguis, araras, periquitos, cobras, aitius, espiam assustados durante todo tempo. Num certo momento, o carro precisa ser transportado de balsa, pelo rio Curuá. Por onde garimpar os judeus?. Descemos uma rua, chegamos ao cais e o impulso nos conduz a uma casa baixa, muitas janelas, uma placa à porta: "Esta é a residência de Abrão Fima e família: Alenquer, 1967". A porta está aberta e uma pessoa lê, vestido apenas de short. Batemos palmas, pedimos licença. Somos colorosamente recebidos. O que procuramos, hebráicos? Pois já encontraram. Abrão Fima é falecido e a viúva está em Manaus. Mas, os filhos, caboclos, sabem de tudo. Abrão era filho de Rachel e Jacob Fima, ambos de Tanger. Nasceu em 1909, chegou ao Brasil em 1930, faleceu em 1972. A esposa não era judia, "não há hebráicos em Alenquer", explica o filho Max Diniz Fima, que por sua cor escura, é conhecido na cidade como o "judeu preto". Abrão era judeu praticante e culto. Nas diversas reuniões dos clubes de serviço da cidade, tipo Rotary, era ele quem, em nome da comunidade hebráica, apresentava e defendia os pontos de vista dos israelitas. Foi um homem importante e conhecido, que sabia como era vã a glória do mundo. Tanto que não teve dúvidas, ele próprio mandou fazer e colocar a placa na porta de sua casa. Porque não há ruas ou escolas em Alenquer que lembrem o seu nome. Teve seis filhos, José, Max, Jacob, Jackson, Carlos Alberto e Raquel. Três desses filhos retornaram ao judaísmo, mudando-se para Manaus e integrando-se ao Ishuv (comunidade) local. Max Fima, em Alenquer, herdou o patrimônio do pai e toca os negócios da família. Seu "feeling" judáico é extraordinário. Sente-se judeu, arranha alguma coisa em hakitia e guarda com grande zelo os sidurim e os livros do pai. É o próprio Max quem conduz a outros hebráicos em Alenquer, especialmente Ruth Athias, ex-professora e alta funcionária do Banco do Brasil. Enquanto aguardamos a Ruth, Max nos conta que até a morte do seu pai, os judeus de Alenquer reuniam-se na casa do "seu" Shalo. Em Belém, ele e Jacob frequentavam as duas sinagogas e o Grêmio Azul e Branco. Jacob jejua no Kipur e coloca, quando pode, os tefilin. Seu pai Abraão passou 30 anos sem sair de Alenquer.
Ruth Athias nasceu em Alenquer em 1950. Era filha de Jacob Amiram Athias e da Aduzinda Coelho Athias. Tem dois irmãos, Rubens e Noemi. Sabe que o pai veio de Marrocos fracês e viveu a partir dos 12 anos, numa olaria em Oriximiná. Foi casado duas vezes: do primeiro casamento teve dois filhos, um dos quais vive no Rio de Janeiro. O outro, Jonathas Athias, falecido hà alguns anos, foi Secretário da Educação do Estado do Pará. Ruth sempre procurou fazer o jejum do kipur, "sem muito sucesso". Ma, fala com carinho de Pessach (Páscoa), do matzá (pão ázimo) e do vinho casher (ritualmente puro). Ela se corresponde regularmente com o primo Yehuda Athias, que vive em Hifa, e mostra com orgulho o bronze comemorativo da Querra dos seis dias. Ela demonstra claramente que se envaidece da origem judáica e não precisaria de muito esforço para retornar ao judaísmo praticante.
Na mesma Alenquer, uma figura extraordinária: Ambrósio Benzaquen. Seu avô "foi vizir na corte do sultão de Marrocos". Seu pai, David Benzaquen, um chacham que enriqueceu no Brasil. A mãe, uma cabocla chamada Maria Nepomucena Rodrigues. Ela nasceu em Barreirinha, no Amazonas em 1913. "Viveram ajuntados 18 anos", conta Ambrósio. Tiveram cinco filhos (Fortunato, Rachel, Amélia, Rafael e Ambrósio), separaram-se em 1922. E por que? "Papai conheceu, em 1922 uma moça judia. Casou-se com ela. Não quis nos desamparar, mas mamãe ficou furiosa e não quis aceitar o "arranjo" que ele propôs. Ambrósio teve dez filhos, 56 netos, 4 bisnetos. Vive numa maloca de Alenquer, onde fabrica vassouras. Antigamente, trabalhava para Isaac Hamoy, de Óbidos, na comercialização de castanhas. "Meu pai era um homem rico, tinha 17 "negócios". E muitas canos de regatão. Tinha um empregado, Clodoaldo, cuja única função era nos levar a passear pelo rio". Benzaquen lembra com detalhes a figura do primo David Zara Benzaquen, a quem chamava de tio, e que era responsável pelas festas. Faziam Sucot (festas das cabanas), Passach (Páscoa), jejuavam no Ion Kipur. Ambrósio sabe que teria direito a uma parte da herança do pai, casado em Parintins com uma judia da família Mendes. Mas não é homem de brigar por essas coisas, "especialmente nesta fase da minha vida", resmunga.
Fonte: "Os hebráicos da Amazônia" - Autor: Henrique Veltman.
Pesquisado por Roberto Mesquita - "O sr. Veltman gentilmente me autorizou a publicar estes textos acima supra citados".














