autônimo - andré pinheiro
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quarta, 20 setembro, 2006
entrevista

Em primeiro lugar, isso não é uma auto-entrevista, como costumam fazer os mais narcisistas. Concedi esse depoimento há pouco tempo, para a acadêmica de Jornalismo Caroline Stinghen, que estava realizando um trabalho de aula sobre assessoria de imprensa. Em segundo lugar, não sou a pessoa mais indicada ou preparada para falar sobre o assunto. Mas, a título de curiosidade, penso que vale a pena postar aqui no blog. Sem edição mesmo. Vai aí...

 

 

1) Primeiramente seu nome completo e seu número do registro de profissional de jornalismo.

André Pinheiro, registro SC 01159-JP. Formado pela Univali em dezembro de 1999.

 

 

2) Há quanto tempo trabalha na assessoria da Prefeitura Municipal de Itajaí?

Atuo na Secretaria de Participação e Comunicação Social (Secom) desde o início do governo, em janeiro de 2005.

 

 

3) Enquanto estava ainda na faculdade, pensava em trabalhar com assessoria de imprensa?

Realmente nunca pensei que fosse trabalhar nessa área. Até mesmo porque hoje percebo que, na época, a formação que recebemos sobre assessoria de imprensa no curso de Jornalismo foi bastante deficitária.

Mas as oportunidades foram aparecendo e, ironia do destino, trabalho com assessoria de imprensa desde 2002. Nessa época, passei a integrar a equipe do Departamento de Marketing e Comunicação Institucional (DCMI) da Univali. Depois, no início de 2005, deixei a Universidade para trabalhar na Prefeitura de Itajaí.

 

 

4) Como é o seu cotidiano e sua rotina? Trabalhas somente na assossoria ou possui outro emprego? Trabalha quantas horas?

Cumpro uma jornada de oito horas – horário comercial – na Secretaria. Por isso, não posso ter outros trabalhos fixos. Mesmo assim, consigo conciliar alguns trabalhos como free-lancer. No mais, estou cursando algumas disciplinas como aluno ouvinte e me preparando para ingressar em um curso de mestrado na UFSC.

 

 

5) Qual sua função dentro da assessoria?

A Secretaria de Participação e Comunicação Social é divida em uma série de departamentos. Entre eles, está a redação, onde atuo. Sou subordinado a uma diretora de Comunicação. Exerço um trabalho muito parecido com o de um repórter mesmo: acompanhar os eventos, entrevistar as fontes (do próprio governo) e redigir os releases. Além disso, existe também o trabalho de atendimento, que é prestar as informações necessárias ou fornecer material aos jornalistas que nos procuram. Aqui na redação divido o trabalho com uma colega também jornalista, cada um é responsável pela cobertura de um certo número de secretarias e fundações que integram o governo.

 

 

6) Pode nos explicar alguns desafios que o assessor de imprensa, que trabalha com a política, pode passar?

Primeiramente, não considero meu trabalho tão “político” assim. Não acredito que a política seja um elemento predominante no meu trabalho. Não sei quanto aos outros assessores que compõem este ou mesmo outros governos. Não sei como eles vêem o próprio trabalho. Mas eu, pelo menos, não me vejo assim.

Penso que o profissionalismo vem antes da política. Enxergo a mim mesmo como um prestador de informações institucionais. Alguém que redige textos (alguns até parecidos com reportagem, outros com uma cara bem de release mesmo) com as informações oficiais. De qualquer forma, é um trabalho que, na essência, não foge à característica do ofício de jornalista: levantar informações, redigir, comunicar.

Claro que todo trabalho, assim como todo ato da pessoa, é político. A política se faz no dia-a-dia, dentro de uma redação, em casa, na sala de aula, nas relações em geral. Mas existe uma certa confusão, que diz respeito também ao personalismo. Assessorar um governo, uma administração, é diferente de assessorar, por exemplo, um deputado, um senador ou vereador. Em um governo você precisa falar menos do nome e das possíveis qualidades de uma pessoa, e focar a divulgação nas obras, nas realizações da administração. Então, não é o “Fulano de Tal”, mas o “Projeto X”, o “Programa de Ação Y” que ganha maior relevância. Claro que a pessoa vai acabar aparecendo, com o seu nome e imagem vinculados aos seus atos, mas são as ações que aparecem primeiro, são elas que dão o “gancho” para os releases, as matérias institucionais e as pautas sugeridas. Se fugir disso, acaba ficando pedante, forçado, fora de propósito. Embora algumas pessoas ligadas ao meio político (ou político-partidário) gostem do personalismo, o ideal é não confundir assessoria governamental com assessoria pessoal, que são trabalhos diferentes.

Quanto aos desafios, a maioria deles aparece na própria estrutura da instituição, e não na relação com a imprensa. Principalmente quando você trabalha em uma assessoria de imprensa de um governo ou de uma instituição muito grande, que possui muitos departamentos, tem que lidar com uma série de adversidades que não deveriam existir. Nesse sentido, encontrei cenários bastante parecidos tanto no Governo Municipal quanto da Universidade.

Uma delas é a própria dificuldade de conseguir as informações com as próprias fontes. Como você tem vários setores para atender, não pode estar o tempo todo ao lado, acompanhando passo a passo o trabalho das pessoas. Então, muitos trabalham, trabalham e, no meio da correria, “esquecem” o assessor, aquele profissional que está à disposição para divulgar as realizações do setor em que trabalha. Em algumas ocasiões, inclusive, contrariam aquele que deveria ser o fluxo normal e coerente da informação institucional, comunicando primeiro os órgãos externos de imprensa e “furando” os própriosdounicando plquele que deveria ser o fluxo normal da informacao stituicao  assessores.

Outro problema em atuar na assessoria de imprensa de uma instituição um pouco maior é que, todo lugar existem estudantes de jornalismo que exercem outras funções, não estão ligados à comunicação. Conforme vão avançando no curso, essas pessoas acabam querendo mostrar na empresa o conhecimento que adquirem na universidade e forçam o exercício de atribuições que não são suas, querem, de qualquer forma, exercer um trabalho que não é seu, que já está sob a responsabilidade de outras pessoas. Sei que existe uma ansiedade muito grande por parte de quem está estudando, entendo porque também já passei por isso, mas essas pessoas deveriam entender que, se a empresa já conta com um departamento ou assessoria de comunicação, já existem profissionais – que também já passaram pela mesma condição de estudante, investiram e, em muitos casos, ainda investem em uma formação – que são responsaveis por esse trabalho. Em uma situação como essa, todos saem prejudicados: a instituição, pelos ruídos e desvios criados na comunicação institucional e pela imagem de “desorganização” que mostra ao seu público interno; o assessor, porque vê uma terceira pessoa obstruindo a comunicação com a fonte e tentando “concorrer” com ele dentro da propria organização; o funcionário-estudante que adota tal postura, que quase sempre acaba ficando mal visto e normalmente, quando tem seu trabalho confrontado com o do assessor de forma mais criteriosa, evidencia certa fragilidade e um menor preparo em relação à produção do profissional que já possui um pouco mais de experiência. Acredito que o estudante que cursa comunicação consegue seu espaço naturalmente, dentro ou fora da instituição onde já atua. As oportunidades surgem, principalmente se ele demonstra equilíbrio, maturidade para não “forçar a barra” e uma postura ética, para não prejudicar um jornalista que, muitas vezes, começou da mesma forma que ele e já luta, há um longo tempo, por espaço no mercado e credibilidade profissional.

 

 

7) Ética profissional. Qual a sua "ética"? Como um assessor de imprensa deve se portar: neutro ou não?

Se você me permite, não acredito que exista a “minha” ética. Penso que ética e ética e pronto. E ponto. É cultivar um bom relacionamento com o público externo, prestando as informações conforme a necessidade daqueles que procuram você e também conforme o a sua disponibilidade, o seu próprio acesso a estas informações. Também considero importante atender bem a todos os que nos procuram, seja de uma TV bastante conhecida ou de um jornalzinho do interior.

A respeito da neutralidade, sou da época em que, na Univali, alguns professores ensinavam, mostravam que a neutralidade não existe. A neutralidade é uma falácia. Repórteres não são neutros, pauteiros não são neutros, editores não são neutros, colunistas não são neutros. Engrossando a lista, assessores também não são neutros. E nem poderiam ser: fornecem informações oficiais, institucionais. Quando exerce o seu trabalho, o assessor transmite no texto – escrito ou verbal – que produz a fala da instituição. Esse discurso é sempre o que a organização tem a dizer sobre o tema em questão. Claro que deve ser confrontado, pelo repórter, com outros discursos de outros segmentos envolvidos com o tema. Para o assessor, é óbvio que o ideal seja o predomínio do discurso do seu assessorado na matéria produzida pelo repórter. Mas o essencial é que seja incluído, levado em conta, e não ignorado, como muitas vezes acontece. Nesse ponto, é o repórter que se depara com uma questão ética, no tratamento que vai dar às diversas fontes dentro do texto que produz. Muitas vezes lamentamos a não-veiculação de informações que prestamos, ou mesmo a publicação de informações inverídicas: mas aí já estamos falando de deslizes éticos cometidos por quem trabalha nas redações.

Mas uma questão geralmente dirigida a assessores diz respeito à divulgação de informações desfavoráveis e posicionamentos diante de crises. Sobre isso, penso que já não existe mais lugar para a omissão. A instituição deve preparar seus assessores, fornecer a eles todas as informações necessárias para que estes divulguem para a imprensa as providências que estão sendo tomadas para a resolução dos problemas em questão. Embora muitos dirigentes ainda sejam desfavoráveis a essa postura de encarar e se posicionar diante dos fatos, tal atitude acaba sendo benéfica, porque demonstra para a sociedade que a organização possui maturidade: está consciente dos problemas e tomando medidas para solucioná-los.

 

 

8) O que pode-se esperar do mercado de trabalho em assessoria de imprensa, na política? O mercado está competitivo?

Não só para assessores de imprensa, mas para todos os profissionais de comunicação, o mercado realmente está bastante apertado. Até mesmo porque o mercado é pequeno. Quanto à assessoria, muitas empresas ainda não investem num trabalho de comunicação profissional.

Temos também um problema que é comum aos jornalistas que atuam em rádio, jornal e tevê: a falta de profissionalismo e critérios profissionais para contratação. O espaço dos jornalistas profissionais ainda está muito ocupado por uma série de pessoas que não possuem formação, estão ali apenas por amizade, camaradagem, parentesco ou por outros interesses, normalmente políticos. Então, a “picaretagem”, como costumamos dizer, ainda é enorme e nos prejudica muito, enquanto categoria. Acredito que somente medidas sérias em prol da regulamentação do exercício profissional poderiam resolver esse problema.



postado por profeta do caos as 04:31:59
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