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sexta, 11 maio, 2012
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LORENA
“Mora longe?” – perguntou a moça do caixa parecendo satisfeita por eu ter aceitado a penca de bananas inteira e sem que fosse preciso cortá-la. “Sim. Moro no interior de São Paulo” - disse-lhe eu, já caminhando para o balcão a fim de pegar o pacote e sem ânimo de esticar a conversa. “Em qual cidade?”, perguntou outro. “Amparo. Fica perto de Campinas”, respondi. Outro homem, que trazia um facão e ostentava um grosso e grisalho bigode, emendou em seguida: “Lorena! Fica perto de Lorena, não é?” Sem me dar conta desse absurdo geográfico e já de saída, fui logo concordando: “Pertinho, encostadinho!” Este, sorriu satisfeito e disse aos demais: “Conheço aquilo tudo. Já andei naquela redondeza!” Enquanto brilhava para os companheiros e parecendo dar mais detalhes daquela região, que nunca explorei e mal localizo no mapa, saí com minhas bananas. Bananas-prata produzidas ali mesmo, em Juiz de Fora. Lorena... Esse nome ficou grudado na minha memória por um bom tempo. Tentei folhear meu “atlas cerebral” e não havia meio de encontrar a tão famosa cidade, que encheu de júbilo aquele açougueiro que tinha uma faca para cortar carnes, bananas e, pelo seu aspecto, qualquer coisa que precisasse. Passei aquela tarde e um pedaço da noite a cismar. Finalmente, tudo aquilo sumiu da minha cabeça. Passados meses, volta-me a Lorena! Agora, não se trata da obscura cidade exaltada por aquele açougueiro cosmopolita. É a Lorena, que há muito tempo frequentou uma classe de supletivo. Uma doce e simpática mocinha, que nunca estreitou laços com a aritmética nem com a gramática, mas que mantinha seu caderno impecavelmente atualizado copiando absolutamente tudo (somente não copiava as ranhuras da lousa). Ao me avistar caminhando pela cidade, gritou de longe como sempre faz quando me vê, mas dessa vez estava mais intensa: “Prooooô!!!!! Eu tô na faculdaaade! Sabe o que estou estudando?” Antes mesmo de eu tentar acertar o curso com um belo chute, com se costuma fazer nessas ocasiões, veio a resposta: “Eu estudo Psicologia! E lá não tem Física. Não vou precisar fazer contas!!!!” E a Lorena pareceu-me muito feliz. Agora, eu fico a matutar: “Lorena psicóloga... Dra Lorena! Terá uma placa assim?...” É a vida sempre me surpreendendo. FILIPE
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quarta, 02 maio, 2012
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TIA ELZA
Quebro minha tradição de publicar sempre às sextas-feiras, para um triste parêntese: hoje perdi a tia Elza. Quero prestar a ela uma homenagem, mas não consigo fazê-lo da maneira que ela tanto merece. De qualquer forma, esforço-me para lhe deixar em tributo estas minguadas linhas. Tia Elza foi uma pessoa como poucas neste mundo. Era simples, sem deixar de ser elegante. Generosa, a muitos acolheu em sua casa tratando a todos com inigualável desvelo. A ela, devo muito do que consegui na vida. Sem seu apoio, jamais teria conseguido me formar em Matemática pela Fundação Santo André. O curso me era difícil e meu trabalho inglório. Teria que labutar a noite toda, tendo reservado apenas um pedaço do dia para dormir. Com seus filhos ainda pequenos, a tia se desdobrava para garantir que esse pedaço de sono tivesse qualidade. Por ironia, muitas vezes eu era despertado justamente com as broncas dadas por ela nas crianças que brincavam. De tão zelosa que era, quebrava-se o silêncio para que o silêncio se fizesse. Tia Elza lavava minhas roupas sem que eu permitisse tal “façanha”. No começo, eu escondia dela a trouxinha, mas ela espertamente descobria e ma devolvia lavada e perfumada. Vencido, acomodei-me e eu mesmo as separava e lha entregava. Pagamento? – Nunca aceitou nada! Certa vez, quis fazer-lhe um agrado comprando um “lindo” vestido. Bom, eu achei que estava abafando, mas pelo jeito acabei “pagando mico”. Por mais que a tia tenha se emocionado com o mimo, agradecendo-me intensamente, nunca a vi vestida com ele. Provavelmente eu devo ter errado na escolha. A tia, embora simples, tinha muito bom gosto. Tia Elza queria muito fazer minha comida. Aí, já seria demais. Além de lavar, ainda cozinhar?... Declinei veementemente. Eu mesmo fazia minha comidinha que dava para uns dois ou três dias. Mas, certa vez, eu havia deixado o arroz escolhido numa pequena bacia para fazê-lo mais tarde. A tia, vendo-o, quis me ajudar. Supôs que eu já o tivesse lavado, tacou-o na panela cozinhando-o para mim. Ao levantar, fiz a marmita e levei para o serviço. Lá, por mais que eu tentasse, não consegui comer. Arroz de pobre é assim: cheio de parafina. Se não lavar bem, não há quem coma. Quando perguntei à tia o que tinha acontecido, ela ficou vermelha e me pediu desculpas: “Olha, Filipe, eu achei que você tinha lavado. Aí, pus na panela e cozinhei... Como sou burra!” Ah, a tia sempre falava assim mesmo: “Sou burra!” E quando provocada: "Sou burra, mas tem tanto!" Mas todos que com ela conviveram sabem, que de burra ela não tinha nada. Era uma mulher inteligente e sensível. Com ela, podia-se conversar por horas. O assunto era sempre agradável e não cansava o interlocutor. Anteontem, falei com a tia Elza pela última vez. Sinto uma infinita tristeza por saber que foi a última; mas, por outro lado, uma grande alegria em ter reafirmado nessa breve conversa - numa espécie de renovação de votos -, a estima que sempre tive por ela. Tive a oportunidade de, mais uma vez, agradecê-la pelo que fez por mim. Emocionou-se dizendo que, se fez alguma coisa, fez por um filho; que me considera um filho. Também tive a oportunidade de dizer que rezo por ela todos os dias, e que a cito nominalmente em minhas orações. E, por tudo isso, agradeço a Deus. Como agradeço a Deus pela sua abençoada família: Tio Afonso; o primo Wendell e esposa; a prima Elisângela, esposo e filha. Que Deus faça saber à saudosa tia Elza, que todos os que ela deixou me são muito caros. E que esses pequenos fragmentos aqui descritos, são mesmo pequeninos diante de tudo o que ela fez de bom. Obrigado, tia Elza! FILIPE
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sexta, 27 abril, 2012
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OS ANENCÉFALOS
O assunto tomou a capa das principais publicações e virou manchete na TV e no rádio (no rádio... alguém ainda ouve rádio?...). Falo da votação pelos “meninos” do Supremo Tribunal Federal sobre o aborto de crianças anencéfalas. Digo meninos, pois a julgar pelos fatos mais recentes, muitos daqueles ministros se comportam como meninos mimados e birrentos. Vide a troca de xingamentos entre alguns. Durante o embate entre abortistas e não-abortistas, causou-me torpor a afirmação de um ministro: “O anencéfalo é incompatível com a vida.” Que sinistro! Outros depoimentos, nessa linha, dão conta de que a gestante deve ser portadora de vida, e não de morte; outros, ainda, que a mulher é dona de seu corpo e somente ela pode decidir; (...). Comparar uma criança especialíssima a um corpo estranho, a um tumor maligno ou a algo que deva ser extirpado é inaceitável. Talvez, na concepção desses diletantes, o ser humano normal e com direito à luz seja somente o possuidor de plenas capacidades físicas e mentais. E, por essa definição, quem possa assumir seu “relevante” papel na sociedade enganando, assaltando os cofres públicos e os bolsos privados, vilipendiando a sociedade e a Natureza em função de seu egoísmo e de sua desmedida ambição. O pequenino anencéfalo está fora de cogitação. A Igreja cumpre bem seu papel condenando qualquer atentado à vida. Porém, é triste ouvir de certos pastores a afirmação de que essa é a porta de entrada para uma sociedade eugênica, em que são eliminadas todas as pessoas portadoras de deficiências. Meu Deus! Porta de entrada?! Isso já é eugenia! Dizer que é “porta de entrada”, significa apontar uma ameaça de mal iminente. Mas o mal já está presente com o aborto. Mas, o que é aborto? Penso que esse não deveria ser tema para legisladores nem magistrados. Quem rejeita o nascituro, seja mãe ou pai, já pratica aborto. A questão não é de legislação e a Igreja nem deveria participar desse “teatro”, mas reforçar sua catequese condenando o hedonismo, sobretudo. Os casais, em geral, buscam o bônus das relações carnais, mas rejeitam veementemente os possíveis ônus. E a humanidade, que sempre foi eugênica e hedonista, tornou-se ainda mais embrutecida sob a égide do capitalismo. “Gostaria que todos fossem celibatários como eu!” - afirmava São Paulo. Com a licença de quem santifica sua vida com o voto do celibato, eu recomendaria essa máxima paulina a toda espécie humana. Penso que o Criador deve estar frustrado com sua Criação. FILIPE
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