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sexta, 02 dezembro, 2011
UM POTE DE FEL

Dobra-me o estômago e, nauseabundo, escrevo este desabafo. Junto dele, a sugestão a algum desavisado a não se enveredar por esta página.  Ah, você, que sacrifica sua serena paz e precioso tempo  para me acompanhar, deixe-me só. Ao menos neste momento, pois nada lhe posso  oferecer a não ser um trago de fel. A ilustração que se segue, traduz minha morbidez.

Suponha que você, já que insiste nesta enfadonha leitura, seja contratado como faxineiro. Todas as condições para bem trabalhar lhe são oferecidas e lhe é determinado que varra a casa, lave o banheiro, tire o pó dos móveis etc. e, ao final do mês, receba o ordenado conforme o combinado. Muito provavelmente a harmonia se instalará nas relações empregado-patrão.

 Agora, imagine o seguinte: o patrão, cumprindo integralmente o combinado em termos de salário e outras vantagens - se as houver -, comece a sabotar o seu serviço. Enquanto você passa o pano úmido na sala, ele entra com os pés cheios de barro pela cozinha, ou pela sala mesmo. Afinal, você está ali para trabalhar e é ele quem lhe paga... Não importa quantas vezes terá que passar o tal pano na sala. O que interessa é que, cumprida a jornada diária, você descansará com sala limpa ou barreada e, findo o mês, seus caraminguás estarão garantidos. Pois bem, continue nesse exercício mental de pura sacanagem (ih, escapou, desculpas!). Acrescente uma pitada de mau humor e alguns impropérios por parte de seu patrão, caso seja necessário. Não sendo, sujando a casa já está bom. Alguém pode até imaginar que o bom e fiel empregado, que é você, continuará satisfeito. Foi contratado para limpar a casa, e não necessariamente para deixá-la limpa. Pois, que continue imaginando.

Situação semelhante é a nossa, de professores. Eis que termina mais um ano letivo. De pé, diante das turbas, é o vigésimo deste que se faz escriba. Outros longos quinze anos se passaram do outro lado desse “balcão” do ensinar-aprender. Nada tenho a comemorar. Pareceu-me inútil todo o trabalho durante o período. Ou inútil sou eu, pois não trabalhei devidamente. Fui um néscio. (Alguém diz, e já ouço: “ainda se atreve a escrever difícil... Assuma, logo, sua incompetência e pronto. Não queira enfeitar com vocabulário que nem domina!”).

 Hordas de adolescentes parecem ir à escola apenas para exibir e manipular o último celular comprado a 12 prestações de R$29,99, nas Casas Bahia. Muitos, até com recursos do Bolsa-Família. Esses jovens, já “casadoiros” alguns, nem sequer fazem lições.  Não comparecem às avaliações, não fazem atividades de recuperação. Em suma, não fazem nada que diz respeito ao aprimoramento intelectual. Alguns, se confrontados, saem com esta: “o professor não explica... como vou aprender? Eu não nasci sabendo!”

 E o pior. São aprovados para a série seguinte conforme determina a vontade do governo, ou a covardia dos professores. Providencial seria que um grupo de mestres, competentes e responsáveis (eis mais um problema: onde encontrá-los?...), dissessem NÃO a esse sistema putrefato não ratificando essa fraude. Negar-se-iam a assinar quaisquer documentos que atentassem contra a moralidade educacional assumindo, intrepidamente, as conseqüências disso. Para ser promovido, o jovem não precisaria estar suficientemente alfabetizado. Ser-lhe -ia exigida apenas a honestidade.  Mas, “onde está a honestidade?” – há quase um século, já perguntava Noel  Rosa.

FILIPE


postado por filipe de moura as 10:47:03 #
17 Comentários

Humberto:
Caro colega,
Na sua resposta vc tocou num outro ponto chave da educação
dos dias de hoje:a família.Sabe ,há muita gente que não sabe
viver "nesse coletivo"complicado,mas sagrado...e aí quanta
miséria de amor,companheirismo e parceria...nossos jovens
vêm ,muitas vezes,de convivências insanas,sem amor e significado de respeito,pouco acostumados em conversar com
franqueza respeitando os limites do papel que cada pessoa tem
no grupo...parecem estar sempre na defesa ou prontos pra guerra...
Puxa como tem filhos sem pais!!!!!!!!! Como tem famílias sem
amor!Como tem educadores e gestores sem compromisso.
29/12/2011 06:22:47  

Mel:
Felipe,
agora que as férias escolares chegaram,espero que vc
descanse bastante e se refaça pros novos desafios que
virão.Continue refletindo sobre a educação e outras
coisas da vida,sua narrativa é muito envolvente e mostra
sentimento original,nem sempre precisamos concordar
pra gostar ou reconhecer verdade no outro...É assim
que as pessoas se completam e que os pensamentos evoluem...
Obrigada por seus textos e um Natal cheio de paz no seu
coração.
22/12/2011 14:45:40  

filipe de moura:
Humberto,
minha angústia existe e é compartilhada por muitos, o que a torna ainda mais considerável.
Quanto a gestores, sempre tive o "defeito" de criticá-los e até mesmo de enfrentá-los. E os há para todos os gostos: incopetentes, autoritários, ausentes, corruptos ...
Há também aqueles comprometidos com a causa, porém não muitos.
Apesar das dificuldades, gosto da equipe gestora de minha escola. Por que criticá-la? Faz o que pode para nos ajudar.
O problema é mais amplo. Faltam professores e há professores que não dão aula.
Falta envolvimento de pais com a formação dos filhos; e sobram filhos, faltando pais.
Enfim, há uma gama de fatores.
Não sei se respondi.
Obrigado pela companhia!
.......................................................................
Ana Maria,
essa sua interrogação é do tamanho do meu sonho!
Obrigado pela companhia!!!
17/12/2011 07:36:52  

Ana Maria::
Recomendaram-me seu blog,gostaria de deixar uma questão:
o que aconteceu com as escolas e com o ensinar depois da tal
progressão continuada?
Como exigirmos algo de adolescentes
que falam que já vão passar e brigam se dermos uma nota que
não gostam?
Como trabalhar com eficiência em escolas que quase nada funciona,muitas vezes não se acha nem sulfite...
Sabe, colega ,eu muitas vezes só tenho mesmo a companhia
no meu sonho de ensinar e aprender os alunos que ainda se
interessam...
Abraços e companhia
16/12/2011 19:15:39  

Humberto::
Caro colega professor,
Percebo em seu texto uma amargura e até uma grande
angústia ,justificada pela realidade das nossas escolas
públicas,porém pareceu-me que o senhor não pode criticar
os gestores,certo?
Colega , a Mel disse que não existe salvador da pátria,mas
muito do que passamos nas salas de aula,coisa que faz 25 anos
que enfrento,é por pura negligência de gestores .Quando a direção é comprometida e aliada do grupo tudo fica um pouco mais leve.Um sistema não se faz sem braços.


mais fácil.
16/12/2011 18:50:43  

filipe de moura:
Carlos, vou tentar responder.
Primeiramente, não tenho toda essa sabedoria; e meus anos não foram vividos atrás de uma mesa. Ando, e muito pela sala para tentar ajudar a quem se interessa.
Sobre gestores, bons são aqueles que nos deixam à vontade para trabalhar sendo sempre solícitos;
os demais, descartáveis.
A responsabilidade do professor é grande, maior que a do gestor. Mas o governante, aquele que decide pelo futuro da Educação, tem maior responsabilidade.
Abraços!
15/12/2011 23:06:39  

Carlos:
Queridos colegas,
Concordo com sua opinião Filipe, mas acredito eu com minha ignorância, e poucos anos no magistério, que mesmo com todos esses problemas que estamos fartos de relatar, comviver, não temos que achar culpados, coisa que seria impossivel, claro fora o "sistema" que a muito está falido, gostaria que com sua sabedoria, seus anos vividos atras de uma mesa, que acredito seja do "Ensino Médio", opini sobre a responsabilidade maior, é de um mero professor, ou de um gestor?

14/12/2011 23:33:18  

Mel::
Querido professor,
O senhor está vendo como é fácil criticar sujeitos indeterminados, fantasmagóricos como "políticas públicas",
"o governo" e afins. O duro meu caro é chegar nas pessoas
que, ocupem o cargo que ocupar,devem fazer alguma coisa.
É fácil e comum o açoite de pessoas que recebem o bolsa isso ou aquilo...O X da questão é muito amplo e começa muito perto da gente...
Analise um pouco ,e divirta-se também ,com Dom Quixote:
moinhos de ventos longinquos e distantes são otimos adversários.......mas chega no seu vizinho e pede pra não
jogar lixo no seu quintal,pede pra alguém tirar o "saradão"
da sala(que tragédia !!!!!!!!!!).Pense

14/12/2011 12:18:49  

Clara:
Meu nome é Clara e não escuridão. Você não sabe nada sobre mim e nem sobre o meu trabalho. O fato de tentar me defender de suas agressões não aponta o que faço ou deixo de fazer com meus alunos e colegas professores.
Não preciso debater com pessoas maldosas e mal educadas.
13/12/2011 21:52:50  

Mel::
Escuridão,
Como educadora,como se intitula,é assim que trata seus
alunos?
Já ouviu falar em debate?
O professor precisa de "batedores"?
13/12/2011 19:39:30  

Clara:
Mel, eu, como educadora e gestora de uma escola pública estadual, fico surpresa ao ler seu comentário. Quem está inserido no espaço escolar, seja como gestor ou professor, não há de concordar com sua opinião maldosa, responsabilizando a equipe gestora por problemas que, bem sabemos, não são dela. Experimente aproximar-se de qualquer escola pública ,enfurnando-se em suas entranhas e entenderá a aflição desse nosso colega professor.
13/12/2011 18:35:20  

filipe de moura:
Mel,
Aqui, é "catraca livre" para contraponto. Fique à vontade para me "incomodar".
Sobre minha feldade, tenho refletido sobre ela.
Ainda pretendo relatar histórias de sucesso escolar, apesar do fracasso das políticas públicas.
Abraços.
12/12/2011 11:02:39  

mel:
Filipe de Moura,querido mestre,não há salvador da pátria,nem
heroismo suficiente para dar conta de uma situação tão deprimente como a sitada por você , e infelizmente tão real.
Mas ,mesmo dentro do Estado de São Paulo,há escolas que as
pessoas parecem beber um pouco menos de fel,com uma condução mais voltada ao trabalho coletivo,bem direcionada.
E no caso de fel é muito bom ser alternado com um pouco de
mel ou até um pouco de açucar mesmo.
Quanto aos seus textos,estou sorvendo-os ...
PS:pareceu-me,ligeiramente,que o senhor não aprecia um
contraponto
11/12/2011 22:15:03  

filipe de moura:
Mel, não sei se você está na sala de aula tingindo-se de giz. Se está, sabe que não é a direção, boa e mui profissional, que irá resolver o problema. Muitas vezes nem há professores e os alunos ficam "de janela". O governo, principalmente o do Estado de São Paulo, nada fez para resolver o problema.
Sobre o Bolsa-Família, você não deixa de ter razão em me criticar, pois minhas palavras têm um quê de açodamento.
Porém, embora acerte em conceder esse auxílio às famílias carentes, o governo erra em não lhes cobrar nenhuma contrapartida.
Sugiro-lhe o sacrifício de ler os seguintes posts:
"A LOUSA E A CARTILHA", "MILHO AOS PORCOS", "CONVITE À REFLEXÃO", "PEQUENINOS. INOCENTES?" e "O SONHO DE VINICIUS" . Todos tratam desse espinhoso tema.
Obrigado pela companhia!
11/12/2011 08:42:17  

mel:
Caro colega professor:as agruras do tentar remar contra a maré do "desvalor" do estudar e do educar são tão tristes
e reais...mas não compartilho do ar arrogante com que trata
o consumo na tal loja e do tal produto,nem do descaso com a ajuda primordial que o "bolsa família"traz a algumas pessoas deste país para se sentirem cidadãos,pareceu-me um sarcasmo burguês de muito mal gosto.Saiba que existem casas do saber ainda neste país ,que apesar de frustrações e
dissabores,conseguem cumprir com o seu fim educativo,graças a uma boa e mui profissional direção ...
10/12/2011 15:39:41  

Aureliano:
Filipe,
sua palavra a respeito da situação da deseducação, oh!, desculpe-me, educação! no nosso país é totalmente pertinente. Penso que boa parte da raiz do problema está no materialismo que coloca o ser humano num clima de desumanidade. Materialismo entendido como falta de horizonte de sentido para a vida, de total descaso dos valores e princípios que contam, de adoração do poder e do ter. O canal que abre o ser humano ao Transcendente está cada vez mais entupido. Enquanto o ser humano continuar sendo sufocado pelo ter, viveremos essa desumanidade.
Se por educar entende-se como fazer emergir a verdade profunda do ser humano, não se poderá chamar de educar a um processo desonesto, mentiroso e sacana nos órgãos ditos educacionais.
09/12/2011 09:16:56  

Eduardo Lima:
Preocupa não Filipe. Deixe que eles vão se tornar os faxineiros que menciona. Os mais esforçadinhos é claro. Por que os outros certamente vão entrar para o time dos bandidos e marginais e terão pouco tempo de liberdade ou de vida mesmo.
Pelo menos eles já sabem quantos são 10x29,90.
02/12/2011 19:39:30  

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