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sexta, 09 dezembro, 2011
ALÉM DAS PALAVRAS, O GESTO UTÓPICO

O sóbrio casarão é centenário. Como as demais construções do último quartel do século XIX, sua arquitetura é eclética. Tem uma fachada arrojada e avantajado pé- direito. Com amplo salão, capela e largos dormitórios, permite-se digna acomodação a uma dezena de religiosos. Destes, alguns ainda bem jovens e recém ordenados; outros, já bastante idosos, aposentados.

O dia começa sempre bem cedo para todos e cada qual tomando o rumo de sua comunidade paroquial. Por ser pequena a cidade, poucos minutos separam as tais comunidades. Ademais, a diocese dispõe de uma boa frota capaz de servir a todos os seus sacerdotes sem quaisquer transtornos.

O almoço, sempre farto e muito benfeito, é servido pontualmente ao meio-dia. Ficara assim decidido, para que aquela pequena confraria  possa se reunir ao menos uma vez por dia. Todos se esforçam para o acontecimento. Nesse sublime momento, a postos ao redor de uma enorme mesa de peroba dos tempos do baronato, a assembléia se rejubila. Por deferência do senhor bispo, a abertura do ritual cerimonioso das refeições sempre fica a cargo do decano da família: atualmente, um octogenário frade franciscano.

Sábia decisão essa, de clérigos abrirem mão de seus pequenos refúgios individuais para, irmanados, viverem a experiência das primitivas comunidades cristãs. Sob o mesmo teto e dignamente instalados, experimentam a agridoce ventura de dividir entre si os êxitos e frustrações do dia a dia. Dessa forma, a diocese ainda poupa recursos alugando ou alienando imóveis em benefício de outras comunidades carentes. E, sob o lema “Os cristãos tinham tudo em comum!”, dá o seu recado para esta sociedade, cada vez mais egoísta, consumista, individualista e hipócrita.

Não, infelizmente isso ainda não acontece em nossa cidade. Pior, no âmbito da diminuta Paróquia Nossa senhora do Amparo, a paróquia-mãe de nossa diocese, por alguma razão os três sacerdotes: o bispo titular, o bispo emérito e o pároco moram apartados uns dos outros. A Diocese de Amparo mantém três confortáveis residências sacerdotais, uma para cada um. É desalentador. Sobretudo, sabendo-se que o mínimo para nós é -  para os povos da floresta, do semiárido brasileiro, das savanas africanas ou de alhures - a tão sonhada fortuna.

No mundo, segundo a ONU, a fome atinge mais de 1 bilhão de pessoas e ceifa a vida de uma criança a cada 5 segundos. Esses números “bradam aos céus e clamam a Deus por justiça”. E a Igreja deve se posicionar ainda mais radicalmente instando seus fiéis a uma vida parcimoniosa e de caridade. Pois não se cristianiza apenas com o romantismo das palavras. Mas, sobretudo, com a utopia das ações.

FILIPE


postado por filipe de moura as 12:34:47 #
6 Comentários

filipe de moura:
Aureliano,
ao escrever o texto, lembrei-me de D. Casaldáliga e de D. Arns.
Este, vendeu o palácio episcopal e doou o dinheiro a comunidades periféricas. Assim, muitas puderam construir suas capelas.
Felizmente, há inúmeros exemplos de generosidade clerical. Não ficamos sabendo, pois não interessa à midia.
E, por óbvio, quem é bondoso não se promove.
Sobre "casas confortáveis", acho imprescindível que todos tenham conforto. Luxo... é do demônio!
16/12/2011 15:10:44  

Aureliano:
Filipe,
talvez o que vc quis contrastar não tenha ajudado a percerber o disparate: um casarão (convento antigo) com alguns religiosos e casas confortáveis. Porém o que valeu foi a intenção de lembrar a vida das primeiras comunidades cristãs: tinham tudo em comum e ninguém passava necessidade entre eles.
Um homem que continua dando um testemunho fanstástico de coerência evangélcia é Dom Pedro Casaldáliga: sempre morou numa casinha simples, acolhendo hóspedes que vinham beber de sua sabedoria, e ainda preparava a mesa para os visitantes. Estamos carentes de gente que tenha a coragem de assumir o modo de vida de Jesus de Nazaré.
16/12/2011 09:33:59  

Carlos:
Boa noite Filipe, Obrigado pela resposta...
Agora sobre esse assunto clérico é dificil de aceitar que alguns religiosos pregam, e na realidade eles não vivem...
É uma pena ver que a Igreja Católica se "auto-depreda", e com isso arrasta vários jovens para fora da igrja, da sua doltrina, de seus costumes...
Gostei muito de suas palavras...
Abraço
15/12/2011 23:44:03  

filipe de moura:
Mel,
contemplei vosso comentário sobre "UM POTE DE FEL".
Confira. Abraços!
11/12/2011 08:48:26  

filipe de moura:
Olá, Ramon,
fico imensamente honrado em tê-lo como leitor.
Quanto à divulgação, nem precisa pedir autorização.
Como pediu... tá autorizado!
Obrigado pela companhia.
............................................................................

Gostaria de deixar registrado que este "polêmico" texto, ora publicado, foi enviado por e-mail à Cúria e a todas as paróquias, bem como o endereço do blog.

10/12/2011 22:30:19  

Ramon:
ola filipe esse texto seu e de mais gostei muito pois vou sugerir uma coisa se vc me permitir sobre o blog posso fazer divulgacao dele em meu site e minhas redes sociais e muito bom eu venho aqui agora uma vez por mese pois estou sem tempo motivo de trabalho mais vou divulagr frases enfm do seu blog em meu site e rede social claro com sua permisao

grande abrçs
10/12/2011 14:38:44  

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