O sóbrio casarão é centenário. Como as demais construções do último quartel do século XIX, sua arquitetura é eclética. Tem uma fachada arrojada e avantajado pé- direito. Com amplo salão, capela e largos dormitórios, permite-se digna acomodação a uma dezena de religiosos. Destes, alguns ainda bem jovens e recém ordenados; outros, já bastante idosos, aposentados.
O dia começa sempre bem cedo para todos e cada qual tomando o rumo de sua comunidade paroquial. Por ser pequena a cidade, poucos minutos separam as tais comunidades. Ademais, a diocese dispõe de uma boa frota capaz de servir a todos os seus sacerdotes sem quaisquer transtornos.
O almoço, sempre farto e muito benfeito, é servido pontualmente ao meio-dia. Ficara assim decidido, para que aquela pequena confraria possa se reunir ao menos uma vez por dia. Todos se esforçam para o acontecimento. Nesse sublime momento, a postos ao redor de uma enorme mesa de peroba dos tempos do baronato, a assembléia se rejubila. Por deferência do senhor bispo, a abertura do ritual cerimonioso das refeições sempre fica a cargo do decano da família: atualmente, um octogenário frade franciscano.
Sábia decisão essa, de clérigos abrirem mão de seus pequenos refúgios individuais para, irmanados, viverem a experiência das primitivas comunidades cristãs. Sob o mesmo teto e dignamente instalados, experimentam a agridoce ventura de dividir entre si os êxitos e frustrações do dia a dia. Dessa forma, a diocese ainda poupa recursos alugando ou alienando imóveis em benefício de outras comunidades carentes. E, sob o lema “Os cristãos tinham tudo em comum!”, dá o seu recado para esta sociedade, cada vez mais egoísta, consumista, individualista e hipócrita.
Não, infelizmente isso ainda não acontece em nossa cidade. Pior, no âmbito da diminuta Paróquia Nossa senhora do Amparo, a paróquia-mãe de nossa diocese, por alguma razão os três sacerdotes: o bispo titular, o bispo emérito e o pároco moram apartados uns dos outros. A Diocese de Amparo mantém três confortáveis residências sacerdotais, uma para cada um. É desalentador. Sobretudo, sabendo-se que o mínimo para nós é - para os povos da floresta, do semiárido brasileiro, das savanas africanas ou de alhures - a tão sonhada fortuna.
No mundo, segundo a ONU, a fome atinge mais de 1 bilhão de pessoas e ceifa a vida de uma criança a cada 5 segundos. Esses números “bradam aos céus e clamam a Deus por justiça”. E a Igreja deve se posicionar ainda mais radicalmente instando seus fiéis a uma vida parcimoniosa e de caridade. Pois não se cristianiza apenas com o romantismo das palavras. Mas, sobretudo, com a utopia das ações.
FILIPE













