A tarde escorria insuportavelmente quente e preguiçosa. Interrompi uma leitura e vagueei pelo prédio nu, desprovido de sua matéria prima que são os alunos. Lá fora, um pequeno grupo se formava em torno de um homem traído pela sua moto. Esta, deu-lhe uma rasteira e o estatelou no chão, felizmente não se ferindo. Houve certa agitação, alguém ligando para os Bombeiros, ou para a Guarda etc.
Passados alguns minutos e já resolvido o problema do desafortunado motoqueiro, saí para observar as coisas e “investigar os seus porquês”. Um amigo estava parando os motoristas a fim de alertá-los quanto ao óleo derramado no “leito carroçável” ou “pista de rolamento” – conforme dizem as autoridades - mas que para nós é rua mesmo. Ou chão da rua, pra ser mais exato.
Compadeci-me do amigo. Estava vermelho e sua “laje”, descoberta, parecia estorricada pela inclemência do sol. Quis ajudá-lo alternando com ele. Ora ele orientava, ora eu. Porém, eu não conseguia fazer com que os motoristas me obedecessem. O amigo ria da situação e, generoso comigo, afirmava: “a gente só quer ajudar e os caras nem reconhecem...” Na verdade, a ele obedeciam e até agradeciam. Mas a mim...
Resolvi improvisar. Fui ao prédio, peguei uma cartolina e escrevi com tinta forte e em letras gigantes: “ÓLEO NA PISTA”. Fixei-a numa régua de madeira e, como aqueles caras da Fórmula 1, exerci minha função cidadã fazendo valer minha autoridade. Motoqueiros, ônibus, caminhões, até bicicletas, eram interceptados com aquela bandeira a poucos metros da fuça. Não havia quem não me obedecesse. Todos paravam, liam e ouviam minhas explicações. Depois seguiam cuidadosos e agradecidos, esquivando-se daquele tapete escorregadio.
Passadas quase duas horas, os “homens” chegaram. Estacionaram sua viatura na única sombra que nos protegia e, do alto de sua importância e sem nos dar atenção, operavam o rádio falando com gente ainda mais importante. Somente na terceira tentativa é que consegui falar com aquele que parecia ser o chefe. Sob a minha sugestão para que interditassem logo a rua ou removessem o tal óleo, respondeu: “Isso é coisa simples, não causa problema.” Argumentei que houve dois problemas. O tal motoqueiro, e uma senhora que escorregara ao atravessar. ”Mas não pode jogar água porque o óleo aumenta!” Essa é nova, mas tudo bem. Podemos fazer nosso combustível render adicionando-lhe água! – pensei e prossegui: “Mas seu guarda, é serragem! Tem que pôr serragem!” E ele: “Já vem a serragem. O caminhão está na serralheria!” Matutei: “Serralheria produz limalha! Talvez essa limalha seja diferente...”
Enquanto aqueles traçavam seus planos, eu “bandeirava”. Daí a pouco, volta-me o chefe: “Você não pode pôr a placa na frente do motorista, pois tira-lhe a visão.” – “Mas, seu guarda, ele tem que parar mesmo. Ele não pode passar em velocidade pelo óleo.” – “Não! O senhor fica ao lado segurando a placa. Eles olham e ficam sabendo do óleo.” Entreguei a placa a ele dizendo: “Vou deixar para o senhor!” Ao que me respondeu: “Continue o seu serviço!” – “Não, senhor. Preciso entrar. Se o senhor quiser, pode ficar com esta bandeira.”
Demitido, saí de cena; e espetada num cavalete, fruto de meu estro, a cartolina com letras tremidas avisava: ÓLEO NA PISTA.
FILIPE













