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sexta, 16 dezembro, 2011
ÓLEO NA PISTA

A tarde escorria insuportavelmente quente e preguiçosa. Interrompi uma leitura e vagueei pelo prédio nu, desprovido de sua matéria prima que são os alunos. Lá fora, um pequeno grupo se formava em torno de um homem traído pela sua moto. Esta, deu-lhe uma rasteira e o estatelou no chão, felizmente não se ferindo. Houve certa agitação, alguém ligando para os Bombeiros, ou para a Guarda etc.

Passados alguns minutos e já resolvido o problema do desafortunado motoqueiro, saí para observar as coisas e “investigar os seus porquês”. Um amigo estava parando os motoristas a fim de alertá-los quanto ao óleo derramado no  “leito carroçável” ou “pista de rolamento” – conforme dizem as autoridades -   mas que para nós é rua mesmo. Ou chão da rua, pra ser mais exato.

Compadeci-me do amigo. Estava vermelho e sua “laje”, descoberta, parecia estorricada pela inclemência do sol. Quis ajudá-lo alternando com ele. Ora ele orientava, ora eu. Porém, eu não conseguia fazer com que os motoristas me obedecessem. O amigo ria da situação e,  generoso comigo, afirmava: “a gente só quer ajudar e os caras nem reconhecem...” Na verdade, a ele obedeciam e até agradeciam. Mas a mim...  

Resolvi improvisar. Fui ao prédio, peguei uma cartolina e escrevi com tinta forte e em letras gigantes: “ÓLEO NA PISTA”. Fixei-a numa régua de madeira e, como aqueles caras da Fórmula 1, exerci  minha função cidadã fazendo valer minha autoridade. Motoqueiros, ônibus, caminhões, até bicicletas, eram interceptados com aquela bandeira a poucos metros da fuça. Não havia quem não me obedecesse. Todos paravam, liam e ouviam minhas explicações. Depois seguiam cuidadosos e agradecidos, esquivando-se daquele tapete escorregadio.

Passadas quase duas horas, os “homens” chegaram.  Estacionaram sua viatura na única sombra que nos protegia e, do alto de sua importância e sem nos dar atenção, operavam  o rádio falando com gente ainda mais importante. Somente na terceira tentativa é que consegui falar com aquele que parecia ser o chefe. Sob a minha sugestão para que  interditassem logo a rua ou removessem o tal óleo,  respondeu: “Isso é coisa simples, não causa problema.” Argumentei que houve dois problemas. O tal motoqueiro,  e uma senhora que escorregara ao atravessar. ”Mas não pode jogar água porque o óleo aumenta!” Essa é nova, mas tudo bem. Podemos fazer nosso combustível render adicionando-lhe água! – pensei  e prossegui: “Mas seu guarda, é serragem! Tem que pôr serragem!” E ele: “Já vem a serragem. O caminhão está na serralheria!” Matutei: “Serralheria produz limalha! Talvez essa limalha seja diferente...”

Enquanto aqueles traçavam seus planos, eu “bandeirava”. Daí a pouco, volta-me o chefe: “Você não pode pôr a placa na frente do motorista, pois  tira-lhe a visão.”  – “Mas, seu guarda, ele tem que parar mesmo. Ele não pode passar em velocidade pelo óleo.”  – “Não! O senhor fica ao lado segurando a placa. Eles olham  e ficam sabendo do óleo.” Entreguei a placa a ele dizendo: “Vou deixar para o senhor!” Ao que me respondeu: “Continue o seu serviço!” – “Não, senhor. Preciso entrar. Se o senhor quiser, pode ficar com esta bandeira.”

Demitido, saí de cena; e espetada num cavalete, fruto de meu estro, a cartolina com letras tremidas avisava: ÓLEO NA PISTA.  

FILIPE 


postado por filipe de moura as 07:49:31 #
4 Comentários

Aureliano:
Filipe,
as inclemências sociais se agravam sempre mais. Poucos percebem o caos para o qual caminhamos a passos largos. Enquanto não nos despertarmos todos nós para uma nova forma de relacionamento, baseada na solidariedade, no respeito, na ajuda mútua, na generosidade, na gratuidade, continuaremos caminhando para um 'beco sem saída'.
O que vc descreve sobre os rodoviários e os "homens da lei" sem nenhum respeito e reconhecimento é observável tb em outros departamentos e relações sociais. A truculência, a falta de educação, o desrespeito são comuns por todo canto. Essa é a escola em que nossa moçada aprende a arte de maltratar idosos, de violentar as crianças, de desrespeitar os doentes, de explorar e maltratar o meio ambiente, de fazer gestos obscenos, de roubar, de não devolver os achados e emprestados. Enfim, está aí, no seu relato a ponta do 'iceberg'. Até quando vamos continuar assim?
17/12/2011 14:17:39  

Eduardo Lima:
Fez sua boa ação do ano. Parabéns. E ficou famoso ainda.
17/12/2011 09:42:47  

filipe de moura:
Carlos,
você foi "testemunha ocular da história."
Demoraram pra chegar. Houve vários telefonemas e muito "empurra-empurra" entre eles.
Obrigado pela companhia!

17/12/2011 06:52:39  

Carlos:
Me deparei com algo semelhante essa semana, na rua da escola estadual Luiz Leite, com serragem sob a rua, com algo escrito em uma placa improvisada, seria esse evento do que o senhor escreve?
E aproveito para perguntar quanto tempo isso tudo ocorreu, se o serviço chamado chegou logo, para colocar a "serragem que o caminhão foi pegar da serralheria"?
Abraço
16/12/2011 21:36:42  

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