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terça, 18 setembro, 2007
O mundo encantando de um "andarilho"


    Uma biblioteca é, sem dúvida nenhuma, um ambiente excepcional. Nesta segunda-feira (17), ao acompanhar a minha irmã, Ana Paula (16 anos) que foi entregar seus livros e alugar mais dois, um para ela outro para meu irmão, João Pedro (7), me deparei com uma cena que me deixou feliz e encasquetado. Vi um senhor, com um paletó meio maltrapilho, uma bermuda batida e sandálias havaianas. Visual que muita gente, inclusive eu, não imaginaria que poderia freqüentar uma biblioteca semanalmente, ou diariamente. O comentário da minha irmã para mim fez minha curiosidade sobre esse senhor aumentar: “Que legal ver um senhor desse vindo aqui pegar livros. Toda semana encontro ele aqui e sempre deixando dois e pegando dois”.

        Minha faculdade e meu instinto de jornalista fizeram com que eu fosse falar com ele na saída da biblioteca. Corri, pois ele havia saído um pouco antes que eu, e o abordei na rua: “Senhor! Tenho um blog na Internet, o vi na biblioteca pegando dois livros, me chamou a atenção, podes conversar uns minutos comigo para que eu possa fazer uma matéria?” Prontamente ele me respondeu: “Sim posso. Mas sou um andarilho”. Aos 65 anos, o senhor Walter Paulo Soares se diz andarilho, mas não por estar nas ruas, rodovias e cidades das mais diversas do nosso país. Ele é um andarilho do mundo, mas do mundo da leitura. “Acabo de chegar de Kabul”, comentou ele, fazendo referência ao livro que havia entregado que fala sobre o Afeganistão.

        Walter disse que chega a ler seis livros por semana. “Eu moro ao relento, apenas em baixo de um telhado de uma mecânica que fico de vigia, vivo de favores, varro o pátio de um restaurante ajudo a catar o lixo e eles me dão comida. É assim que vivo, estou esperando vir meu benefício do governo porque está na constituição, por eu ter 65 anos já tenho direito”, disse ele sem repetir palavras, usando um vocabulário rico e sem erros. O tempo que tem livre, quase todo o dia, dedica aos livros. Quando ainda estava escolhendo os volumes falou para a bibliotecária: “Assim não perco tempo vendo novela”.

        Natural de Santos, São Paulo, Walter disse que já foi conhecido por lá, teve poemas publicados, músicas que compôs, gravadas por cantores da época e ressaltou: “morei em Santos nos tempos áureos de Pelé. Era uma cidade que todo o mundo estava de olho diariamente.” Apesar de ter sido reconhecido no passado, Walter diz não se arrepender de ter largado tudo e hoje não ser reconhecido. “Se eu pudesse ser invisível, ou que simplesmente as pessoas não me notassem já seria bom. Durante toda minha vida me desfiz dos bens materiais, de tudo o que já tive para viver assim, no meu mundo, viajando pela leitura”, comentou o homem, simples e sozinho.

Quando eu disse a ele, pedindo desculpas, que o que me chamou atenção foi ele não parecer uma pessoa culta, que cultiva o hábito da leitura e sair da biblioteca com dois livros, me dando um “tapa na cara” ele disse: “Nunca é tarde garoto. A leitura me faz viajar muito, entro nas histórias, me transformo nos personagens de cada livro, comece a fazer isso, tu vai ter prazer em ler não vai parar mais”. Por fim, encantado com este senhor simples e culto, o agradeci pela pequena entrevista que me concedeu na rua, em uma noite de segunda-feira. E Walter, educado como foi na biblioteca que, faltando 20 minutos para acabar o expediente desejou a atendente “um bom fim de trabalho”, me agradeceu também: “Obrigado você por ter atentado ao meu hábito”. E fez um pedido que me deixou um pouco indignado: “Não publica o nome da biblioteca, porque a coordenadora aqui não me deixa pegar os livros. Por isso sempre venho entregar e pegar outros depois das 18:00h”. Essa senhora, responsável pela biblioteca, se diz uma incentivadora da leitura e da cultura, e se mostra preconceituosa. O motivo para trancar os livros para o seu Walter é o comprovante de residência que ele não tem. “Como vou ter comprovante se nem residência tenho?” finalizou.


postado por 70826 as 11:17:35 #
2 Comentários

Maga Colonetti:
Adorei o texto. Bem assim mesmo, nós reparamos muito na aparência e deixamos de lado o interior das pessoas. Quem elas realmente são, não está na forma de se vestir. Infelizmente temos isso na cultura atual né.

Beijosss Xompis!
24/10/2007 17:43:06  

a ju.:
Acho que o Sr. Walter nada mais é do que o exemplo simples, e maravilhoso do povo Brasileiro... Engana-se quem pensa que o Brasil é um país de burros, engana-se quem pensa que nos engana. Infelizmente essa é a realidade que vivemos, e que dificilmente conseguiremos mudar. Dificilmente, mas não 'impossivelmente'.
Parabéns pela matéria Xompi!
Beeeijos!
02/10/2007 08:56:00  

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