Quando eu era adolescente as pessoas tinham o poder me fazer sentir o cocô do cavalo do ladrão de galinha, achava que eu só errava muito bem, que era incompetente e que eu era merecedora das inúmeras críticas que eu recebia. Tudo isso porque eu pensava, opinava e produzia. Muitas vezes em favor destas pessoas que me criticavam. Mas agora adulta, com a personalidade formada e a auto-estima em constante afirmação, percebi que na verdade eu sempre incomodei. Eu incomodo. Não sou linda, não sou rica, não sou popular, não sou um gênio, não sou pura simpatia, não sou pegadora... mas incomodo. E incomodo tanto que os meus acertos são motivos de crítica. E meus erros são motivos de festa. E quando eu os ignoro, me desconjuram ou tentam me desmoralizar. Quando me dei conta do quanto eu incomodo, comecei a me sentir um ser muito especial, um ser cheio de coisas que algumas pessoas não gostam nas outras pessoas senão nelas mesmas (mas elas não têm ou não deixam desabrochar porque estão incomodadas demais com as outras pessoas). Atitudes e sentimentos simples como sinceridade, simplicidade, capacidade, respeito, competência, liberdade e alegria são possíveis a qualquer pessoa, mas só alguns deixam aflorar. Quem deixa vigorar estes sentimentos alegra-se com a felicidade alheia, ajuda sem interesse, preocupa-se com o próximo. Ser solidário assim incomoda. Gosto de incomodar e para tanto pratico este exercício provocando o incômodo nos outros. Mas é um exercício perigoso. Há de se ter muita força interior, muita proteção de São Jorge para não cair. De vez em quando eu caio, não nego. Preciso estar fortalecendo meus ânimos e fechando meu corpo em tempo integral porque o incomodado tem muita força negativa, força traiçoeira. Não se pode descuidar, não se pode deixar o brilho das coisas boas ser ofuscado. E nem adianta pensar que o bem é imbatível que isso só funciona para vender livro de auto-ajuda. Na vida real, o bem abalável - ou desprotegido - pode ser abatido. Apesar disso, o bem é muito mais forte porque incomoda. Me lendo até parece que sou uma sucursal de Madre Tereza de Calcutá (que foi um calo doído na vida de muitos incomodados), mas não estou para tanto.Eu apenas estou aprendendo a reconhecer meu valor, a respeitar meus limites e a conviver com meus defeitos. Estou me amando mais e tendo mais know how para amar o alheio. Não posso negar que, de vez em quando, me pego incomodada com alguém. É quando dá uma baixa no estoque de otimismo. Só que eu não pratico este exercício porque não me faz bem. Bom, quem continuar incomodado comigo... que se mude, que se enxergue e que sem ame. Porque eu vou continuar incomodando. Hasta la vista!!!!
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