Crítica Jurídica
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quarta, 04 janeiro, 2012
O Supremo fica bem mais sensato com uma faca imaginária no pescoço - texto de Augusto Nunes

Por Augusto Nunes

Às nove e meia da noite de 28 de agosto de 2007, o ministro Ricardo Lewandowski chegou ao restaurante em Brasília ansioso por comentar com alguém de confiança a sessão do Supremo Tribunal Federal que tratara da denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o escândalo do mensalão. Por ampla maioria, os juízes endossaram o parecer do relator Joaquim Barbosa e decidiram processar os 40 acusados de envolvimento na trama. Sem paciência para esperar o jantar, Lewandowski deixou a acompanhante na mesa, foi para o jardim na parte externa, sacou o celular do bolso do terno e, sem perceber que havia uma repórter da Folha por perto, ligou para um certo Marcelo. Como não parou de caminhar enquanto falava, a jornalista não ouviu tudo o que disse durante a conversa de 10 minutos. Mas qualquer das frases que anotou valia manchete.

“A tendência era amaciar para o Dirceu”, revelou de saída o ministro, que atribuiu o recuo dos colegas a pressões geradas pelo noticiário jornalístico. “A imprensa acuou o Supremo”, queixou-se. Mais algumas considerações e o melhor momento do palavrório: “Todo mundo votou com a faca no pescoço”.  Todo mundo menos ele: o risco de afrontar a opinião pública não lhe reduziu a disposição de amaciar para José Dirceu, acusado de “chefe da organização criminosa”. Só Lewandowski ─ contrariando o parecer de Joaquim Barbosa, a denúncia do procurador-geral e a catarata de evidências ─ discordou do enquadramento do ex-chefe da Casa Civil por formação de quadrilha. “Não ficou suficientemente comprovada  a acusação”, alegou. O mesmo pretexto animou-o a tentar resgatar também José Genoíno. Ninguém divergiu tantas vezes do voto de Joaquim Barbosa: 12. Foi até pouco, gabou-se na conversa com Marcelo: “Tenha certeza disso. Eu estava tinindo nos cascos”.

Ele está tinindo nos cascos desde 16 de março de 2006, quando chegou ao STF 26 dias antes da denúncia do procurador-geral. Primeiro ministro nomeado por Lula depois do mensalão, Lewandowski ainda não aprendera a ajeitar a toga nos ombros sem a ajuda das mãos quando virou doutor no assunto. Para tornar-se candidato a uma toga, bastou-lhe a influência da madrinha Marisa Letícia, que transmitiu ao marido os elogios que a mãe do promissor advogado vivia fazendo ao filho quando eram vizinhas em São Bernardo. Mas só conseguiu a vaga graças às opiniões sobre o mensalão, emitidas em encontros reservados com emissários do Planalto. Ele sempre soube que Lula não queria indicar um grande jurista. Queria um parceiro de confiança, que o ajudasse a manter em liberdade os bandidos de estimação.

Passados mais de quatro anos, Lewandowski é o líder da bancada governista no STF ─ e  continua tinindo nos cascos, comprovou a  recente entrevista publicada pela Folha. Designado revisor do voto do relator Joaquim Barbosa, aproveitou a amável troca de ideias para comunicar à nação que os mensaleiros não seriam julgados antes de 2013. “Terei que fazer um voto paralelo”, explicou com o ar blasé de quem chupa um Chicabon. “São mais de 130 volumes. São mais de 600 páginas de depoimentos. Tenho que ler volume por volume, porque não posso condenar um cidadão sem ler as provas. Quando eu receber o processo eu vou começar do zero”. Como o relatório de Joaquim Barbosa deveria ficar pronto em março ou abril, como precisaria de seis meses para cumprir a missão, só poderia cloncluir seu voto no fim de 2012. O atraso beneficiaria muitos réus com a prescrição dos crimes, concedeu, mas o que se há de fazer? As leis brasileiras são assim. E assim deve agir um magistrado judicioso.

A conversa fiada foi bruscamente interrompida por Joaquim Barbosa, que estragou o Natal de Lewandowski e piorou o Ano Novo dos mensaleiros com o presente indesejado. Nesta segunda-feira, o ministro entregou ao revisor sem pressa o relatório, concluído no fim de semana, todas as páginas do processo e um lembrete desmoralizante: “Os autos do processo, há mais de quatro anos, estão digitalizados e disponíveis eletronicamente na base de dados do Supremo Tribunal Federal”, lembrou Barboza. Lewandowski, portanto, só vai começar do zero porque quis. De todo modo, o que disse à Folha o obriga a terminar a tarefa no primeiro semestre. Se puder, vai demorar seis meses para formalizar o que já está resolvido há seis anos: vai absolver os chefes da quadrilha por falta de provas.

As sucessivas manobras engendradas para adiar o julgamento confirmam que os pecadores não estão convencidos de que a bancada governista no STF é majoritária. Ficarão menos intranquilos se Cezar Peluso e Ayres Brito, que se aproximam da aposentadoria compulsória, forem substituídos por gente capaz de acreditar que o mensalão não existiu. Para impedir que o STF faça a opção pelo suicídio moral, o Brasil decente deve aprender a lição contida na conversa telefônica de 2007. Já que ficam mais sensatos com a faca no pescoço, os ministros do Supremo devem voltar a sentir a carótida afagada pelo fio da lâmina imaginária.


postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 01:00:01 # 0 comentários
domingo, 24 julho, 2011
Semânticas em busca de um sujeito


O morticínio provocado na Noruega por um terrorista de direita não pode ser minimizado pelo fato do ataque ter sido cometido por um indivíduo isolado, se é que realmente ocorreu assim. Explosões de violência não surgem ao acaso. Brotam de um caldo de cultura cultivado de modo cuidadoso por uma galeria inteira de ideólogos sempre descompromissados com as consequências de suas ideias. Especialmente na internet multiplicam-se os sites que pregam o ódio e o ressentimento, seja da "nação", da "classe" ou do "credo". O apelo do assassino, identificado como Anders Breivik, de “guerra ao Islã e ao marxismo”, poderia muito bem ser traduzido por outros termos equivalentes, de acordo com a origem do seu extremismo. São semânticas carregadas, por vezes anônimas, que se movimentam instântaneamente por todo o globo, buscando um sujeito que possa materializá-las. Fatalmente encontrarão alguém. O próprio massacre constitui, também, um ato comunicativo, escrito a sangue. Tais fluxos comunicativos são alimentados pelos inúmeros redentores, buscando uma hiper-legitimidade que os habilite a tudo, pois diante de tão nobres objetivos, todos os meios tornam-se lícitos: “foram ações atrozes, mas necessárias”, declarou o terrorista. Para os ideólogos, sempre indiferentes à dor que suas pregações provocarão, a própria idéia do "terror" não passa de uma abstração sedutora, capaz de fazê-los escapar do tédio recorrente do cotidiano acadêmico em que, geralmente, se encontram aninhados. Antes do ato em si, praticado pelo tresloucado assassino, os 92 mortos de Oslo tiveram sua morte decretada pela pena de algum ideólogo. Mas este, como sempre, escapará impune.


postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 04:49:07 # 1 comentários
terça, 07 junho, 2011
Militar, calar, matar


Um texto de Yoani Sánchez (blogueira cubana)

Quase não dormi na noite passada. Um livro me deixou dando voltas na cama, olhando o teto quadriculado da minha casa. “O homem que amava os cães”, a novela de Leonardo Padura, eletriza pela sua sinceridade, pelo ácido corrosivo que lança sobre a utopia confusa que quiseram nos impor. Não há quem conserve a calma depois de ler os horrores daquela União Soviética que nos fizeram venerar quando meninos. As intrigas, as purgas, os assassinatos, o exílio forçado, mesmo que sejam lidos em terceira pessoa tiram o sono de qualquer um. E se, além disso, viu seus pais acreditarem que o Kremlin era o guia do proletariado mundial e soube que o presidente do seu país tinha – até pouco tempo – uma foto de Stalin no seu próprio gabinete, então a insônia se torna mais persistente.

De todos os livros publicados nesta Ilha, atrevo-me a dizer que nenhum, como este, tenha sido tão devastador dos pilares do sistema. Talvez por isso na feira do livro de Havana só foram distribuídos 300 exemplares, dos quais apenas 100 chegaram às mãos do público. É difícil – nestas alturas – censurar uma obra que veio a luz numa editora estrangeira e cujo autor continua vivendo na sua Mantilla de estrada empoeirada. Pela visibilidade que alcançou fora da Ilha e porque se torna quase impossível continuar subtraindo a cultura nacional sem que esta fique despovoada, foi que nós leitores tivemos a sorte de testemunhar suas páginas. O assassino de Trotski, nelas, revela-se a nós como um homem aprisionado pela obediência do militante, que acredita em tudo o que dizem os seus superiores. Uma história que nos toca muito de perto e não só porque nosso país serviu de refúgio a Ramón Mercacer nos seus últimos anos de vida.

Padura coloca na boca do narrador que a sua geração foi a “dos crédulos, a dos que romanticamente aceitaram e justificaram tudo com a visão voltada para o futuro”. A nossa, contudo, coube amamentar-se da frustração dos seus pais, olhar o pouco que alcançaram os que uma vez foram se alfabetizar, entregaram seus melhores anos, projetaram para seus filhos uma sociedade com oportunidades para todos. Não há quem saia indene disso, não há quimera social que se sustente ante realidade tão obstinada. A longa madrugada virando na cama me deu tempo para pensar não só na lixeira escondida sob o tapete de uma doutrina, mas também, ainda assim, em quantos desses métodos são aplicados sobre nós e quão profundamente o estalinismo se instalou em nossas vidas.

Há livros – advirto-lhes – que nos abrem tanto os olhos que já não podemos voltar a dormir em paz.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto


postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 12:16:16 # 0 comentários
segunda, 01 novembro, 2010
Alarmismo antipopular

CLAUDIO WEBER ABRAMO é diretor-executivo da Transparência Brasil

O JULGAMENTO, pelo Supremo Tribunal Federal, de recurso apresentado pelo político paraense Jader Barbalho contra decisão do Tribunal Superior Eleitoral que lhe negara registro de candidatura nas eleições deste ano trouxe de novo à atenção a chamada "Lei da Ficha Limpa".

Essa legislação, inédita mundialmente, apareceu como decorrência da necessidade, amplamente reconhecida, de reduzir a desenvoltura com que, no Brasil, aventureiros invadem e ocupam a política. Não são poucos nem pouco poderosos aqueles que se opõem ao próprio espírito dessa lei.
Um exemplo saliente é o do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Durante o julgamento do recurso de Barbalho, Mendes exibiu com notável truculência a natureza conservadora das resistências que persistem à Lei da Ficha Limpa.
Embora expressas no contexto da aplicabilidade, ao pleito de 2010, do famoso inciso "k" (em que se enquadravam Barbalho, Joaquim Roriz e outros), o alarmismo transparentemente posado de Mendes tinha como objeto o princípio inspirador da nova legislação.
Mesmo num ambiente judicial marcado por escandalosa ineficiência, Mendes exprimiu contrariedade ao impedimento de participação, em eleições, de quem não tenha tido condenação transitada em julgado, ou seja, irrecorrível.
Como o Judiciário brasileiro garante procrastinação infinita desde que o réu seja endinheirado e possa pagar advogados caros (como costuma ser o caso de políticos, e mais ainda de políticos ladrões), o ponto de vista do qual Gilmar Mendes é porta-voz advoga a perpetuação da iniquidade.
As referências de Mendes ao fascismo, à barbárie, à pretensa hediondez da lei, significam, na prática, a reiteração do princípio reacionário de que a administração de justiça deve mesmo depender do poder de manipulação de códigos e procedimentos.
Não se enxerga naqueles que, como Mendes, veem a administração da justiça como um jogo, nenhuma indignação em relação ao fato de ladrões de alto coturno terem vida mansa no Judiciário brasileiro. Nenhuma palavra é dedicada à injustiça fundamental da Justiça brasileira.
Essa gente acha normal que ladrões manipulem o sistema, com a inestimável ajuda de desembargadores e ministros de tribunais superiores, mas acha anormal que o Supremo julgue algum caso levando-se em consideração o direito coletivo à justiça.
Observe-se que esse direito coletivo não advém do número de assinaturas de apoiamento que a lei em questão recebeu quando ainda era projeto. Advém, sim, de uma postura que se pode dizer ideológica em relação aos privilégios dos políticos corruptos e seus apaniguados.
É nesse mesmo território que se desvenda a indignação fake de Gilmar Mendes: vem da ideologia antipopular que representa.

postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 02:17:43 # 0 comentários
quinta, 14 outubro, 2010
Brasil tem mais faculdades de Direito do que todo o mundo

O Brasil tem mais faculdades de Direito do que todos os países no mundo, juntos. Existem 1.240 cursos superiores para a formação de advogados em território nacional enquanto no resto do planeta a soma chega a 1.100 universidades. Os números foram informados por Jefferson Kravchychyn, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
“Temos 1.240 faculdades de direito. No restante do mundo, incluindo China, Estados Unidos, Europa e África, temos 1.100 cursos, segundo os últimos dados que tivemos acesso”, disse o conselheiro do CNJ.
Segundo ele, sem o exame de ordem, prova obrigatória para o ingresso no mercado jurídico, o número de advogados no País –que está próximo dos 800 mil— seria muito maior.
“Se não tivéssemos a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) teríamos um número maior de advogados do que todo o mundo. Temos um estoque de mais de 3 milhões de bacharéis que não estão inscritos na ordem”, afirmou Kravchychyn.
Má qualidade

Na opinião do conselheiro do CNJ, as faculdades de Direito no Brasil deixam a desejar. “Temos mais de 4 milhões de estudantes que estudam em faculdades que não ensinam mediação, arbitragem, conciliação. Ou seja, temos um espírito litigioso. Tudo eu quero litigar [discutir]. Isso é da formação da própria faculdade”, comentou o conselheiro, que citou, ainda, o perfil do brasileiro que entra com ações na Justiça.
“Não quero criticar o advogado, mesmo porque sou um. Mas precisamos mudar a consciência social sobre brigas no judiciário. Como todo mundo tem um advogado ou bacharel em direito na família, ou conhecido, qualquer coisa é motivo para entrar na Justiça”, finalizou.

postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 02:03:51 # 0 comentários
segunda, 11 outubro, 2010
Os tucanos tomados de virtude

Em 1985, quando era candidato a Prefeito de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso declarou-se ateu. De quebra confessou ter experimentado maconha. Tudo isso numa entrevista a uma revista "indecorosa", como a Playboy. O conservadorismo malufista fez o que pode para explorar o assunto e uma parte da derrota de FHC naquela eleição ficou por conta destas declarações infelizes.

Num Estado Laico, a religiosidade das pessoas é assunto que deve ser relegado à esfera privada. Não é o que está acontecendo nas eleições em curso. Os temas preferidos pelo conservadorismo religioso estão na crista da onda e quem os explora é o próprio tucanato pretensamente esclarecido. Fazem isto por puro oportunismo eleitoral, pois não posso acreditar que o próprio Serra, ex-ministro da saúde, tenha concepções medievais no tocante a temas como aborto e casamento ou adoção de crianças por casais homossexuais.

Boa parte dos políticos “religiosos”que conheço em Goiânia não são fundamentalistas. São fisiológicos e oportunistas tão somente (como boa parte dos “não religiosos”) e apóiam qualquer governo que lhes seja favorável. Um setor da Igreja Católica também parece querer afastar as múltiplas e repetidas denúncias de pedofilia nos seus quadros com a adoção de uma máscara de rígida virtude religiosa.

Com ares de primeiro da classe e com opiniões de velha beata encontramos o Sr. Reinaldo Azevedo, que se apresenta como liberal, mas não passa de um conservador católico (as duas posições não são compatíveis: nunca houve um liberalismo católico). Engana a quem?

Os tucanos começaram esta disputa eleitoral criticando a prática de montar dossiês e vasculhar registros fiscais em busca de denúncias. Disseram que numa democracia uma eleição não pode ser ganha a qualquer custo. Sua prática está revelando o contrário.        



postado por Arnaldo Bastos Santos Neto as 07:28:24 # 1 comentários
 
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