CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
quarta, 25 fevereiro, 2009
CRISES

O melhor ficou para trás
 

Logo pela manhã fico sabendo no radio que, intramuros, o governo considera que a crise deve piorar e que o melhor já teria passado – tudo isso a despeito do otimismo com que as autoridades disparam seus muitos discursos com diagnósticos de que tudo anda muito bem. A profissão de fé no futuro que se ouve em público dá lugar a certo pânico quando a imprensa vai embora. O pior estaria do por vir e a crise já provoca arrepios de pessimismo até no otimista mais renhido.
 
A experiência mostra que toda crise tem seu auge, mas nada é definitivo ou estar a indicar que, acabado o carnaval, o horizonte pátrio será mesmo coberto por nuvens escuras. O que parece mais ou menos ficar patente é que a encrenca econômica pela qual o mundo passa é a maior em 80 anos e que, malgrados todos os esforços de governos em todo o mundo, o monstro levanta a cabeça e dá rugidos ameaçadores, que é para avisar que ainda está sedento do muito dinheiro público que já foi atirado para acalmar sua sede.

O presidente daqui vai ao encontro do seu colega na América do Norte, em colóquio que pretende discutir formas de colaboração mútua para enfrentar a borrasca financeira.    
 
Desligo o rádio e saio para uma rápida caminhada nesta quarta-feira de cinzas de meio expediente. Na volta, passo no supermercado aqui do bairro e vejo que o preço do maxixe deu uma aliviada após subir que nem foguete. Menos mal. Crise nenhuma merece ser vista do alto, que tem também as coisas do cotidiano que falam mais ao interesse da maior parte das pessoas, dessas que não tinham ações em bolsa. A quarta-feira, que é de cinzas, parece salva. Comprei o maxixe e aproveitei para levar dois abacates, que é fruta da estação e ajuda no controle da inflação.

Nem tudo está perdido.       


postado por 78623 as 09:18:15 # 4 comentários
terça, 24 fevereiro, 2009
INDI-GESTO


A mais abominável

Acaso fosse instado a apontar a mais abominável de todas as coisas, deixaria de lado as trocentas possibilidades para ficar em uma só: o ato anti-civilizatório de se jogar papel pela janela do carro e suas muitas variáveis da vida urbana nos dias atuais. Para ficar somente no território das chateações relativas ao comportamento humano, esse negócio de atirar lixo na rua pela janela do carro mostra o quão distante ainda estamos do mundo ideal.

Imagine a situação: você pega carona com um sujeito qualquer, por um motivo que não vem ao caso. Lá pelas tantas, ele saca de algum lugar uma caixinha de bala Halls. Mão direita ao volante, com a outra ele rasga o papel que envolve o drops com os dentes e na maior sem-cerimônia atira o papel no asfalto.

Quando você percebe o que vai acontecer já não dá mais tempo para tentar evitar a cena., que rompe o protocolo de todo e qualquer acordo de convivência e, o que é pior, informa da impossibilidade de agir no atacado contra a ameaça de destruição do planeta. Mas um simples papel de bala, atirado ao acaso? Sim, ele mesmo, pois do contrário estamos falando de quimeras quando o assunto for ecologia e sustentabilidade.

Como pode ser sustentável um modelo que não consegue impedir sequer o gesto que toca o papel janela afora? Desconfio que país nenhum será uma nação de fato enquanto existir alguém que não dê bola para esse tipo de coisa. Há ministérios com tudo que é nome e, talvez, fosse o caso de se criar por aqui o da Educação Ambiental. Que se não servisse para outra coisa, cuidaria das campanhas educacionais que tentasse trazer para o nível zero o número de ocorrências de pessoas que atiram lixo janelas e portas afora sem ao menos se questionar para aonde aquilo vai e que impacto terá na natureza.

Talvez fosse mesmo o caso de estimar que importância podem ter essas ações individuais na salvação do planeta – sim, há uma planeta irremediavelmente doente que precisa de cura com urgência máxima. O gesto tolo e inconseqüente de jogar papel pela janela do carro anula, por exemplo, todo esforço e a crença de quem fecha a torneira enquanto escova os dentes, que separa em casa seu lixo por categoria mesmo sabendo que ele será novamente misturado pela companhia de limpeza pública, que faz uso da coleta seletiva apenas em comercial de televisão.

Diante da constatação de que o planeta em que vivemos passa por acelerado processo de envenenamento, do qual não escapa nem mesmo os oceanos, toda ação contra o meio ambiente merece repulsa. Como mereceria louvores toda iniciativa anônima de quem, por exemplo, anda dois ou três quarteirões em busca da lixeira mais próxima para atirar fora o papel que envolvia o último cigarro.     

Era disso que falaria se alguém me pedisse para dizer o que acho abominável. E olha que nem falei de quem limpa o nariz em público, palita os dentes em restaurante ou cospe no chão, de música no último volume ou de quem torce pela desgraça alheia. É que esse negócio de lixo pela janela do carro em movimento tira qualquer um do sério.


postado por 78623 as 03:01:06 # 3 comentários
sexta, 19 setembro, 2008
PRIMAVERA

Florada
O Ipê que mora de frente para a minha janela floriu outro dia. Não foi assim tão de repente, claro, mas só fui perceber numa dessas tardes esquisitas de domingo no inverno aqui do Planalto Central, quando o sol torna abrasivo o rosto dos transeuntes, mas não consegue evitar esse friozinho teimoso nos interiores das nossas casas e de nós mesmos.

Minha janela e a pequena paisagem que ela me reserva ficou subitamente colorida, antecipando a primavera que ainda não chegou para o resto da natureza, que ressecada e triste matura a flor que ainda virá. Mas o fato é que o tédio da tarde desse domingo ficou mais suportável porque o ipezinho-amarelo explodiu sua florescência quase temporã.

E nada é mais belo do que isso. Nem o cromo da multidão que faz a passeata nem a explosão da torcida na comemoração do gol do seu time nem o fundo do mar em Fernando de Noronha nem o Carnaval em Salvador ou a tourada em Madri. Penso mesmo que a Terra, vista lá de Marte, não deve ser mais bela que a florada do ipê aqui ao lado do meu prédio. Pelo menos, não agora.

Toda a tarde se encheu de sensações, sons e bons odores graças ao meu ipê – o que não é pouca coisa na aridez de Brasília, com a sua baixíssima umidade do ar nessa época do ano. Essa arvorezinha toda engalanada é um bálsamo na melancólica repetição dessas quadras e super-quadras cinzentas, tudo sempre na mesma mesmice retangular e impróprias ao convívio. Mas a atmosfera agora lembra um oásis e minha cabeça ganha a leveza dos que têm todo o tempo do mundo. E o pensamento viaja.

Prorrogue-se por medida provisoriamente eterna a manhã da segunda-feira que se aproxima com seus funcionários públicos ainda sonolentos, bancários apressados e os eixos monumentalmente congestionados por fords e volkswagens bancados na prestação a perder de vista. Abaixo toda a formalidade dos ternos e gravatas que acinzentam a vida, que toda chatice seja abolida, afinal, o meu ipê abriu mão do seu justo hibernar e, mesmo despido de toda folhagem, coloriu uma insípida tarde de domingo.

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Um beija-flor, quase liliputiano daqui do meu posto de voyeur acidental, passeia entre androceus e gineceus, completando essa inocente orgia da natureza
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O ipê floriu e mudou a perspectiva. Só mesmo o meu ócio, que era ocioso mesmo, desses de baiano deitado na rede a contemplar o coqueiro que dá coco, pôde permitir o que veio a seguir. Daqui dessa minha janela, vi quando um casal de rolinhas “fogo-apagou" pousou num dos galhos amarelo do ipê e iniciaram um animado namoro. O pombinho-macho, com as penas eriçadas e todo pavoneado, cantava a onomatopéia que lhe serve de nome: "fogo-pagou', "fogo-pagou", enquanto pulava de um lado para outro do galho, deixando hipnotizada a fêmea com a música do acasalamento.

Ato contínuo, ele já estava por cima dela, asas e rabinho abanando doidamente, a fêmea subjugada por firmes bicadas no cocuruto.

Um sabiá-laranjeira, talvez embalado pelo espetáculo de tão invejadas delícias, começou longo e plangente gorjeio - à maneira dos líricos - daquele mesmo canto com que nos acorda toda madrugada aqui na capital do país por esta época do ano. Há quem acredite que o canto do sabiazinho seja a anunciação das chuvas que estão por vir. Mas arrisco outra hipóetese: ele parece chorar poesias de amores perdidos, quem sabe por um outro sabiá choroso que vagueia por aí na imensidão deste Planalto Central.

A coisa foi rápida, mas não o suficiente para impedir que o pequeno bosque de sibipirunas entre o meu prédio e o próximo virasse uma festa com a orquestra de canários, bem-te-vis e pintassilgos. O barulho atraiu também um beija-flor, ainda mais liliputiano daqui do meu posto de voyeur acidental, que, todo faceiro, passeava por entre androceus e gineceus, completando essa inocente orgia da natureza.


postado por 78623 as 02:28:10 # 6 comentários
sexta, 18 julho, 2008
FALSA ERUDIÇÃO?

Nossos tímpanos tão castigados

A imprensa independente do Brasil precisa ser fortalecida

Para quem acha que o Brasil não tem jeito e que a nossa vocação inata é amassar o barro da civilização para todo e sempre, trago um alento. Não é que o gerundismo, aquela mania tola de imitar americano no uso do tempo verbal, deu uma arrefecida e os nossos pobres ouvidos já podem transitar por aí mais ou menos livres do supra-sumo da imbecilidade que, parecia, ia dominar o país de ponta-a-ponta.

Algumas campanhas na internet e muitos artigos nos jornais depois, muitos dos que aderiram ao modismo começaram a perceber que aquilo que julgavam ser a última palavra em sofisticação e elegância verbal não passava de puro mau gosto -- pra se dizer o menos.

Gerundismo, sabemos todos, é o uso exagerado do gerúndio, a forma invariável que em português resulta da troca do "erre" final dos verbos pelo "ndo" e que dá a idéia de ações em andamento. Quem não tem um relato de situação parecida com a que segue: a atendente de uma dessas centrais 0800 de uma operadora de cartão de crédito saiu com a pérola que aqui transcrevo:

- Senhor, eu vou estar precisando que o senhor esteja me enviando uma cópia da sua fatura por fax, para que o nosso departamento de cobrança possa estar resolvendo a sua reclamação.

Putz. Quem ainda não passou pelo vexame de ter um interlocutor de tal nível intelectual, que não atire o primeiro livro do professor Pasquale. Posso garantir que os meus tímpanos tão castigados já ouviram essa ignomínia lingüística na boca de reitor de universidade federal e de secretário de Educação, gente da elite pensante aqui de Pindorama que parecem enxergar em Miami a nova terra prometida.

Mas qual seria mesmo a origem do tal gerundismo e do deslumbramento que provocou, antes que a reação iniciasse a sua cruzada? Ele não é, obviamente, uma invenção dos operadores de telemarketing e centrais de atendimento, embora sejam eles os maiores divulgadores dessa doença da língua.

O gerundismo é a adaptação equivocada do ing da língua inglesa, que algumas mentes iluminadas querem trazer a fórceps para o português, talvez como o caminho mais curto que vai nos levar ao primeiro mundo. A frase "I´ll be talking with you tomorrow" não significa exatamente "eu vou estar falando com você amanhã", pode ser também "eu vou falar com você amanhã", já que o ing também equivale ao nosso particípio e ao infinitivo.

Além da já excessiva invasão de palavras da língua inglesa no nosso cotidiano, fomos obrigados a ouvir essas adaptações imbecis que só evidenciam nossa condição de colonizados.

Além de não dizer muita coisa, o gerundismo desvirtua o formato clássico da oração ensinado pela nossa professora lá no primário. Uma oração deve possuir sujeito + verbo + complementos. Os verbos, o leitor sabe, denotam a ação do sujeito. De modo que, quanto mais direta for a frase, mais eficaz será a comunicação que se pretende. Em resumo: distribuir verbos em fila indiana em construções do tipo "vou estar transferindo sua ligação" não passa de pura enrolação travestida de falsa erudição.

Falsa erudição. Não há diagnóstico melhor para a epidemia do gerundismo. O sujeito maltratar sua língua nativa com um "nóis vai fazer" porque não teve acesso à escola incomoda, mas dá para entender. Agora, passar 10, 12 ou até mais anos numa escola e sair por aí propagando tolices no gerúndio fica difícil aceitar.

Ainda que não tenha acabado com o gerundismo, a reação veio em boa hora. Ela  conseguiu evitar que mais um Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o País, criação do impagável humorista Sérgio Porto, se transformasse em praga como a saúva e certos gêneros musicais. Oxalá, não precisemos repetir Lima Barreto num grave ultimato do tipo "ou o Brasil acaba com o gerundismo, ou o gerundismo acaba com o Brasil". Abaixo esse vício que nada acrescenta às gerações em formação. A tarefa não é fácil, mas vou estar torcendo... Ops, vou torcer para que dê certo.


postado por 78623 as 08:41:53 # 5 comentários
quinta, 19 junho, 2008
NOSSOS SERTÕES


A paz perdida

Não faz tanto tempo assim era possível dormir de portas e janelas abertas na maioria das nossas pequenas cidades bem típicas do interior do país, dessas entre cinco e 20 mil almas  -- locais em que existia até outro dia a camaradagem amistosa entre vizinhos e cadeiras nas calçadas nos fins de tarde. Sabe-se lá o porquê, certamente o avanço da miséria entre nós é uma das causas, mas o fato é que está ficando difícil a vida em lugares antes aprazíveis para morar e viver. E olha que não estou falando de 100 mas apenas de 10 ou 15 anos. Bons tempos.

Virou rotina: todo final de semana, quando ligo para saber as novidades da minha cidade natal, lá do Norte de Minas, recebo o informe de que entraram na "casa de seu fulano", "roubaram o supermercado tal". E por aí vai. São relatos de assalto à mão armada nas estradas da região, assalto a ônibus e outras tragédias nas quais o ser humano mostra o que tem de pior. Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo de lá não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo.

É o caso de repetir o lamento que ouvi certa vez de um conhecido fazendeiro, figura folclórica lá da região, que teve sua propriedade de 300 e tantas reses transformada em assentamento, por obra e graça da Reforma Agrária, e disso se lamentava:

- A situação da lavoura está "pecuária".

Precária, com todas as letras, a coisa anda mesmo. E não há governo, não tem polícia que dê jeito na facilidade da ação e na desfaçatez desses pilantras amigos do alheio. Que a miséria empurre um pai de família em desespero para o ilícito até se compreende, pois não há dor mais lancinante do que assistir à fome de um filho. Mas daí a servir de justificativa para a falta de vergonha dos larápios, daqueles que detestam o velho e bom batente, vai uma distância sem fim.

Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo da minha cidade natal não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo

Hoje em dia até uma simples parada para a troca do pneu furado já é motivo de alerta para os usuários das estradas vicinais da nossa região, antes tão solitárias quanto seguras para os viajantes. O que não faltam são relatos de motoqueiros assaltados ao parar para abrir uma porteira ou o caso de um mototaxista atacado no final de uma corrida para local deserto. Nesse ritmo, a delinqüência logo, logo começa importar para o nosso Norte de Minas os temíveis seqüestros-relâmpagos, que tanto têm assustado a classe média dos grandes centros. A polícia, claro, aprende e reage em ritmo bem mais lento e vai sempre a reboque da criminalidade.

Nos dias de juventude da minha geração – que foi ainda ontem – não tinha nada disso. Lembro que, por ausência de uma boa casa do ramo, os casais de namorados usavam o artifício sempre muito criativo da fugidinha para os arredores das nossas cidades, onde conseguiam local pouco movimentado que servisse ao lazer sexual. O motel bom e barato, ou "matel" como preferiam alguns, só dependia de um carrinho meia-sola - ainda que fosse um fusquinha velho. Sabe como é, para o sujeito não fazer feio aos olhos da amada. No mais, uma noite bem escura que evitasse a maledicência dos curiosos. Uma aventura dessas nos dias de hoje seria uma temeridade.

Um amigo meu, de quem não posso declinar o nome, por ser hoje respeitado cidadão de meia idade e dedicado pai de bem constituída família, era useiro e vezeiro desse expediente noturno. Até que, um dia, indo o negócio amoroso muito bem encaminhado, surge uma vaca não se sabe de onde e enfia a carona dentro do carro - de portas abertas para melhor comodidade do casal. Dona mimosa, tascou suculenta lambida no meio das costas lá dele, tão caprichosa na carícia, e aí não estão excluídos a baba pegajosa e o focinho frio do animal, que o distinto, mesmo saudável, levou coisa de duas semanas para ter de volta seu normal desempenho nas artes da amorosidade. Um sustinho de nada, se comparado com o perigo de ser surpreendido com um tresoitão apontado para a cabeça, risco sempre presente nesse nosso tempo violento.

Sei da história de uma pessoa que recusou emprego num restaurante da minha cidade natal, mesmo precisando muito dele, por receio de voltar para casa num bairro da periferia por volta de 11 horas da noite. Nunca é demais lembrar que a cidade ficou, por um bom tempo, sem juiz de Direito, promotor ou delegado. Fato que diz muito sobre o crescimento da violência e a sensação de terra de ninguém vivida pelos moradores.

Falta dizer, nas poucas linhas que me restam, das inúmeras vezes que percorri , a pé, as três léguas que separam a rodovia por onde passa o ônibus que atende a região e o sítio da minha família, que tem simpática lagoa ao lado da sede, onde os sapos coaxam a noite toda num "foi, não foi! foi, não foi!", que é sinfonia das mais agradáveis. Naquela época, medo eu só tinha mesmo de alma penada, saci-pererê, da mula-sem-cabeça e de não conseguir, um dia, ter a sonhada "condução", ainda que fosse um fusquinha, capaz de me livrasse do sacrifício daquela caminhada. O certo é que nossa antiga paz foi se embora. Isso foi.


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postado por 78623 as 08:31:24 # 3 comentários
domingo, 18 maio, 2008
PAIS & FILHOS

Teimosinha



(*) Tributo ao mineiro Fernando Sabino e o seu "Hora de dormir"
 
- Filha, desliga esse computador e vai dormir. Esqueceu que você tem aula amanhã?
 
- Ah não, papai! Por que não posso ficar no computador? Preciso responder aos meus e-mails.
 
- Não filha, está muito tarde e você precisa ir para o seu quarto agora.
 
- Por quê?
 
- Porque está na hora, eu já disse.    
 
- Mas papai, só preciso responder os e-mails das minhas amigas...
 
- Filha, não me aborreça. Estou falando para o seu bem.
 
- Por que é para o meu bem?
 
- Porque senão você vai acordar sonolenta e não vai prestar atenção na aula amanhã.
 
- Não vou não.
 
- Não vai não, o quê?
 
- Não vou sentir sono na aula, não. Eu prometo.
 
- Vai sentir sono, sim. E isso é chantagem da sua parte.
 
- O que é chantagem?
 
-  Não estou com tempo para brincadeiras. Amanhã você pega o dicionário e descobre o que é chantagem .
 
- Você não gosta de mim!
 
- De onde você tirou essa idéia, menina? É claro que gosto de você.
 
- Então me explica o que é chantagem?
 
- Chantagem é você querer me enrolar com essa desculpa de que não vai sentir sono na escola.
 
- Ué, chantagem é isso? Eu vi um filme em que chantagem era outra coisa.
 
- Então me diga dona sabichona: o que o "seu" filme dizia sobre chantagem?
 
- Era a estória de um homem que pedia dinheiro a outro homem para não revelar um grande segredo.
 
-  ...
 
- Papai.  
 
- O que é?
 
- Posso ficar mais um pouco no computador?
 
- Eu já falei que não pode. Deixa de ser teimosa.
 
- Não sou teimosa. Você é que um chato.
 
- O que você você disse aí? Quando eu tinha sua idade eu nem sonhava em ousar falar para o meu pai o que você acaba de me dizer. Seu eu fizesse isso, apanhava na mesma hora.
 
- Naquele tempo não tinha computador.
 
- Não fuja do assunto. Peça desculpas agora mesmo.
 
- Desculpas por quê?
 
- Você me chamou de chato. Isso é um desrespeito. Esqueceu que sou seu pai.
 
-  Você quer que eu vá para a cama para usar o computador no meu lugar.
 
-  Não me provoque. Você sabe que não é isso. Eu não tenho tempo para ficar no computador. 
 
-  ...
 
- Vamos. Peça desculpas agora mesmo.
 
- Não peço.
 
- Menina teimosa. Peça desculpas, senão boto de castigo: você vai ficar um mês sem acessar essa porcaria de computador.
 
- ...
 
- Vamos, peça desculpas. Estou esperando.
 
- Papai?
 
- O que é?
 
- Ah, tá bom. Desculpa, vai?
 
- Está desculpada. Agora, já para a cama.
 
- Papai?
 
- O que você ainda quer?
 
- Posso ficar mais um pouco no computador?
 

postado por 78623 as 09:40:15 # 4 comentários
quinta, 01 maio, 2008
O QUARTO DE BORDEL


Dois pontos cardeais

Era noite de sábado e um sudeste preguiçoso soprava manso lá do lado do Cais do Porto. O céu estava claro e a pequena cidade fervia com a agitação do final de semana. O homem entra no quarto exíguo, onde todo mobiliário se resumia a uma antiga cama de beiral torneado, coberta com um velho colchão de molas. Em um dos cantos do aposento ficava uma rudimentar mesinha com tampo de madeira, cheio de perfumes baratos. Um rádio a pilhas ocupava o centro da mesa, mas agora estava desligado. Do outro lado, em perpendicular com a mesa, a cadeira de pernas bambas acolhia uma bacia esmaltada em branco, salpicada de pontos negros que denunciavam seu muito uso.

A mulher fecha a porta e pede que ele espere um instante. Vai até o canto do cubículo, onde lava o rosto e os braços na velha bacia. Um buraco na janela foi providencialmente coberto com papelão e lá está estampado o nome de uma conhecida marca de palha de aço. A lâmpada fraca presa ao teto por um fio longo empresta ao ambiente a penumbra que tranqüiliza os mais inexperientes, mas confere ao lugar um clima triste, talvez pelo tom amarelado da lâmpada empoeirada.

Sem nenhuma inibição, a moça livra-se das roupas, mas mantém a lingerie. Sorri para o cliente com uma rápida piscadela. Ele continua de pé e contempla seus movimentos ágeis. Ela cruza o pequeno espaço que a separa da mesinha e, após abrir um frasco de leite-de-rosas, começa a lambuzar o corpo numa pose sensual.

O homem agora está deitado na cama, a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas na altura da nuca, olhos bem abertos para o ritual da moça ali na sua frente. Admirava suas beleza e juventude. Resolve conversar, rindo da mania besta de sempre querer fazer psicologia de alcova em ocasiões assim. O bate-papo não fluiu no início, pois a mulher achou esquisito jogar conversa fora antes da satisfação dos instintos masculinos, mas não demorou para ficar bem à vontade com o cliente que via pela primeira vez.

Falou da decepção com o primeiro namorado e da dura reação do pai, o dedo em riste e a dolorosa argüição de que a porta é sempre a serventia de qualquer casa. A mulher dizia que ainda sonhava com um bom casamento ou com uma boa quantia em dinheiro, pois contava voltar para a cidade natal e cobrar do pai os anos todos de sofrimento. Ele a estimulava a falar mais, pois queria confirmar a impressão de que aquela ali não tinha vocação para o ofício.Mais uma dessas típicas histórias de putas tristes, ele pensou, já meio entediado com o tagarelar da companhia daquele sábado. E a moça falou muito, abrindo-lhe a alma com uma certa sensação de alívio.

- Gostei do seu jeito. Qual é o seu nome? -, ela disse algum tempo depois, enquanto acariciava o rosto dele com a mão direita espalmada.

Num impulso que nunca soube explicar, omitiu seu nome verdadeiro e disse o primeiro que veio à cabeça. Apoiada nos cotovelos, as mãos segurando o rosto, ela ficou olhando-o por um longo tempo.

- Você me lembra o Ritchie, sabia? -, ela disse, enquanto deslizava o dedo indicador na curvatura do nariz dele.   

O homem ensaiou uma cena de ciúmes pela lembrança de outro nome masculino que não o seu. Ela abriu um sorriso enorme:

- Seu bobo, o Ritchie é um cantor, não é para mim não.


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Os olhares femininos se cruzaram. Melissa manteve seu ar blasé, distante de tudo que não fosse seu mundo.  A outra não escondia sua dor e decepção
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Lisonjeado com a comparação, jurou não saber de quem se tratava e resolveu seguir com o jogo de sedução. A moça, não obstante toda experiência, deixou-se envolver. Ele então falou, com certo exagero, das novas sensações que acabara de conhecer ao lado dela. Fazia-se teatral, enquanto pensava em Melissa, sua grande paixão da adolescência, que o teria odiado 800 mil vezes se soubesse o quanto se deliciava agora com o seu amor de locação. Melissa, que tantas vezes lhe dissera não, crédula nas promessas do fogo eterno a que o padre da pequena cidade fazia menção durante as missas de domingo, enquanto trocavam olhares ternos e de eterna promessa.

Olhou para o teto do quarto do bordel, de onde pendia o fio que sustentava a lâmpada de luz fraca e lembrou das muitas vezes em que relutara em cruzar o corredor escuro que separa a porta da rua e o bar ali ao lado, de onde podia ouvir o barulho festivo das que mulheres bebiam e fumavam à espera dos seus clientes. Desistira em muitas delas, por também temer as profecias do padre, mas sobretudo pela lembrança sempre onipresente de Melissa, que prometia muito com seus olhos lânguidos e que nunca lhe deu nada – nem um cândido beijo roubado.

Foram despertos de seus pensamentos por batidas fortes na porta. O administrador da casa, uma mistura de gerente e cafetão, que ele conhecia bem, queria saber o motivo de tanta demora com o “freguês aí”. Ela lançou um olhar cúmplice para ele, piscou o olho esquerdo enquanto respondia elevando a voz:

- É que o moço aqui tá demorando seu Odorico.  

- Pois ele que pague dobrado -, respondeu o homem, notório por resolver as pendências do ofício detestável com a ajuda do revólver que trazia escondido na cintura.

Meio sem graça, ele pagou o que devia e pensou que ela o havia amado para muito além daqueles cinco cruzeiros. Olharam-se por um instante, enquanto ela segurava o trinco da porta. Ele quis beijá-la, mas ela se esquivou:   

- Na boca não, pois posso me apaixonar -, disse com a cara séria.

Voltou a vê-la uma vez mais durante a quermesse na Praça da Matriz. A moça estava em pé, em frente da barraca de jogos, acompanhada por outras mulheres, que ele julgou conhecer de outras noites no bordel. Ela abriu o melhor dos sorrisos, que logo se desmanchou ao vê-lo ao lado de Melissa, pele branca e porte altivo realçado pela saia plissada comprada numa recente viagem à capital. Por uma fração de segundos os olhares femininos se cruzaram. Melissa fez o seu habitual ar blasé, de total indiferença para tudo que não dissesse respeito ao seu mundo burguês.

Ele virou o rosto para o outro lado, a tempo de perceber a decepção no rosto da amante recente. Lembrou o episódio e as mulheres muito tempo depois, mas considerou que não fora assim tão pusilânime: era apenas um garoto com a vida toda pela frente. Aquelas mulheres eram tão distante entre si quanto dois pontos cardeais. Pensou, não sem uma ponta de amargura, que o mesmo valia agora para ele e o passado.    


postado por 78623 as 09:30:48 # 4 comentários
segunda, 21 abril, 2008
CÓDIGO DE BARRA

 Leve três e pague dois

Brasileiro gosta mesmo de levar vantagem em tudo. Quem tem mais de 30 anos deve ter ouvido essa frase atribuída ao ex-jogador de futebol Gerson, o Canhotinha de Ouro. Se a memória não me trai, era num antigo comercial da marca de cigarros Villa Rica. A frase contribuiu para estigmatizar o Gerson e se transformou na mais completa tradução do conhecido jeitinho brasileiro. Um velho conhecido meu, o Bertholdo, leva ao pé da letra o convite que o Gerson fazia no final da propaganda:

- Leve vantagem você também.

Bertholdo é vidrado numa promoção. Desde aquelas mais simples do tipo "pague três e leve dois" até os atuais parcelamentos em 12 vezes sem juros no cartão ou cheque. Sem falar nas ofertas de viagens por terra, mar e céus, que o faz sonhar acordado. O sujeito não perde uma. Ele não se dá conta de que esse negócio de 12 vezes sem juros é balela e que, junto com a suposta vantagem, acaba pagando mais do que devia.

- A oferta era irresistível, fazer o quê? - ele sempre se desculpa.

Mas o Bertholdo gosta mesmo é daquele tipo de promoção que dá cupom para concorrer a prêmios. Lazer para ele é passear por entre as gôndolas dos supermercados em busca de uma oferta dessas. Se uma marca de papel higiênico promete uma casa mais premiação mensal em dinheiro, o homem empilha rolos do material na despensa da casa. Tudo em troca dos desejados códigos de barra que prometem transformar sonhos em realidade.

Ele tem um fraco especial por empresas que sorteiam carros e já perdeu a conta das vezes que atravessou a cidade para fazer o test-drive de uma montadora qualquer que prometia, em troca do sacrifício, um lanche rápido e o cobiçado cupom promocional. A mulher do Bertholdo acha pura perda de tempo e reclama da mania do marido:

- Deixa de besteira, homem! Isso é mais difícil que ganhar na Megasena - ela diz.

Sentindo-se incompreendido, ele ainda argumenta:

- Você vai ver, um dia ainda vou ganhar.

O Bertholdo é o sujeito mais infiel que eu conheço. Não com a mulher, claro, mas com as empresas e seus produtos. Ele troca de marca ou de loja como quem troca de roupa. Tem uma ofertazinha em jogo? Tchau e um abraço. À noite, quando volta do trabalho, ele liga a TV para ver os intervalos comerciais em busca das promoções que vão entrar no "plano de trabalho" do final de semana seguinte.

Gente como esse meu conhecido faz a alegria (e o faturamento) das empresas que sabem desse fraco que o brasileiro tem por vantagem. Tem até tese pronta para o fenômeno: o que move o Bertholdo não é a economia que a oferta pode proporcionar, ele gosta mesmo é de jogar com a sorte. Numa frase: o lado lúdico dessas promoções. Por exemplo: após passar meses preenchendo cartelas com nomes de revistas de uma grande editora (que ele, claro, conseguia ao comprar mais e mais exemplares dessas mesmas revistas), não tinha ganho nenhum dos 15 mil prêmios anunciados. Desistir? Nem pensar, aquilo era uma terapia.

Outro dia, quando via um desses programas de fim de noite na TV, lembrei-me do Bertholdo. Um sujeito dizia para a apresentadora que tudo que tem em casa, inclusive a própria casa, havia sido ganho por meio de promoções de marcas famosas. Um legítimo profissional do "preencha o cupom e envie para o CEP promocional número tal".

Sem se fazer de rogado, o sortudo dava a fórmula: todo mês reserva 300 ou 400 reais destinados a comprar produtos que prometem sorteio de prêmios. O moço chega ao exagero de ter uma agenda com telefones do tipo 0800 e emprega o tempo livre (que no caso dele parece não ser pouco) ligando para as centrais de atendimento em busca de informações sobre promoções. Depois é só comprar o produto, recortar o código de barra ou cupom e enviar. E, no caso dele, ganhar.

Já o Bertholdo, coitado, nunca ganhou nada. Nem mesmo um inocente par ou impar. Mas não desiste. A última vez que o vi foi no corredor de um shopping às vésperas do Natal passado. Ele enfrentava uma fila imensa para pegar um tíquete que dava direito a não sei que premiação. Ele me olhou, sorriu meio sem graça e balançou a cabeça como se me convidasse:

- Vem levar vantagem você também.




postado por 78623 as 08:13:39 # 24 comentários
quinta, 10 abril, 2008
CERTA VEZ UM DIA...

O Cisne Branco


Considero o outono a mais melancólica das estações. Ele traz consigo um quê de nostalgia que faz emergir antigas imagens, perdidas num canto qualquer da memória. Volto no tempo, numa fria manhã do mês de junho. O pátio do Colégio Sagrada Família, local que de certa forma abrigava a elite de Manga, a pequena cidade mineira onde nasci, está repleto de estudantes. A algazarra cessa abruptamente quando soa a sirene da escola. Todos correm para tomar lugar nas filas que separam os rapazes das moças, agrupados por série – da quarta para a oitava, nível que a escola então oferecia para a juventude local. A Fundação Educacional Manguense era a mantenedora do Colégio e foi responsável pela formação de pelo menos quatro gerações dos filhos do lugar, um município perdido no mapa de Minas Gerais, lá bem no alto próximo à divisa com a Bahia.

O trio de diretores caminha pelo corredor e pára em frente aos alunos ali perfilados. O padre alemão Ricardo Trischeller, o juiz aposentado Luiz Carneiro Viana e Maria da Purificação Alves Novais, a dona Salia, personificaram durante quase duas décadas a moral e os bons costumes tão em voga naquela época. Eles se propunham a ensinar os nossos rumos, o terreno e o espiritual. Após uma rápida prédica para avisos gerais e outros assuntos, alternávamos a oração do Pai Nosso, os hinos Nacional, do Colégio ou da cidade, além da Canção do Marinheiro. Eram meados dos anos 70 do século passado e vivíamos o apogeu dos Anos de Chumbo, a ditadura militar que comandou o país entre 1964 e 1984. O Sagrada era uma mistura do “Ordinário, marche!” dos milicos com o catolicismo mais carola.

Nada sabíamos sobre os feitos da ditadura, pois esse obviamente era um assunto proibido e a alienação era até natural, pois não havia ainda a TV e os jornais eram escassos. O ritual das manhãs do Sagrada era uma chatice, mas que nos enchia de orgulho. A “Canção do Marinheiro” ou “Cisne Branco”, como ela é mais conhecida, fazia parte da cota do diretor Luiz Carneiro Viana, assim como a oração do Padre Nosso eram reivindicadas pelo padre e dona Salia. Doutor Luiz, como o chamávamos, era um senhor simpático, calvo a cabeça toda, que, graças ao seu eterno bom-humor, contribuía para amenizar a rigidez da dupla formada pelo padre Ricardo, um ex-combatente da Gestapo, e a distância que o ar sempre muito beato de dona Salia impunha a todos nós.

Assim que ouvia o verso “Qual cisne branco que em noite de lua / vai navegando num lago azul / O meu navio também flutua / Nos verdes mares, de Norte a Sul”, Luiz Carneiro empertigava o corpo, o gesto indefectível de subir as calças com um puxão no cinto, seguido de um pigarro seco, simultâneo com o sopro do nariz. Ele verdadeiramente se deleitava com a música e parecia singrar mares nunca idos.

Doutor Luiz combinava a ufania do seu país com o nacionalismo da mais pura cepa. Nada semelhante ao que alguns políticos oportunistas fazem hoje em dia, ao lançar mão de greve de fome em nome de um falso amor à pátria. Não, nosso diretor de fato amava o país e o seu povo. Talvez por isso, cabia a ele a incumbência de lecionar Educação Moral e Cívica e OSPB, a sigla para Organização Social e Política do Brasil. Sim crianças, houve um tempo em que tais disciplinas existiram.

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Ele combinava a ufania do seu país com o nacionalismo da mais pura cepa. Nada semelhante ao que alguns políticos oportunistas fazem hoje em dia
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Ainda embevecido com os versos do  “Cisne Branco”, o professor Luiz afirmava convicto, durante suas aulas, que o Brasil seria, num breve tempo, a mais importante entre todas as nações. Corroborando com o discurso triunfalista dos militares, ele argumentava que estávamos fadados a liderar o mundo, haja vista nossas riquezas na terra, céu e mar. Seu otimismo nos contaminava a todos. Mas se ainda assim, alguém duvidasse das suas profecias, ele jactava-se de certezas. Não, ninguém haveria de segurar nosso país e seu futuro esplendor.

Luiz era um sujeito bonachão. Talvez para equilibrar a aridez do tema das suas aulas, ele vez por outra saia com pilhérias que faziam a alegria da estudantada. Coisas inocentes, como dizer que havia um erro na grafia da palavra maxixe. Gostoso como é, essa cucurbitácea tão conhecida do nordestino deveria ser chamada de “bomxixe”. Ríamos todos, donde se pode perceber a inocência daqueles dias, do Brasil interiorano que não existe mais. 

Anos depois, já afastado do Sagrada Família e nos seus últimos anos de vida, era comum encontrá-lo no antigo Armazém Santa Cruz. Logo que me avistava, ele dizia:

- Aí está o nosso Lopes Trovão.

Confesso que até então nada sabia sobre o médico, tempestuoso jornalista e militante republicano José Lopes da Silva Trovão, fundador do jornal “O Combate”. A comparação, desmerecida, obviamente, muito me envaidecia. Na época eu era o dono do único jornal da cidade, que saia vez em quando e incomodava a situação política local.

O Brasil, malgrado toda esperança, não cumpriu o destino profetizado por Luiz Carneiro. É verdade que temos evoluído muito, mas o país está longe, muito longe, da hegemonia mundial. Nossas instituições funcionam mal e porcamente e se tem um item em que somos campeões é o de sociedade mais injusta e desigual do planeta. Uma Nação sempre para um amanhã que nunca chega, vide esse apagão aéreo de agora ou o da energia em passado recente, além do crecismento assustador da violência,  frutos da incompetência de nossos governantes em fazer as revoluções de que o país precisa, dentre elas a educacional. Sem falar na desmoralização total da classe política e da falência dos sistemas judiciário e penal. “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!” diagnosticou o escritor Mário de Andrade pela boca do seu Macunaíma. A corrupção já endêmica pode muito bem ser incluída no rol dos nossos males, mas naquela época isso não era assim tão claro.  

Faço essa homenagem tardia ao velho mestre, que deve ter se transformado num cisne e voa por aí, esparramando sua esperança sobre outros mares. Que falta faz seu otimismo genuíno nesses dias de tanta turbulência. Voe em paz, cisne branco.


postado por 78623 as 09:44:52 # 0 comentários
domingo, 06 abril, 2008
MEMÓRIA EM CONTO

A inundação

Começava mais um ano como todos começam. A família reunida para as festas do Ano Novo, como, aliás, já o fizera uma semana antes por ocasião do Natal. O homem agora contemplava o rio, os cotovelos apoiados no muro de balaústres do velho cais e o corpo ligeiramente inclinado para frente. Atrás dele a pequena praça, com as suas casas antigas construídas em adobão. Do lado sul, na mesma direção em que o rio formava uma pequena baía, ficava o imponente prédio de tijolos à vista do novo Fórum, numa elevação do terreno, de onde era possível avistar o rio se contorcendo todo para envolver a pequena ilha no formato de coração.

A jusante, o homem podia ver a bela paisagem na caminhada do rio em direção do outro Estado. O pequeno atracadouro, lá bem longe, antecedia a imaginária linha no horizonte, ali na justaposição do azul do céu com o verde no leito do rio, ambos se imiscuindo num torvelinho de vastidão. Os olhos do homem percorriam a paisagem à sua frente num lento vai e vem, como um pêndulo vagaroso que desejasse traçar a metade de uma circunferência, dividida pela linha do muro do cais logo a seus pés.

O ano que se iniciava seria o quadragésimo da sua vida, pensava o homem. Saindo de sua abstração, notou os movimentos do pescador que se esforçava para manter a proa da canoa na direção da outra margem, o remo manejado com excelência cortava a água como lâmina. O rio estava calmo naquele fim de tarde, a superfície das águas balançava placidamente e refletia os raios do que ainda restava do sol a intervalos regulares. Ele acomodou-se melhor na mureta e se entregou às reminiscências, estimuladas pelas águas cintilantes dos beijos do sol que se preparava para partir.

O leito calmo do rio transforma-se numa imensa tela para a projeção dessas suas lembranças. Como num filme de realismo fantástico, o homem revia a grande enchente.

Um grupo de adolescentes fazia fila para subir na balaustrada e dali se atirar nas águas turvas e apropriadamente próximas do nível da pracinha junto ao cais, que ameaçavam invadir um dos pontos mais altos da cidade e a jogar por terra (ou por água, para ser mais apropriado) a crença de que o local seria uma fortaleza inexpugnável à fluxão do rio. 

Não foram fáceis os dias da grande inundação. As vítimas daquele flagelo se perguntavam se aquilo não seria uma nova versão do dilúvio bíblico. A chuva caiu fina, fria e intermitente por mais de 30 dias, período em que o sol raramente aparecia, a sua força toda impotente agora para romper a teimosa espessura das nuvens.

A cidade ficou isolada do resto do mundo. O homem lembrou-se de como os preços ficaram inflacionados, a gasolina e o gás de cozinha racionados. Quanto à gasolina, uma providência inútil, pois quem possuía veículos a motor não tinha mesmo para onde ir.

Naquela época não havia ainda o dique que serpenteia o barranco ao longo do beira rio e as águas, na sua desesperada busca por espaço, invadiram a cidade por uma depressão que a dividia em duas, a alta e a baixa, numa violenta inversão daquilo que a geografia local estabelecera como fluxo fluvial. Resultando que os moradores dessas duas regiões ficaram isolados entre si, os de baixo não podendo ir ao alto e vice-versa. Do seu posto de observação o homem imaginou rever o frenético sacudir das ondas de águas sujas e enrugadas, que se estendiam até perder de vista, não sem antes engolir o porto das embarcações na margem oposta, do qual só se via agora a cumeeira das casas e o verde das copas das árvores mais frondosas.

Sentados na pequena muralha do cais, os pés quase tocando as ondas que se chocavam no concreto, os meninos da cidade matavam o tempo contando os troncos e galhos de árvores e gravetos e tábuas e as grotescas figuras dos animais mortos e os refugos de toda espécie que a grande enchente ia abraçando no seu caminho, numa procissão que parecia não ter mais fim.

No seu transe, o homem ouvia o barulho das chegadas e partidas das brigadas de voluntários misturando-se com o burburinho dos curiosos. A balsa de travessia, sem ter agora o que atravessar nem o barranco na outra margem onde se atracar, tinha sido arregimentada pela Capitania dos Portos para os trabalhos de salvamento.
 
Num pequeno casebre em local ermo, o grupamento de salvação encontrou uma família inteira, pai, mãe e cinco filhos acabrunhados sobre a viga de sustentação do telhado da casa pobre em que viviam. A água chegava nos batentes das pequenas janelas e passeava tranqüila por entre os cômodos. Ao lado da casa, amarrados aos troncos de um pequeno curral coberto, uma triste vaca mocha e um velho cavalo de arado cochilavam à espera do fim iminente. Em cima, no telhado, uma fileira de galinhas se misturava com as cores das roupas da família, cuidadosamente presas aos caibros e longe do alcance da água. Um leitão esquálido, pendurado por uma corda que lhe envolvia o tornozelo, esgoelava sem parar cada vez que as águas ameaçavam roçar-lhe o focinho. Sua incômoda posição de ponta cabeça a não deixar dúvidas sobre o absurdo da situação.

E todos os dias e de todos os lados chegavam levas de desabrigados, salvos por improvisadas arcas de Noé. Bichos e homens vindos das ilhotas, das fazendas, dos pequenos povoados e do mato inundado. O gado ficou isolado em pequenas elevações do terreno das fazendas e as raposas, as onças suçuaranas, cervos, além das cobras penduradas nos galhos das árvores. Náufragos todos. Quando a chuva finalmente foi embora, viu-se o rastro da destruição por todos os lados e o temor das doenças transmitidas pela urina dos ratos que, desabrigados de suas tocas, ameaçavam espalhar as pragas de um novo Egito.

Sentado no paredão do velho cais, as pernas balançando no vazio, o homem recordou tudo isso até perceber que a noite já caíra, o crepúsculo chegava chamando o rio para as brumas. Ele desceu da mureta de blocos vazados, atravessou a praça e voltou para casa. Aquela foi a primeira vez em que se sentiu velho.


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postado por 78623 as 08:16:59 # 6 comentários
sábado, 29 março, 2008
CERTAS PALAVRAS

Salvo melhor juízo

Faço um convite ao leitor que por acaso se detiver neste canto de página para um pequeno exercício sobre os que escrevem e por quê o fazem. Vaidade, necessidade, dom para o mister ou disponibilidade de tempo. Certamente, motivos não faltam. Mas sobre o ato mesmo de rabiscar palavras é preciso lembrar a coragem daqueles que se expõem à curiosidade e ao julgamento alheio.

Feita a ressalva de que não entendo nada do assunto, aliás, cada vez mais me convenço que não entendo nada de coisa alguma, penso que o sujeito que se dispõe a escrever sobre qualquer tema deve possuir domínio mínimo para tal, sob pena de pregar no deserto. Fora daí reside o talento, de tão rara ocasião e ocorrência entre o gênero humano para o fim da elaboração de bons textos e, de resto, para qualquer atividade que requer o lampejo da genialidade.

Nunca se escreveu tanto como nos dias atuais e nunca foi tão fácil soltar palavras ao vento. Vai daí que o excesso da oferta resulta na piora da qualidade e fica cada vez mais difícil esbarrar com um Machado, um Eça, um Thomas Mann, um Dostoiesvki, Balzac, Faulkner, um Lima Barreto e tantas omissões quantas me forem possíveis. Ora, o mandamento mais rudimentar dos que escrevem é ter algo a dizer, da mais reles literatura ao enunciado de uma técnica ou feito científico, qualquer texto. Nunca se escreveu tanto e, em tese, qualquer um de nós pode se dedicar a fazê-lo, desde que se tenha paixão pela coisa, uma dose cavalar de condescendência para consigo e pouco senso do ridículo.

Como todo mundo acha que o seu texto é melhor do que o do outro, ficamos todos bem resolvidos nesse movediço campo das vaidades ilimitadas. E a questão de saber por que escrevemos fica sem solução. A coisa só não toma rumos de epidemia porque não é todo mundo que se atreve a mandar suas mal traçadas para o jornal do bairro ou publicar a prosa e a poesia que vão reduzir a pó-de-traque tudo o que se produziu nos séculos anteriores.

Já que toquei no assunto, confesso minha admiração pelo sujeito que consegue a façanha de escrever crônicas diárias para o jornal que lhe paga o pão de cada dia. Escrever por dinheiro não é nada fácil e a história da literatura mundial é repleta de exemplos de homens que foram obrigados a usar mais transpiração do que propriamente inspiração na luta pela sobrevivência e que, talvez por isso mesmo, deixaram como legados as obras-primas de que tanto nos orgulhamos.

Mas que ninguém perca suas mais íntimas esperanças. Nosso Paulo Coelho é incensado no mundo todo e do alto dos seus muitos milhões de exemplares vendidos e traduções não sei para quantas línguas, mostra que tudo é possível quando o sujeito é esperto o suficiente para por no papel aquilo que a massa ansiosa espera.

Nestes nossos tempos tão atribulados, aqueles textos mais ou menos açucarados que apontem para alguma direção, qualquer uma, costumam cair no gosto dos que ainda lêem. Salvo avaliação mais competente, aí reside o segredo da coisa toda. No mais, é prosseguir na árdua tarefa de garimpar os gênios que nos trazem enlevo e prazer. Eles estão por aí, escassos como sempre e cada vez mais invisíveis na multidão dos que se arriscam a escrever.



Visite também o blog  www.luisclaudioguedes.uniblog.com.br


postado por 78623 as 08:25:06 # 6 comentários
quinta, 13 março, 2008
A TERCEIRA MARGEM DO RIO... OU


Adolescência, parte dois

O ônibus avança o rio no dorso calmo de uma velha balsa de travessia. Permaneci ali por tempo indefinido, junto ao paredão do velho cais, absorto em minhas lembranças - enquanto o ar quente e seco fecha como cortina mais um típico dia de verão. Alheio ao burburinho da cidade pulsando logo atrás de mim, sinto calafrios ao me dar conta do vazio que a sua ausência significaria a partir de então. Espero em vão por um aceno seu vindo da embarcação, que agora toca a outra margem e mostra a estrada que te leva para sempre.

Quando dei por mim já era noite. O brilho dos faróis eram como centelhas saindo dos seus olhos. Rostos, sorrisos e cores passando em ritmos diferenciados. Eu caminhava, sozinho na multidão, as luzes formando matizes diversos em minhas retinas. Recordei nossos beijos na madrugada, naquela praça que foi cúmplice das delícias do nosso anonimato. Vi novamente o código do seu olhar a emitir mudas promessas que só eu sabia decifrar. O seu cheiro e o seu jeito, nada disso existe mais.

Teria sido amor? Mas que espécie de sentimento é esse, capaz de causar tanto aniquilamento? Muito deixou de ser dito para a mulher dividida entre dois amores,  uma sombra interdita que pairava entre nós. Ser, ou não ser (minha) - eis a dúvida que talvez nunca chegou a lhe consumir. Você não me pertenceu (eu bem sei) e a recíproca foi dolorosamente verdadeira.

Devolva-me, pois, todas as manhãs em que, sob o efeito do seu encantamento, dedicava-lhe sempre o meu primeiro pensamento. No melhor pedaço do meu bolo de chocolate a vontade de compartilhar com você o sabor e a vida toda, e no êxtase da minha febre noturna a sua presença sempre tão etérea. Não, não foi amor! Fui mais uma vítima do seu beijo perfeito, veleidade de ser feliz na morenice da sua pele e nos cachos dos seus cabelos colher todo o néctar.

Dei tempo ao tempo - que é senhor absoluto da razão - e a sua imagem se dissipou. Nada mais nem a saudade. A serenidade novamente dona de mim. Nossos livros lidos, os seus discos de tão bom Tom, os versos de Fernando Pessoa, tudo numa só poeira cósmica (por favor, queime as minhas cartas todas, ridículas por definição, e não deixe jamais vir à tona o romântico que não existe mais).

Faço um acerto de conta com o passado e, que bom!, você não é mais o centro do meu universo. Nem Eros nem Ágape, nosso amor nunca existiu - nossas almas, pensando bem, não eram tão gêmeas assim. Aprendi a conjugar o verbo amar do modo menos indicativo possível: tu, primeiríssima pessoa do meu singular, ficou no tempo passado. O rio que levou você de mim rumo à terceira margem já não pode mais sorrir da minha dor. Nossa equação se fecha num estranho triângulo de dois vértices. E eu sou só, um ponto logo adiante. O outro foi mais feliz.



postado por 78623 as 10:03:21 # 25 comentários
sábado, 08 março, 2008
O SIMPLES QUE DE TUDO EMANA...


O último dos moicanos

A pós-modernidade bate à nossa porta com todas as promessas de felicidade e vida fácil. Mas, sempre tem um "mas" para ajudar a relativizar, o bom senso recomenda evitar certos exageros. É o caso, por exemplo, da idade mais propícia para que os pais presenteiem seus filhos com o falsamente imprescindível telefone celular. Sem prejuízo de uma opinião mais abalizada, acho o fim da picada assistir a crianças de seis ou oito anos desfilarem por aí com suas maquininhas coloridas presas à cintura, como prova de status ou sei lá o quê, numa demonstração desnecessária da infância precocemente perdida.

Na pré-adolescência ainda vá lá, pois esta é a fase em que a meninada inicia seu rito de passagem para a fase adulta, momento em que estão mais propensos ao instinto gregário que valoriza mais as tribos e pede certa distancia dos cuidados paternos. Nesse caso, o mimo serve para a dupla utilidade da socialização da moçada e à sempre útil vigilância de quem paga a conta.

Não custa repetir que o bom senso vale muito nessas circunstâncias. Nunca tive celular e dele não sinto a menor falta, mas sei de gente que reage quase a ponto da indignação quando informo desse fato, reduzindo este cronista à condição de pária e inimigo número um da civilização:

- Como assim??!! Você ainda não tem celular ???!!!

Imaginem se eu dissesse que nunca botei os meus pés numa loja do McDonald's e que vou indo muito bem, obrigado. Não é postura antiamericana nem militância de qualquer espécie: é que esse hábito simplesmente não faz parte da minha escassa cultura gastronômica, com a vantagem de me livrar do excesso de lipídeos e carboidratos, que são os responsáveis pela atual onda de obesidade que ronda por aí.

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São regras básicas que trouxeram o homem das cavernas pré-históricas até o presente estágio da civilização

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São os efeitos colaterais da tal modernidade, ou pós-modernidade como preferem alguns. Como é o caso do individualismo exarcerbado que prioriza o "ter" em prejuízo do "ser", tema sobre o qual se debruçam os estudiosos para apontar como sinais mais visíveis a mania contemporânea que tem nos shoppings centers o local preferencial de culto e a propaganda como catequese mais eficaz.

Ora, todos sabemos que em lugar das engenhocas de última geração como computadores, MPs-4 e celulares ou tudo que é da última moda, tem muito filho por aí precisando receber alguns dos códigos-chave elementares ao convívio do bicho humano. Coisinhas básicas como um "por favor", "muito obrigado" ou um "não precisava, mas fiquei feliz com a sua gentileza". São ninharias, regrinhas básicas que, por sinal, ajudaram a trazer a humanidade das cavernas pré-históricas até o presente estágio da civilização.

Depois tem gente que ainda se assusta quando a televisão mostra alguns garotos partindo para o argumento da força bruta para conseguir os primeiros beijos de assustadas mocinhas, como é comum assistirmos volta e meia num desses programas de final de domingo. O homem de Neanderthal seria mais sutil. Comportamentos desse tipo acabam desembocando naquelas cenas de violência empregada por alguns pit boys de academia e seus músculos em profusão nas andanças pelas boates das grandes cidades, resultado do desconhecimento de etiqueta e noções mínimas de boas maneiras.

Sem levar em conta que toda tecnologia à disposição da rapaziada por vezes resulta na esculhambação que eles fazem com o nosso idioma em e-mails, blogs e afins, reduzindo-o a barbarismos como "bjins", "naums", "kd", "vamos tc?", "msg" e outros absurdos tais, que pretendem significar "beijinhos", "não", "cadê", "vamos teclar?" e "mensagem". Não é de lascar? E depois ainda tem quem defenda essa conversa mole de que a internet colaborou para que as pessoas voltassem escrever. Melhor voltar aos sinais de fumaça.

Antes que me acusem de rabugice, é preciso dizer que passo longe de ser portador do mal atual da tecnofobia e que costumo, sim, ir aos shoppings centers vez em quando. Faço bons passeios pelos corredores e normalmente me surpreendo com a quantidade de coisas que estão ali à disposição dos meus olhos e cartão de crédito e das quais, felizmente, não preciso para ser feliz.

P.S.: O autor do texto já usa celular há algum tempo, mas faz a ressalva de que a sua vida não mudou para melhor em razão dessa adesão à tecnologia. De modo que o texto não perdeu a validade.


postado por 78623 as 08:33:52 # 4 comentários
terça, 19 fevereiro, 2008
CÚMULOS


A espera

O velho carro de bois ficava no pátio da fazenda, embaixo da sombra do pé-de-manga mais que centenário. Tornara-se peça obsoleta depois que o pai comprou o carroção com pneus de caminhão no lugar das antigas rodas de madeira. A diversão preferida do menino era ficar deitado sobre as tábuas da engenhoca. Mãos cruzadas para proteger a cabeça da rusticidade da madeira, ele passava tardes inteiras a observar as nuvens no céu. Era divertido vê-las tomar as formas mais bizarras e, dali a pouco, se transformar em coisas novas.  

Ele vislumbrava torreões e muralhas de cidades imaginárias, bando de carneiros todos brancos e até um magnífico São Jorge, montado em seu cavalo, a espada apontada para um dragão de cúmulos – numa repetição gigantesca da cena triunfal que se vê por ocasião da lua cheia.  
 
Quando adolescente, imaginava um céu habitado por ninfas lascivas, soltas no céu daqueles outonos, as cabeças viradas para trás em olhares insinuantes. Também via os braços nus e o enorme dorso de uma imensa mulher nua, sentada sobre a vastidão das nuvens. As tardes passavam ligeiras e o menino ficava ali, em cima do carro de bois agora destituído de sua função principal, a esperar o movimento das nuvens, fazendo e desfazendo coisas sob o comando de um sudoeste mais ativo.

O pai implicava com a mania do menino e, às vezes, o despertava do seu sonhar acordado ali pelo meio da tarde, quando devia cumprir a obrigação diária de tanger as vacas para o curral da fazenda. O velho carro de bois e as tardes em que ele escrutinava as nuvens deixaram como legado sua principal virtude, agora que já era homem feito: a capacidade de saber esperar. Em verdade, sua vida pode ser resumida a esse mister.

O anjo da anunciação, que lhe explicaria enfim o sentido da vida, não apareceu nas inúmeras vezes em que ficou sentado na porteira da fazenda, com os olhos fixos na estrada que se perdia no horizonte, a se indagar sobre tantas filosofias e o porquê da existência. Esperou pela boa fortuna e o amor ideal, que viria no formato de belos olhos e longos cabelos, todos negros. Cogitou mudar de profissão e de país, no que resultou em novas expectativas por sonhos que não se realizariam.  

Esperou que o tempo se cumprisse, mas essa esperança também foi vã: o caminho do paraíso perdido não lhe foi revelado nem a Atlântida submersa rompeu a epiderme dos oceanos. Vieram os filhos e as rugas, mas só estas ficaram. Sob sua fronte já despencam mechas de cabelos brancos, e agora, como num ritual há muito esquecido, ele fica sentado por longos períodos na porta da casa.

Vasculha o céu em busca de formas antigas, perdidas em um canto qualquer da memória. Tudo o que consegue delinear são traços disformes de figuras pouco familiares. Mas espera assim mesmo, com resignação e paciência infinitas. Ele sabe que um dia um sudoeste mensageiro ainda vai compensar toda expectativa e devolver sonhos dissolvidos em nuvens de outros céus.    


postado por 78623 as 12:00:13 # 4 comentários
quinta, 14 fevereiro, 2008
CERTA VEZ UM OUTONO

Inoportuno

- A única coisa que temos em comum é o ar que respiramos.

O homem releu o e-mail na tela do computador e concluiu que tinha sido tolice falar da paixão que sentia pela moça. A frase seguinte ali na tela não dava margem a dúvidas:

- Olha, vou ser sincera com você: esse sentimento a que você se refere é só seu. Não me procure mais e não me escreva. Acho que fui tolerante com você, mas a verdade é que o acho antipático e, às vezes, inoportuno.

Respirou fundo. Menos para compartilhar o pouco que podia ser compartilhado e mais para se recompor do susto e do sentimento de rejeição. A primeira vez que a viu foi no elevador da repartição. Iam para o mesmo andar do prédio e a moça, ao sair, sustentou o olhar no seu por alguns instantes e seu rosto se abriu num largo sorriso. Ah, aquele sorriso! Era algo assim como "um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz", na poética definição de Guimarães Rosa, que recordou ter visto em algum lugar. Por conta daquele sorriso ele se atirara a uma paixão adolescente, que agora devia esquecer sem outra alternativa.

A moça causara certa sensação na repartição. Pele clara e tipo mignon, cabelos loiros e compridos, olhos de cor indefinida - com matizes entre o azul e o verde, além de cintilações relutantes de um castanho fugaz. Os seios grandes, sempre valorizados por um soutien um número abaixo do recomendado -- detalhe que não escapou à sempre corrosiva concorrência feminina e nem à avidez dos olhares masculinos do entorno. 

Não gostou quando ouviu de um colega algo sobre a anatomia da moça, quis reclamar, mas ficou calado. Não podia trair a paixão platônica que mantinha pela mulher em um rasgo bobo de ciúmes. Descobriu mais tarde que havia uma expectativa muda no ambiente sobre quem conquistaria o coração da nova funcionária da repartição. 
 
Agora, a desilusão ali na tela do computador. Não foi por falta de aviso. A mulher já havia dito mais ou menos a mesma coisa numa mensagem anterior, embora em tom mais ameno e cortês. "Apaixone-se e desapaixone-se, mesmo sabendo que vai sofrer, pois essa é uma forma de saber que se continua vivo", ela dissera. Citou ainda um conhecido poema de Baudelaire à guisa de não: "Embriague-se nem que seja de vinho, poesia ou virtude, para não sentir o fardo horrível do tempo". Ele achou aquilo legal. Um "fora" sustentado pela poesia de Baudelaire tinha seu charme, embora a rejeição doesse bastante.

Confessar sua paixão de forma tão atabalhoada havia sido tolice, mas agora estava feito. Nos últimos meses havia perdido a concentração no trabalho, a cabeça solta numa nuvem qualquer – perdida entre quimeras e sentimentalidades de leveza boa, mas moldadas em incertezas. Contou-lhe que era casado e que tinha um filho. Outro erro. Depois disso, a moça passou a evitá-lo. Não teve oportunidade de lhe dizer que não achava correto mentir e que as pessoas casam e descasam, desde que se sintam seguras o bastante de que a guinada em suas vidas vale à pena.

O que sabia a respeito da mulher que transformara sua vida num turbilhão? Quase nada. Alguma coisa sobre um casamento frustrado que a levou ao nordeste do país e depois ao litoral do Espírito Santo ou de Santa Catarina, não estava bem certo. Além da sentença lacônica que ouviu dela sobre o ex-marido:

- Ele era um completo imbecil.

Releu o e-mail mais uma vez. Ele próprio se sentindo mais um imbecil na vida dela. O que fazer para evitar a nostalgia do que não houve e o fato de não ter sabido nada sobre o seu dia-a-dia? Imaginou como teria sido sua infância, será que tivera catapora, cachumba e sarampo? Que sonhos e ilusões ficaram pelo caminho daquela quase balzaquiana, como seriam seus pais e irmãos? Qual seu livro de cabeceira (talvez um exemplar com as poesias de Baudelaire?), a música de que mais gosta, os sonhos, a foto em preto-e-branco de quando ela era criança e que ele talvez jamais pudesse ver. Para qual deus ela enviaria a fumaça dos seus incensos e por quem dobrariam os sinos daquele sorriso que tanto o encantara? Tarde demais para saber.

A exemplo de Baudelaire ele também perguntava "...a tudo aquilo que geme, a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala..." se existiria mesmo a tal alma gêmea. Aquela que permite unir nos mesmos corpos, espaço e tempo Eros e Ágape, esses amores complementares. Você acredita na existência de almas gêmeas?, perguntou-lhe certa vez.  Existiriam duas pessoas afins a ponto da relação beirar o transcendental? Não chegou a saber o que ela pensava a respeito. Contou-lhe que sempre esperara pelo dia de encontrá-la, a tal alma gêmea, e que essa seria uma forma de tornar mais leve o tal "fardo do tempo". Chegou a pensar que fosse ela, a moça do elevador, o seu par perfeito. Erro de cálculo, evidenciado pelo e-mail ali na tela.

Ele idealizara nela uma mulher que, embora tivesse o mesmo sorriso largo, aquela mesma voz de tom tão musical aos seus ouvidos, aquele mesmo jeito lânguido de correr os dedos entre os cabelos; uma mulher com a mesma pinta adorável que ela exibia do lado da omoplata esquerda, alguém que também tivesse aquele mesmo tique nervoso de expandir as pálpebras ao grau máximo quando algo não ia bem ou a incomodava. Uma mulher, enfim, que, a despeito de ter os mesmos olhos furta-cor da loira que conhecera no elevador e o seu mesmo nariz ligeiramente adunco, poderia ser, mas talvez não fosse, a mesma pessoa que desenhara como sendo sua outra metade.

Inoportuno, ela dissera. Não havia espaço para essa tolice de almas gêmeas, resignou-se. Agora, onde ele queria palavras, ela era só silêncios... e desencontros. A alma gêmea de quem ele pensou gostar era uma mulher apenas idealizada, que existia e não existia.

"Se eu fosse um pássaro, queria ser uma águia", a moça lhe disse certa vez durante o intervalo do cafezinho na repartição. Contou seu desejo de conhecer a Índia e o Caribe, para logo em seguida censurar nele o sonho classe média de fincar raízes em um porto seguro qualquer. Ser funcionário público com horários e rotinas era tudo que ela mais abominava.

- Não nasci para isso - confidenciou cheia de certezas convictas.

Naquele final de tarde, o homem decidiu quebrar a rotina após deixar o Departamento. Parou no primeiro bar que encontrou para tentar digerir melhor a desilusão e o vazio que a falta dela provocou. Pensava na moça e na aspereza das suas palavras. Não conseguia entender a mudança no seu humor. Certa vez, num gesto encantador, ela lhe botara a língua em pleno horário de serviço. Quando ele perguntou o porquê do gesto, ela disse sorrindo: 

- Fiz porque senti vontade. Só por isso - emendou com um sorriso brejeiro, que o fez imaginar como seriam agradáveis os dias ao seu lado.   
 
Por que o fato dele ser casado a incomodara tanto? Ela seria mesmo tão indiferente ao seu sentimento? Qual o motivo de tanta irritação?  Antipático até dava para aceitar - arrogante talvez -, mas inoportuno era um tanto demais. Por que ela traíra seu ar conservador a despeito de ter se mostrado tão vanguardista nas primeiras conversas que tiveram? Sozinho, numa mesa no fundo do bar, ele pediu algumas cervejas – que não contribuíram muito para melhorar seu estado de espírito. Dali, do seu canto de bar, após sentir os olhos inundados por um ardor rápido, ele deixou escapar um de seus pensamentos e disse em voz alta:

- Inoportuno é a puta-que-o-pariu!

As pessoas nas mesas próximas trocam olhares indecisos. A um sinal do dono do bar, que permaneceu impassível, cotovelos encostados no balcão de madeira, o garçom se aproxima e pergunta:

- O senhor pediu a conta?


postado por 78623 as 12:00:06 # 5 comentários
terça, 05 fevereiro, 2008
ONOMATOPÉIA

Chiclé de bola

Do inevitável fato de que o sujeito que faz 40 anos não tem como escapar do balanço de vida, o homem chegou a uma conclusão: pesados os prós e os contras da existência que agora somava quatro décadas, tinha alguma coisa, sim, a comemorar. Havia algo, no entanto, que o incomodava. Uma coisinha à-toa, é bem verdade, mas que lhe parecia incompreensível. Jamais conseguira, por mais que tentasse, fazer aquelas bolas de chicletes que os adolescentes moem e remoem e depois disparam boca afora num sonoro ploc!

Sabia de antemão que não teria outros 40 anos para tentar o que nesta altura considerava uma façanha. Excluído o fato disso parecer ridículo para um homem de meia-idade, provavelmente esse tipo de preocupação não mais se repetiria quando, e se, chegasse aos 80. Além do mais, o assunto já não faria muito sentido: essa é uma idade mais propícia a epitáfios do que a amenidades do tipo estourar bolas feitas com goma de mascar.

Não conhecia ainda as pirâmides do Egito nem Paris, como sonhara um dia. Ainda assim, podia se gabar de pelo menos não ter ficado restrito aos limites da vila em que nascera. Também não acumulara, nos mais de 20 anos de trabalho árduo, prestígio ou dinheiro suficientes para passar um final de semana na ilha de Caras, mas se regozijava por conseguir atender aos seus poucos e franciscanos hábitos. Nada disso o incomodava muito. Já o fato de não conseguir fazer uma reles bola de chicletes era chato a beça.

Feitas as contas, concluiu ter realizado dois dos três feitos que, reza a lenda, justificam a existência do homem: plantara não sei quantas árvores e tivera um filho. Faltava o livro, para o qual tivera alguns palpites, mas não lhe sobravam tempo nem talento para se por à obra. Lera Kafka, Dostoievski e Tosltoi e nisso sentia grande prazer, mesmo que ainda não tivesse em casa a biblioteca que lhe permitisse o namoro com a literatura. Nada mal, ele concluiu, a não ser por esse negócio da bola de chicletes que ele inúmeras vezes tentara fazer e tudo o que conseguia era esparramar a goma macerada sobre a cara decepcionada.

Deus testemunhara seu esforço militante para, se não mudar o mundo, pela total impossibilidade da empreitada, pelo menos transformar a aldeia do seus dias de juventude. A maturidade ajudava compreender a lógica cínica iniciada quando os primeiros macacos desceram dos galhos para formar a civilização: alguns mandam, muitos obedecem e daí resultam os déspotas e as muitas ideologias que o mundo já conheceu. Não obstante o fato do homem ter pisado na lua e de outros tantos e prodigiosos avanços da ciência a que assistira ao longo da vida, persistia o detalhe indiscreto da bola de borracha e o ploc estrondoso que tanto admirava na boca das colegiais, mas que jamais conseguira fazer. Isso não o tornava o pior da sua espécie, obviamente, mas indicava a proximidade do seus limites.

Não foi por falta de tentativas que ele não realizou esse sonho besta. Perdeu a conta de quantas vezes amassara a massa adocicada até o ponto de lhe causar náuseas e ainda assim... nada. Não conseguia fazer a bola tão desejada. Lembrou desse e de outros fracassos ao longo dos 40 anos de vida e concluiu que tinha motivos para festejar. Abriu uma garrafa de champanhe e, na falta de algo melhor, imitou o som que faltava em seu currículo.





postado por 78623 as 12:00:01 # 5 comentários
terça, 25 dezembro, 2007
ANTICLIMAX

Descompasso

Ilustração: www.amarildo.com.br

O homem ficou sem ação quando ela pediu que ele lhe desse na cara. Que idéia maluca era aquela agora – reclamou enfático. Em três anos de casamento a mulher nunca reclamara do estilo convencional que adotaram na vida a dois. E parecia até feliz com isso. Glorinha, insistia, fazia questão até. Eramos ali, pasmo, olhando incrédulo para sua mulher - o anticlimax que a idéia provocara cada vez mais evidente.

- Que merda é essa agora, Glorinha? Como é que você quer que eu dê na cara da mulher que escolhi para ser a mãe dos meus filhos? - quis saber, enquanto sentava-se na beirada da cama, sinalizando que naquela noite não iria dá pé.

Glorinha puxou as duas alças do soutien que pendiam sobre os braços e o ajeitou ao molde dos seios. Num pulo ágil, correu até o canto do quarto onde ficava o aparelho de som, escolheu um CD ao acaso e o ambiente foi tomado pelo som rápido, quase frenético, de uma música dançante . Voltou para o lado do marido balançando o corpo de um lado para o outro, os dedos polegar e indicador estalados em sincronia com a música. Com um movimento rápido ela voltou para o leito e envolveu seu tronco num aperto forte e sensual.

- Benzinho, vamos fazer algo diferente hoje, vai? Realiza sua fantasia e faz de conta que sou uma prostituta. Vai, dá na minha cara, arranca minha lingerie. Vamos acabar com essa mesmice. Por favor, benhê?

O homem livra-se do abraço e tateia o criado-mudo em busca das roupas atiradas ali minutos antes. Com a expressão contrariada, explica para Glorinha que considera o casamento uma instituição sagrada e que só conseguia vê-la como uma quase santa, como puta jamais.

-E quer saber mais? Por hoje chega. Desliga essa música ridícula e vamos dormir, que amanhã preciso chegar mais cedo no trabalho - ele ordena. Volta para a cama e cobre-se com o lençol, sinalizando que dera o assunto por encerrado. 

A mulher achou melhor mudar de tática. Deitou-se por sobre o marido e começou a sussurrar o repertório de obcenidades que conhecia, enquanto esfregava seu corpo no dele. Não custava nada – custava? – ele realizar sua fantasia. Ela sentia-se infeliz e só queria apimentar um pouco o casamento. Pelo andar da carruagem, a coisa iria descambar para inevitável discussão da relação, anteviu Eramos. Ele tentou argumentar: por acaso não era um bom marido? Faltava alguma coisa em casa? O que mais ela queria? Implorou para que desligasse o som e apagasse a luz, pois tinha trabalho na manhã seguinte.

Foi o que bastou para ela explodir num choro convulsivo.

- Eu quero emoção, quero me sentir viva. Chega dessa merda sempre igual a vida toda, não agüento mais lavar e passar a merda da sua roupa e cozinhar a droga da sua comida.

- Então é essa gratidão que recebo por trabalhar feito um burro de carga, por sonhar com um lar de verdade e um monte de filhos só nossos? - Erasmo retrucou, ejetando-se da cama como se tivesse sido picado por mil escorpiões.

- Será que você não entende – ela agora falava aos gritos – que estou cansada desta vida, que não suporto mais essa rotina. Quantas vezes nós saímos nos últimos três anos? Vamos, fale. Ou você faz do jeito que eu quero ou amanhã de manhã eu volto para a casa da minha mãe. Vamos – ela desafiou - dê na minha cara e faça amor de verdade comigo.

Mais tarde, na delegacia, ele explicou que sentira uma raiva incontrolável, uma força maior que a sua vontade. Com a mão espalmada, deu na face que a mulher lhe oferecia com intensidade que julgara ser incapaz. A música ainda dominava o quarto. Glorinha, o rosto avermelhado pelo tapa, olhou para ele com um ódio inusitado.

- Desgraçado, você nunca mais põe essas mãos sujas em mim – ela gritou. Em seguida, virou-se para o lado e fingiu dormir.


postado por 78623 as 08:50:01 # 0 comentários
sexta, 23 novembro, 2007
CRONICAMENTE NO BLOG DO NOBLAT

Deu no blog do Noblat

O jornalista Ricardo Noblat, um dos pioneiros na atividade da análise da política em blogs no Brasil, criou a seção "Vale a pena acessar" na página que mantém no site do jornal carioca O Globo. Ele recomendou aos seus leitores, em mensagem postada na quinta-feira 22/11, que visitassem o nosso Cronicamente Inviável. Confira:

Vale a pena acessar

Enviado por Ricardo Noblat -
22.11.2007| 11h00mCronicamenteinviavel é o blog do jornalista Luís Cláudio Guedes "dedicado ao que Antonio Candido chamou de "o gênero menor" da literatura. Assessor de imprensa, mineiro do norte do Estado, Luis mora em Brasília há pouco mais de cinco anos e tem outra paixão, além de escrever crônicas, o jornalismo político. Conheça aqui o blog dele.

Sugiro diariamente sites, blogs e fotologs que valham a pena ser acessados. Esses passarão a fazer parte da seção aí acima, do lado esquerdo, chamada "Vale a pena acessar".

Mandem sugestões para noblat@uol.com.br Agradeço desde já


Enviado por Ricardo Noblat - 22.11.2007| 9h12m

Para acessar o Blog do Noblat, clique aqui.


postado por 78623 as 05:59:05 # 4 comentários
 
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