CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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quinta, 19 junho, 2008
NOSSOS SERTÕES


A paz perdida

Não faz tanto tempo assim era possível dormir de portas e janelas abertas na maioria das nossas pequenas cidades bem típicas do interior do país, dessas entre cinco e 20 mil almas  -- locais em que existia até outro dia a camaradagem amistosa entre vizinhos e cadeiras nas calçadas nos fins de tarde. Sabe-se lá o porquê, certamente o avanço da miséria entre nós é uma das causas, mas o fato é que está ficando difícil a vida em lugares antes aprazíveis para morar e viver. E olha que não estou falando de 100 mas apenas de 10 ou 15 anos. Bons tempos.

Virou rotina: todo final de semana, quando ligo para saber as novidades da minha cidade natal, lá do Norte de Minas, recebo o informe de que entraram na "casa de seu fulano", "roubaram o supermercado tal". E por aí vai. São relatos de assalto à mão armada nas estradas da região, assalto a ônibus e outras tragédias nas quais o ser humano mostra o que tem de pior. Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo de lá não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo.

É o caso de repetir o lamento que ouvi certa vez de um conhecido fazendeiro, figura folclórica lá da região, que teve sua propriedade de 300 e tantas reses transformada em assentamento, por obra e graça da Reforma Agrária, e disso se lamentava:

- A situação da lavoura está "pecuária".

Precária, com todas as letras, a coisa anda mesmo. E não há governo, não tem polícia que dê jeito na facilidade da ação e na desfaçatez desses pilantras amigos do alheio. Que a miséria empurre um pai de família em desespero para o ilícito até se compreende, pois não há dor mais lancinante do que assistir à fome de um filho. Mas daí a servir de justificativa para a falta de vergonha dos larápios, daqueles que detestam o velho e bom batente, vai uma distância sem fim.

Respeitadas as devidas proporções, o "noticiário" que recebo da minha cidade natal não faz inveja a metrópoles como o Rio de Janeiro e São Paulo

Hoje em dia até uma simples parada para a troca do pneu furado já é motivo de alerta para os usuários das estradas vicinais da nossa região, antes tão solitárias quanto seguras para os viajantes. O que não faltam são relatos de motoqueiros assaltados ao parar para abrir uma porteira ou o caso de um mototaxista atacado no final de uma corrida para local deserto. Nesse ritmo, a delinqüência logo, logo começa importar para o nosso Norte de Minas os temíveis seqüestros-relâmpagos, que tanto têm assustado a classe média dos grandes centros. A polícia, claro, aprende e reage em ritmo bem mais lento e vai sempre a reboque da criminalidade.

Nos dias de juventude da minha geração – que foi ainda ontem – não tinha nada disso. Lembro que, por ausência de uma boa casa do ramo, os casais de namorados usavam o artifício sempre muito criativo da fugidinha para os arredores das nossas cidades, onde conseguiam local pouco movimentado que servisse ao lazer sexual. O motel bom e barato, ou "matel" como preferiam alguns, só dependia de um carrinho meia-sola - ainda que fosse um fusquinha velho. Sabe como é, para o sujeito não fazer feio aos olhos da amada. No mais, uma noite bem escura que evitasse a maledicência dos curiosos. Uma aventura dessas nos dias de hoje seria uma temeridade.

Um amigo meu, de quem não posso declinar o nome, por ser hoje respeitado cidadão de meia idade e dedicado pai de bem constituída família, era useiro e vezeiro desse expediente noturno. Até que, um dia, indo o negócio amoroso muito bem encaminhado, surge uma vaca não se sabe de onde e enfia a carona dentro do carro - de portas abertas para melhor comodidade do casal. Dona mimosa, tascou suculenta lambida no meio das costas lá dele, tão caprichosa na carícia, e aí não estão excluídos a baba pegajosa e o focinho frio do animal, que o distinto, mesmo saudável, levou coisa de duas semanas para ter de volta seu normal desempenho nas artes da amorosidade. Um sustinho de nada, se comparado com o perigo de ser surpreendido com um tresoitão apontado para a cabeça, risco sempre presente nesse nosso tempo violento.

Sei da história de uma pessoa que recusou emprego num restaurante da minha cidade natal, mesmo precisando muito dele, por receio de voltar para casa num bairro da periferia por volta de 11 horas da noite. Nunca é demais lembrar que a cidade ficou, por um bom tempo, sem juiz de Direito, promotor ou delegado. Fato que diz muito sobre o crescimento da violência e a sensação de terra de ninguém vivida pelos moradores.

Falta dizer, nas poucas linhas que me restam, das inúmeras vezes que percorri , a pé, as três léguas que separam a rodovia por onde passa o ônibus que atende a região e o sítio da minha família, que tem simpática lagoa ao lado da sede, onde os sapos coaxam a noite toda num "foi, não foi! foi, não foi!", que é sinfonia das mais agradáveis. Naquela época, medo eu só tinha mesmo de alma penada, saci-pererê, da mula-sem-cabeça e de não conseguir, um dia, ter a sonhada "condução", ainda que fosse um fusquinha, capaz de me livrasse do sacrifício daquela caminhada. O certo é que nossa antiga paz foi se embora. Isso foi.


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postado por 78623 as 08:31:24 #
3 Comentários

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