CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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quinta, 01 maio, 2008
O QUARTO DE BORDEL


Dois pontos cardeais

Era noite de sábado e um sudeste preguiçoso soprava manso lá do lado do Cais do Porto. O céu estava claro e a pequena cidade fervia com a agitação do final de semana. O homem entra no quarto exíguo, onde todo mobiliário se resumia a uma antiga cama de beiral torneado, coberta com um velho colchão de molas. Em um dos cantos do aposento ficava uma rudimentar mesinha com tampo de madeira, cheio de perfumes baratos. Um rádio a pilhas ocupava o centro da mesa, mas agora estava desligado. Do outro lado, em perpendicular com a mesa, a cadeira de pernas bambas acolhia uma bacia esmaltada em branco, salpicada de pontos negros que denunciavam seu muito uso.

A mulher fecha a porta e pede que ele espere um instante. Vai até o canto do cubículo, onde lava o rosto e os braços na velha bacia. Um buraco na janela foi providencialmente coberto com papelão e lá está estampado o nome de uma conhecida marca de palha de aço. A lâmpada fraca presa ao teto por um fio longo empresta ao ambiente a penumbra que tranqüiliza os mais inexperientes, mas confere ao lugar um clima triste, talvez pelo tom amarelado da lâmpada empoeirada.

Sem nenhuma inibição, a moça livra-se das roupas, mas mantém a lingerie. Sorri para o cliente com uma rápida piscadela. Ele continua de pé e contempla seus movimentos ágeis. Ela cruza o pequeno espaço que a separa da mesinha e, após abrir um frasco de leite-de-rosas, começa a lambuzar o corpo numa pose sensual.

O homem agora está deitado na cama, a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas na altura da nuca, olhos bem abertos para o ritual da moça ali na sua frente. Admirava suas beleza e juventude. Resolve conversar, rindo da mania besta de sempre querer fazer psicologia de alcova em ocasiões assim. O bate-papo não fluiu no início, pois a mulher achou esquisito jogar conversa fora antes da satisfação dos instintos masculinos, mas não demorou para ficar bem à vontade com o cliente que via pela primeira vez.

Falou da decepção com o primeiro namorado e da dura reação do pai, o dedo em riste e a dolorosa argüição de que a porta é sempre a serventia de qualquer casa. A mulher dizia que ainda sonhava com um bom casamento ou com uma boa quantia em dinheiro, pois contava voltar para a cidade natal e cobrar do pai os anos todos de sofrimento. Ele a estimulava a falar mais, pois queria confirmar a impressão de que aquela ali não tinha vocação para o ofício.Mais uma dessas típicas histórias de putas tristes, ele pensou, já meio entediado com o tagarelar da companhia daquele sábado. E a moça falou muito, abrindo-lhe a alma com uma certa sensação de alívio.

- Gostei do seu jeito. Qual é o seu nome? -, ela disse algum tempo depois, enquanto acariciava o rosto dele com a mão direita espalmada.

Num impulso que nunca soube explicar, omitiu seu nome verdadeiro e disse o primeiro que veio à cabeça. Apoiada nos cotovelos, as mãos segurando o rosto, ela ficou olhando-o por um longo tempo.

- Você me lembra o Ritchie, sabia? -, ela disse, enquanto deslizava o dedo indicador na curvatura do nariz dele.   

O homem ensaiou uma cena de ciúmes pela lembrança de outro nome masculino que não o seu. Ela abriu um sorriso enorme:

- Seu bobo, o Ritchie é um cantor, não é para mim não.


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Os olhares femininos se cruzaram. Melissa manteve seu ar blasé, distante de tudo que não fosse seu mundo.  A outra não escondia sua dor e decepção
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Lisonjeado com a comparação, jurou não saber de quem se tratava e resolveu seguir com o jogo de sedução. A moça, não obstante toda experiência, deixou-se envolver. Ele então falou, com certo exagero, das novas sensações que acabara de conhecer ao lado dela. Fazia-se teatral, enquanto pensava em Melissa, sua grande paixão da adolescência, que o teria odiado 800 mil vezes se soubesse o quanto se deliciava agora com o seu amor de locação. Melissa, que tantas vezes lhe dissera não, crédula nas promessas do fogo eterno a que o padre da pequena cidade fazia menção durante as missas de domingo, enquanto trocavam olhares ternos e de eterna promessa.

Olhou para o teto do quarto do bordel, de onde pendia o fio que sustentava a lâmpada de luz fraca e lembrou das muitas vezes em que relutara em cruzar o corredor escuro que separa a porta da rua e o bar ali ao lado, de onde podia ouvir o barulho festivo das que mulheres bebiam e fumavam à espera dos seus clientes. Desistira em muitas delas, por também temer as profecias do padre, mas sobretudo pela lembrança sempre onipresente de Melissa, que prometia muito com seus olhos lânguidos e que nunca lhe deu nada – nem um cândido beijo roubado.

Foram despertos de seus pensamentos por batidas fortes na porta. O administrador da casa, uma mistura de gerente e cafetão, que ele conhecia bem, queria saber o motivo de tanta demora com o “freguês aí”. Ela lançou um olhar cúmplice para ele, piscou o olho esquerdo enquanto respondia elevando a voz:

- É que o moço aqui tá demorando seu Odorico.  

- Pois ele que pague dobrado -, respondeu o homem, notório por resolver as pendências do ofício detestável com a ajuda do revólver que trazia escondido na cintura.

Meio sem graça, ele pagou o que devia e pensou que ela o havia amado para muito além daqueles cinco cruzeiros. Olharam-se por um instante, enquanto ela segurava o trinco da porta. Ele quis beijá-la, mas ela se esquivou:   

- Na boca não, pois posso me apaixonar -, disse com a cara séria.

Voltou a vê-la uma vez mais durante a quermesse na Praça da Matriz. A moça estava em pé, em frente da barraca de jogos, acompanhada por outras mulheres, que ele julgou conhecer de outras noites no bordel. Ela abriu o melhor dos sorrisos, que logo se desmanchou ao vê-lo ao lado de Melissa, pele branca e porte altivo realçado pela saia plissada comprada numa recente viagem à capital. Por uma fração de segundos os olhares femininos se cruzaram. Melissa fez o seu habitual ar blasé, de total indiferença para tudo que não dissesse respeito ao seu mundo burguês.

Ele virou o rosto para o outro lado, a tempo de perceber a decepção no rosto da amante recente. Lembrou o episódio e as mulheres muito tempo depois, mas considerou que não fora assim tão pusilânime: era apenas um garoto com a vida toda pela frente. Aquelas mulheres eram tão distante entre si quanto dois pontos cardeais. Pensou, não sem uma ponta de amargura, que o mesmo valia agora para ele e o passado.    


postado por 78623 as 09:30:48 #
4 Comentários

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