CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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quinta, 14 fevereiro, 2008
CERTA VEZ UM OUTONO

Inoportuno

- A única coisa que temos em comum é o ar que respiramos.

O homem releu o e-mail na tela do computador e concluiu que tinha sido tolice falar da paixão que sentia pela moça. A frase seguinte ali na tela não dava margem a dúvidas:

- Olha, vou ser sincera com você: esse sentimento a que você se refere é só seu. Não me procure mais e não me escreva. Acho que fui tolerante com você, mas a verdade é que o acho antipático e, às vezes, inoportuno.

Respirou fundo. Menos para compartilhar o pouco que podia ser compartilhado e mais para se recompor do susto e do sentimento de rejeição. A primeira vez que a viu foi no elevador da repartição. Iam para o mesmo andar do prédio e a moça, ao sair, sustentou o olhar no seu por alguns instantes e seu rosto se abriu num largo sorriso. Ah, aquele sorriso! Era algo assim como "um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz", na poética definição de Guimarães Rosa, que recordou ter visto em algum lugar. Por conta daquele sorriso ele se atirara a uma paixão adolescente, que agora devia esquecer sem outra alternativa.

A moça causara certa sensação na repartição. Pele clara e tipo mignon, cabelos loiros e compridos, olhos de cor indefinida - com matizes entre o azul e o verde, além de cintilações relutantes de um castanho fugaz. Os seios grandes, sempre valorizados por um soutien um número abaixo do recomendado -- detalhe que não escapou à sempre corrosiva concorrência feminina e nem à avidez dos olhares masculinos do entorno. 

Não gostou quando ouviu de um colega algo sobre a anatomia da moça, quis reclamar, mas ficou calado. Não podia trair a paixão platônica que mantinha pela mulher em um rasgo bobo de ciúmes. Descobriu mais tarde que havia uma expectativa muda no ambiente sobre quem conquistaria o coração da nova funcionária da repartição. 
 
Agora, a desilusão ali na tela do computador. Não foi por falta de aviso. A mulher já havia dito mais ou menos a mesma coisa numa mensagem anterior, embora em tom mais ameno e cortês. "Apaixone-se e desapaixone-se, mesmo sabendo que vai sofrer, pois essa é uma forma de saber que se continua vivo", ela dissera. Citou ainda um conhecido poema de Baudelaire à guisa de não: "Embriague-se nem que seja de vinho, poesia ou virtude, para não sentir o fardo horrível do tempo". Ele achou aquilo legal. Um "fora" sustentado pela poesia de Baudelaire tinha seu charme, embora a rejeição doesse bastante.

Confessar sua paixão de forma tão atabalhoada havia sido tolice, mas agora estava feito. Nos últimos meses havia perdido a concentração no trabalho, a cabeça solta numa nuvem qualquer – perdida entre quimeras e sentimentalidades de leveza boa, mas moldadas em incertezas. Contou-lhe que era casado e que tinha um filho. Outro erro. Depois disso, a moça passou a evitá-lo. Não teve oportunidade de lhe dizer que não achava correto mentir e que as pessoas casam e descasam, desde que se sintam seguras o bastante de que a guinada em suas vidas vale à pena.

O que sabia a respeito da mulher que transformara sua vida num turbilhão? Quase nada. Alguma coisa sobre um casamento frustrado que a levou ao nordeste do país e depois ao litoral do Espírito Santo ou de Santa Catarina, não estava bem certo. Além da sentença lacônica que ouviu dela sobre o ex-marido:

- Ele era um completo imbecil.

Releu o e-mail mais uma vez. Ele próprio se sentindo mais um imbecil na vida dela. O que fazer para evitar a nostalgia do que não houve e o fato de não ter sabido nada sobre o seu dia-a-dia? Imaginou como teria sido sua infância, será que tivera catapora, cachumba e sarampo? Que sonhos e ilusões ficaram pelo caminho daquela quase balzaquiana, como seriam seus pais e irmãos? Qual seu livro de cabeceira (talvez um exemplar com as poesias de Baudelaire?), a música de que mais gosta, os sonhos, a foto em preto-e-branco de quando ela era criança e que ele talvez jamais pudesse ver. Para qual deus ela enviaria a fumaça dos seus incensos e por quem dobrariam os sinos daquele sorriso que tanto o encantara? Tarde demais para saber.

A exemplo de Baudelaire ele também perguntava "...a tudo aquilo que geme, a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala..." se existiria mesmo a tal alma gêmea. Aquela que permite unir nos mesmos corpos, espaço e tempo Eros e Ágape, esses amores complementares. Você acredita na existência de almas gêmeas?, perguntou-lhe certa vez.  Existiriam duas pessoas afins a ponto da relação beirar o transcendental? Não chegou a saber o que ela pensava a respeito. Contou-lhe que sempre esperara pelo dia de encontrá-la, a tal alma gêmea, e que essa seria uma forma de tornar mais leve o tal "fardo do tempo". Chegou a pensar que fosse ela, a moça do elevador, o seu par perfeito. Erro de cálculo, evidenciado pelo e-mail ali na tela.

Ele idealizara nela uma mulher que, embora tivesse o mesmo sorriso largo, aquela mesma voz de tom tão musical aos seus ouvidos, aquele mesmo jeito lânguido de correr os dedos entre os cabelos; uma mulher com a mesma pinta adorável que ela exibia do lado da omoplata esquerda, alguém que também tivesse aquele mesmo tique nervoso de expandir as pálpebras ao grau máximo quando algo não ia bem ou a incomodava. Uma mulher, enfim, que, a despeito de ter os mesmos olhos furta-cor da loira que conhecera no elevador e o seu mesmo nariz ligeiramente adunco, poderia ser, mas talvez não fosse, a mesma pessoa que desenhara como sendo sua outra metade.

Inoportuno, ela dissera. Não havia espaço para essa tolice de almas gêmeas, resignou-se. Agora, onde ele queria palavras, ela era só silêncios... e desencontros. A alma gêmea de quem ele pensou gostar era uma mulher apenas idealizada, que existia e não existia.

"Se eu fosse um pássaro, queria ser uma águia", a moça lhe disse certa vez durante o intervalo do cafezinho na repartição. Contou seu desejo de conhecer a Índia e o Caribe, para logo em seguida censurar nele o sonho classe média de fincar raízes em um porto seguro qualquer. Ser funcionário público com horários e rotinas era tudo que ela mais abominava.

- Não nasci para isso - confidenciou cheia de certezas convictas.

Naquele final de tarde, o homem decidiu quebrar a rotina após deixar o Departamento. Parou no primeiro bar que encontrou para tentar digerir melhor a desilusão e o vazio que a falta dela provocou. Pensava na moça e na aspereza das suas palavras. Não conseguia entender a mudança no seu humor. Certa vez, num gesto encantador, ela lhe botara a língua em pleno horário de serviço. Quando ele perguntou o porquê do gesto, ela disse sorrindo: 

- Fiz porque senti vontade. Só por isso - emendou com um sorriso brejeiro, que o fez imaginar como seriam agradáveis os dias ao seu lado.   
 
Por que o fato dele ser casado a incomodara tanto? Ela seria mesmo tão indiferente ao seu sentimento? Qual o motivo de tanta irritação?  Antipático até dava para aceitar - arrogante talvez -, mas inoportuno era um tanto demais. Por que ela traíra seu ar conservador a despeito de ter se mostrado tão vanguardista nas primeiras conversas que tiveram? Sozinho, numa mesa no fundo do bar, ele pediu algumas cervejas – que não contribuíram muito para melhorar seu estado de espírito. Dali, do seu canto de bar, após sentir os olhos inundados por um ardor rápido, ele deixou escapar um de seus pensamentos e disse em voz alta:

- Inoportuno é a puta-que-o-pariu!

As pessoas nas mesas próximas trocam olhares indecisos. A um sinal do dono do bar, que permaneceu impassível, cotovelos encostados no balcão de madeira, o garçom se aproxima e pergunta:

- O senhor pediu a conta?


postado por 78623 as 12:00:06 #
5 Comentários

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quarta, outubro 19, 2011 10:09 

Evaldo:
Prezado Guedeira,

não tenho a mesma capacidade analítica do colega que me precedeu, acima ou abaixo (sei lá eu onde é que essa minha mensagem vai estar), mas também queria dizer que gostei muito dos seus textos, que foram recomendados pelo Ricardo Noblat no blog dele. Parabéns. Serei leitor assíduo.
quinta, novembro 22, 2007 11:29 

BLOG DO LUÍS CLÁUDIO:
Caro Guedeira,

não é de hoje que vejo em seus textos algo que valha a pena. É desde aquele sobre a terceira margem (à la Rosa), publicado no Jornal Integração do nosso tempo de Faculdade, lembra? Pois é. Dito isso, seguem minhas observações:

É um ótimo texto, como de praxe. Muito bom. A começar pela entrada: "- A única coisa que temos em comum é o ar que respiramos."

Gostei também da expressão "à guisa de não". Ficou literário e simples, sem pedantismo.

Considerações mais importantes:

"A alma gêmea de quem ele pensou gostar era uma mulher apenas idealizada, que existia e não existia."

Essa frase, ao meu ver, é fundamental na leitura do texto. É ela que demonstra e confere o rumo do discurso literário. Entendemos, por exemplo, que a insistência da palavra e-mail, que aparece no texto várias vezes, não está aqui apenas como causalidade, como realidade vivida em tempos de internet, mas também como o espaço da negação do real, da virtualidade, da impossibilidade da vivência do sentimento no real dos acontecimentos. Perfeito. Além disso, denota contemporaneidade, afinidade com a tendência literária, sem perder o fio da fonte do moderno em Baudelaire, Rosa. Uma ponte.

Vejo também uma salutar canalhice na estrutura da narrativa, no uso das palavras. Um estilo guedeiriano.

Isso também é bom.
É isso!

Gilberto Pereira – São Paulo - Capital

sábado, novembro 10, 2007 08:24 

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