CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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segunda, 21 abril, 2008
CÓDIGO DE BARRA

 Leve três e pague dois

Brasileiro gosta mesmo de levar vantagem em tudo. Quem tem mais de 30 anos deve ter ouvido essa frase atribuída ao ex-jogador de futebol Gerson, o Canhotinha de Ouro. Se a memória não me trai, era num antigo comercial da marca de cigarros Villa Rica. A frase contribuiu para estigmatizar o Gerson e se transformou na mais completa tradução do conhecido jeitinho brasileiro. Um velho conhecido meu, o Bertholdo, leva ao pé da letra o convite que o Gerson fazia no final da propaganda:

- Leve vantagem você também.

Bertholdo é vidrado numa promoção. Desde aquelas mais simples do tipo "pague três e leve dois" até os atuais parcelamentos em 12 vezes sem juros no cartão ou cheque. Sem falar nas ofertas de viagens por terra, mar e céus, que o faz sonhar acordado. O sujeito não perde uma. Ele não se dá conta de que esse negócio de 12 vezes sem juros é balela e que, junto com a suposta vantagem, acaba pagando mais do que devia.

- A oferta era irresistível, fazer o quê? - ele sempre se desculpa.

Mas o Bertholdo gosta mesmo é daquele tipo de promoção que dá cupom para concorrer a prêmios. Lazer para ele é passear por entre as gôndolas dos supermercados em busca de uma oferta dessas. Se uma marca de papel higiênico promete uma casa mais premiação mensal em dinheiro, o homem empilha rolos do material na despensa da casa. Tudo em troca dos desejados códigos de barra que prometem transformar sonhos em realidade.

Ele tem um fraco especial por empresas que sorteiam carros e já perdeu a conta das vezes que atravessou a cidade para fazer o test-drive de uma montadora qualquer que prometia, em troca do sacrifício, um lanche rápido e o cobiçado cupom promocional. A mulher do Bertholdo acha pura perda de tempo e reclama da mania do marido:

- Deixa de besteira, homem! Isso é mais difícil que ganhar na Megasena - ela diz.

Sentindo-se incompreendido, ele ainda argumenta:

- Você vai ver, um dia ainda vou ganhar.

O Bertholdo é o sujeito mais infiel que eu conheço. Não com a mulher, claro, mas com as empresas e seus produtos. Ele troca de marca ou de loja como quem troca de roupa. Tem uma ofertazinha em jogo? Tchau e um abraço. À noite, quando volta do trabalho, ele liga a TV para ver os intervalos comerciais em busca das promoções que vão entrar no "plano de trabalho" do final de semana seguinte.

Gente como esse meu conhecido faz a alegria (e o faturamento) das empresas que sabem desse fraco que o brasileiro tem por vantagem. Tem até tese pronta para o fenômeno: o que move o Bertholdo não é a economia que a oferta pode proporcionar, ele gosta mesmo é de jogar com a sorte. Numa frase: o lado lúdico dessas promoções. Por exemplo: após passar meses preenchendo cartelas com nomes de revistas de uma grande editora (que ele, claro, conseguia ao comprar mais e mais exemplares dessas mesmas revistas), não tinha ganho nenhum dos 15 mil prêmios anunciados. Desistir? Nem pensar, aquilo era uma terapia.

Outro dia, quando via um desses programas de fim de noite na TV, lembrei-me do Bertholdo. Um sujeito dizia para a apresentadora que tudo que tem em casa, inclusive a própria casa, havia sido ganho por meio de promoções de marcas famosas. Um legítimo profissional do "preencha o cupom e envie para o CEP promocional número tal".

Sem se fazer de rogado, o sortudo dava a fórmula: todo mês reserva 300 ou 400 reais destinados a comprar produtos que prometem sorteio de prêmios. O moço chega ao exagero de ter uma agenda com telefones do tipo 0800 e emprega o tempo livre (que no caso dele parece não ser pouco) ligando para as centrais de atendimento em busca de informações sobre promoções. Depois é só comprar o produto, recortar o código de barra ou cupom e enviar. E, no caso dele, ganhar.

Já o Bertholdo, coitado, nunca ganhou nada. Nem mesmo um inocente par ou impar. Mas não desiste. A última vez que o vi foi no corredor de um shopping às vésperas do Natal passado. Ele enfrentava uma fila imensa para pegar um tíquete que dava direito a não sei que premiação. Ele me olhou, sorriu meio sem graça e balançou a cabeça como se me convidasse:

- Vem levar vantagem você também.




postado por 78623 as 08:13:39 #
24 Comentários

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Marcos Tavares:
Gostei muito do texto,sobretudo , da temática, um assunto ainda inexplorado em nossa Literatura : o gosto brasileiro de dar asas à sorte . Capta a psiquê do cidadão médiano sob influência do apelo comercial, do bombardeio midiático incentivando o consumismo a qualquer custo .
domingo, agosto 17, 2008 02:30 

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