CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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terça, 25 dezembro, 2007
ANTICLIMAX

Descompasso

Ilustração: www.amarildo.com.br

O homem ficou sem ação quando ela pediu que ele lhe desse na cara. Que idéia maluca era aquela agora – reclamou enfático. Em três anos de casamento a mulher nunca reclamara do estilo convencional que adotaram na vida a dois. E parecia até feliz com isso. Glorinha, insistia, fazia questão até. Eramos ali, pasmo, olhando incrédulo para sua mulher - o anticlimax que a idéia provocara cada vez mais evidente.

- Que merda é essa agora, Glorinha? Como é que você quer que eu dê na cara da mulher que escolhi para ser a mãe dos meus filhos? - quis saber, enquanto sentava-se na beirada da cama, sinalizando que naquela noite não iria dá pé.

Glorinha puxou as duas alças do soutien que pendiam sobre os braços e o ajeitou ao molde dos seios. Num pulo ágil, correu até o canto do quarto onde ficava o aparelho de som, escolheu um CD ao acaso e o ambiente foi tomado pelo som rápido, quase frenético, de uma música dançante . Voltou para o lado do marido balançando o corpo de um lado para o outro, os dedos polegar e indicador estalados em sincronia com a música. Com um movimento rápido ela voltou para o leito e envolveu seu tronco num aperto forte e sensual.

- Benzinho, vamos fazer algo diferente hoje, vai? Realiza sua fantasia e faz de conta que sou uma prostituta. Vai, dá na minha cara, arranca minha lingerie. Vamos acabar com essa mesmice. Por favor, benhê?

O homem livra-se do abraço e tateia o criado-mudo em busca das roupas atiradas ali minutos antes. Com a expressão contrariada, explica para Glorinha que considera o casamento uma instituição sagrada e que só conseguia vê-la como uma quase santa, como puta jamais.

-E quer saber mais? Por hoje chega. Desliga essa música ridícula e vamos dormir, que amanhã preciso chegar mais cedo no trabalho - ele ordena. Volta para a cama e cobre-se com o lençol, sinalizando que dera o assunto por encerrado. 

A mulher achou melhor mudar de tática. Deitou-se por sobre o marido e começou a sussurrar o repertório de obcenidades que conhecia, enquanto esfregava seu corpo no dele. Não custava nada – custava? – ele realizar sua fantasia. Ela sentia-se infeliz e só queria apimentar um pouco o casamento. Pelo andar da carruagem, a coisa iria descambar para inevitável discussão da relação, anteviu Eramos. Ele tentou argumentar: por acaso não era um bom marido? Faltava alguma coisa em casa? O que mais ela queria? Implorou para que desligasse o som e apagasse a luz, pois tinha trabalho na manhã seguinte.

Foi o que bastou para ela explodir num choro convulsivo.

- Eu quero emoção, quero me sentir viva. Chega dessa merda sempre igual a vida toda, não agüento mais lavar e passar a merda da sua roupa e cozinhar a droga da sua comida.

- Então é essa gratidão que recebo por trabalhar feito um burro de carga, por sonhar com um lar de verdade e um monte de filhos só nossos? - Erasmo retrucou, ejetando-se da cama como se tivesse sido picado por mil escorpiões.

- Será que você não entende – ela agora falava aos gritos – que estou cansada desta vida, que não suporto mais essa rotina. Quantas vezes nós saímos nos últimos três anos? Vamos, fale. Ou você faz do jeito que eu quero ou amanhã de manhã eu volto para a casa da minha mãe. Vamos – ela desafiou - dê na minha cara e faça amor de verdade comigo.

Mais tarde, na delegacia, ele explicou que sentira uma raiva incontrolável, uma força maior que a sua vontade. Com a mão espalmada, deu na face que a mulher lhe oferecia com intensidade que julgara ser incapaz. A música ainda dominava o quarto. Glorinha, o rosto avermelhado pelo tapa, olhou para ele com um ódio inusitado.

- Desgraçado, você nunca mais põe essas mãos sujas em mim – ela gritou. Em seguida, virou-se para o lado e fingiu dormir.


postado por 78623 as 08:50:01 #
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