CRONICAMENTE INVIÁVEL & OUTROS ESCRITOS
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quinta, 10 abril, 2008
CERTA VEZ UM DIA...

O Cisne Branco


Considero o outono a mais melancólica das estações. Ele traz consigo um quê de nostalgia que faz emergir antigas imagens, perdidas num canto qualquer da memória. Volto no tempo, numa fria manhã do mês de junho. O pátio do Colégio Sagrada Família, local que de certa forma abrigava a elite de Manga, a pequena cidade mineira onde nasci, está repleto de estudantes. A algazarra cessa abruptamente quando soa a sirene da escola. Todos correm para tomar lugar nas filas que separam os rapazes das moças, agrupados por série – da quarta para a oitava, nível que a escola então oferecia para a juventude local. A Fundação Educacional Manguense era a mantenedora do Colégio e foi responsável pela formação de pelo menos quatro gerações dos filhos do lugar, um município perdido no mapa de Minas Gerais, lá bem no alto próximo à divisa com a Bahia.

O trio de diretores caminha pelo corredor e pára em frente aos alunos ali perfilados. O padre alemão Ricardo Trischeller, o juiz aposentado Luiz Carneiro Viana e Maria da Purificação Alves Novais, a dona Salia, personificaram durante quase duas décadas a moral e os bons costumes tão em voga naquela época. Eles se propunham a ensinar os nossos rumos, o terreno e o espiritual. Após uma rápida prédica para avisos gerais e outros assuntos, alternávamos a oração do Pai Nosso, os hinos Nacional, do Colégio ou da cidade, além da Canção do Marinheiro. Eram meados dos anos 70 do século passado e vivíamos o apogeu dos Anos de Chumbo, a ditadura militar que comandou o país entre 1964 e 1984. O Sagrada era uma mistura do “Ordinário, marche!” dos milicos com o catolicismo mais carola.

Nada sabíamos sobre os feitos da ditadura, pois esse obviamente era um assunto proibido e a alienação era até natural, pois não havia ainda a TV e os jornais eram escassos. O ritual das manhãs do Sagrada era uma chatice, mas que nos enchia de orgulho. A “Canção do Marinheiro” ou “Cisne Branco”, como ela é mais conhecida, fazia parte da cota do diretor Luiz Carneiro Viana, assim como a oração do Padre Nosso eram reivindicadas pelo padre e dona Salia. Doutor Luiz, como o chamávamos, era um senhor simpático, calvo a cabeça toda, que, graças ao seu eterno bom-humor, contribuía para amenizar a rigidez da dupla formada pelo padre Ricardo, um ex-combatente da Gestapo, e a distância que o ar sempre muito beato de dona Salia impunha a todos nós.

Assim que ouvia o verso “Qual cisne branco que em noite de lua / vai navegando num lago azul / O meu navio também flutua / Nos verdes mares, de Norte a Sul”, Luiz Carneiro empertigava o corpo, o gesto indefectível de subir as calças com um puxão no cinto, seguido de um pigarro seco, simultâneo com o sopro do nariz. Ele verdadeiramente se deleitava com a música e parecia singrar mares nunca idos.

Doutor Luiz combinava a ufania do seu país com o nacionalismo da mais pura cepa. Nada semelhante ao que alguns políticos oportunistas fazem hoje em dia, ao lançar mão de greve de fome em nome de um falso amor à pátria. Não, nosso diretor de fato amava o país e o seu povo. Talvez por isso, cabia a ele a incumbência de lecionar Educação Moral e Cívica e OSPB, a sigla para Organização Social e Política do Brasil. Sim crianças, houve um tempo em que tais disciplinas existiram.

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Ele combinava a ufania do seu país com o nacionalismo da mais pura cepa. Nada semelhante ao que alguns políticos oportunistas fazem hoje em dia
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Ainda embevecido com os versos do  “Cisne Branco”, o professor Luiz afirmava convicto, durante suas aulas, que o Brasil seria, num breve tempo, a mais importante entre todas as nações. Corroborando com o discurso triunfalista dos militares, ele argumentava que estávamos fadados a liderar o mundo, haja vista nossas riquezas na terra, céu e mar. Seu otimismo nos contaminava a todos. Mas se ainda assim, alguém duvidasse das suas profecias, ele jactava-se de certezas. Não, ninguém haveria de segurar nosso país e seu futuro esplendor.

Luiz era um sujeito bonachão. Talvez para equilibrar a aridez do tema das suas aulas, ele vez por outra saia com pilhérias que faziam a alegria da estudantada. Coisas inocentes, como dizer que havia um erro na grafia da palavra maxixe. Gostoso como é, essa cucurbitácea tão conhecida do nordestino deveria ser chamada de “bomxixe”. Ríamos todos, donde se pode perceber a inocência daqueles dias, do Brasil interiorano que não existe mais. 

Anos depois, já afastado do Sagrada Família e nos seus últimos anos de vida, era comum encontrá-lo no antigo Armazém Santa Cruz. Logo que me avistava, ele dizia:

- Aí está o nosso Lopes Trovão.

Confesso que até então nada sabia sobre o médico, tempestuoso jornalista e militante republicano José Lopes da Silva Trovão, fundador do jornal “O Combate”. A comparação, desmerecida, obviamente, muito me envaidecia. Na época eu era o dono do único jornal da cidade, que saia vez em quando e incomodava a situação política local.

O Brasil, malgrado toda esperança, não cumpriu o destino profetizado por Luiz Carneiro. É verdade que temos evoluído muito, mas o país está longe, muito longe, da hegemonia mundial. Nossas instituições funcionam mal e porcamente e se tem um item em que somos campeões é o de sociedade mais injusta e desigual do planeta. Uma Nação sempre para um amanhã que nunca chega, vide esse apagão aéreo de agora ou o da energia em passado recente, além do crecismento assustador da violência,  frutos da incompetência de nossos governantes em fazer as revoluções de que o país precisa, dentre elas a educacional. Sem falar na desmoralização total da classe política e da falência dos sistemas judiciário e penal. “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!” diagnosticou o escritor Mário de Andrade pela boca do seu Macunaíma. A corrupção já endêmica pode muito bem ser incluída no rol dos nossos males, mas naquela época isso não era assim tão claro.  

Faço essa homenagem tardia ao velho mestre, que deve ter se transformado num cisne e voa por aí, esparramando sua esperança sobre outros mares. Que falta faz seu otimismo genuíno nesses dias de tanta turbulência. Voe em paz, cisne branco.


postado por 78623 as 09:44:52 #
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