Seu Anselmo sabia viver

O Seu Anselmo? Seu Anselmo era um cara esquisito pra caralho. Esquisito pra caralho mesmo. Mas sabia viver. Você quer saber mesmo? Ta. Vou contar. Toma. Bota isso ai em cima da mesa senão vai acabar se molhando. Tá bem gelada. Aqui a carne seca, ó. Pra início de conversa o cara era ex-militar. Ex-militares têm sempre um jeitão esquisito. Mas isso era o de menos. O cara só trabalhava quinze dias por ano. Dizia que tinha uma pensão dos tempos de segundo tenente, ou qualquer porra parecida. Trabalho mesmo só entre os dias 10 e 25 de dezembro. Sabe como? Vestia-se de Papai Noel e ficava falando merda no ouvido das crianças. Nada de sacanagem, não. Isso ele não fazia. Só ficava atarantando a garotada. Adorava dizer que eles não deveriam estudar, que não iria adiantar nada, que fazer xixi na cama é maneiro, que isso, que aquilo. Só falava merdas assim e outras bobagens que improvisava na hora. E ainda pedia segredo pros juvenis. Dá pra entender uma mente dessas? Figuraça. Tinha seis filhos e uma filha a quem chamava de Maria da Purificação. Mas nunca os via, dizia que moravam longe, lá pros lados de Cachoeiro do Macacu ou Barra sei lá eu do que. Não importa. O velho morava sozinho e só saia de casa pro bar e do bar ia direto pra casa. Todo santo dia. A sorte dele é que esse bar aqui era praticamente seu quintal. Olha lá! Ta vendo aquela casa amarela ali? Então. Tinha dia que se bobeasse a gente via o Seu Anselmo de pijama já na terceira ou quarta ampola de Kaiser. Ainda tinha isso, a ‘criança’ só mamava Kaiser. Maluquinho mesmo. Olha, já que perguntou eu te digo: nunca vi uma figura tão boa pra mexer com mulher. Tem uma porra ali na esquina que é uma espécie de uma clínica de Yoga, uns negócios de um tal de pilates, de reiki, que só dá gostosa. E não é gostosa só não. É gostosa pra caralho. Praticamente de minuto em minuto. Passava a loirinha indo pro tal de pilates e Seu Anselmo emendava sem nem pensar: - Que isso, hein Chuchu. Fosse minha e já tinha ido pra salada... Falava essas merdas apenas com seus três ou quatro dentes que restavam. E falava alto. E além de falar berrando ainda gargalhava. Que comédia. E o mais bacana é que sempre que ele terminava de rir – era sempre o último a parar de achar graça -, invariavelmente dizia: um dia elas ainda vão reconhecer poesia nesse velho daqui. E voltava a rir. E a beber. Até que vinha mais uma com passo apressado. - Olha lá aquela morena, Seu Anselmo. O que que é aquilo? Ele fazia que sim com a cabeça, dava uma bitoca na tulipa com Kaiser, arregalava os olhos, levantava o braço como que num brinde, e quando a beldade passava no “x” imaginário que ele marcava no chão, ninguém o segurava: - Com uma bisteca dessas eu já tinha até largado a bebida! O bom de Seu Anselmo era isso: quase todas as frases dele não tinham qualquer nexo. Mas com gênio é sempre assim. Ele entendia. E mais do que isso, todas elas, embora apressassem o passo e fizessem cara de patricinha emburrada, também adoravam. Teve uma impagável. Virou lenda em Icaraí. Seu Anselmo já estava ‘pra lá da ponte’, já tinha bebido todas desde cedo, quando viu uma negona, larga que só, cara de poucos amigos, se encaminhando pra tal da clínica. Não hesitou, e dessa vez pediu que todos olhassem. - Espia, ele disse antes de "recitar": Ae, cremosa, vou te passar no pão e te comer todinha! A crioula, resignada, fechou os olhos, respirou fundo e seguiu seu caminho. Mesmo assim ele continuou em altos brados: Adoro jabuticaba! E escangalhou-se de rir. Que saudade. Morreu anteontem. A poucos dias do natal. Isso aqui ta um marasmo só. Mais de uma dúzia dessas meninas que nunca sequer olharam aqui pra dentro do boteco já vieram perguntar sobre ele. Dizem que farão uma homenagem, um tal de culto ecumênico, sei lá, não importa. O que importa é que o velho tinha razão. Mais uma cerveja?
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