Crônicas de nada
Crônicas de nada
terça, 25 novembro, 2008
Rato magro, safado!

Henrique era um homem de comportamento anormal. E era feio, muito feio. Sua aparência deve ter pesado para que sua personalidade tivesse traços tão antagônicos. Nada lhe escapava à observação e irremediavelmente tudo o que não lhe agradava provocava-lhe reações imprevisíveis. Em resumo: era um cara esquisito.

Com dezoito anos não conseguia se socializar e talvez por isso não tenha pensado em prestar vestibular para engenharia como ansiavam seus pais. Refugiava-se no violão clássico e nas ‘viagens’ que lhe proporcionavam os inúmeros CD´s de heavy metal e as doses cada vez maiores de cocaína.

O que mais lhe incomodava era seu apelido, Rato, que a cada dia ganhava mais força na pracinha da Urca bem abaixo do prédio onde morava com a família e dois gatos: Isolda e Tatu.

- Olha lá o Rato com os dois gatinhos! Parece um viadinho, olha lá!  Gritava o moleque de uns quatorze anos sentado na mureta que dividia a praça da calçada.

- Rato magro, safado! Rato magro, viado! Gritava ainda mais alto um menino ainda menor antes de gargalhar com o restante da molecada.

Henrique já desistira de argumentar com sua mãe sobre a desnecessidade de passear com gatos. Tentara por anos livrar-se daquele encargo humilhante representado no arrastar de dois bichanos preguiçosos, presos a coloridas coleiras, em volta da praça com dois escorregas e alguns balanços enferrujados. Odiava Dona Eulália por isso.

Precisava encontrar uma saída. O suicídio o perseguia em pensamento, mas ele sabia lá no fundo que ainda tinha coisa a fazer, a produzir. Não usaria aquele revólver 38 que achara na gaveta de seu pai para dar um fim em sua vida. Pelo menos não por enquanto, tinha outros planos, na verdade, milhões deles.

Suicidaria-se depois, com calma, sem pressa. Seria melhor assim.

Sabia que precisava começar por algum daqueles planos e negava de forma recorrente ceder às tentações de matar aqueles dois moleques que sempre o espezinhavam toda manhã. Precisava fazer mais, precisava ser reconhecido, notado. Sonhava com o dia em que o olhariam de forma apavorada. Precisava de mais, muito mais do que matar dois idiotas de quatorze anos de idade. Queria a Rede Globo, o Fantástico, se possível.

Olhou pra cima, coisa que não fazia nunca, e, de súbito sorriu com a idéia.

Dois dias depois já estava no bondinho que leva os turistas ao Pão de Açúcar. Era o plano perfeito. Juntou o dinheiro da passagem e despediu-se de sua mãe que cozinhava bife de panela e batatas sauté.

- To indo levar os gatos pra passear.

- Hoje, Henrique? Ta chovendo. Eu não entendo você. Nunca quer levar os bichos e logo hoje, com essa chuva danada, quer sair. Eu hein? Isso tá me cheirando a namoradinha, hein, meu lindo?

Henrique chegou a pegar a arma para matá-la, mas havia se preparado com afinco para eventuais percalços. Aquele seria apenas o primeiro. Já de posse dos gatos devidamente encoleirados, ganhou a rua após surpreender o porteiro do turno da manhã.

- Bom dia, menino. Como vão essas formosuras?

- Vai tomar no olho do seu cu, seu filho da puta!

E pôs-se a caminhar apressado fazendo os gatos carambolarem de sua rua até a entrada do bondinho.

- Bom dia garoto. Olha! Hoje não ta muito legal pra subir, não. Muita nuvem...

- Mas dá pra subir?

- Dá, dá, mas eu não aconselho, não vai ver nada.

- Quem?

- Quem o quê

- Quem te perguntou alguma coisa? Henrique tinha dezoito anos, recém completados.

- São 30 reais. Vai querer, garoto?

Com Isolda e Tatu nos bolsos da jaqueta, entrou no bonde. Eram apenas oito. Com os gatos, 10. Além do operador do bondinho, um casal de dinamarqueses, um guia brasileiro, dois amigos argentinos e uma senhora do Sergipe.

- que lindo os gatinhos, disse a rotunda sergipana, para depois completar. Quais os nomezinhos deles?

- Esse aqui é Mussolini. Esse o Hittler, disse o adolescente, fazendo força para parecer ainda mais feio.

A gordinha apenas forçou um sorriso e continuou a observar a cidade que ia diminuindo na medida em que o bondinho cumpria seu trajeto até o Morro da Urca.

- Pára essa merda desse bonde seu filho da mãe!

Com a arma engatilhada, Severino resolveu atender. Qualquer um atenderia.

- Todo mundo parado, porra! Caralho, porra! Todo mundo pro fundo do bonde! Agora. Já! Do you speak english? Perguntou aos loirinhos. Go! Move! Todo mundo vai morrer. You´ll die, porra! Você ô paraíba... Liga esse interfone aí. Avisa que eu quero a Rede Globo, dez mil reais e um helicóptero. Vai, porra! Entedeu seu merda?

- Situação onze. Repetindo, base, situação onze! Fui obrigado a parar. Pronto, estão avisados, jovem, calma, está tudo certo.

- Jovem é o caralho, porra! Quer me fuder seu paraíba? Fala o que eu to mandando, porra! É o seguinte, repete aí seu merda: isso é um seqüestro, to seqüestrando esse bondinho. Vô meter bala em todo mundo. Quero dez mil reais e a Rede Globo pra cobrir. E quero um helicóptero equipado pra sair daqui com a grana. Vocês têm meia hora, caralho. Nem um minuto a mais, porra! Repetiu, porra? Hein? O que eles falaram seu merda? É? Você falou que eles têm meia hora, né?

Henrique babava e sentia-se orgulhoso com o que acabara de fazer. O medo estampado na cara de cada uma das pessoas ali presentes dava energia para que prosseguisse em sua sanha.

- Você, sua putinha! Quero ver sua bunda. Quero ver sua bunda, porra! Abaixa a calça, caralho. Understand? I wanna see your fucking ass, your fucking butt, bitch!

Aquelas frases ele sabia de cor. Anos de filmes pornôs no velho DVD.

Aquelas frases ele sabia de cor. Anos de filmes pornôs no velho DVD.

- You good, porra! Nice ass! Nice fucking ass! Maravilha! Caraaaaalho, porra! Eu sou foda! Todo mundo, caralho! Henrique é foda! You too, fag! Hen-ri-que é fo-da!

O menino era novo, mas de fato tinha conseguido transformar aquele ambiente num inferno. Masturbava-se com a direita enquanto apontava seu revólver para as cabeças que desviavam de seu olhar tomado pela excitação.

- Meia hora, paraíba! Já deu meia hora, porra! Quero que ligue de novo para a base, porra! Senão eu mato um por um. E o primeiro vai ser você mesmo seu paraíba filho de uma puta!

Nada. Severino não conseguira estabelecer contato apesar das inúmeras tentativas.

- Esses caras devem estar de sacanagem, porra! Abre essa janela aí. Vou jogar o primeiro corpo.

A única ‘janela’ era na verdade uma espécie de ventilação sobre a cabeça de todos, na parte alta do bonde, prontamente aberta pelo operador.

- Quem quer morrer? Quem quer ser o primeiro a morrer? Ninguém? Vou ter que escolher, caralho? Porra, seus viados, quem quer morrer primeiro? Eu é que não serei, porra! Vão me fazer escolher? Já sei! Vou dar mais dez minutos. Senão entrarem em contato com minhas exigências, eu mato os argentinos. Mas antes - prosseguiu - um pequeno aperitivo pra vocês, seus putos!

- Puf, puf, puf, puf, puf, puf, puf!  Crivado de balas, desfigurado, Tatu era uma imensa massa de filamentos fibrosos, sangue e tripas. Henrique pegara o gato pelo rabo e desferira os tiros que atravessaram o bicho e saíram pela tal ‘janela’.

A histeria tomou conta do bondinho. A cena daquele menino segurando um rabo todo ensangüentado fez com que todos temessem o pior. Excetuando Severino, quieto em seu canto, o bondinho inteiro era só gritos de pavor e desespero. Quem sabia orar, orou, quem não tinha a quem pedir, achou. Em três idiomas.

Henrique olhava pro mar, extasiado. Sorria orgulhoso e com um brilho diferente nos olhos só interrompido quando o bondinho subitamente começou a descer.

- Ta maluco, seu filho de uma puta? Eu mandei descer? Quer morrer seu merda? Tu ta ficando maluco, porra? Vou te matar, seu paraíba! Pára essa merda, caralho!

Severino levantou, ajeitou a calça, fez que não era com ele e deu não mais do que cinco passos na direção do moleque, que atirou com os olhos bem abertos.

Puct! Puct. O barulho do revólver foi seco, quase inaudível.

O paraíba conhecia de armas. Anos de exército. Nem por obra divina aquele revólver teria espaço pra mais balas.

Coitado do Tatu.

- Ninguém bate no moleque! Só eu. Não quero que nada aconteça com o moleque. E se alguém daqui der queixa, fizer qualquer reclamação, procurar a empresa ou a polícia, eu juro, juro de coração, que vou procurar vocês no quinto dos infernos se for preciso. Todos entendidos? Traduza pra eles aí, por favor - pediu ao guia, o mais suado de todos, antes de prosseguir -. Dá pra ver nos olhos desse menino que ele é bom garoto, só está perdido, cheirado. Não quero ninguém metido com ele, ouviram?

 - Agora me ajudem a limpar essa sujeira toda, finalizou.

Dois belos cascudos no moleque e as explicações de praxe, na saída do Bondinho, para um supervisor que já demonstrava algum nervosismo.

- Situação onze, Malaquias, ta foda. Toda hora é isso. Essa máquina já ta dando esse problema há muito tempo. Depois de alguns minutos ela volta a funcionar normalmente, acho que é super aquecimento. Acho bom cancelar as próximas viagens. Ta quase na hora mesmo. E, porra, Malaquias, vê se dá um jeito nisso, né?

- É, acho melhor também. Já estava ficando preocupado. E essa turma aí? Parecem assustados, ta tudo beleza?

- Tudo calmo. Sabe como é gringo, né?

- E esse moleque daí? Ta bem?

- Ta, é meu conhecido lá do Irajá. Filho de um amigo, moleque bom.

- Pensei que fosse seu filho, finalizou o Malaquias, fazendo graça.

Dispersaram-se todos em questão de segundos. Os brasileiros esqueceriam o drama em menos de três dias, os dinamarqueses pegaram o primeiro vôo pra Europa e os Argentinos foram pra Búzios ainda naquela tarde.

Henrique voltou pra casa com um paraíba a lhe puxar as orelhas por todo o trajeto.

Melhor isso do que o choro estridente de Dona Eulália, minutos depois: “Esse menino não toma jeito mesmo! Como é que foi deixar o Tatu fugir? Meus Deus! O que eu fiz a Deus?Misericórdia! Só Deus, mesmo, só Deus!

Já de pijamas, assistindo ao jornal nacional, pensou em adiar seu suicídio para mais pra frente. Talvez março ou abril. Talvez 2015. Não sabia ao certo. Ainda não estava pronto.

- Bastava um tiro pro Tatu! Pensou.

No dia seguinte, além de arrumar uma boa desculpa para o porteiro, teria que passear com a Isolda. Fechou os olhos e cerrou os punhos. Além dos sete tiros, ouviu lá no fundo da alma: - Rato magro safado! Rato magro viado!



postado por Gusta as 10:58:31




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