Enquanto a família celebrava, o Papai Noel roubava alimentos da despensa

Seres humanos gostam de finais. Pouco importa se felizes ou trágicos. Minto, tendo a achar que os trágicos têm certa preferência. Os jornais respaldam meu entendimento. Não lembro ter visto uma capa que seja nos últimos anos dando conta da morte de um belo urso panda ou comemorando o fim da vida de uma orquídea rara florescida no interior paulista. E o que dizer do orgasmo? Sexo sem orgasmo é quase um palavrão. Experimente dizer para seu par que adorou os trinta minutos da relação e só não gozou porque não acha importante. Puta que pariu. Tadinho. E sobre as novelas? Dá pra imaginar uma novela das oito, dessas rodadas no Leblon, terminando sem que ninguém saiba se a Juliana Paes ficará ou não com o galã do momento? Coitado do Manoel Carlos. De qualquer forma, trágicos ou não, sexuais ou fictícios, finais sempre nos interessam. Acho incrível. Enxergo nisso um paradoxo de difícil explicação na medida em que o único final que rechaçamos e evitamos comentar e mesmo imaginar é o da nossa própria morte. Reparem, por favor, acendam as sirenes da garagem se necessário, digo nossa própria morte, pois a morte dos outros entra na vala comum dos finais que apreciamos. Não? Fulaninho morreu. Invariavelmente, doa a quem doer, a primeira frase do interlocutor é: morreu de quê? Obviamente que são aceitas variações de estilo, de modo. É corriqueiro que se faça uma cara de espanto antes do “morreu de quê” e que se dê voltas para que se pronuncie a frase acachapante. “Morreu?”; “Jura”; “Coitado”... - Morreu de quê? E o prazer que temos em responder? Câncer no intestino! Aneurisma cerebral! Insuficiência respiratória! Meu Deus, o que somos? Legistas? Estou escrevendo sobre isso porque agora, no corredor deste oitavo andar, escutei dois estagiários falando sobre um ex-companheiro de faculdade. Não ouvi o nome. Morreu? Morreu de quê? - 409! Obviamente contive a passada pra pegar o desfecho que, me pareceu, seria inusitado. - 409! Horto-Central. Atropelado. Parece que não sobrou nada, morreu na hora, instantâneo. Juntei os lábios, incomodado, e sai o quanto antes dali. Um lustre poderia cair sobre minha cabeça e um dos meninos certamente falaria “O Gustavo morreu? Morreu de quê”? General Eletric. Um lustre cheio de lâmpada da GE caiu em cima da cabeça dele. Eu não. Também não gosto de pensar nesse final. Mas é incrível como abusamos do cinismo nessas horas. Com a maior desfaçatez chegamos a fingir cara de sofrimento, de sofreguidão. “- Ah! Que pena. Morreu de Aids, é? Coitado, tão novo”. Nosso diabinho no ombro esquerdo, sempre atento, vai sempre ganhar voz nesses momentos. – Era gay ou foi azar? Era gay ou foi azar?!?! Repito: o que somos? Tenho a sincera impressão que nossa atitude cretina diante da morte dos outros é uma espécie de ritual inconsciente que nos prepara para o inexorável. Acredito que intimamente devemos raciocinar como num jogo de xadrez, atribuindo valor a probabilidades e crenças em proporções variáveis de pessoa a pessoa. - Ah! É? Foi infarto? “Bom, infarto é foda”, pensamos. Taí. Isso preocupa. Ah, coitada! Foi numa batida de carro? “Improvável que eu morra assim, seria muito azar”. Estou me incentivando a mudar essa postura. Pretendo conseguir em breve, mas já comecei a tentar. Minha evolução tem me empolgado. Morreu? Quer dizer então que finalmente vai parar de aprontar, né? A propósito, esse cara era foda, né? Esse soube viver. Sentirei falta. Abraço! Depois falamos. Ih! É mesmo? Não me diga! Logo o Carlinhos. Porra! Gostava demais do Carlinhos, fizemos uma viagem à Chicago nos anos 80. Grande cara. Abraço! De um beijo na Silvinha e nas crianças! Você consegue, junte-se a mim. Faz um bem danado. Quem sabe não mudamos esse quadro funesto até antes que os mortos sejamos nós mesmos? Mas atenção, cuidado com as mensagens subliminares. Se estiver convencido a mudar como eu estou, tenha muito critério no uso das palavras. Jamais esqueça que seu interlocutor estará doido pra dizer do que o fulano morreu. Uma frase mal colocada e já era... - Não me diga! Não o Zé Carlos. Bem, grande cara! Espero que não tenha sofrido. - Sofreu sim. Uma pena, né? Parece que estava internado com um furo no estômago há mais de três semanas, Úlcera é foda, a dele pegou até o esôfago. Bem, mas agora descansou, né? Como é que vai descansar? Digam-me. Como é que vai descansar? O truque é ser rápido e fingir um compromisso. Não dá pra hesitar muito não. E tem mais: se não apressar o passo é capaz de te pegarem de costas mesmo. - Ta legal! Depois falamos então. Mas me liga mesmo, viu? Ele morreu de cirrose. Precisamos parar de beber! Foda! É difícil mesmo. Agora, é preciso estar preparado para situações inusitadas também. Tem umas, meus amigos, que não têm nem como fugir. - Rapaz, você não sabe o que aconteceu com o Jorginho. Lembra do Jorginho? Essa associação do “não sabe o que aconteceu” com “lembra do fulano” é sinônimo escarrado de morte. Não se iluda. Não adiante fingir que não lembra do Jorginho. - Como não, porra! O Jorginho, amigo da Lúcia, prima do João Cláudio. Pô! Do João Cláudio você lembra. Vizinho da Cris lá de Jacarepaguá... Com esse esforço foi morte violenta. Fale que lembra. Será melhor. Temos que saber quando perdemos. Admitir derrotas é um puta de um predicado. - Pois é. Você acredita que o Jorginho morreu de raiva? De raiva, Bicho! Pode uma porra dessas? Parece que foi picado por um morcego quando estava de férias em Itacaré. Muito azar, né? Pô, cara, coitado. Imagina você. Tu ta de férias, vendeu 10 dias, ta na última semana e vem um morcego e te transmite raiva... Nesse caso, relaxe. Terá sempre alguém mais determinado que a gente. Um final? Vocês acham necessário? Tem um que eu gosto pra caralho. E enquanto toda a família celebrava em volta da árvore a chegada do Natal, o menino ruivinho, o mesmo que pedira uma bicicleta e ganhara apenas meias e um macacão jeans, observava em silêncio o Papai Noel roubar alimentos da despensa.
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