devaneios e arte
devaneios e arte
quarta, 16 março, 2011
um lado tingido de preto


visto-me de preto com o luto que me reveste a alma ,e eis que sou uma espessa tentativa de encontrar lembranças feitas de um qualquer arco-íris ..Essa espessa lembrança não existe,não se faz em cores , pois perdeu os tons .Eis que me transformo em morto  ...há alguns meses tinha em mim uma forma de vida , hoje  por dentro uma outra vida resiste além da vontade de ser.não existe o eu  em nenhum lugar , não existe imagem no espelho, não existe o sentir gelado da água de chuva , em todos aqueles dias que a vi  só pelo pensamento. Eis que sou  , um ser morto , que se move pela inercia do contrário,por noites e dias,por noites e dias estou a chorar,Pois todas as desgraças imacularam meu corpo sujo de lama.


postado por 58690 as 02:01:54 # 0 comentários
quarta, 18 agosto, 2010
prolixo,oxilorp,prolixo,oxilorp

Setembro...

 

 

Preciso sentir o vento

Já que os pensamentos espessos

 Dissolvem aos poucos dentro de mim

Tudo parado...

Nada se move...

Apenas o vento dança,

Gelado;

A bailar com tudo que está imóvel ......

 

E já chegou a primavera.............

 

Mais a chuva não veio....

pergunto agora para onde foram as flores.......


postado por 58690 as 04:25:58 # 0 comentários
segunda, 02 agosto, 2010
"..."por MANUEL DE BARROS E HELIO OITICICA....

O Livro sobre Nada

Manoel de Barros


Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

A inércia é o meu ato principal.

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

O artista é um erro da natureza.  Beethoven foi um erro perfeito.

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Por pudor sou impuro.

Não preciso do fim para chegar.

De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

Do lugar onde estou já fui embora.


imagem-parangolé-1964-helio oiticica



postado por 58690 as 03:59:15 # 0 comentários
quinta, 08 julho, 2010
artigo indefinido ,um pouco de prosa em verso


Logo depois de ter morrido, lembrei que não tenho mais tantas vidas assim. O corpo um pouco gasto e alma refrigerada deixam  uma espécie de torpor cerebral .Transfigura todos os meus sentidos, por exemplo, há dias não sinto o cheiro das coisas... a última coisa que  senti o cheiro, consumiu toda a minha cota de cheiro da vida;;;Passei horas esmigalhando as leis de Newton,movimentação planetária de Kepler e a única conclusão que cheguei é:

' A cama É mesmo o melhor dentre todos os lugares do mundo,'

O sol arde invisível do lado de fora, e como é linda a luz que fica na sala, (converte a inversão), troco as palavras por canções aleatórias cheia de memórias...]

Os neologismos de tão sem graça se voltaram pra estante, dizem que de lá só saem depois do inverno, (o casaco ainda pendurado)...]

Hoje quando  a manhã chegou, estava completamente coberta de nuvem,..../ era o tipo de nuvem fina,transparente e gelada./

Estou ficando bastante obcecada por coisas grandes, desisti definitivamente das caixas, pastas; interesso-me apenas por {estantes}, prateiras e armários, cansei também dos armários, acumulam poeira demais, não me sinto no direito de desconstruir as solitárias moléculas de água com sujeira,

 Como ando suja,!!!!!
 E ter que admitir que o sujo viva falando do mal lavado, e, por direito legal, com firma reconhecida em cartório, também posso reclamar.
(a sujeira se localiza de forma organizada no meu corpo),-
- não quero entrar em detalhes.!!!

Acabei de pensar no tédio, estou com leves sintomas de entedia- mento por excesso de trabalho, o corpo decidiu entrar em greve, e meu salário mínimo ainda não foi depositado, não tenho como comprar os remédios certos.

No próximo mês viajo pro rio de janeiro, são Sebastião que me proteja do mal, preciso reencontrar o mar de qualquer maneira, novamente coloco todas as fichas na mesa’, e só desejo não encontrar outra solução depois que o jogo já estiver terminado,

Definitivamente preciso me aposentar em relação ao pensamento, não quero mais pensar, decidi por excelência legitimada, não quero mais explicar nada,

Não falo mais, tudo agora será desenhado para um melhor entendimento, reconheço o perigo e não me importo, e só uma questão de gosto pessoal mesmo, prefiro as imagens a as palavras, (ou o contrario) estou confusa, não! Estou deixando tudo confuso, pior ainda, estou confundindo todo mundo, ainda em processo de pior amento, confundo a mim confundindo os outros, os outros me confundem se auto confundindo, e ai se forma o velho e bom novelo, um grande e redondo novelo...

Por isso precisei morrer desta vez não provoquei a minha morte, talvez seja esse o meu único alivio tava cansada de sustentar uma suicida louca que só sabe encher o corpo de açúcar,

Desta vez morri de morte matada, não foi intencional, tento acreditar que os meus assassinos não queriam mesmo me matar, tento acreditar que eles queriam me salvar e por um erro de cálculo, acabei morrendo...

 

 

 

Pra mim está  tudo certo, um morto já não pode reclamar comer, dormir, respirar, correr, trepar.. pois já esta morto mesmo, e morto continuará

Só que agora que morri, quero garantir todos os meus direitos de morto

Acabei de me lembrar de uns exercícios para meditação. os cinco exercícios dos llamas tibetanos..lembrei do meu desprezo pelo quinto exercício, como ele me seria ;útil hoje...seria o único ..enfim não importa..consegui fazer a façanha de induzir um outro ser a perder os cinco exercícios de meditação mais importantes da minha vida...

O pior é que não posso nem arrancar os olhos deste ser e muito menos colocá-lo ajoelhado no milho... isto sim me irrita profundamente...

Os seres precisam de uma forma ou de outra aprender lições,

Quem me dera ter poderes mágicos de verdade, avada kedrava.

E tudo lindo pra sempre... a beleza do fenômeno . Desabafos de um sábado sem maconha...

 

camila baldon de lima


postado por 58690 as 06:28:54 # 0 comentários
sábado, 03 julho, 2010
artido urgente a favor do respiro

artigo indefinido,indefinido pelo indefinido ,

uma história não se escreve assim tão facilmente, é necessário uma dose cavalar diaria de torpor animal com beleza de flor , escrever exercício contraditório do que nada quer além de existir como palavra,escrever uma história é arrancar dos cabelos fio por fio só para sentir mais leve a cuca ,ter no ármario um bom número de chapeletes  e adornos..
escrever é difícil , doi e transforma...
o que é difícil,ainda estou tentando aprender
o que doi a literatura conta ,e o mais bonito está mesmo  no A.C
o que transforma,só consegue ser quem se dá o direito ao absurdo,,,,

descobri agora ,nessa madrugada alta ,sábado, primeiro sábado de julho de dois mil e dez ,um seleção barata de algumas coisas postadas por mim ,
é isso mesmo ,
mesmo por que  disse clarice ,,,, a felicidade é mesmo clandestina...

bom apetide e boa noite IIII



24.9.07
já vou indo
Não te demoras chegar, que meu suor já é sangue...
E minha bandeira já nem sei em que esquina ficou...
4.9.07
...

APÓS MORRER POR ALGUNS INSTANTES
ACORDEI NUM QUADRO VIVO,
ISTO QUE ESCREVO E UM DESENHO ELETRÓNICO
E NÃO TEM PASSADO NEM FUTURO
É SIMPLESMENTE JÁ....

lispector

verde ,rosa e lilás
E os pássaros continuam a cantar o triste canto da solidão...
Em seus galhos secos cantam a canção da morte...
E talvez suas lágrimas consigam chegar ao chão antes que o nada absorva o sentido que tenha o amor...
Talvez seja eu um dos pássaros a chorar e cantar...
Ninguém que possa enxergar minhas lágrimas e o pranto existente em meu coração...
Não há ninguém...
Não existe mais coração...
E as margaridas há tempos perderam sua cor... há tempos perderam a razão.....
Eu perdi apenas meu coração...
E esta com certeza foi a minha maior perda... maior desencanto.........
Não posso mais...
até,,,,
Até,
Quando,
não sei onde,
O tempo que às vezes se desfaz....
Até quando me fizer forte...
E meu coração..
Que vê flores......em todos os jardins que passa.......
Até .....
Não sei onde............
outono

Meus dias,
E todos parecem escutar alguma canção...
E eu só consigo ouvir a dor do meu coração
Há coração, sinto pena de ti, sinto o quanto está sangrando.
O gosto de sangue está em mim...
Meus dias é persistir neste nada profundo
...
AS CORES.............A LUZES MUDARAM DE TOM.......
VAZIO AGUDO
ANDO MEIO
CHEIO DE TUDO


PAULO LEMINSK

postado por 58690 as 02:58:47 # 0 comentários
domingo, 09 maio, 2010
silêncio...

carrego em mim , o cheiro do cansaço, perda, morte e pó...
sobre minha pele misturam-se e por aglutinação escorrem...
e ísso é vida...
 perdoe-me a delicadeza...



camila baldon



postado por 58690 as 10:33:51 # 0 comentários
terça, 08 setembro, 2009
prosa .. um folhetim áereo com alguma densidade

Chacal

Papo de Índio Veiu uns ômi di saia preta cheiu di caixinha e pó branco qui eles disserum qui chamava açucri aí eles falarum e nós fechamu a cara depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo aí eles insistirum e nós comemu eles. vocês repararam como o povo anda triste ? é a cachaça que subiu de preço a cachaça e outros gêneros de primeira necessidade cachaça a dois contos, ora veja, veja a hora, que horas são, atenção apontar: FOGO

Ponto de bala

os mortos tecem considerações

os tortos cozem quietos

 as crianças brincam

 e bordam desconsiderações

Ai de mim, aipim. ai de mim, aipim. ô inhame, a batata é uma puta barata. deixa ela pro nabo nababo que baba de bobo. transa uma com a cebola. aquele hálito? que hábito! me faz chorar. então procura uma cenoura. coradinha, mas muito enrustida. a abóbora tá aí mesmo. como eu gosto de abóbora. então namora uma. falô. vou pegar meu gorrinho e sair poraí pra procurar uma abóbora maneira té mais, aimpim té mais, inhame


postado por 58690 as 12:41:03 # 0 comentários
sexta, 31 julho, 2009
branco e preto


qQUERIA TER UMA BOMBA


POR CAZUZA

postado por 58690 as 09:20:27 # 0 comentários
dissolução melancólica


uma imagem
pequena imagem
imagem
suspiros
lástimas
reticências.......................


postado por 58690 as 08:58:15 # 0 comentários
amores partidos


A Ponto de Partir
 
 

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.


ana cristina cezar


postado por 58690 as 08:52:09 # 0 comentários
valsa 457


Sabem-se pouco,

Fala-se menos ainda....

Desconjuro a besta vermelha acudida atrás do armário; os absurdos que ela lamenta.

São lágrimas roxas que encardem todo o assoalho....

....E seu pranto não para...

Absurdamente ....

E a besta chora.............................







.............CAMILA BALDON..............


postado por 58690 as 07:56:05 # 0 comentários
segunda, 27 julho, 2009
....reticências II


pollock


postado por 58690 as 06:33:01 # 0 comentários
....reticências


pollock

postado por 58690 as 06:32:13 # 0 comentários
......

Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

manoel de barros







postado por 58690 as 06:18:16 # 0 comentários
quarta, 08 julho, 2009
uma dose ...........


Ela ....ANA CRISTINA CÉSAR...
quem é ela ,a moça da janela....a moça de tinta que se fez em tela ,pintura...
que se fez em pomas ,prosa,amor,delério...sons ...
Era ela a  moça da janela...linda ,dilacerante...
Por agora apresento uma pequena e modesta reunião de palavras,poemas,prosas...ainda não consegui definir nem dizer corretamente  sobre sua obra ou quem foi..... ANA CRISTINA CESAR....
e ela ...
Oráculo – conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?





Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir com uma doçura venenosa de tão funda.

 


Minha boca também está seca deste ar seco do planalto. Brasília está tombada, iluminada como o mundo real. Pouso a mão no teu peito, mapa de navegação. Desta varanda, hoje sou eu que te estou a livrar. Da verdade.

 


Caixa de areia com estrelas de papel. Balanço, muito devagar... E se eu te disser que te adoro e te raptar não sei como dessa aflição de março, ainda que aproveitando maus bocados para sair do esconderijo num relance?

Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone. Fiz tudo para te agradar: fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, gay, vândala, talvez maquiavélica... um dia emburrei-me, vali-me de mesuras, fiz comércio, avarenta, embora um pouco burra, porque inteligente punha-me logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa. E tantas fiz... talvez querendo a glória, a outra cena à luz dos holofotes, talvez apenas o teu caminho. Tantas, tantas fiz...



Eu era menina e já escrevia memórias, envelhecida. O tempo fazia-se ao contrário. De noite não dormia enquanto os meus olhos viam as luzes dos automóveis velozes no tecto. quando me virava de bruços vinha o diabo e furava-me as costas com um punhal de prata. As mãos interrompiam-se à meia-noite quando chegava o anjo mais escuro que o silêncio. eu era a rainha das cobras.

 

Um Beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor




postado por 58690 as 06:59:03 # 0 comentários
.....


por umas e outras ....talvez falando de algumas palavras soltas,letras avulsas,coisa que por ai passam ,infiltram em lugar algum ,por entre fios ,pelo ar .......












Camila Baldon

postado por 58690 as 06:22:57 # 0 comentários
domingo, 14 junho, 2009
DOMINGOIII

                                                                                                                                            

paulo lemisnk-poeta,escritor e compositor

1.

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

2.

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

3.

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

4 e 5.

LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em disfarces

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

6.

Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

7.

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

8.

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta


postado por 58690 as 08:11:53 # 0 comentários
DOMINGO II

Fernando.....

Diziam alguns que tudo isso era coisa de gente louca, transviada, acudido demais.

As senhorias do ponto de ônibus exclamavam, subtendiam a questão maior;...Aquele andar encardido, os olhos sempre fechados!...Por milhões, milhares de vezes se negava a abri-los...---Abra os olhos fulano!E era assim negação e negação...

É acho que era mesmo louco, transviado e acudido.

Não se passaram nem tantos anos .....

E ele caiu morto no asfalto; e naquele dia estava com os olhos bem abertos...

C.BALDON

[regopieta-rego.jpg]


postado por 58690 as 07:49:06 # 0 comentários
DOMINGO....

[boccioni.lastrada]

Umberto Boccioni

Padeciam as coisas verdes, rosas e amarelas...

Com o vento vieram os alicerces azuis.

A chuva quando  veio trouxe um manto negro,

Limpou todas as coisas verdes, rosas e amarelas

 todos os alicerces azuis!

E a chuva não cansou de cair, inundou todas as coisas.

   Todo o redondo

Todo o quadrado

Todos os cones.....

C.BALDON


postado por 58690 as 07:30:02 # 0 comentários
sexta, 15 maio, 2009
so.................lar............


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

manuel de barros

trecho retirado do site jornal de poesia


postado por 58690 as 04:41:10 # 0 comentários
quarta, 22 abril, 2009
.....

Arte Itinerante Mineira

Galeria de Arte, Itinerante e Mineira.

http://arteitinerantemineira.blogspot.com/

ARTE,POESIA,

POESIA ,ARTE

,


postado por 58690 as 03:33:09 # 1 comentários
segunda, 12 janeiro, 2009
blá,blá,blá


tela-salvador dali

postado por 58690 as 08:52:20 # 0 comentários
quarta, 07 janeiro, 2009
sem pontos


Estado visceral,

Contorcendo o verbo.

O intransitivo direto

O objeto oculto

O borbulhar pungente, latente, intrasferível

Prosas, prós, adverso ao ponto e fim

Reticências... obscuro e claro

Transcendente a luz, ao som,

O quanto se propaga a luz, o som....

Camila Baldon


postado por 58690 as 12:33:50 # 0 comentários
quinta, 18 dezembro, 2008
...

O último sortilégio

Fernando Pessoa


"Já repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só,
E tudo dorme no confuso mundo.

"Outrora meu condão fadava, as sarças
E a minha evocação do solo erguia
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via.
E as folhas da floresta eram lustrosas.

"Minha varinha, com que da vontade
Falava às existências essenciais,
Já não conhece a minha realidade.
Já, se o círculo traço, não há nada.
Murmura o vento alheio extintos ais,
E ao luar que sobe além dos matagais
Não sou mais do que os bosques ou a estrada.

"Já me falece o dom com que me amavam.
Já me não torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam.
Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem já me vejo ao sol saudado ergUida,
Ou, em êxtase mágico perdida,
Ao luar, à boca da caverna funda.

"Já as sacras potências infernais,
Que, dormentes sem deuses nem destino,
À substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus.
A música partiu-se do meu hino.
Já meu furor astral não é divino
Nem meu corpo pensado é já um deus.

"E as longínquas deidades do atro poço,
Que tantas vezes, pálida, evoquei
Com a raiva de amar em alvoroço,
lnevocadas hoje ante mim estão.
Como, sem que as amasse, eu as chamei,
Agora, que não amo, as tenho, e sei
Que meu vendido ser consumirão.

"Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Ao menos meu ser findo dividi
­Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

"Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"


O Releituras, com essa poesia, junta-se àqueles que comemoram a passagem dos 120 anos do nascimento do autor (1888-2008).


postado por 58690 as 09:42:05 # 0 comentários
terça, 16 dezembro, 2008
....


O menino azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
 

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.
 

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
 
.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
 

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para as Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.).

 

Cecília meireles
 


postado por 58690 as 10:08:14 # 0 comentários
quinta, 11 dezembro, 2008
e roda..gira..rodaaaa

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha... 
O trabalho honesto e superior... 
O trabalho à Virgílio, à Mílton... 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos - 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)... 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos - 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 

E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino

Álvaro de campos


postado por 58690 as 11:49:21 # 0 comentários
sábado, 15 novembro, 2008
....

uma dose de silêncio e nada...

onde estou ?no mesmo lugar que você..

você quem?o todo ,ou tudo ....repartindo o silêncio..

o som hoje aqui não funciona,não existe,ficou inerte...

repartindo ,colhendo,

...o silêncio


postado por 58690 as 09:24:23 # 0 comentários
sábado, 08 novembro, 2008
prosa....por vinicius de moraes


Elegia Desesperada
(O Desespero da Piedade)


Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.


Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina


Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.


Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.


Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.


Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...


Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!


Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.


Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.


Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.


E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!


Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!


Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.


Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.


Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.


Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.


Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.


Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.


Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.


Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.


Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.


Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.


Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.

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postado por 58690 as 07:56:46 # 0 comentários
prosa....por Sérgio Sant'Anna

 Romeu e Julieta
(minificções)

Sérgio Sant'Anna


1


Você amaria um sujeito com um olho de vidro?

Ela disse que a venda negra nos olhos até o tornava atraente, misterioso. Ele estava completamente bêbado e falou que as pessoas precisam se conhecer até o fundo. Arrancando o olho de vidro, jogou-o dentro da laranjada dela. Disse que se ela bebesse com o olho dentro do copo, ele ficaria apaixonado para sempre. Ela bebeu.


2


Na primeira noite, ele achou que para mulher virgem havia penetrado fácil demais. Mas ele era um sujeito fechado, guardava as coisas para si mesmo, refletindo nelas.

Quando ela foi ao banheiro, na manhã seguinte, ele verificou rapidamente o lençol. Nenhum vestígio de sangue.

Um sargento da polícia ninguém passa pra trás.

Na noite seguinte, ele saiu para a rua, apesar da lua-de-mel. Voltando bêbado e sem pronunciar qualquer palavra, deu vinte e cinco facadas nela. O lençol ficou empapado de sangue.


3


Na cama, ele perguntou a ela se podia acender a luz para vê-la. Ela disse que sim, fechando os olhos. E ele perguntou, de repente, se podia fotografá-la, no dia seguinte, completamente nua. Ela sorriu, abrindo os olhos e perguntando: — Por quê?

— Por nada, apenas para guardar comigo.

Mas ele estava pensando que o sistema deles era um círculo e eles desceriam novamente ao fundo e que um dia o círculo poderia se romper e eles permanecem para sempre no fundo, atolados no lodo do fundo. Mas restaria uma lembrança dela assim: jovem, bonita e nua.


4


Ele voltava muito tarde para casa e sempre bêbado. Batia nela e nos meninos. Nela própria, a mulher ainda podia suportar. Mas nos meninos não.

Segurando o ferro de passar, ela o esperou na escuridão de um canto da parede. Quando ele entrou, tropeçando e praguejando, ela encontrou uma agilidade que nunca possuíra e acertou em cheio um golpe na cabeça dele. Com um pequeno gemido, ele caiu ao chão.

Ela montou sobre o corpo caído, já sentindo um cadáver. Mas desferiu vários golpes na cabeça dele, até cansar. Depois ela se levantou e foi até o quarto dos meninos. Ajeitando as cobertas sobre eles, deu um leve beijo em cada um.


5


Ela esperava por ele, no escuro. Ele não chegava. Ela se enfureceu. Acendeu a luz e olhou o apartamento vazio. E viu, na parede, o quadro de que ele tanto gostava. Retângulos, e quadrados superpostos. Ele dizia que o quadro era bom por causa de sua simplicidade geométrica. Junto ao quadro, havia um punhal. Ele gostava, também, daquele punhal. Tornava-o próximo de uma rudeza que de verdade ele não possuía. Ela segurou nervosamente o punhal e começou a fincá-lo no quadro. Depois ele viu o quadro destruído e tentou chorar, sem que o conseguisse.

Ele chegou em casa e perguntou a ela por que fizera aquilo? Ela disse que não gostava do quadro. Ele falou que era mentira e que o quadro era seu e custara dinheiro. Então ela confessou que fizera aquilo porque ele não vinha para casa na hora certa.

— As horas não são diferentes umas das outras — ele gritou

Ela disse que tinha vontade de morrer..

— Pois então morra.

Ela se aproximou da janela. Havia cinco andares. Ele não acreditava que ela se atreveria, mas nunca se podia ter certeza. Ele teve medo de que ela se atirasse apenas para provar-lhe isto: que era capaz de se atirar. Então ele deu um salto e segurou-a pelas costas, gritando que ela era uma neurótica. Ela deu-lhe um tapa no rosto. Ele a empurrou, com força, atirando-a ao chão. Ela poderia ter-se amparado, se quisesse, mas preferiu cair com violência e escândalo contra o assoalho. Ele teve medo de que ela houvesse realmente se machucado e aliviou-se quando a viu soluçando baixinho e mais calma.

Ele queria que existisse um outro quarto no apartamento, para onde pudesse ir. Mas não havia e ele pensou em trancar-se no banheiro. Ela estava, porém, caída e descomposta, no chão, com as pernas inteiramente descobertas. E ele foi chegando a mão, devagarinho. As pernas dela se fecharam, tensas, como numa recusa. Ma ele continuou a acariciá-la. E ela foi-se afrouxando, aos poucos, oferecendo-se.


6


Estavam apaixonados um pelo outro. Ele era meio teatral e disse, um dia, que as perfeitas histórias de amor terminam com a morte. Como em Romeu e Julieta. Porque, do contrário, chegaria o tempo em que Romeu e Julieta brigariam por coisas mesquinhas e ridículas.

Quando terminaram mais uma vez de se amar, ela teve medo e perguntou:

— O que faremos, se isso começar a acontecer?

Ele disse que na cozinha havia um fogão e neste fogão interruptores e que eles poderiam arrastar a cama para lá e se despirem e depois ligarem os interruptores e se abraçarem, como se nada estivesse acontecendo. Como se o gás já não começasse a penetrar em suas narinas, misturando-se aos estremecimentos e gemidos do corpo e provocando um sono que nunca haveria de se dissipar.

— É completamente indolor — ele disse, soltando uma gargalhada.

Mas ela nunca sabia quando ele estava brincando ou falando a sério.



postado por 58690 as 07:45:10 # 0 comentários
prosa...por rubem fonseca

O Cobrador


NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.

Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.

Só rindo. Esses caras são engraçados.

Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.

Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.

São quatrocentos cruzeiros.

Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.

Não tem não o quê?

Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.

Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.

Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!

Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.


* * *

A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.


* * *

rubem fonseca


postado por 58690 as 06:00:55 # 0 comentários
terça, 04 novembro, 2008
roda a vida na saia


Roda a vida na saia.

Roda a dor, o amor.

Redenção, desconforto.

Instabilidade..

Coragem....

roda .


.....http://www.uniblog.com.br/insanidadesa/

postado por 58690 as 07:32:30 # 0 comentários
quinta, 16 outubro, 2008
água viva...

NÃO: Não quero nada. 
Já disse que não quero nada. 

Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer. 

Não me tragam estéticas! 
Não me falem em moral! 

Tirem-me daqui a metafísica! 
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aos deuses todos? 

Se têm a verdade, guardem-na! 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos? 

Não me peguem no braço! 
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
Já disse que sou sozinho! 
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
Eterna verdade vazia e perfeita!  
Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
Pequena verdade onde o céu se reflete! 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *fernando pessoa

postado por 58690 as 09:14:14 # 0 comentários
quinta, 02 outubro, 2008
inerte e azul


Caro seja meu cantoCaro seja meu canto 
o que desejo é ser flama 
que arde neste ar. 
O que desejo arde 
em flama neste ar 
de canto sem encanto. 

Se o pesar se evola 
seja volátil este ar 
de amar em flamas. 
Seja volátil amar 
neste ar em flamas 
que o coração labora. 

Canto de amor agora 
se já evola em flamas 
o que desejo neste ar. 
Seja volátil o desejo 
em flamas neste ar 
de acender o que adora. 
 elson fróes

"não há imagem que possa hoje transfigurar o que sinto em ausência e angustia."

postado por 58690 as 01:19:16 # 0 comentários
quinta, 04 setembro, 2008
vou-me embora para pasárgada....


Procuro a mistura qualquer absoluta, no ar.

postado por 58690 as 10:44:14 # 0 comentários
sexta, 29 agosto, 2008
....


... Cecilia Meireles
       

CANÇÃO MÍNIMA
        No mistério do sem-fim
        equilibra-se um planeta.
        E,  no planeta, um jardim,
        e, no jardim, um canteiro;
        no canteiro uma violeta,
        e, sobre ela, o dia inteiro,
        entre o planeta e o sem-fim,
        a asa de uma borboleta.   
       


postado por 58690 as 08:46:33 # 1 comentários
FORA DO AR!!!


Antes que a angústia desça é preciso partir
Não importa para onde, não importa para longe de quem
Ó como o mesmo céu sufoca e a mesma ventura mata!

Abandonar o corpo gasto de sol e a alma gasta de sono
Raspar os velhos sapatos na branca soleira da casa do tédio
E surgir como um animal morno de silencioso passo.

Nada a conhecer... Sim, são verdes as montanhas
E quanta vaga expiação deixam os livros no pensamento
E acima de tudo existe Deus serenamente inacessível.

Mas viver, ah, viver é doloroso, é incompreensível
Não se sabe quando!... não se sabe nunca... e quando sabe-se
É para receber o golpe mortal da tragédia no mais fundo.


VINICIUS DE MORAES


postado por 58690 as 08:37:59 # 0 comentários
quinta, 28 agosto, 2008
O efeito placebo em minha coluna vertebral...


Eu vou indo...

Conseguir um pouco de calma...

Qualquer álcool forte no sangue.

Entorpecer meu corpo, sexo, olfato,

Compassos profanos... Realidade?

Um soco, por favor!

Carolina Belha.C.B


postado por 58690 as 10:53:19 # 0 comentários
segunda, 25 agosto, 2008
.....

em algum lugar......

Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz

 Vinicius de Moraes


postado por 58690 as 09:36:05 # 0 comentários
domingo, 24 agosto, 2008
..."""""""""""""""""........."""""""""""""""""""""...


No Brasil, lá na Angola, na Alemanha, na ladeira mais triste da Bolívia, nessa poeira que embaça tua sombra, na janela fechada, no mar alto; no `Próximo Oriente e no Distante, na nova madrugada lusitana e na avenida mais iluminada de New York. No Cuzco desolado e nas centrais atômicas atônitas,em teu quarto e nas naves espaciais - é preciso ajudá-lo.
Nas esquinas,
onde se perde o amor publicamente, nas cantigas guardadas no porão, nas palavras escritas com acrílico, quando fazes o amor pra ti mesmo. Na floresta amazônica, nas margens do Sena, e nos dois lados deste muro que atravessa a esperança da cidade onde encontrei o amor
- o homem está
ficando seco como um sapo seco
e sua casa já se transformou
em apenas local de refúgio.

Lá na Alameda de Bernardo O'Higgins e no sangue chileno que escorria dos corpos dos obreiros fuzilados, levados para a fossa em caminhões pela ferocidade que aos domingos sabe se ajoelhar e cantar salmos.
Lá na terra marcada como um boi
pela brasa voraz do latifúndio.

Dentro do riso torto que disfarça a amargura da tua indiferença,
no milagre que acende os altos-fornos, no desamor das mãos, das tuas mãos, no engano diário, pão de cada noite, o homem agora está, homem autômato, servo soturno do seu próprio mundo, como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.
Ainda é tempo.

Sei porque canto: se raspas o fundo do poço antigo de sua esperança, acharás restos de água que apodrece.
É preciso fazer alguam coisa, livrá-lo dessa seduçãovoraz de engrenagem organizada e fria que nos devora a todos a ternura, a alegria de dar e receber, o gosto de ser gente e de viver.
É preciso ajudar.
Porém primeiro,
para poder fazer o necessário,
é preciso ajudar-me, agora mesmo, a ser capaz de amor, de ser homem. Eu que também me sei ferido e só, mas que conheço este animal sonoro que profundo e feroz reina em meu peito.'
Alemanha, setembro de 1974.

Do livro:
'Travessia dos navegantes-
POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA E COM A TUA VIDA'
Ed: civilização brasileira; 1975

tela-salvador dali


postado por 58690 as 05:41:17 # 0 comentários
sexta, 22 agosto, 2008
uma dose de prosa...

O ÚLTIMO CAPÍTULO-machado de assis

HÁ ENTRE os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana mais.

Pois apesar da excelência do costume, era meu propósito sair calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra última pudesse levar-me alguma complicação à eternidade. Mas um incidente de há pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um escrito, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e está
aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo de autobiografia. E note-se que não dou o segundo escrito senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou ininteligível, sem algum comentário. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o produto
empregado em sapatos e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinário. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de há pouco, e o incidente liga-se à minha vida inteira.

Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural de Corumbá, Mato Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho, portanto, cinqüenta e um anos, hoje, 3 de março de 1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Há uma locução proverbial, que eu literalmente realizei. Era em Corumbá; tinha sete para oito anos, embalava-me na rede, à hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu comigo no chão. Caí de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava ocasião de vir abaixo, aproveitou a comoção e caiu também. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito comigo. O Cônego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná conosco, soube do episódio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples início de cousas futuras.

Não me demoro em outros reveses da infância e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele pode vir mais cedo, e interromper-me a execução do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miúdo alguns episódios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a ilusão. Também não falo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobríssimo, e minha mãe não lhe sobreviveu dois meses. O Cônego Brito, que acabava de sair eleito deputado, propôs então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veio comigo, com a idéia de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a ação constante do caiporismo.

Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de idade. Um cônego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de sacristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Mato Grosso, e possuísse algumas letras latinas, não fui admitido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução. Tive até alguns auxílios, a princípio; faltando-me eles depois, lutei por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma exceção na minha vida caipora, porque o diploma acadêmico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não atribuo nenhum influxo especial ao grau jurídico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sozinha as algibeiras. Não, senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viúva mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente, lépida e abastada. Morava com um irmão cego, na Rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dous deles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da viúva, mas realmente para que vissem as finas cousas que ela me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viúva não esperava senão que eu concluísse os estudos. Um desses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabéns, acentuando a sua convicção com esta frase definitiva:

- O teu casamento é um dogma.

E, rindo, perguntou-me se, por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cinqüenta mil-réis; era para uma urgente precisão. Não tinha comigo os cinqüenta mil-réis; mas o dogma repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descansei em todo esse dia, até arranjar-lhos; fui levá-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os, cheio de gratidão. Seis meses depois foi ele quem casou com a viúva.

Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazê-lo; cheguei a vê-los, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hipotética; na realidade, não fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascensão da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viúva. "Deus, que me ouve (dizia uma delas); sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua..." E, no meu atordoamento, blasfemava comigo: - Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé dele, e por isso desmentiu a viúva; - nem outro dogma além do católico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cinqüenta mil-réis.

Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se ele também. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os
outros, a sucessão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei à Corte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de ano: o Gonçalves.

Este Gonçalves era o espírito menos jurídico, menos apto para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia à copa e ia palestrar com os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de compreensão, nos assuntos menos árduos ou menos complexos, com a facilidade de expor, e, o que não era pouco para um pobre-diabo batido da fortuna, com uma alegria quase sem intermitências. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham, matávamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era dele, ou falássemos de política, ou de mulheres, assunto que lhe era muito particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questão de hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alfândega, Temístocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negócio. O Temístocles ficou encantado comigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo próximo. Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moça de dezenove anos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meio morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casamo-nos poucos meses depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na igreja, entre as barbas rapadas e as suíças lustrosas, pareceu-me ver o
carão sardônico e o olhar oblíquo do meu cruel adversário. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a fórmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me ditava...

Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado.

Felizmente - ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino.

Outro felizmente; e este não é só uma transição de frase. No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperança, e, a calcular pela comoção que me deu a notícia, uma esperança suprema e única. Era o desejado que chegava. Que desejado? Um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento régio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ébano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusalém; o pequeno nasceu morto.

Quem me consolou no malogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciência, disse-me; serei padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O próprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.

- E pensas que não? redargüi.

Gonçalves sorriu; ele não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começara a converter-se à advocacia, já arrazoava autos, já minutava petições, já ia às audiências, tudo porque era preciso viver, dizia ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos dele, e das anedotas, que às vezes eram picantes demais. Eu, a princípio, repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensável casar também. Eu, à mesa, falei do assunto.

- Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?

- É caçoada dele, interrompeu vivamente o Gonçalves.

Dei ao diabo a minha indiscrição, e não falei mais nisso; nem ele. Cinco meses depois... A transição é rápida; mas não há meio de a fazer longa. Cinco meses depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.

Cousa singular: - em vida, a nossa divergência moral trazia a frouxidão dos vínculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-me como a esposa que desce do Líbano, e a divergência foi substituída pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde outrora ocupara tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio à má estrela; era levantar o edifício da fortuna em pura rocha indestrutível. Compreendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precário: as telhas caíam com o abalo das redes, as sobrepelizes recusavam-se aos sacristães, os juramentos das viúvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham trôpegas ou iam-se de mergulho; enfim, as crianças nasciam
mortas. Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela podia desafiar o olhar oblíquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direção da noite e do silêncio...

Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objetos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ela morreu, cinco meses antes. Achei uma multidão de cousas minúsculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cipriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ninguém imagina como o tempo corre nas circunstâncias em que estou; os minutos voam como se fossem impérios, e, o que é importante nesta ocasião, as folhas de papel vão com eles.

Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, anterior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente
era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas.

Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiais dirão que estou doudo, que o delírio do suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeção de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria único. Distribuindo-as, faço um certo número de venturosos. Eia, caiporas! que a minha última vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos! 
  
  

(publicado no livro Histórias sem data)


postado por 58690 as 08:03:34 # 0 comentários
sábado, 16 agosto, 2008
canção da partida..

Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia
Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
"Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão"
Ai, se eu escutasse hoje não sofria
Ai, esta saudade dentro do meu peito
Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu pelo menos, mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa me confessar
Ponha-se no meu lugar
E veja como sofre um homem infeliz
Que teve que desabafar
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
Vejam que situação
E vejam como sofre um pobre coração
Pobre de quem acretida
Na glória e no dinheiro para ser feliz

Dorival Caymmi

postado por 58690 as 06:51:44 # 0 comentários
domingo, 13 julho, 2008
...continua...


TELA-ESCHER

postado por 58690 as 08:40:51 # 0 comentários
...


tela-ESCHER

postado por 58690 as 08:37:37 # 0 comentários
,,,


tela-Escher

postado por 58690 as 08:35:37 # 0 comentários
quarta, 25 junho, 2008
...

Bom era quando eu ficava muito tempo sem poemas.
Poema é alma gritando.
Alma em silêncio assovia.
Poema é sangue derramado.
Sangue fluindo é exercício físico.
Poema é noite sem sono.
Sono em paz é sexta-feira.


Poema em primeira pessoa
(ou como perder o sono noite adentro)

Compreendo da vida tudo que não for silêncio.
Abstraio, fujo de mim
em passos bêbados e desencontrados.
Armo um escândalo
sumo
p’ra retornar depois
quando só restarem copos vazios.
A alma soberba em desejos
também deseja ser corpo e pecar.
Mas não há luxúria no sono
não há soneto na tarde
que encharque vontade
de não ser novamente sozinho.

Adentro a janela cerrada
os anos gentis de minha loucura
no tempo que não havia tempo
e seus bancos de praça
tocavam canções à espera de mim.
Divido a solidão do quarto
com teu peso morno de adolescente febril,
e a noite segue queimando cartas
( pedidos de desculpas indizíveis )
do perdão que adormece sem pedir.

Calo.
...
... ... ...
... ... ... ...
E faço pausa nesta dança coxa
neste rubro circo
de alegorias impraticáveis
e sorrisos frouxos dependurados em sua cara.
Há fantasia neste minuto boêmio
nesta poesia improvisada de quarto
que deseja repousar sozinho
onde você quer fazer companhia.

Sinto a vida repetir seus tropeços
e canso-me:
- sou a preguiça de disfarças seus defeitos.
Quer do mundo destilar a cobiça
eu atenho a mim
o fúnebre momento de arrastar piedoso
sem lágrimas
ou versos avulsos que ninguém entende.

E mato-me.
Uma última vez
p’ra que não me encontre na vida
que você insiste em negar.


24-06-2008 01:00hs.

por dell...soares


postado por 58690 as 08:30:41 # 1 comentários
terça, 24 junho, 2008
ah!!!as rosa não falam...

Em dias como estes.

Prefiro apagar a luz do dia...

Esquecer que o sol brilha...

Esquecer da cama vazia...

Em dias como estes...

Prefiro não pensar nos pássaros.

Nem nas nuvens a bailar no céu...

Prefiro não pensar... prefiro esquecer...........

Em dias como estes...

Viver a angustia do esquecimento...

C.B


postado por 58690 as 07:28:26 # 0 comentários
segunda, 23 junho, 2008
:..:


:...:

postado por 58690 as 06:52:15 # 0 comentários
terça, 17 junho, 2008
....

TRADUZIR-SE

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
 
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Ferreira Gullar


postado por 58690 as 11:09:14 # 0 comentários
segunda, 16 junho, 2008
linha reta...para molhar a palavra...


Teresa


A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
 

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
 

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

MANUEL BANDEIRA...

TELA..NERY


postado por 58690 as 01:23:56 # 0 comentários
segunda, 09 junho, 2008
saudade

Será mesmo irremediável a loucura do ser...

Será mesmo fora do contexto, particípio, principio e fim.

Serão tantos,

 Corações de barata... E se for mesmo assim?

.

O sorriso hábil, forçosamente ébrio, aniquilando qualquer justificativa aparente ou não aparente. Singularmente singular pluralmente plural, olhos tortuosos, quase oblíquos, perfumados pelo descer e subir de qualquer abano de puro lixo desconexo...

Sorrisos sem sorrir...

Uma crueldade intermolecular metricamente diluída num copo com gim e mel.

Absolutamente decorrente coerente aos subtítulos inexistentes.

Uma roda protegendo o fogo, a quase por completo vela derretida...

Que reis teriam sido os tais donos de tantos trajetos e por completo aborrecimentos...

Sorrisos e sorrisos... e formas..Uma espreguiçadeira no canto do quarto...perfeita conclusão de nada decorrente de nada ,que suavizavam  o cheiro podre,com poses de alguém que estava a fotografar..horas..minutos...segundos...milésimos...centésimos...décimos...unidades de tempo...não se ouvia um só som. E barulho maior não existia no momento...

Era  à hora de escolher o copo, limpar o chão, cozinhar o jantar e servir como prato principal a própria cabeça.

Carolina Belha....C....B


postado por 58690 as 11:23:48 # 0 comentários
quarta, 04 junho, 2008
poeira e jasmim


tela-MATISSE

postado por 58690 as 11:09:43 # 0 comentários
domingo, 01 junho, 2008
gotas...pó...vapor...


Impassível em mim,

As gostas de orvalho que guardo

dentro de uma caixinha de fósforos...

O estupor inerente a boca do estômago.

Por pontos que julgo não convir...

Transversal convexa acompanhada por prelúdios, o mesmo estribilho...

Por lapsos de cansaço que dentre as cores que colorem meus dedos,

Aglutinam;

Movimentam-se;

Ressonam.

tela-picasso


postado por 58690 as 02:42:03 # 1 comentários
quarta, 28 maio, 2008



Queria que as palavras tivessem som...

Que elas tocassem música...

Que eu pudesse enfim tocá-las

Palavras... melodia........canção...poesia.................

E que eu pudesse dizer em forma de balé... o que o meu eu insiste em esconder.......... 

tela ..edgar degas


postado por 58690 as 05:45:37 # 1 comentários
sexta, 16 maio, 2008
por uma última canção....

O azul cinéreo destes olhos...;

pela madrugada ébria destilam framboesas e veneno...

O azul límpido destes olhos,difundem,confudem...

abstem-se ao mesmo color sem tom à perturbar-me...

os azuis, a cólera, a vermelhidão...

Continuada,paradoxal...

Vermelhos,azuis,cobre....

O azul desses olhos

que não são azuis ....são castanhos....

sintonizam ..emitem ...Carolina Belha


postado por 58690 as 04:59:26 # 0 comentários
sábado, 03 maio, 2008
canção para uma tarde de sol


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo


O que será (À flor da pele)Chico Buarque...........tela....CEZZANNE

postado por 58690 as 03:59:54 # 0 comentários
quinta, 01 maio, 2008
prosa .............

Linda, uma história horrível


Caio Fernando Abreu

Para Sergio Keuchguerian
"Você nunca ouviu falar em maldição
nunca viu um milagre
nunca chorou sozinha num banheiro sujo
nem nunca quis ver a face de Deus."
(Cazuza: "Só as mães são felizes")


Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro — agora, que cor? — e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.

Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim — de fora, de dentro da casa —, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.

— Tu não avisou que vinha — ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.

Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.

— A senhora não tem telefone — explicou. — Resolvi fazer uma surpresa.

Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.

— Sai, Linda — ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. — Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.

— Que idade ela tem? — ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.

— Sei lá, uns quinze. — A voz tão rouca. — Diz—que idade de cachorro a gente multiplica por sete.

Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:

— Uns noventa e cinco, então.

Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:

— O quê?

— A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.

Ela riu:
— Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. — Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café?

— Se não der trabalho — ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.

As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar — enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria — ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.

— Tá fresquinho — ela serviu o café. — Agora só consigo dormir depois de tomar café.

—A senhora não devia. Café tira o sono.

Ela sacudiu os ombros:

— Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.

A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.

— Vá dormir — pediu. — É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.

Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.

— Que que foi? — perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.

— Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:

— Me dá o fogo.

Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:

— Bonito, o isqueiro.

— É francês.

— Que é isso que tem dentro?

— Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.

Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.

— Parece o mar — sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.

Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.

— Vim, mãe. Deu saudade.

Riso rouco:

— Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?

Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:

— Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.

Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.

— É sina — disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.

— Já faz tempo, mãe. Esquece — ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?

Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.

— E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. — Bateu o cigarro. — E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?

Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.

— Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.

Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.

— Deixa eu te ver melhor — pediu.

Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.

— Tu estás mais magro — ela observou. Parecia preocupada. — Muito mais magro.

— É o cabelo — ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias.

— Perdeu cabelo, meu filho.

— É a idade. Quase quarenta anos. — Apagou o cigarro. Tossiu. — E essa tosse de cachorro?

— Cigarro, mãe. Poluição.

Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão
(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.

— Mas vai tudo bem?

— Tudo, mãe.

— Trabalho?

Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:

— Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.

— Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme?

A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:

— Coitada. Mais esclerosada do que eu.

— A senhora não está esclerosada.

— Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? — Esperou um pouco, ele não disse nada. — A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.

— A Cândida morreu, mãe.

Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.

— Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? — Abriu os olhos. — Quer comer alguma coisa, meu filho?

— Comi no avião.

Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.

— Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? — Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. — Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. — Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. — Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?

— A gente acostuma, mãe. Acaba gostando.

— E o Beto? — ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.

Se eu me debruçasse? — ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.

— Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.

Ela voltou a olhar o teto:

— Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. — Apertou os olhos. — Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.

— Casserole, mãe. La Casserole. — Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. — Foi boa aquela noite, não foi?

— Foi — ela concordou. — Tão boa, parecia filme. — Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.

— O Beto gostou da senhora. Gostou tanto — ele fechou os dedos. Assim fechados, passou—os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. — Ele disse que a senhora era muito chique.

— Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. — Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. — Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? — Voltou a olhar dentro dos olhos dele. — Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo.

— A gente não se vê faz algum tempo, mãe.

Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias — os três, ele, a mãe e Linda.

— E por quê?

— Mãe — ele começou. A voz tremia. — Mãe, é tão difícil — repetiu. E não disse mais nada.

Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e — como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo — disse:

— Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.

Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.

— Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.

Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô — rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.

Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque.

Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.

— Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.


 Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Cia. das Letras, 1988.

maravilhoso!!!!!!


postado por 58690 as 05:35:29 # 0 comentários
quarta, 23 abril, 2008
canta sabia..........canta ..........

andaimes,,,,

concreto ;;;;;;;;;;;;;;

amores,versos....impreterivelmente......

sangue espesso corroendo doce ,pelo meus dedos amarelos e de unhas feitas;;;

paisagens ,,,,,

passagem....

viagens...............

vertigem...


postado por 58690 as 05:31:46 # 1 comentários
quarta, 02 abril, 2008
só prosa.....

Dante Milano


Fuga do centauro


Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.

 

Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...

 

Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.

 

Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.

 

Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.

 

Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos


postado por 58690 as 03:24:59 # 0 comentários
segunda, 31 março, 2008
vento e prosa por favor!!!!!!

O ex-mágico da Taberna Minhota

Murilo Rubião


Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
 porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)

Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
 porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)


Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.

Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.

O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.

Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.

Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.

Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

Situação cruciante.

Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.


Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.

Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.


Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.

Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.

— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.

Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:

— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.

Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.

Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.

O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.

Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.

Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.

Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.

Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.


Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.

Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.


1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou -me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


O texto acima foi extraído do livro "O pirotécnico Zacarias e outros contos", Editora Companhia das Letras —


postado por 58690 as 02:38:48 # 0 comentários
segunda, 10 março, 2008
...

"Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía;
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto."

pablo neruda

postado por 58690 as 04:40:20 # 0 comentários
domingo, 24 fevereiro, 2008
........

ANÁLISE

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

              Fernando Pessoa, 12-1911


postado por 58690 as 05:48:09 # 0 comentários
segunda, 04 fevereiro, 2008
prosa ...cerveja ....carnaval....

A noite foi feita

 Para dormir?

Ou  o dormir foi,

Feito para noite?

Lembro-me como se fosse

Ontem,

Era um fim de tarde de

 Um sábado chuvoso

O caos viário tomava conta

Da avenida amazonas...

Era a primeira bienal do automóvel... em Belo Horizonte ....

Bienal do automóvel,

Ou bienal do fim do mundo?

De alguns de meus

grandes amores...

Sinto muito

muita pena

deles

Do matar de minha fome

Do saciar de meu prazer

Do aquecer do meu frio

Até mesmo de meus trintas centavos

.....Como eu te amo

Caixinha de fósforos...

autor...nada a declarar....

tela-van gogh


postado por 58690 as 07:13:52 # 0 comentários
domingo, 27 janeiro, 2008
passar o tempo .!!!!...com ferro e vapor???


Carlos Drummond de Andrade


(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

(Resíduo)

tela - Juarez Machado


postado por 58690 as 12:26:33 # 0 comentários
domingo, 13 janeiro, 2008
,,,,,,,,,

Meio sozinho demais...

Sento-me só e sinto-me solto.
O copo cheio
e o cinzeiro transbordando a nostalgia do que ficou por acontecer.
Na lareira,
vejo queimar lembranças e fotos
do passado que repete instintivamente à minha contradição,
contra-senso
contra tudo que não me deixa adormecer.
Aspiro esta alma gélida
num sopro de vida que me deixa mais próximo do coma.

E numa esquina qualquer,
- no mesmo pesadelo onde você habita -
atravesso apressado
pela calçada que sempre leva a lugar nenhum.
E chego tarde
por que a tristeza causou novo estrago
neste velho coração chutado.

Refaço uma vida toda nestas últimas linhas que me sobraram.

E danço pelas vielas
sombrias e abandonadas
da cidade que não quis meu nome
não quis meu timbre
não quis minhas mais perversas orgias
- evangélicas e abstratas –
Por que o que o mundo não precisa agora é de outro poeta.

Sirva-me outra dose
do mesmo e sempre veneno que se não acalma
desarticula estas opiniões fugidias
estas sextas-feiras de solidão e rum
numa canção de amor que a rádio não toca.

E se meu conceito de perder
for algo além do fiasco que promete não ser esquecido,
eu me abstenho da sorte
da luta
da morte
que assovia em meus ouvidos
a música de ninar corações solitários.

Quer dos narcisos
retirar beleza pra contar nossas histórias?
Quer do caminho
Subtrair a madrugada para vermos juntos o pôr-do-sol?
Quer do impasse
Continuar o mesmo rito dos canalhas que sempre terminam sozinho?
Quer da distância
fazer acontecer a dança dos ursos que todo escritor busca?

Então fuja comigo.
Talvez você ainda tenha alguma chance quando tudo isto terminar.

Eu estou em minha contagem regressiva.

obrigadA ...DELL BLOOMM...PRINCIPALMENTE PELA BOA COMPANHIA...


postado por 58690 as 08:28:17 # 1 comentários
quinta, 27 dezembro, 2007
perfeito estado contrário em aberto ...

Contradigo,

O sim e o não...

Amor e paixão...

Desespero e razão...

Com tantas rimas, tils...

Estou na verdade cansado desta grande , irremediavelmente, ignóbil contradição...

E tenho dito;

 ..ou não ????


postado por 58690 as 02:04:16 # 2 comentários
natal

Um cavalo e seu cavaleiro

num poste de luz...

Apenas o acaso.

Corações de barata...

O rock´n´roll no portão...

No meu discurso apenas o não sei...

FAKE PLASTIC...

Corações de barata, o céu azul e laranja...

E o nome do meu amor fora da pauta.

 

 


postado por 58690 as 02:01:25 # 0 comentários
segunda, 24 dezembro, 2007
débora


eis tudo... e fim

postado por 58690 as 07:42:37 # 0 comentários
tons

"Ocasião

Eu já te disse: não existe calma
Quando não se pode fazer algo
É quando tudo ataca você.

Raspei meus cabelos e fui direto ao fim
O fogo é apenas ilusão de inferno
Ouço passos e nem tem mais sombra,

Virou-se pra mim e não disse mais nada
Agüentei tudo que acabou e nem começou
Somos filhos de quem nos odeia tanto?

Veio-me uma dor cinza que tenho desde menino
Lá fora o tempo é da cor dos meus olhos
Sempre tive vontade de não estar aqui,

Odeio saber que o sol trouxe o amanhã
Às vezes parece que o dia foi eterno
Mesmo sabendo que sempre vivemos pela metade."

Poema de Fernando Luís


postado por 58690 as 12:05:17 # 1 comentários
domingo, 23 dezembro, 2007
Volando vengo, volando voy...................Deprisa deprisa a rumbo perdido........

E quando chegar a noite...

E ver sorrir as marcas do tempo... ver sorrir um sorriso triste...

E quando chegar o dia... verás que nada foi sonho......

Verá que nem o tempo passou tão rápido...

.e tão rápido foi o tempo...

Verá o que verá no espelho... e o talvez .......


postado por 58690 as 01:32:02 # 0 comentários
Solo voy con mi pena.............Correr es mi destino


"A  intensidade do mundo ."

 

 

Não sei o que dizer.......não sei ,não sei,,,,,sei não .............

 


postado por 58690 as 01:20:17 # 0 comentários
sábado, 22 dezembro, 2007
conversa de bar

o rato-Senti saudades de um tempo.

o gato-O futuro que agora é passado.

o rato-Senti saudades...

o gato-Do cheiro gostoso de menta...Pecado...E ausência.

o rato-A velha cortina de renda Porém, estava ali...O  novo velho retrato.

o rato-Sorrindo pra mim...

o gato-E quem sorria?

 o rato-Eu mesmo nem me lembro mais.

o rato-Não consigo lembra-me da tristeza, que na verdade nunca existiu...Nem da alegria constante, que também não estava ali...

o rato-O sentimento que existia era uma coisa presente...Sem o presente...Uma alegria assim à-toa, descontraída, e exatamente do jeito que tinha que ser...

o gato-Eu permaneço do mesmo jeito que antes.Talvez alguma mudança ínfima por dentro.Uma coisa qualquer, que ainda não percebi a grande transformação ou diferença perceptível...

o rato-Continuo levando o mesmo sorriso no rosto...Bem que alguns ainda me confundem dizendo qualquer coisa sobre a cor dos meus cabelos ou algo do tipo...Continuo apreciando uma boa cachaça, nos bares, nas ruas estreitas de Santa Tereza por onde vou indo.

o gato.-Cantando...Bebendo...Fumando...Toda a desgraça dilacerante que está em todos os lados.Vou feliz.Apesar da velha tristeza me fazer bem...E me fazer assim...

o rato.-Primeiro dia de verão.Dias de chuva... onde estou e onde sempre estive...Só me bateu está certa saudade, das 78 coisas que quero ao mesmo tempo e o tédio que me acomete sempre quando acaba a festa e quando vejo como são corriqueiros todos que me rodeiam.Como são sempre os mesmos... Com as mesmas fotos, mesmos sonhos e tudo igual...Sinto-me um idiota completo quando acho que me vejo assim...Tipo zumbi assombrando as ruas na noite.

o gato-Porém, eles sempre sorriem pra mim... Os olhares e a curiosidade.Por eu ser assim...camaleão,às vezes tigre, elefante, leão , por eu ser o charme em pessoa que não vale nem um tostão.

o rato-Sucederam apenas alguns minutos ou tantos?

Enfim...

 o gato-Ainda nem é domingo...E nem natal...Ainda faz sol.E chove muito no meu quintal.


postado por 58690 as 02:46:17 # 0 comentários
e o pulso..........

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa...

Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Rancor, cisticircose
Caxumba, difteria
Encefalite, faringite
Gripe e leucemia...

E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa

Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania...

E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...

Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimba, lepra, afasia...

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim...

rock velho titãs




postado por 58690 as 12:46:25 # 0 comentários
quinta, 20 dezembro, 2007
...

Estou Cansado   Estou cansado, é claro, 
   Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
   De que estou cansado, não sei: 
   De nada me serviria sabê-lo, 
   Pois o cansaço fica na mesma. 
   A ferida dói como dói 
   E não em função da causa que a produziu. 
   Sim, estou cansado, 
   E um pouco sorridente 
   De o cansaço ser só isto — 
   Uma vontade de sono no corpo, 
   Um desejo de não pensar na alma, 
   E por cima de tudo uma transparência lúcida 
   Do entendimento retrospectivo... 
   E a luxúria única de não ter já esperanças? 
   Sou inteligente; eis tudo. 
   Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
   E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
   Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *obrigada, Pessoa...

postado por 58690 as 06:43:02 # 0 comentários
sexta, 14 dezembro, 2007
apenas um comentário..ouviram???


Cintilam, cintilam, cintilam, blam, pow, pow

postado por 58690 as 03:47:40 # 0 comentários
terça, 11 dezembro, 2007
????


"...deixar pra trás, sais e minerais. Evaporaaaaaaaaaaar..."

postado por 58690 as 09:54:43 # 2 comentários
fui por ai ....está foi a minha escolha ...

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre. E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos. Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais. Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação. ... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escadalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

(Clarice Lispector, in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)



postado por 58690 as 09:09:19 # 1 comentários
quarta, 05 dezembro, 2007
cala a boca


Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva
!

Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!

quarta - feira..........

Hoy día luna día pena
Hoy me levanto sin razón
Hoy me levanto y no quiero
Hoy día luna día pena
Hoy día luna día pena
Hoy me levanto sin razón
Hoy me levanto y no llego
A ninguna destinación
Arriba la luna Ohea...
Arriba la luna Ohea...
Hoy día luna día pena
Hoy me levanto sin razón
Hoy me levanto y no quiero
Hoy día luna día muero...
Arriba la luna Ohea...
Arriba la luna Ohea...
Arriba la luna Ohea

trecho-cala a boca, Bárbara...chico buarque

música ..manu chao


postado por 58690 as 10:57:41 # 2 comentários
....


 O Desejo de Pintar

Charles Baudelaire «

Tradução de Aurélio Buarque de Holanda

Infeliz o homem, talvez, mas feliz o artista dilacerado
Pelo desejo!
Abrasa-me a ambição de pintar aquela que me apareceu
Tão raramente, e tão cedo me fugiu, como foge uma bela
Coisa saudosa atrás do viajante levado dentro da noite.Há
Quanto tempo, já, que ela se foi!
É bela, e mais do que bela: é surpreendente. Nela
Predomina e ressalta o negro: e tudo o que ela inspira é
Noturno e profundo. Seus olhos são duas cavernas onde
Cintila vagamente o mistério, e seu olhar ilumina como o
Relâmpago: é uma explosão nas trevas.
Compará-la-ia a um sol negro, se fossê possível
Conceber um astro negro esparzindo luz e felicidade.Ela, porém,
Nos leva antes a pensar na Lua, que certamente a assinalou
Com a sua terrível influência. Não a Lua branca dos idílios,
Que recorda uma fria desposada, mas a Lua sinistra e
Embriagadora, suspensa no fundo de uma noite procelosa, e
Atropelada pelo galopar das nuvens; não a Lua plácida e
Discreta que visita o sono dos homens puros, mas a Lua
Arrancada do céu, vencida e rebelada, que as Bruxas tessalianas
Obrigam rudemente a dançar sôbre a relva espavorida!
Habitam-lhe a breve fronte a vontade tenaz e o amor
Da prêsa. Todavia, nesse rosto inquietante, onde narinas
Frementes aspiram o desconhecido e o impossível, rebenta, com
Inexprimível encanto, o riso de uma grande bôca, vermelha
E branca, e deliciosa, que faz pensar no milagre de uma
Soberba flor desabrochada em terreno vulcânico.
Há mulheres que inspiram o desejo de vencê-las e
Gozá-las; esta, porém, desperta o desejo de morrer lentamente
Sob o seu olhar.


postado por 58690 as 09:37:57 # 0 comentários
seu minuto ,,,,,meu segundo


Eu vou indo...
Conseguir um pouco de calma...
Qualquer álcool forte no sangue.
Entorpecer meu corpo, sexo, olfato,
Compassos profanos... Realidade?
Um soco, por favor!
seu minuto , meu segundo

postado por 58690 as 08:52:40 # 1 comentários
sexta, 30 novembro, 2007
5 idéias geniais que não serão absorvidas mas não deixam de ser geniais.


se pudesse agora colocar alguma canção ...

seria  um samba....

que tal roendo as unhas do querido paulinho da viola...

.
- 1o- Proibir execução de funk, pagode e axé em qualquer veículo de comunicação com pena de execução em praça pública de quem desacatar.
- 2o- O voto passa a ser facultativo. E quem não for votar, guilhotina.
( Não, não é paradoxo. Sou contra o voto obrigatório, mas é justamente os que não votariam, caso fosse facultativo, são os que fodem com a política deste país, votando errando )
- 3o -Cota pra negros e mestiços o caralho! E aproveita e vamos acabarcom a porra dos feriados inúteis. Dia internacional da mulher, da consciência negra e o excambau. Para com esta merda de dar prêmio de consolação. Um dia no ano pra comemorar a hipocrisia. Chega, né?
- 4o- Façamos o dia do Mc Donalds feliz de maneira diferente. A rede de lanchonetes vai fornecer ao usuário o procedimento de como é feito toda aquela porcaria de lanche com gosto de cocô de iguana, e cada cliente leva um mendigo - o mais sujo que achar na rua - e paga um lanche pro coitado.
- 5o -Por lei, cada um que quiser levar a porcaria de Blockbuster novo na locadora, será obrigado antes a comprovar que viu algum filme do Bertolucci, Crowe, Fellini, Chaplin ou mesmo o Tarantino. E pros livros a mesma coisa. Toda vez que quiser ler os códigos da vinci da vida precisa antes provar que leu Clarice Lispector e afins. E provar que gostou, senão prisão perpétua.

Instaurado o Terror.
Obrigado, Sabino.

por dellmonio-http://www.fotolog.com/dellmonio/29149987

grande amigo das tardes infindas e futuras boemias...

tela -salvador dali


postado por 58690 as 03:11:10 # 3 comentários
terça, 27 novembro, 2007
livro de perguntas.......


«Nada fica de nada.» (Ricardo Reis)  •  «De tudo fica um pouco.» (Carlos Drummond de Andrade)

"se talvez eu soubesse qual a relação exata que uma palavra tem com outra palavra..com certeza não me denominaria poeta"...."Carolina Belha"

Livro das Perguntas

PABLO NERUDA

Que vim fazer neste planeta?
A quem dirijo esta pergunta?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Não era verdade que Deus
vivia no mundo da lua?

Minha  poesia desgarrada
abr'olhos com estes olhos meus?

Por que me picam as pulgas e os
sargentos da literatura?

Que dirão da minha poesia
os que não tocaram meu sangue?
 
Por que me movo sem querer?
Por que estou sempre desinquieto?

E se minh'alma desabou
por que meu esqueleto prossegue?

Por que vou girando sem rodas
e voando sem asas nem penas?

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

E que bandeira tremulou
no espaço em que não me esqueceram?

Pois não foi onde me perderam
que eu me dei, enfim, por achado?

Esse onde onde termina o espaço
se chama de morte ou infinito?
 

E FIM.....????


postado por 58690 as 09:25:13 # 0 comentários
sexta, 23 novembro, 2007
devaneios


...

postado por 58690 as 11:34:31 # 0 comentários
quinta, 22 novembro, 2007
b.........


Cosmopolita,

 selvagens versos no interior do bule...

Versos;

Leve;

Não vi desenhos quando olhei as nuvens...

Não vi nada............

Ou o céu não está azul?

Pra mim está tudo assim;

vazio quando está cheio.

Sementes dentro do liquidificador...

Gelado quando a geladeira está desligada

O buraco em cima ou embaixo,

Apenas buraco.!!!!!!!!!!!!!

Chuva-ácida dentro de um  vaso com jasmim...

carolina belha

 


postado por 58690 as 04:49:06 # 0 comentários
sábado, 17 novembro, 2007
pesado


Daria um passo qualquer.

Em qualquer lugar do mundo...

Isto se tivesse hoje algum lugar p’rá me esconder...

Queria era mesmo ser feita de lápis de cor...

 


postado por 58690 as 04:35:30 # 1 comentários
quarta, 14 novembro, 2007
a terra dos sonhos


com fim....

postado por 58690 as 05:17:47 # 0 comentários
.....


Ai quem me dera terminasse a
espera
Retornasse o canto, simples e sem fim


postado por 58690 as 05:15:44 # 0 comentários
quinta, 08 novembro, 2007
ram..melodia,,,ram

Rotina

O sol me chama pela janela
Lindo céu azul para ver o mundo
Mas eu não tenho nada pra fazer

O despertador eletrônico
Ônibus elétrico
Computador processador
Robô

Estou de pés e mãos atadas
Por mim, por eles.
Ninguém vai me dar carona
Ainda mais se souberem que estou sendo procurado

Eu tenho que ir trabalhar, ou talvez
tenho que ir viajar, ou talvez
mas acho que vou continuar dormindo e sonhando

ram....paim


postado por 58690 as 11:42:11 # 1 comentários
quarta, 07 novembro, 2007
a tinta azul


Conformo-me com o silêncio...

Conformo-me em não dizer.

Abster-me...

Calar-me...

Fechar os olhos...

Transformei-me agora nos dois macacos...

Mais sei que o terceiro não se demora em chegar...

 autor surdo mudo e desconhecido...

tela-kandisnsky


postado por 58690 as 08:36:25 # 0 comentários
sexta, 02 novembro, 2007
....silêncio...


Vinícius de Morais

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
.


postado por 58690 as 05:15:59 # 0 comentários
quinta, 01 novembro, 2007
DIARIAMENTE

Inconstante;

Levemente pesado;

Inconsciente em mim;

Obliquo,

Sólido, obsceno...

Insustentavelmente.

Suspenso.....

C.B....

CAROLINA BELHA


postado por 58690 as 11:02:06 # 0 comentários
terça, 30 outubro, 2007
.................e etc......


Às  vezes tenho a sensação de estar ficando louca. Mais louca do que sou normalmente.Uma mania meio incabível, que eu adquiri há pouco tempo, e por mais que eu tente está sempre na minha cabeça....e eu até acho graça em mim . Já faz um tempo que eu não consigo ver as pessoas de outra forma. Vejo as pessoas como mortos vivos... Feito zumbis... e é isto  que passa pela minha cabeça todos os dias..zumbis por toda  a parte......zumbis na farmácia,na padaria,zumbi motorista de ônibus,zumbi garçom, pensando de forma mais insana........todos estes filminhos meia boca que estão no cinema .deveriam ter outros nomes.como exemplo........ O homem zumbi aranha... Rsrsrs... Uma babá zumbi quase perfeita... e por ai vai ....bob zumbi esponja..... E em todo lugar do mundo... Terroristas zumbis atacam novamente... E é até curioso por que em algumas noticias que vejo na televisão tanto os jornalistas parecem realmente zumbis como toda a noticia e os entrevistados... Eu  me olho no espelho e enxergo-me meio zumbi. é claro que não é todos os dias que me vejo assim..mais ultimamente ..quase sempre acabo por ver um zumbi olhando para mim no espelho...........

c.B.

CAROLINA BELHA

tela- goeldi


postado por 58690 as 10:48:30 # 1 comentários
sábado, 27 outubro, 2007
folhas no asfalto


Em mim,

algum silêncio...

Um barulho que arde!

Veias de vidro,

liquido branco,

Um tráfego de mim...

Fétido, condenável?

Selvagem de lugar algum,

nenhum corpo

apenas peso....

O peso leve...

Um corpo que apenas sinto?

Olhos que apenas olham...

E não enxergam...

C....B....Carolina Belha

tela-FRAGUITO...


postado por 58690 as 10:07:15 # 0 comentários
quinta, 25 outubro, 2007
borboletas


...................

.....................................

................................................

.............................................................

.....................................................................

era simplesmente tudo que  queria dizer-lhe.........


postado por 58690 as 04:57:59 # 0 comentários
fobia

O dia ...

a noite...

o eterno balé do tempo....

tela..chagal



postado por 58690 as 04:46:12 # 0 comentários
terça, 23 outubro, 2007
prosa

Pneumotórax
Manuel Bandeira

Febre, hemoptiase, dispinéia
e suores noturnos.
A vida inteira que
podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três....
trinta e três...
trinta e três...
- Respire.

...........................

- O Sr. Tem uma exvacuação
no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor,
não é possível tentar
o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


postado por 58690 as 02:58:51 # 0 comentários
segunda, 22 outubro, 2007
alguma canção

ADORO, SEI LÁ POR QUE,
ESSE OLHAR
MEIO ESCUDO
QUE EM VEZ DE QUALQUER ÁLCOOL FORTE PEDE ÁGUA PERRIER


postado por 58690 as 09:42:19 # 0 comentários
o sol


Hoje vou voltar a janela ....tentar ver a luz ....


postado por 58690 as 02:30:54 # 0 comentários
quarta, 17 outubro, 2007
uma dose de pessoa..............


Quem me dera eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem a minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

fernando pessoa


postado por 58690 as 01:52:34 # 0 comentários
arre!!!!!!!!!!

El Viento

El viento viene
El viento se va
Por la frontera
El viento vien
El viento se va
El hombre viene
El hombre se va
Sin más razón
El hombre viene
El hombre se va
Ruta Babylon...
Por la carretera
La suerte viene
La suerte se va
Por la frontera
La suerte viene
La suerte se va
El hombre viene
El hombre se va
Sin más razón
El hombre viene
El hombre se va
Cuando volverá
Por la carretera


manu chao


postado por 58690 as 01:22:40 # 0 comentários
 
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