|
quarta, 16 março, 2011
 |
|
 |
um lado tingido de preto
 visto-me de preto com o luto que me reveste a alma ,e eis que sou uma espessa tentativa de encontrar lembranças feitas de um qualquer arco-íris ..Essa espessa lembrança não existe,não se faz em cores , pois perdeu os tons .Eis que me transformo em morto ...há alguns meses tinha em mim uma forma de vida , hoje por dentro uma outra vida resiste além da vontade de ser.não existe o eu em nenhum lugar , não existe imagem no espelho, não existe o sentir gelado da água de chuva , em todos aqueles dias que a vi só pelo pensamento. Eis que sou , um ser morto , que se move pela inercia do contrário,por noites e dias,por noites e dias estou a chorar,Pois todas as desgraças imacularam meu corpo sujo de lama.
|
|
|
 |
|
 |
quarta, 01 dezembro, 2010
 |
|
 |
transfiguração geologica
 E LÁ ESTAVA , PERNDURADO NUM VARAL BEM PERTO DA AVENIDA SÃO JOÃO... com amor para luna e jey jey
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 13 setembro, 2010
 |
|
 |
homenagem ao malandro, por chico buarque de hollanda ,dicionário abstrato sobre o vento
 Era uma vez um Lobo Mau Que resolveu jantar alguém Estava sem vintém Mas arriscou E logo se estrepou... Um chapeuzinho de maiô Ouviu buzina e não parou Mas Lobo Mau insiste E faz cara de triste Mas chapeuzinho ouviu Os conselhos da vovó Dizer que não prá lobo Que com lobo não sai só... Lobo canta, pede Promete tudo, até amor E diz que fraco de lobo É ver um chapeuzinho de maiô... Mas chapeuzinho percebeu Que o Lobo Mau se derreteu Prá ver você que lobo Também faz papel de bobo... Só posso lhe dizer Chapeuzinho agora traz O Lobo na coleira Que não janta nunca mais... Lobo Bobo...Huuuumm!
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 11 setembro, 2010
terça, 24 agosto, 2010
quarta, 18 agosto, 2010
 |
|
 |
silêncio
 Para Ver as Meninas
Paulinho da Viola Silêncio por favor Enquanto esqueço um pouco a dor no peito Não diga nada sobre meus defeitos Eu não me lembro mais quem me deixou assim Hoje eu quero apenas Uma pausa de mil compassos Para ver as meninas E nada mais nos braços Só este amor assim descontraído Quem sabe de tudo não fale Quem não sabe nada se cale Se for preciso eu repito Porque hoje eu vou fazer Ao meu jeito eu vou fazer Um samba sobre o infinito Porque hoje eu vou fazer Ao meu jeito eu vou fazer Um samba sobre o infinito Silêncio por favor Enquanto esqueço um pouco a dor no peito Não diga nada sobre meus defeitos Eu não me lembro mais quem me deixou assim Hoje eu quero apenas Uma pausa de mil compassos Para ver as meninas E nada mais nos braços Só este amor assim descontraído Quem sabe de tudo não fale Quem não sabe nada se cale Se for preciso eu repito Porque hoje eu vou fazer Ao meu jeito eu vou fazer Um samba sobre o infinito Porque hoje eu vou fazer Ao meu jeito eu vou fazer Um samba sobre o infinito
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
prolixo,oxilorp,prolixo,oxilorp
Setembro... Preciso sentir o vento Já que os pensamentos espessos Dissolvem aos poucos dentro de mim Tudo parado... Nada se move... Apenas o vento dança, Gelado; A bailar com tudo que está imóvel ...... E já chegou a primavera............. Mais a chuva não veio.... pergunto agora para onde foram as flores.......
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
pequeno, pequenininho
homenagem ao malandro número 2345678, lista periódica ao quadrado... cumprimento comprido corrompido metáfisicamente calculado pelo destino...  Pequeno Príncipe (trecho) E foi então que apareceu a raposa: - Bom dia, disse a raposa. - Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada. - Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira... - Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita. - Sou uma raposa, disse a raposa. - Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste... - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. - Ah! Desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou: - O que quer dizer cativar ? - Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras? - Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar? - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços... - Criar laços? - Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. <!--google_ad_client = "pub-9871295109117764";/* 120x600, criado 01/01/10 */google_ad_slot = "1794011463";google_ad_width = 120;google_ad_height = 600;//-->google_protectAndRun("ads_core.google_render_ad", google_handleError, google_render_ad); Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia: - Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo... A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe: - Por favor, cativa-me! disse ela. - Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer. - A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" Antoine de Saint-Exupéry
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 08 agosto, 2010
 |
|
 |
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
 Só que agora que morri, quero garantir todos os meus direitos de morto
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 02 agosto, 2010
 |
|
 |
"..."por MANUEL DE BARROS E HELIO OITICICA....
O Livro sobre Nada Manoel de Barros
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora.
imagem-parangolé-1964-helio oiticica 
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 08 julho, 2010
 |
|
 |
artigo indefinido ,um pouco de prosa em verso
Logo depois de ter morrido, lembrei que não tenho mais tantas vidas assim. O corpo um pouco gasto e alma refrigerada deixam uma espécie de torpor cerebral .Transfigura todos os meus sentidos, por exemplo, há dias não sinto o cheiro das coisas... a última coisa que senti o cheiro, consumiu toda a minha cota de cheiro da vida;;;Passei horas esmigalhando as leis de Newton,movimentação planetária de Kepler e a única conclusão que cheguei é:' A cama É mesmo o melhor dentre todos os lugares do mundo,'O sol arde invisível do lado de fora, e como é linda a luz que fica na sala, (converte a inversão), troco as palavras por canções aleatórias cheia de memórias...]Os neologismos de tão sem graça se voltaram pra estante, dizem que de lá só saem depois do inverno, (o casaco ainda pendurado)...]Hoje quando a manhã chegou, estava completamente coberta de nuvem,..../ era o tipo de nuvem fina,transparente e gelada./Estou ficando bastante obcecada por coisas grandes, desisti definitivamente das caixas, pastas; interesso-me apenas por {estantes}, prateiras e armários, cansei também dos armários, acumulam poeira demais, não me sinto no direito de desconstruir as solitárias moléculas de água com sujeira, Como ando suja,!!!!! E ter que admitir que o sujo viva falando do mal lavado, e, por direito legal, com firma reconhecida em cartório, também posso reclamar. (a sujeira se localiza de forma organizada no meu corpo),- - não quero entrar em detalhes.!!!Acabei de pensar no tédio, estou com leves sintomas de entedia- mento por excesso de trabalho, o corpo decidiu entrar em greve, e meu salário mínimo ainda não foi depositado, não tenho como comprar os remédios certos.No próximo mês viajo pro rio de janeiro, são Sebastião que me proteja do mal, preciso reencontrar o mar de qualquer maneira, novamente coloco todas as fichas na mesa’, e só desejo não encontrar outra solução depois que o jogo já estiver terminado,Definitivamente preciso me aposentar em relação ao pensamento, não quero mais pensar, decidi por excelência legitimada, não quero mais explicar nada,Não falo mais, tudo agora será desenhado para um melhor entendimento, reconheço o perigo e não me importo, e só uma questão de gosto pessoal mesmo, prefiro as imagens a as palavras, (ou o contrario) estou confusa, não! Estou deixando tudo confuso, pior ainda, estou confundindo todo mundo, ainda em processo de pior amento, confundo a mim confundindo os outros, os outros me confundem se auto confundindo, e ai se forma o velho e bom novelo, um grande e redondo novelo...Por isso precisei morrer desta vez não provoquei a minha morte, talvez seja esse o meu único alivio tava cansada de sustentar uma suicida louca que só sabe encher o corpo de açúcar,Desta vez morri de morte matada, não foi intencional, tento acreditar que os meus assassinos não queriam mesmo me matar, tento acreditar que eles queriam me salvar e por um erro de cálculo, acabei morrendo... Pra mim está tudo certo, um morto já não pode reclamar comer, dormir, respirar, correr, trepar.. pois já esta morto mesmo, e morto continuaráSó que agora que morri, quero garantir todos os meus direitos de mortoAcabei de me lembrar de uns exercícios para meditação. os cinco exercícios dos llamas tibetanos..lembrei do meu desprezo pelo quinto exercício, como ele me seria ;útil hoje...seria o único ..enfim não importa..consegui fazer a façanha de induzir um outro ser a perder os cinco exercícios de meditação mais importantes da minha vida...O pior é que não posso nem arrancar os olhos deste ser e muito menos colocá-lo ajoelhado no milho... isto sim me irrita profundamente...Os seres precisam de uma forma ou de outra aprender lições,Quem me dera ter poderes mágicos de verdade, avada kedrava.E tudo lindo pra sempre... a beleza do fenômeno . Desabafos de um sábado sem maconha... camila baldon de lima
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 03 julho, 2010
 |
|
 |
artido urgente a favor do respiro
artigo indefinido,indefinido pelo indefinido , uma história não se escreve assim tão facilmente, é necessário uma dose cavalar diaria de torpor animal com beleza de flor , escrever exercício contraditório do que nada quer além de existir como palavra,escrever uma história é arrancar dos cabelos fio por fio só para sentir mais leve a cuca ,ter no ármario um bom número de chapeletes e adornos.. escrever é difícil , doi e transforma... o que é difícil,ainda estou tentando aprender o que doi a literatura conta ,e o mais bonito está mesmo no A.C o que transforma,só consegue ser quem se dá o direito ao absurdo,,,, descobri agora ,nessa madrugada alta ,sábado, primeiro sábado de julho de dois mil e dez ,um seleção barata de algumas coisas postadas por mim , é isso mesmo , mesmo por que disse clarice ,,,, a felicidade é mesmo clandestina... bom apetide e boa noite IIII 24.9.07 já vou indoNão te demoras chegar, que meu suor já é sangue... E minha bandeira já nem sei em que esquina ficou... 4.9.07 ... APÓS MORRER POR ALGUNS INSTANTES ACORDEI NUM QUADRO VIVO, ISTO QUE ESCREVO E UM DESENHO ELETRÓNICO E NÃO TEM PASSADO NEM FUTURO É SIMPLESMENTE JÁ....
lispector
verde ,rosa e lilásE os pássaros continuam a cantar o triste canto da solidão... Em seus galhos secos cantam a canção da morte... E talvez suas lágrimas consigam chegar ao chão antes que o nada absorva o sentido que tenha o amor... Talvez seja eu um dos pássaros a chorar e cantar... Ninguém que possa enxergar minhas lágrimas e o pranto existente em meu coração... Não há ninguém... Não existe mais coração... E as margaridas há tempos perderam sua cor... há tempos perderam a razão..... Eu perdi apenas meu coração... E esta com certeza foi a minha maior perda... maior desencanto......... Não posso mais... até,,,,Até, Quando, não sei onde, O tempo que às vezes se desfaz.... Até quando me fizer forte... E meu coração.. Que vê flores......em todos os jardins que passa....... Até ..... Não sei onde............ outono Meus dias, E todos parecem escutar alguma canção... E eu só consigo ouvir a dor do meu coração Há coração, sinto pena de ti, sinto o quanto está sangrando. O gosto de sangue está em mim... Meus dias é persistir neste nada profundo...
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 09 maio, 2010
 |
|
 |
silêncio...
carrego em mim , o cheiro do cansaço, perda, morte e pó... sobre minha pele misturam-se e por aglutinação escorrem... e ísso é vida... perdoe-me a delicadeza...
camila baldon 
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 01 maio, 2010
 |
|
 |
reticências periódicas PARTE III
aleatório,aleaTÓRIO............pontos,virgulas,sementes,e pontos...
se a loucURA fOSSE assIM coiSa ,não é coisa, é cheiro,sabor,... perto ,onde escorre...pelos lugares que es...............corro...
nasce hoje uma série autocontolaçodemim...SérIE plANOs de FuGA.. AÇÃO.EXPERIÊNciAS DO INVÍSIV EL.............
fragmentos POR caio fernando abreu MEL E GIRASSÓISparte final...A luz da lua entrava pela janela. Aquela brisa morna, que não teriam mais no dia seguinte. Ele a viu melhor, então: uma mulher um pouco magra demais, um tanto tensa, cheia de idéias, não muito nova ― mas tão doce. As duas mãos apoiadas nos ombros dele, assim afastando os cabelos, no mesmo momento ela o viu melhor: um homem não muito alto, ar confuso, certa barriga, não muito novo ― mas tão doce. Que grande cilada, pensaram. Ficaram se olhando assim, quase de manhã. Ela não suportou olhar tanto tempo. Virou de costas, debruçou-se na janela, feito filme: Doris Day, casta porém ousada. Então ele veio por trás: Cary Grant, grandalhão porém mansinho. Tocou-a devagar no ombro nu moreno dourado sob o vestido decotado, e disse: ― Sabe, eu pensei tanto. Eu acho que. Ela se voltou de repente. E disse: ― Eu também. Eu acho que. Ficaram se olhando. Completamente dourados, olhos úmidos. Seria a brisa? Verão pleno solto lá fora. Bem perto dela, ele perguntou: ― O quê? Ela disse: ― Sim. Puxou-o pela cintura, ainda mais perto. Ele disse: ― Você parece mel. Ela disse: ― E você, um girassol. Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro. Fim
IMAGEM -HELIO OITICICA
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
reticências periódicas PARTE II
 SONETO- uma cançãoPor que me descobriste no abandono Com que tortura me arrancaste um beijo Por que me incendiaste de desejo Quando eu estava bem, morta de sono Com que mentira abriste meu segredo De que romance antigo me roubaste Com que raio de luz me iluminaste Quando eu estava bem, morta de medo Por que não me deixaste adormecida E me indicaste o mar, com que navio E me deixaste só, com que saída Por que desceste ao meu porão sombrio Com que direito me ensinaste a vida Quando eu estava bem, morta de frio
por BUARQUE CHICO,imagem-ligia clark
SÉRIE- PLANOS DE FUGA,PARTE II-CANÇÕES,CITAÇÕES E REFERêcias bibliograficas.
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 18 abril, 2010
 |
|
 |
RETICÊNCIAS PERIÓDICAS......PARTE I
. POR CAIO FERNANDO ABREU........... PARA UMA AVENCA VIAJANTE Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.
|
|
|
 |
|
 |
terça, 08 setembro, 2009
 |
|
 |
prosa .. um folhetim áereo com alguma densidade
Chacal
Papo de Índio Veiu uns ômi di saia preta cheiu di caixinha e pó branco qui eles disserum qui chamava açucri aí eles falarum e nós fechamu a cara depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo aí eles insistirum e nós comemu eles. vocês repararam como o povo anda triste ? é a cachaça que subiu de preço a cachaça e outros gêneros de primeira necessidade cachaça a dois contos, ora veja, veja a hora, que horas são, atenção apontar: FOGO Ponto de bala os mortos tecem considerações os tortos cozem quietos as crianças brincam e bordam desconsiderações Ai de mim, aipim. ai de mim, aipim. ô inhame, a batata é uma puta barata. deixa ela pro nabo nababo que baba de bobo. transa uma com a cebola. aquele hálito? que hábito! me faz chorar. então procura uma cenoura. coradinha, mas muito enrustida. a abóbora tá aí mesmo. como eu gosto de abóbora. então namora uma. falô. vou pegar meu gorrinho e sair poraí pra procurar uma abóbora maneira té mais, aimpim té mais, inhame
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 31 julho, 2009
 |
|
 |
branco e preto
qQUERIA TER UMA BOMBA
POR CAZUZA
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
valsa 457
 Sabem-se pouco, Fala-se menos ainda.... Desconjuro a besta vermelha acudida atrás do armário; os absurdos que ela lamenta. São lágrimas roxas que encardem todo o assoalho.... ....E seu pranto não para... Absurdamente .... E a besta chora.............................
.............CAMILA BALDON..............
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 27 julho, 2009
 |
|
 |
......
Eu sou o medo da lucidez Choveu na palavra onde eu estava. Eu via a natureza como quem a veste. Eu me fechava com espumas. Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas. Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes. Nem era muito que eu me arrumasse por versos. Aquele arame do horizonte Que separava o morro do céu estava rubro. Um rengo estacionou entre duas frases. Uma descor Quase uma ilação do branco. Tinha um palor atormentado a hora. O pato dejetava liquidamente ali.
manoel de barros

|
|
|
 |
|
 |
quarta, 08 julho, 2009
 |
|
 |
uma dose ...........
Ela ....ANA CRISTINA CÉSAR... quem é ela ,a moça da janela....a moça de tinta que se fez em tela ,pintura... que se fez em pomas ,prosa,amor,delério...sons ... Era ela a moça da janela...linda ,dilacerante... Por agora apresento uma pequena e modesta reunião de palavras,poemas,prosas...ainda não consegui definir nem dizer corretamente sobre sua obra ou quem foi..... ANA CRISTINA CESAR.... e ela ...Oráculo – conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir com uma doçura venenosa de tão funda.
Minha boca também está seca deste ar seco do planalto. Brasília está tombada, iluminada como o mundo real. Pouso a mão no teu peito, mapa de navegação. Desta varanda, hoje sou eu que te estou a livrar. Da verdade.
Caixa de areia com estrelas de papel. Balanço, muito devagar... E se eu te disser que te adoro e te raptar não sei como dessa aflição de março, ainda que aproveitando maus bocados para sair do esconderijo num relance? Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone. Fiz tudo para te agradar: fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, gay, vândala, talvez maquiavélica... um dia emburrei-me, vali-me de mesuras, fiz comércio, avarenta, embora um pouco burra, porque inteligente punha-me logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa. E tantas fiz... talvez querendo a glória, a outra cena à luz dos holofotes, talvez apenas o teu caminho. Tantas, tantas fiz...
Eu era menina e já escrevia memórias, envelhecida. O tempo fazia-se ao contrário. De noite não dormia enquanto os meus olhos viam as luzes dos automóveis velozes no tecto. quando me virava de bruços vinha o diabo e furava-me as costas com um punhal de prata. As mãos interrompiam-se à meia-noite quando chegava o anjo mais escuro que o silêncio. eu era a rainha das cobras.
Um Beijoque tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
.....
por umas e outras ....talvez falando de algumas palavras soltas,letras avulsas,coisa que por ai passam ,infiltram em lugar algum ,por entre fios ,pelo ar .......
Camila Baldon
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 14 junho, 2009
 |
|
 |
DOMINGOIII
 paulo lemisnk-poeta,escritor e compositor 1.
lembrem de mim como de um que ouvia a chuva como quem assiste missa como quem hesita, mestiça, entre a pressa e a preguiça
2.
já me matei faz muito tempo me matei quando o tempo era escasso e o que havia entre o tempo e o espaço era o de sempre nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço melhora o ritmo do pulso e clareia a alma
morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma
3.
um homem com uma dor é muito mais elegante caminha assim de lado como se chegando atrasado andasse mais adiante
carrega o peso da dor como se portasse medalhas uma coroa um milhão de dólares ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos não me toquem nessa dor ela é tudo que me sobra sofrer, vai ser minha última obra
4 e 5.
LÁPIDE 1 epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito são suas obras completas.
LÁPIDE 2 epitáfio para a alma
aqui jaz um artista mestre em disfarces
viver com a intensidade da arte levou-o ao infarte
deus tenha pena dos seus disfarces
6.
Aço e Flor
Quem nunca viu que a flor, a faca e a fera tanto fez como tanto faz, e a forte flor que a faca faz na fraca carne, um pouco menos, um pouco mais, quem nunca viu a ternura que vai no fio da lâmina samurai, esse, nunca vai ser capaz.
7.
a estrela cadente me caiu ainda quente na palma da mão
8.
parem eu confesso sou poeta
cada manhã que nasce me nasce uma rosa na face
parem eu confesso sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
DOMINGO II
Fernando..... Diziam alguns que tudo isso era coisa de gente louca, transviada, acudido demais. As senhorias do ponto de ônibus exclamavam, subtendiam a questão maior;...Aquele andar encardido, os olhos sempre fechados!...Por milhões, milhares de vezes se negava a abri-los...---Abra os olhos fulano!E era assim negação e negação... É acho que era mesmo louco, transviado e acudido. Não se passaram nem tantos anos ..... E ele caiu morto no asfalto; e naquele dia estava com os olhos bem abertos... C.BALDON
![[regopieta-rego.jpg]](http://3.bp.blogspot.com/_oSoR1QMPPbM/SgCvy3jNLSI/AAAAAAAAABs/s370b047X28/s1600/regopieta-rego.jpg)
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
DOMINGO....
![[boccioni.lastrada]](http://4.bp.blogspot.com/_oSoR1QMPPbM/SgHlhT03C2I/AAAAAAAAADM/SMDNJuQ3Iuw/s1600/boccioni.lastrada)
Umberto Boccioni
Padeciam as coisas verdes, rosas e amarelas... Com o vento vieram os alicerces azuis. A chuva quando veio trouxe um manto negro, Limpou todas as coisas verdes, rosas e amarelas todos os alicerces azuis! E a chuva não cansou de cair, inundou todas as coisas. Todo o redondo Todo o quadrado Todos os cones..... C.BALDON
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 24 maio, 2009
 |
|
 |
.......dorival era a melodia
 Sequer conheço fulana, Vejo fulana tão curto Fulana jamais me vê, Mas como amo fulana.
Amarei mesmo fulana? Ou é ilusão de sexo? Talvez a linha do busto, Da perna, talvez o ombro. Amo fulana tão forte, Amo fulana tão dor, Que todo me despedaço E choro,menino, choro
Mas fulana vai se rindo... Vejam fulana dançando No esporte ele está sozinha No bar, quão acompanhada.
E fulana diz mistérios, Diz marxismo, rimmel, gás. Fulana me bombardeia, No entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos, É dama de alta fidúcia, Tem latifúndios, iates, Sustenta cinco mil pobres,
Menos eu...que de orgulhoso Me basto pensando nela Pensando com unha, plasma, Fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado, Desbaratado é que é... Nunca a sentei no meu colo Nem vi pela fechadura.
Mas sei quanto me custa Manter esse gelo digno, Essa indiferença gaia, e não gritar:vem, fulana!
Como deixar de invadir Sua casa de mil fechos E sua veste arrancando Mostrá-la depois ao povo
Tal como deve ser: Branca, intata, neutra, rara, Feita de pedera translúcida, De ausência e ruivos ornatos.
Mas como será fulana, Digamos, no seu banheiro? Só de pensar em seu corpo, O meu se punge...pois sim.
Porque preciso do corpo Para mendigar fulana, Rogar-lhe que pise em mim, Que me maltrate...assim não.
Mas fulana será gente? Estará somente em ópera? Será figura de livros? Será bicho? saberei?
Não saberei? só pegando, Pedindo: dona, desculpe, O seu vestido, esconde algo? Tem coxas reais? cintura?
Fulana às vêzes existe Demais: até me apavora. Vou sozinho pela rua, Eis que fulana me roça.
Mas não quero nada disso. Para que chatear fulana? Pancada na sua nuca Na minha que vai doer.
E daí não sou criança Fulana estudo meu rosto Coitado: de raça branca Tadinho: tinha gravata
Já morto, me quererá? Esconjuro, se é necrófila... Fulana é vida, ama as flores, As artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara Matar-me para servi-la. Fulana quer homens fortes Couraçados, invasores. Fulana é tão dinâmica Tem um motor na barriga. Suas unhas são elétricas, Seus beijos refrigerados,
Desinfetados, gravados Em máquina multilite. Fulana, como é sadia! Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário Que fêz de fulana um mito Nutrindo-me de petrarca, Ronsard, camões e capim;
Que a sei embebida em leite, Carne, tomate, ginástica E lhe colo metafísicas, Enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir Outra fulana que não Essa de burguês sorisso E de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome: recorto-lhe Um traje de transparência; Já perde a carência humana E bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces De meu sonho que especula; E abolimos a cidade Já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência, Mar de hipóteses.a lua Fica sendo nosso esquema De um território mais justo.
E colocamos os dados De um mundo sem classe e imposto; E nesse mundo instalamos Os nossos irmãos vingados:
E nessa fase gloriosa, De contradições extintas, Eu e fulana, abrasados, Queremos...que mais queremos?
E digo a fulana: amiga, Afinal nos compreendemos. Já não sofro, já não brilhas, Mas somos a mesma coisa
( uma coisa tão diversa da que pensava que fossemos.) o mito por drummond
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 22 maio, 2009
 |
|
 |
melodias e palavras...prosa para uma tarde de sol...
transpiração- A inspiração vem de onde Pergunta pra mim alguém Respondo talvez de longe De avião, barco ou ponte Vem com meu bem de Belém Vem com você nesse trem Nas entrelinhas de um livro Da morte de um ser vivo Das veias de um coração Vem de um gesto preciso Vem de um amor, vem do riso Vem por alguma razão Vem pelo sim, pelo não Vem pelo mar gaivota Vem pelos bichos da mata Vem lá do céu, vem do chão Vem da medida exata Vem dentro da tua carta Vem do Azerbaijão Vem pela transpiração A inspiração vem de onde, de onde A inspiração vem de onde, de onde Vem da tristeza, alegria Do canto da cotovia Vem do luar do sertão Vem de uma noite fria Vem olha só quem diria Vem pelo raio e trovão No beijo dessa paixão
ney matogrosso e pedro luiz
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 15 maio, 2009
quarta, 22 abril, 2009
segunda, 12 janeiro, 2009
quarta, 07 janeiro, 2009
 |
|
 |
sem pontos
 Estado visceral, Contorcendo o verbo. O intransitivo direto O objeto oculto O borbulhar pungente, latente, intrasferível Prosas, prós, adverso ao ponto e fim Reticências... obscuro e claro Transcendente a luz, ao som, O quanto se propaga a luz, o som.... Camila Baldon
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 18 dezembro, 2008
 |
|
 |
...
O último sortilégio Fernando Pessoa "Já repeti o antigo encantamento, E a grande Deusa aos olhos se negou. Já repeti, nas pausas do amplo vento, As orações cuja alma é um ser fecundo. Nada me o abismo deu ou o céu mostrou. Só o vento volta onde estou toda e só, E tudo dorme no confuso mundo.
"Outrora meu condão fadava, as sarças E a minha evocação do solo erguia Presenças concentradas das que esparsas Dormem nas formas naturais das coisas. Outrora a minha voz acontecia. Fadas e elfos, se eu chamasse, via. E as folhas da floresta eram lustrosas.
"Minha varinha, com que da vontade Falava às existências essenciais, Já não conhece a minha realidade. Já, se o círculo traço, não há nada. Murmura o vento alheio extintos ais, E ao luar que sobe além dos matagais Não sou mais do que os bosques ou a estrada.
"Já me falece o dom com que me amavam. Já me não torno a forma e o fim da vida A quantos que, buscando-os, me buscavam. Já, praia, o mar dos braços não me inunda. Nem já me vejo ao sol saudado ergUida, Ou, em êxtase mágico perdida, Ao luar, à boca da caverna funda.
"Já as sacras potências infernais, Que, dormentes sem deuses nem destino, À substância das coisas são iguais, Não ouvem minha voz ou os nomes seus. A música partiu-se do meu hino. Já meu furor astral não é divino Nem meu corpo pensado é já um deus.
"E as longínquas deidades do atro poço, Que tantas vezes, pálida, evoquei Com a raiva de amar em alvoroço, lnevocadas hoje ante mim estão. Como, sem que as amasse, eu as chamei, Agora, que não amo, as tenho, e sei Que meu vendido ser consumirão.
"Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa, Tu, Lua, cuja prata converti, Se já não podeis dar-me essa beleza Que tantas vezes tive por querer, Ao menos meu ser findo dividi Meu ser essencial se perca em si, Só meu corpo sem mim fique alma e ser!
"Converta-me a minha última magia Numa estátua de mim em corpo vivo! Morra quem sou, mas quem me fiz e havia, Anônima presença que se beija, Carne do meu abstrato amor cativo, Seja a morte de mim em que revivo; E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"
O Releituras, com essa poesia, junta-se àqueles que comemoram a passagem dos 120 anos do nascimento do autor (1888-2008).
|
|
|
 |
|
 |
terça, 16 dezembro, 2008
 |
|
 |
para todos
"que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."
clarice lispector
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
....
 O menino azul
O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que não corra nem pule, mas que saiba conversar. O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, - de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. . E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim. (Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para as Ruas das Casas, Número das Portas, ao Menino Azul que não sabe ler.).
Cecília meireles
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 11 dezembro, 2008
 |
|
 |
e roda..gira..rodaaaa
Aproveitar o tempo! Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? Aproveitar o tempo! Nenhum dia sem linha... O trabalho honesto e superior... O trabalho à Virgílio, à Mílton... Mas é tão difícil ser honesto ou superior! É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio! Aproveitar o tempo! Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos - Para com eles juntar os cubos ajustados Que fazem gravuras certas na história (E estão certas também do lado de baixo que se não vê)... Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, E os pensamentos em dominó, igual contra igual, E a vontade em carambola difícil. Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos - Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida. Verbalismo... Sim, verbalismo... Aproveitar o tempo! Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça... Não ter um acto indefinido nem factício... Não ter um movimento desconforme com propósitos... Boas maneiras da alma... Elegância de persistir... Aproveitar o tempo! Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. Aproveitar o tempo! Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. Aproveitei-os ou não? Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?! (Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo No comboio suburbano, Chegaste a interessar-te por mim? Aproveitei o tempo olhando para ti? Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante? Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?) Aproveitar o tempo! Ah, deixem-me não aproveitar nada! Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, O pião do garoto, que vai a parar, E estremece, no mesmo movimento que o da terra, E oscila, no mesmo movimento que o da alma, E cai, como caem os deuses, no chão do Destino Álvaro de campos
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 15 novembro, 2008
 |
|
 |
....
uma dose de silêncio e nada... onde estou ?no mesmo lugar que você.. você quem?o todo ,ou tudo ....repartindo o silêncio.. o som hoje aqui não funciona,não existe,ficou inerte... repartindo ,colhendo, ...o silêncio
|
|
|
 |
|
 |
terça, 11 novembro, 2008
 |
|
 |
uma canção ....até pensei...
 Junto à minha rua havia um bosque Que um muro alto proibia Lá todo balão caia, toda maçã nascia E o dono do bosque nem via Do lado de lá tanta aventura E eu a espreitar na noite escura A dedilhar essa modinha A felicidade morava tão vizinha Que, de tolo, até pensei que fosse minha Junto a mim morava a minha amada Com olhos claros como o dia Lá o meu olhar vivia De sonho e fantasia E a dona dos olhos nem via Do lado de lá tanta ventura E eu a esperar pela ternura Que a enganar nunca me vinha Eu andava pobre, tão pobre de carinho Que, de tolo, até pensei que fosses minha Toda a dor da vida me ensinou essa modinha
até pensei-chico buarque tela-chagal
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 08 novembro, 2008
 |
|
 |
acabou-se a prosa
tela-guignard
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
prosa....por vinicius de moraes
Elegia Desesperada (O Desespero da Piedade) Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos... Mas tende piedade também dos que andam de automóvel Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.
Tende piedade das pequenas famílias suburbanas E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina
Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.
Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá Que são virtuoses da própria tristeza e solidão Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.
Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.
Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...
Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo: Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!
Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.
Tende piedade dos homens úteis como os dentistas Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.
Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.
E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!
Tende piedade da moça feia que serve na vida De casa, comida e roupa lavada da moça bonita Mas tende mais piedade ainda da moça bonita Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!
Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação E sonham exaltadas nos quartos humildes Os olhos perdidos e o seio na mão.
Tende piedade da mulher no primeiro coito Onde se cria a primeira alegria da Criação E onde se consuma a tragédia dos anjos E onde a morte encontra a vida em desintegração.
Tende piedade da mulher no instante do parto Onde ela é como a água explodindo em convulsão Onde ela é como a terra vomitando cólera Onde ela é como a lua parindo desilusão.
Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade Mas tende piedade também das mulheres casadas Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.
Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas Mas que vendem barato muito instante de esquecimento E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.
Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas De corpo hermético e coração patético Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.
Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres Que ninguém mais merece tanto amor e amizade Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.
Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras Que são crianças e são trágicas e são belas Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam E que têm a única emoção da vida nelas.
Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade E outra, à simples emoção do amor piedoso Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.
Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas A vida fere mais fundo e mais fecundo E o sexo está nelas, e o mundo está nelas E a loucura reside nesse mundo.
Tende piedade, Senhor, das santas mulheres Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim Piedoso com todos, que tudo merece piedade E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.
tela-edgar degas
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
prosa....por Sérgio Sant'Anna
Romeu e Julieta (minificções)Sérgio Sant'Anna 1
Você amaria um sujeito com um olho de vidro?
Ela disse que a venda negra nos olhos até o tornava atraente, misterioso. Ele estava completamente bêbado e falou que as pessoas precisam se conhecer até o fundo. Arrancando o olho de vidro, jogou-o dentro da laranjada dela. Disse que se ela bebesse com o olho dentro do copo, ele ficaria apaixonado para sempre. Ela bebeu.
2
Na primeira noite, ele achou que para mulher virgem havia penetrado fácil demais. Mas ele era um sujeito fechado, guardava as coisas para si mesmo, refletindo nelas.
Quando ela foi ao banheiro, na manhã seguinte, ele verificou rapidamente o lençol. Nenhum vestígio de sangue.
Um sargento da polícia ninguém passa pra trás.
Na noite seguinte, ele saiu para a rua, apesar da lua-de-mel. Voltando bêbado e sem pronunciar qualquer palavra, deu vinte e cinco facadas nela. O lençol ficou empapado de sangue.
3
Na cama, ele perguntou a ela se podia acender a luz para vê-la. Ela disse que sim, fechando os olhos. E ele perguntou, de repente, se podia fotografá-la, no dia seguinte, completamente nua. Ela sorriu, abrindo os olhos e perguntando: — Por quê?
— Por nada, apenas para guardar comigo.
Mas ele estava pensando que o sistema deles era um círculo e eles desceriam novamente ao fundo e que um dia o círculo poderia se romper e eles permanecem para sempre no fundo, atolados no lodo do fundo. Mas restaria uma lembrança dela assim: jovem, bonita e nua.
4
Ele voltava muito tarde para casa e sempre bêbado. Batia nela e nos meninos. Nela própria, a mulher ainda podia suportar. Mas nos meninos não.
Segurando o ferro de passar, ela o esperou na escuridão de um canto da parede. Quando ele entrou, tropeçando e praguejando, ela encontrou uma agilidade que nunca possuíra e acertou em cheio um golpe na cabeça dele. Com um pequeno gemido, ele caiu ao chão.
Ela montou sobre o corpo caído, já sentindo um cadáver. Mas desferiu vários golpes na cabeça dele, até cansar. Depois ela se levantou e foi até o quarto dos meninos. Ajeitando as cobertas sobre eles, deu um leve beijo em cada um.
5
Ela esperava por ele, no escuro. Ele não chegava. Ela se enfureceu. Acendeu a luz e olhou o apartamento vazio. E viu, na parede, o quadro de que ele tanto gostava. Retângulos, e quadrados superpostos. Ele dizia que o quadro era bom por causa de sua simplicidade geométrica. Junto ao quadro, havia um punhal. Ele gostava, também, daquele punhal. Tornava-o próximo de uma rudeza que de verdade ele não possuía. Ela segurou nervosamente o punhal e começou a fincá-lo no quadro. Depois ele viu o quadro destruído e tentou chorar, sem que o conseguisse.
Ele chegou em casa e perguntou a ela por que fizera aquilo? Ela disse que não gostava do quadro. Ele falou que era mentira e que o quadro era seu e custara dinheiro. Então ela confessou que fizera aquilo porque ele não vinha para casa na hora certa.
— As horas não são diferentes umas das outras — ele gritou
Ela disse que tinha vontade de morrer..
— Pois então morra.
Ela se aproximou da janela. Havia cinco andares. Ele não acreditava que ela se atreveria, mas nunca se podia ter certeza. Ele teve medo de que ela se atirasse apenas para provar-lhe isto: que era capaz de se atirar. Então ele deu um salto e segurou-a pelas costas, gritando que ela era uma neurótica. Ela deu-lhe um tapa no rosto. Ele a empurrou, com força, atirando-a ao chão. Ela poderia ter-se amparado, se quisesse, mas preferiu cair com violência e escândalo contra o assoalho. Ele teve medo de que ela houvesse realmente se machucado e aliviou-se quando a viu soluçando baixinho e mais calma.
Ele queria que existisse um outro quarto no apartamento, para onde pudesse ir. Mas não havia e ele pensou em trancar-se no banheiro. Ela estava, porém, caída e descomposta, no chão, com as pernas inteiramente descobertas. E ele foi chegando a mão, devagarinho. As pernas dela se fecharam, tensas, como numa recusa. Ma ele continuou a acariciá-la. E ela foi-se afrouxando, aos poucos, oferecendo-se.
6
Estavam apaixonados um pelo outro. Ele era meio teatral e disse, um dia, que as perfeitas histórias de amor terminam com a morte. Como em Romeu e Julieta. Porque, do contrário, chegaria o tempo em que Romeu e Julieta brigariam por coisas mesquinhas e ridículas.
Quando terminaram mais uma vez de se amar, ela teve medo e perguntou:
— O que faremos, se isso começar a acontecer?
Ele disse que na cozinha havia um fogão e neste fogão interruptores e que eles poderiam arrastar a cama para lá e se despirem e depois ligarem os interruptores e se abraçarem, como se nada estivesse acontecendo. Como se o gás já não começasse a penetrar em suas narinas, misturando-se aos estremecimentos e gemidos do corpo e provocando um sono que nunca haveria de se dissipar.
— É completamente indolor — ele disse, soltando uma gargalhada.
Mas ela nunca sabia quando ele estava brincando ou falando a sério.
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
prosa...por rubem fonseca
O Cobrador
NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.
Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.
Só rindo. Esses caras são engraçados.
Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.
Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.
São quatrocentos cruzeiros.
Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.
Não tem não o quê?
Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.
Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Arrebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.
Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!
Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.
* * *
A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada. * * *
rubem fonseca
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
fragmentos miguel de cervantes
um diálogo ..... em sonetos fragmentados de um tal conto de miguel de cervantes... --olhou ,sorriu e disse............. nesta rua jaz minha Esperança, A quem de corpo e alma adoro; Esperança de vida e tesouro, Pois não a tem quem não a alcança.
Se a alcanço, tal será minha andança, Que não invejo o francês, o índio, o mouro. Portanto teu favor galhardo imploro, Cupido, deus de toda doce folgança.
Que embora seja esta Esperança tão pequena, De anos apenas dezenove, Quem a alcance será um gigante.
Cresça o incêndio pois vale a pena, Oh! Esperança, ninguém me demove De estar a teu serviço vigilante.
em resposta Saí, Esperança minha, A favorecer a alma, Que sem vós agonizando Quase o corpo desampara.
As nuvens do termor frio Não cobrem vossa luz clara; Que é míngua de vossos sóis Não render quem os contrasta.
No mar de meus enfados Mantende tranqüilas as águas, Se não quiserdes que o desejo Tropece com a esperança.
Por vos espero a vida Quando a morte me mata, E a glória no inferno, E no desamor a graça.
por agora ,em partes,deste que o pó se perdeu ,mesmo antes da paisagem que enche sempre os olhos ,ter sido encontrada.... não é nada além,dois pedaços de uma certa história....de um tempo... do que talvez o hoje retorna... trechos retirados do conto A FALSA TIA-MIGUEL DE CERVANTES...
|
|
|
 |
|
 |
terça, 04 novembro, 2008
 |
|
 |
roda a vida na saia
 Roda a vida na saia. Roda a dor, o amor. Redenção, desconforto. Instabilidade.. Coragem.... roda . .....http://www.uniblog.com.br/insanidadesa/
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 16 outubro, 2008
 |
|
 |
água viva...
NÃO: Não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? Se têm a verdade, guardem-na! Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram? Não me macem, por amor de Deus! Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho! Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! Ó céu azul — o mesmo da minha infância — Eterna verdade vazia e perfeita! Ó macio Tejo ancestral e mudo, Pequena verdade onde o céu se reflete! Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo... E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *fernando pessoa
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 04 outubro, 2008
 |
|
 |
ainda não é domingo...
NO DESENROLAR DA VOZ,DO CANTO ,NA CIDADE.... no desenrolar ,cortina,panela,garfo e colher.....desenrolar atravessado,corridas,paradas,avesso,fio dental... fale pessoa.... Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida ... Sou isso, enfim ... Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. É um universo barato.
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 02 outubro, 2008
terça, 30 setembro, 2008
 |
|
 |
não era saudade
Guarda estes versos que escrevi chorando como um alívio a minha saudade, como um dever do meu amor; e quando houver em ti um eco de saudade, beija estes versos que escrevi chorando.Machado de Assis
o quanto estas noites ficaram vazias, e chamando pelo seu nome,....ouvi o silêncio dizer ....nunca mais... e pelo talvez do talvez......digo eu .... Há coisas que melhor se dizem calando.Machado de Assis
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 04 setembro, 2008
 |
|
 |
vou-me embora para pasárgada....
Procuro a mistura qualquer absoluta, no ar.
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 29 agosto, 2008
 |
|
 |
....
 ... Cecilia Meireles CANÇÃO MÍNIMA No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro; no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta.
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
FORA DO AR!!!
 Antes que a angústia desça é preciso partir Não importa para onde, não importa para longe de quem Ó como o mesmo céu sufoca e a mesma ventura mata!
Abandonar o corpo gasto de sol e a alma gasta de sono Raspar os velhos sapatos na branca soleira da casa do tédio E surgir como um animal morno de silencioso passo.
Nada a conhecer... Sim, são verdes as montanhas E quanta vaga expiação deixam os livros no pensamento E acima de tudo existe Deus serenamente inacessível.
Mas viver, ah, viver é doloroso, é incompreensível Não se sabe quando!... não se sabe nunca... e quando sabe-se É para receber o golpe mortal da tragédia no mais fundo.
VINICIUS DE MORAES
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 28 agosto, 2008
 |
|
 |
O efeito placebo em minha coluna vertebral...
 Eu vou indo... Conseguir um pouco de calma... Qualquer álcool forte no sangue. Entorpecer meu corpo, sexo, olfato, Compassos profanos... Realidade? Um soco, por favor! Carolina Belha.C.B
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 25 agosto, 2008
 |
|
 |
.....
em algum lugar...... Deve existir Eu sei que deve existir Algum lugar onde o amor Possa viver a sua vida em paz E esquecido de que existe o amor Ser feliz, ser feliz, bem feliz Vinicius de Moraes
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 24 agosto, 2008
 |
|
 |
..."""""""""""""""""........."""""""""""""""""""""...
 No Brasil, lá na Angola, na Alemanha, na ladeira mais triste da Bolívia, nessa poeira que embaça tua sombra, na janela fechada, no mar alto; no `Próximo Oriente e no Distante, na nova madrugada lusitana e na avenida mais iluminada de New York. No Cuzco desolado e nas centrais atômicas atônitas,em teu quarto e nas naves espaciais - é preciso ajudá-lo. Nas esquinas, onde se perde o amor publicamente, nas cantigas guardadas no porão, nas palavras escritas com acrílico, quando fazes o amor pra ti mesmo. Na floresta amazônica, nas margens do Sena, e nos dois lados deste muro que atravessa a esperança da cidade onde encontrei o amor - o homem está ficando seco como um sapo seco e sua casa já se transformou em apenas local de refúgio.
Lá na Alameda de Bernardo O'Higgins e no sangue chileno que escorria dos corpos dos obreiros fuzilados, levados para a fossa em caminhões pela ferocidade que aos domingos sabe se ajoelhar e cantar salmos. Lá na terra marcada como um boi pela brasa voraz do latifúndio.
Dentro do riso torto que disfarça a amargura da tua indiferença, no milagre que acende os altos-fornos, no desamor das mãos, das tuas mãos, no engano diário, pão de cada noite, o homem agora está, homem autômato, servo soturno do seu próprio mundo, como um menino cego, só e ferido, dentro da multidão. Ainda é tempo.
Sei porque canto: se raspas o fundo do poço antigo de sua esperança, acharás restos de água que apodrece. É preciso fazer alguam coisa, livrá-lo dessa seduçãovoraz de engrenagem organizada e fria que nos devora a todos a ternura, a alegria de dar e receber, o gosto de ser gente e de viver. É preciso ajudar. Porém primeiro, para poder fazer o necessário, é preciso ajudar-me, agora mesmo, a ser capaz de amor, de ser homem. Eu que também me sei ferido e só, mas que conheço este animal sonoro que profundo e feroz reina em meu peito.' Alemanha, setembro de 1974.
Do livro: 'Travessia dos navegantes- POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA E COM A TUA VIDA' Ed: civilização brasileira; 1975 tela-salvador dali
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 23 agosto, 2008
 |
|
 |
o amor tem sempre a porta aberta.....
 "O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera" C.D.A. Vamos celebrar A estupidez humana A estupidez de todas as nações O meu país e sua corja De assassinos Covardes, estupradores E ladrões...
Vamos celebrar A estupidez do povo Nossa polícia e televisão Vamos celebrar nosso governo E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas As crianças mortas Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Tanatos Persephone e Hades Vamos celebrar nossa tristeza Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas A cada fevereiro e feriado Todos os mortos nas estradas Os mortos por falta De hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça A ganância e a difamação Vamos celebrar os preconceitos O voto dos analfabetos Comemorar a água podre E todos os impostos Queimadas, mentiras E seqüestros...
Nosso castelo De cartas marcadas O trabalho escravo Nosso pequeno universo Toda a hipocrisia E toda a afetação Todo roubo e toda indiferença Vamos celebrar epidemias É a festa da torcida campeã...
Vamos celebrar a fome Não ter a quem ouvir Não se ter a quem amar Vamos alimentar o que é maldade Vamos machucar o coração...
Vamos celebrar nossa bandeira Nosso passado De absurdos gloriosos Tudo que é gratuito e feio Tudo o que é normal Vamos cantar juntos O hino nacional A lágrima é verdadeira Vamos celebrar nossa saudade Comemorar a nossa solidão...
Vamos festejar a inveja A intolerância A incompreensão Vamos festejar a violência E esquecer a nossa gente Que trabalhou honestamente A vida inteira E agora não tem mais Direito a nada...
Vamos celebrar a aberração De toda a nossa falta De bom senso Nosso descaso por educação Vamos celebrar o horror De tudo isto Com festa, velório e caixão Tá tudo morto e enterrado agora Já que também podemos celebrar A estupidez de quem cantou Essa canção...
Venha! Meu coração está com pressa Quando a esperança está dispersa Só a verdade me liberta Chega de maldade e ilusão Venha! O amor tem sempre a porta aberta E vem chegando a primavera Nosso futuro recomeça Venha! Que o que vem é Perfeição!...
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 22 agosto, 2008
 |
|
 |
uma dose de prosa...
O ÚLTIMO CAPÍTULO-machado de assis HÁ ENTRE os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana mais. Pois apesar da excelência do costume, era meu propósito sair calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra última pudesse levar-me alguma complicação à eternidade. Mas um incidente de há pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um escrito, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo de autobiografia. E note-se que não dou o segundo escrito senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou ininteligível, sem algum comentário. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o produto empregado em sapatos e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinário. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de há pouco, e o incidente liga-se à minha vida inteira. Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural de Corumbá, Mato Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho, portanto, cinqüenta e um anos, hoje, 3 de março de 1871. Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Há uma locução proverbial, que eu literalmente realizei. Era em Corumbá; tinha sete para oito anos, embalava-me na rede, à hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu comigo no chão. Caí de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava ocasião de vir abaixo, aproveitou a comoção e caiu também. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito comigo. O Cônego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná conosco, soube do episódio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples início de cousas futuras. Não me demoro em outros reveses da infância e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele pode vir mais cedo, e interromper-me a execução do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miúdo alguns episódios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a ilusão. Também não falo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobríssimo, e minha mãe não lhe sobreviveu dois meses. O Cônego Brito, que acabava de sair eleito deputado, propôs então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veio comigo, com a idéia de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a ação constante do caiporismo. Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de idade. Um cônego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de sacristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Mato Grosso, e possuísse algumas letras latinas, não fui admitido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução. Tive até alguns auxílios, a princípio; faltando-me eles depois, lutei por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma exceção na minha vida caipora, porque o diploma acadêmico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não atribuo nenhum influxo especial ao grau jurídico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna. E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sozinha as algibeiras. Não, senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viúva mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente, lépida e abastada. Morava com um irmão cego, na Rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dous deles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da viúva, mas realmente para que vissem as finas cousas que ela me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viúva não esperava senão que eu concluísse os estudos. Um desses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabéns, acentuando a sua convicção com esta frase definitiva: - O teu casamento é um dogma. E, rindo, perguntou-me se, por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cinqüenta mil-réis; era para uma urgente precisão. Não tinha comigo os cinqüenta mil-réis; mas o dogma repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descansei em todo esse dia, até arranjar-lhos; fui levá-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os, cheio de gratidão. Seis meses depois foi ele quem casou com a viúva. Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazê-lo; cheguei a vê-los, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hipotética; na realidade, não fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascensão da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viúva. "Deus, que me ouve (dizia uma delas); sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua..." E, no meu atordoamento, blasfemava comigo: - Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé dele, e por isso desmentiu a viúva; - nem outro dogma além do católico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cinqüenta mil-réis. Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se ele também. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os outros, a sucessão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei à Corte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de ano: o Gonçalves. Este Gonçalves era o espírito menos jurídico, menos apto para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia à copa e ia palestrar com os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de compreensão, nos assuntos menos árduos ou menos complexos, com a facilidade de expor, e, o que não era pouco para um pobre-diabo batido da fortuna, com uma alegria quase sem intermitências. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham, matávamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era dele, ou falássemos de política, ou de mulheres, assunto que lhe era muito particular. Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questão de hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alfândega, Temístocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negócio. O Temístocles ficou encantado comigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo próximo. Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moça de dezenove anos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meio morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casamo-nos poucos meses depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na igreja, entre as barbas rapadas e as suíças lustrosas, pareceu-me ver o carão sardônico e o olhar oblíquo do meu cruel adversário. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a fórmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me ditava... Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado. Felizmente - ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino. Outro felizmente; e este não é só uma transição de frase. No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperança, e, a calcular pela comoção que me deu a notícia, uma esperança suprema e única. Era o desejado que chegava. Que desejado? Um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento régio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ébano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusalém; o pequeno nasceu morto. Quem me consolou no malogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciência, disse-me; serei padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O próprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto. - E pensas que não? redargüi. Gonçalves sorriu; ele não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começara a converter-se à advocacia, já arrazoava autos, já minutava petições, já ia às audiências, tudo porque era preciso viver, dizia ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos dele, e das anedotas, que às vezes eram picantes demais. Eu, a princípio, repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensável casar também. Eu, à mesa, falei do assunto. - Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar? - É caçoada dele, interrompeu vivamente o Gonçalves. Dei ao diabo a minha indiscrição, e não falei mais nisso; nem ele. Cinco meses depois... A transição é rápida; mas não há meio de a fazer longa. Cinco meses depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa. Cousa singular: - em vida, a nossa divergência moral trazia a frouxidão dos vínculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-me como a esposa que desce do Líbano, e a divergência foi substituída pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde outrora ocupara tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio à má estrela; era levantar o edifício da fortuna em pura rocha indestrutível. Compreendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precário: as telhas caíam com o abalo das redes, as sobrepelizes recusavam-se aos sacristães, os juramentos das viúvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham trôpegas ou iam-se de mergulho; enfim, as crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela podia desafiar o olhar oblíquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direção da noite e do silêncio... Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objetos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ela morreu, cinco meses antes. Achei uma multidão de cousas minúsculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cipriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ninguém imagina como o tempo corre nas circunstâncias em que estou; os minutos voam como se fossem impérios, e, o que é importante nesta ocasião, as folhas de papel vão com eles. Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, anterior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas. A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas. Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiais dirão que estou doudo, que o delírio do suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeção de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria único. Distribuindo-as, faço um certo número de venturosos. Eia, caiporas! que a minha última vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!
(publicado no livro Histórias sem data)
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 16 agosto, 2008
domingo, 13 julho, 2008
quarta, 25 junho, 2008
terça, 24 junho, 2008
 |
|
 |
ah!!!as rosa não falam...
Em dias como estes. Prefiro apagar a luz do dia... Esquecer que o sol brilha... Esquecer da cama vazia... Em dias como estes... Prefiro não pensar nos pássaros. Nem nas nuvens a bailar no céu... Prefiro não pensar... prefiro esquecer........... Em dias como estes... Viver a angustia do esquecimento... C.B
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 23 junho, 2008
terça, 17 junho, 2008
 |
|
 |
....
TRADUZIR-SE Ferreira Gullar Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim alomoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na outra parte _ que é uma questão de vida ou morte _ será arte? Ferreira Gullar
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 16 junho, 2008
 |
|
 |
linha reta...para molhar a palavra...
 Teresa
A primeira vez que vi Teresa Achei que ela tinha pernas estúpidas Achei também que a cara parecia uma perna Quando vi Teresa de novo Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
MANUEL BANDEIRA... TELA..NERY
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 09 junho, 2008
 |
|
 |
saudade
Será mesmo irremediável a loucura do ser... Será mesmo fora do contexto, particípio, principio e fim. Serão tantos, Corações de barata... E se for mesmo assim? . O sorriso hábil, forçosamente ébrio, aniquilando qualquer justificativa aparente ou não aparente. Singularmente singular pluralmente plural, olhos tortuosos, quase oblíquos, perfumados pelo descer e subir de qualquer abano de puro lixo desconexo... Sorrisos sem sorrir... Uma crueldade intermolecular metricamente diluída num copo com gim e mel. Absolutamente decorrente coerente aos subtítulos inexistentes. Uma roda protegendo o fogo, a quase por completo vela derretida... Que reis teriam sido os tais donos de tantos trajetos e por completo aborrecimentos... Sorrisos e sorrisos... e formas..Uma espreguiçadeira no canto do quarto...perfeita conclusão de nada decorrente de nada ,que suavizavam o cheiro podre,com poses de alguém que estava a fotografar..horas..minutos...segundos...milésimos...centésimos...décimos...unidades de tempo...não se ouvia um só som. E barulho maior não existia no momento... Era à hora de escolher o copo, limpar o chão, cozinhar o jantar e servir como prato principal a própria cabeça. Carolina Belha....C....B
|
|
|
 |
|
 |
quarta, 04 junho, 2008
 |
|
 |
poeira e jasmim
tela-MATISSE
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 01 junho, 2008
 |
|
 |
gotas...pó...vapor...
 Impassível em mim, As gostas de orvalho que guardo dentro de uma caixinha de fósforos... O estupor inerente a boca do estômago. Por pontos que julgo não convir... Transversal convexa acompanhada por prelúdios, o mesmo estribilho... Por lapsos de cansaço que dentre as cores que colorem meus dedos, Aglutinam; Movimentam-se; Ressonam. tela-picasso
|
|
|
 |
|
 |
quarta, 28 maio, 2008
 |
|
 |
pó
 Queria que as palavras tivessem som... Que elas tocassem música... Que eu pudesse enfim tocá-las Palavras... melodia........canção...poesia................. E que eu pudesse dizer em forma de balé... o que o meu eu insiste em esconder..........
tela ..edgar degas
|
|
|
 |
|
 |
sexta, 16 maio, 2008
 |
|
 |
por uma última canção....
O azul cinéreo destes olhos...; pela madrugada ébria destilam framboesas e veneno... O azul límpido destes olhos,difundem,confudem... abstem-se ao mesmo color sem tom à perturbar-me... os azuis, a cólera, a vermelhidão... Continuada,paradoxal... Vermelhos,azuis,cobre.... O azul desses olhos que não são azuis ....são castanhos.... sintonizam ..emitem ...Carolina Belha
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 03 maio, 2008
 |
|
 |
canção para uma tarde de sol
 O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo, me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita
O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os ungüentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia Que nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite
O que será que me dá Que me queima por dentro, será que me dá Que me perturba o sono, será que me dá Que todos os tremores me vêm agitar Que todos os ardores me vêm atiçar Que todos os suores me vêm encharcar Que todos os meus nervos estão a rogar Que todos os meus órgãos estão a clamar E uma aflição medonha me faz implorar O que não tem vergonha, nem nunca terá O que não tem governo, nem nunca terá O que não tem juízo O que será (À flor da pele)Chico Buarque...........tela....CEZZANNE
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 01 maio, 2008
 |
|
 |
prosa .............
Linda, uma história horrível Caio Fernando Abreu
Para Sergio Keuchguerian "Você nunca ouviu falar em maldição nunca viu um milagre nunca chorou sozinha num banheiro sujo nem nunca quis ver a face de Deus." (Cazuza: "Só as mães são felizes") Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro — agora, que cor? — e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.
Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim — de fora, de dentro da casa —, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.
— Tu não avisou que vinha — ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.
Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.
— A senhora não tem telefone — explicou. — Resolvi fazer uma surpresa.
Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.
— Sai, Linda — ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. — Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.
— Que idade ela tem? — ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.
— Sei lá, uns quinze. — A voz tão rouca. — Diz—que idade de cachorro a gente multiplica por sete.
Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:
— Uns noventa e cinco, então.
Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:
— O quê?
— A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.
Ela riu: — Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. — Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café?
— Se não der trabalho — ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.
As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar — enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria — ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.
— Tá fresquinho — ela serviu o café. — Agora só consigo dormir depois de tomar café.
—A senhora não devia. Café tira o sono.
Ela sacudiu os ombros:
— Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.
A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.
— Vá dormir — pediu. — É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.
Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.
— Que que foi? — perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.
— Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.
Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:
— Me dá o fogo.
Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:
— Bonito, o isqueiro.
— É francês.
— Que é isso que tem dentro?
— Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.
Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.
— Parece o mar — sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.
Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.
— Vim, mãe. Deu saudade.
Riso rouco:
— Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?
Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:
— Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.
Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.
— É sina — disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.
— Já faz tempo, mãe. Esquece — ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?
Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.
— E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. — Bateu o cigarro. — E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?
Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.
— Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.
Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.
— Deixa eu te ver melhor — pediu.
Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.
— Tu estás mais magro — ela observou. Parecia preocupada. — Muito mais magro.
— É o cabelo — ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias.
— Perdeu cabelo, meu filho.
— É a idade. Quase quarenta anos. — Apagou o cigarro. Tossiu. — E essa tosse de cachorro?
— Cigarro, mãe. Poluição.
Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.
— Mas vai tudo bem?
— Tudo, mãe.
— Trabalho?
Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:
— Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.
— Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme?
A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:
— Coitada. Mais esclerosada do que eu.
— A senhora não está esclerosada.
— Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? — Esperou um pouco, ele não disse nada. — A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.
— A Cândida morreu, mãe.
Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.
— Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? — Abriu os olhos. — Quer comer alguma coisa, meu filho?
— Comi no avião.
Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.
— Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? — Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. — Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. — Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. — Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?
— A gente acostuma, mãe. Acaba gostando.
— E o Beto? — ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.
Se eu me debruçasse? — ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.
— Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.
Ela voltou a olhar o teto:
— Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. — Apertou os olhos. — Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.
— Casserole, mãe. La Casserole. — Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. — Foi boa aquela noite, não foi?
— Foi — ela concordou. — Tão boa, parecia filme. — Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.
— O Beto gostou da senhora. Gostou tanto — ele fechou os dedos. Assim fechados, passou—os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. — Ele disse que a senhora era muito chique.
— Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. — Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. — Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? — Voltou a olhar dentro dos olhos dele. — Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo.
— A gente não se vê faz algum tempo, mãe.
Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias — os três, ele, a mãe e Linda.
— E por quê?
— Mãe — ele começou. A voz tremia. — Mãe, é tão difícil — repetiu. E não disse mais nada.
Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e — como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo — disse:
— Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.
Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.
— Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.
Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô — rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.
Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque.
Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.
— Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.
Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Cia. das Letras, 1988.
maravilhoso!!!!!!
|
|
|
 |
|
 |
quarta, 23 abril, 2008
 |
|
 |
canta sabia..........canta ..........
andaimes,,,, concreto ;;;;;;;;;;;;;; amores,versos....impreterivelmente...... sangue espesso corroendo doce ,pelo meus dedos amarelos e de unhas feitas;;; paisagens ,,,,, passagem.... viagens............... vertigem...
|
|
|
 |
|
 |
quarta, 02 abril, 2008
 |
|
 |
só prosa.....
Dante Milano
Fuga do centauro
Surpreendi-a numa gruta, O corpo fosforescente Como uma Santa! Porém, Rindo, quase com desdém, Do meu êxtase inocente, Toda nua e transparente, Sob o véu, numa impudente Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir. Ela pegou-me das crinas, Em minhas costas montou E meus flancos esporeou. Quis domar-me com mãos finas. Ah, que tu não me dominas! Logo aflaram-me as narinas E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas. Havia sangue em seu gosto. Espanquei-a com carícias, Massacrei-a de delícias. Arrastei-lhe o corpo exposto, Nua, o gesto decomposto, E pus-lhe as patas no rosto. — Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão Saía dela um calor De forno, que a consumia, Um hálito de agonia E de esquálido suor. E vendo-a perder a cor, Sentia nela o sabor De toda carne: extinção.
Afinal me libertei Do seu espantoso abraço E larguei-a quase morta, Esvaída, a boca torta, As mãos hirtas, o olhar baço. Afastei-me, firme o passo, Respirando um novo espaço, Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas Pediu-me, ao ver-me partir, Que jamais a abandonasse. Tinha lágrimas na face. A princípio eu quis sorrir: Voltar, depois de fugir? E fugi, mas a nitrir, Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 31 março, 2008
 |
|
 |
vento e prosa por favor!!!!!!
O ex-mágico da Taberna Minhota Murilo Rubião Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre. (Salmos. LXXXV, I) Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre. (Salmos. LXXXV, I) Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.
O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.
Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.
A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.
O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.
Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.
Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.
Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.
Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.
Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.
Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.
Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.
— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.
Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:
— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.
Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.
Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.
O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.
Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.
Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.
Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.
Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.
Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.
Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.
1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.
Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.
Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.
O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou -me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.
O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.
Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!
1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)
Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.
Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.
Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.
Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.
Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.
Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.
Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.
Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.
Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.
O texto acima foi extraído do livro "O pirotécnico Zacarias e outros contos", Editora Companhia das Letras —
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 10 março, 2008
 |
|
 |
...
"Me gustas cuando callas porque estás como ausente, y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca. Parece que los ojos se te hubieran volado y parece que un beso te cerrara la boca. Como todas las cosas están llenas de mi alma emerges de las cosas, llena del alma mía. Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, y te pareces a la palabra melancolía; Me gustas cuando callas y estás como distante. Y estás como quejándote, mariposa en arrullo. Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza: déjame que me calle con el silencio tuyo. Déjame que te hable también con tu silencio claro como una lámpara, simple como un anillo. Eres como la noche, callada y constelada. Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo. Me gustas cuando callas porque estás como ausente. Distante y dolorosa como si hubieras muerto. Una palabra entonces, una sonrisa bastan. Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto."
pablo neruda
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 24 fevereiro, 2008
 |
|
 |
........
ANÁLISE Tão abstrata é a idéia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, E nada fica em meu olhar, e dista Teu corpo do meu ver tão longemente, E a idéia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me Sabendo que tu és, que, só por ter-me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho, Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou, risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. Fernando Pessoa, 12-1911
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 04 fevereiro, 2008
 |
|
 |
prosa ...cerveja ....carnaval....
A noite foi feita Para dormir? Ou o dormir foi, Feito para noite? Lembro-me como se fosse Ontem, Era um fim de tarde de Um sábado chuvoso O caos viário tomava conta Da avenida amazonas... Era a primeira bienal do automóvel... em Belo Horizonte .... Bienal do automóvel, Ou bienal do fim do mundo? De alguns de meus grandes amores... Sinto muito muita pena deles Do matar de minha fome Do saciar de meu prazer Do aquecer do meu frio Até mesmo de meus trintas centavos .....Como eu te amo Caixinha de fósforos... autor...nada a declarar.... tela-van gogh
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 27 janeiro, 2008
 |
|
 |
passar o tempo .!!!!...com ferro e vapor???
Carlos Drummond de Andrade (...) Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. (...) E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. (Resíduo)
tela - Juarez Machado
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 13 janeiro, 2008
 |
|
 |
,,,,,,,,,
Meio sozinho demais...Sento-me só e sinto-me solto. O copo cheio e o cinzeiro transbordando a nostalgia do que ficou por acontecer. Na lareira, vejo queimar lembranças e fotos do passado que repete instintivamente à minha contradição, contra-senso contra tudo que não me deixa adormecer. Aspiro esta alma gélida num sopro de vida que me deixa mais próximo do coma.
E numa esquina qualquer, - no mesmo pesadelo onde você habita - atravesso apressado pela calçada que sempre leva a lugar nenhum. E chego tarde por que a tristeza causou novo estrago neste velho coração chutado.
Refaço uma vida toda nestas últimas linhas que me sobraram.
E danço pelas vielas sombrias e abandonadas da cidade que não quis meu nome não quis meu timbre não quis minhas mais perversas orgias - evangélicas e abstratas – Por que o que o mundo não precisa agora é de outro poeta.
Sirva-me outra dose do mesmo e sempre veneno que se não acalma desarticula estas opiniões fugidias estas sextas-feiras de solidão e rum numa canção de amor que a rádio não toca.
E se meu conceito de perder for algo além do fiasco que promete não ser esquecido, eu me abstenho da sorte da luta da morte que assovia em meus ouvidos a música de ninar corações solitários.
Quer dos narcisos retirar beleza pra contar nossas histórias? Quer do caminho Subtrair a madrugada para vermos juntos o pôr-do-sol? Quer do impasse Continuar o mesmo rito dos canalhas que sempre terminam sozinho? Quer da distância fazer acontecer a dança dos ursos que todo escritor busca?
Então fuja comigo. Talvez você ainda tenha alguma chance quando tudo isto terminar.
Eu estou em minha contagem regressiva.
obrigadA ...DELL BLOOMM...PRINCIPALMENTE PELA BOA COMPANHIA...
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 27 dezembro, 2007
 |
|
 |
perfeito estado contrário em aberto ...
Contradigo, O sim e o não... Amor e paixão... Desespero e razão... Com tantas rimas, tils... Estou na verdade cansado desta grande , irremediavelmente, ignóbil contradição... E tenho dito; ..ou não ????
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
natal
Um cavalo e seu cavaleiro num poste de luz... Apenas o acaso. Corações de barata... O rock´n´roll no portão... No meu discurso apenas o não sei... FAKE PLASTIC... Corações de barata, o céu azul e laranja... E o nome do meu amor fora da pauta.
|
|
|
 |
|
 |
segunda, 24 dezembro, 2007
 |
|
 |
tons
"Ocasião Eu já te disse: não existe calma Quando não se pode fazer algo É quando tudo ataca você. Raspei meus cabelos e fui direto ao fim O fogo é apenas ilusão de inferno Ouço passos e nem tem mais sombra, Virou-se pra mim e não disse mais nada Agüentei tudo que acabou e nem começou Somos filhos de quem nos odeia tanto? Veio-me uma dor cinza que tenho desde menino Lá fora o tempo é da cor dos meus olhos Sempre tive vontade de não estar aqui, Odeio saber que o sol trouxe o amanhã Às vezes parece que o dia foi eterno Mesmo sabendo que sempre vivemos pela metade." Poema de Fernando Luís
|
|
|
 |
|
 |
domingo, 23 dezembro, 2007
 |
|
 |
Volando vengo, volando voy...................Deprisa deprisa a rumbo perdido........
E quando chegar a noite... E ver sorrir as marcas do tempo... ver sorrir um sorriso triste... E quando chegar o dia... verás que nada foi sonho...... Verá que nem o tempo passou tão rápido... .e tão rápido foi o tempo... Verá o que verá no espelho... e o talvez .......
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
Solo voy con mi pena.............Correr es mi destino
 "A intensidade do mundo ." Não sei o que dizer.......não sei ,não sei,,,,,sei não .............
|
|
|
 |
|
 |
sábado, 22 dezembro, 2007
 |
|
 |
conversa de bar
o rato-Senti saudades de um tempo. o gato-O futuro que agora é passado. o rato-Senti saudades... o gato-Do cheiro gostoso de menta...Pecado...E ausência.
o rato-A velha cortina de renda Porém, estava ali...O novo velho retrato. o rato-Sorrindo pra mim... o gato-E quem sorria? o rato-Eu mesmo nem me lembro mais. o rato-Não consigo lembra-me da tristeza, que na verdade nunca existiu...Nem da alegria constante, que também não estava ali... o rato-O sentimento que existia era uma coisa presente...Sem o presente...Uma alegria assim à-toa, descontraída, e exatamente do jeito que tinha que ser... o gato-Eu permaneço do mesmo jeito que antes.Talvez alguma mudança ínfima por dentro.Uma coisa qualquer, que ainda não percebi a grande transformação ou diferença perceptível... o rato-Continuo levando o mesmo sorriso no rosto...Bem que alguns ainda me confundem dizendo qualquer coisa sobre a cor dos meus cabelos ou algo do tipo...Continuo apreciando uma boa cachaça, nos bares, nas ruas estreitas de Santa Tereza por onde vou indo. o gato.-Cantando...Bebendo...Fumando...Toda a desgraça dilacerante que está em todos os lados.Vou feliz.Apesar da velha tristeza me fazer bem...E me fazer assim... o rato.-Primeiro dia de verão.Dias de chuva... onde estou e onde sempre estive...Só me bateu está certa saudade, das 78 coisas que quero ao mesmo tempo e o tédio que me acomete sempre quando acaba a festa e quando vejo como são corriqueiros todos que me rodeiam.Como são sempre os mesmos... Com as mesmas fotos, mesmos sonhos e tudo igual...Sinto-me um idiota completo quando acho que me vejo assim...Tipo zumbi assombrando as ruas na noite. o gato-Porém, eles sempre sorriem pra mim... Os olhares e a curiosidade.Por eu ser assim...camaleão,às vezes tigre, elefante, leão , por eu ser o charme em pessoa que não vale nem um tostão. o rato-Sucederam apenas alguns minutos ou tantos? Enfim... o gato-Ainda nem é domingo...E nem natal...Ainda faz sol.E chove muito no meu quintal.
|
|
|
 |
|
 |
 |
|
 |
e o pulso..........
O pulso ainda pulsa O pulso ainda pulsa...
Peste bubônica Câncer, pneumonia Raiva, rubéola Tuberculose e anemia Rancor, cisticircose Caxumba, difteria Encefalite, faringite Gripe e leucemia...
E o pulso ainda pulsa E o pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina Estupidez, paralisia Toxoplasmose, sarampo Esquizofrenia Úlcera, trombose Coqueluche, hipocondria Sífilis, ciúmes Asma, cleptomania...
E o corpo ainda é pouco E o corpo ainda é pouco Assim...
Reumatismo, raquitismo Cistite, disritmia Hérnia, pediculose Tétano, hipocrisia Brucelose, febre tifóide Arteriosclerose, miopia Catapora, culpa, cárie Câimba, lepra, afasia...
O pulso ainda pulsa E o corpo ainda é pouco Ainda pulsa Ainda é pouco Assim... rock velho titãs
|
|
|
 |
|
 |
quinta, 20 dezembro, 2007
 |
|
 |
...
Estou Cansado Estou cansado, é claro, Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei: De nada me serviria sabê-lo, Pois o cansaço fica na mesma. A ferida dói como dói E não em função da causa que a produziu. Sim, estou cansado, E um pouco sorridente De o cansaço ser só isto — Uma vontade de sono no corpo, Um desejo de não pensar na alma, E por cima de tudo uma transparência lúcida Do entendimento retrospectivo... E a luxúria única de não ter já esperanças? Sou inteligente; eis tudo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *obrigada, Pessoa...
|
|
|
 |
|
 |
|
|
 |
|
 |
Ilumino-me
de imenso
Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço
Hoje estou bêbado
de universo....
baldon
Meu Perfil



.
«Nada fica de nada.» (Ricardo Reis) •
«De tudo fica um pouco.
» (Carlos Drummond de Andrade)
retro
losna
capops omia
Ela na Janela
Juntar os cacos
fotografias
ESTÁTICO
poesia,lixo,arte,
restos,rastros,cacos,
fezes

ENQUANTO A CASA DAS ROSAS ESTÁ EM REFORMA...........

Dos ordinários cacos luminosos
e congelantes.
um lado tingido de preto
num canto ao contrário ,
transfiguração geologica
homenagem ao malandro, por chico buarque de hollanda ,dicionário abstrato sobre o vento
SOBRE AMOR E GATOS
artigo comentado e coletado sobre a obra e vida do grande mestre maestro ...
ndandandandaadnadnndandanda
silêncio
prolixo,oxilorp,prolixo,oxilorp
pequeno, pequenininho

Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.

14667 acessos
online
|
 |
|
 |
|