devaneios e arte
devaneios e arte
quarta, 16 março, 2011
um lado tingido de preto


visto-me de preto com o luto que me reveste a alma ,e eis que sou uma espessa tentativa de encontrar lembranças feitas de um qualquer arco-íris ..Essa espessa lembrança não existe,não se faz em cores , pois perdeu os tons .Eis que me transformo em morto  ...há alguns meses tinha em mim uma forma de vida , hoje  por dentro uma outra vida resiste além da vontade de ser.não existe o eu  em nenhum lugar , não existe imagem no espelho, não existe o sentir gelado da água de chuva , em todos aqueles dias que a vi  só pelo pensamento. Eis que sou  , um ser morto , que se move pela inercia do contrário,por noites e dias,por noites e dias estou a chorar,Pois todas as desgraças imacularam meu corpo sujo de lama.


postado por camila baldon as 02:01:54 # 0 comentários
quarta, 01 dezembro, 2010
num canto ao contrário ,

pelo lado contrário..

postado por camila baldon as 12:26:56 # 0 comentários
transfiguração geologica


E LÁ ESTAVA , PERNDURADO NUM VARAL

BEM PERTO DA AVENIDA SÃO JOÃO...

com amor

para luna e jey jey


postado por camila baldon as 12:24:40 # 0 comentários
segunda, 13 setembro, 2010
homenagem ao malandro, por chico buarque de hollanda ,dicionário abstrato sobre o vento


Lobo Bobo
João GilbertoComposição: Carlos Lyra/ Ronaldo Bôscoli

Era uma vez um Lobo Mau
Que resolveu jantar alguém
Estava sem vintém
Mas arriscou
E logo se estrepou...

Um chapeuzinho de maiô
Ouviu buzina e não parou
Mas Lobo Mau insiste
E faz cara de triste
Mas chapeuzinho ouviu
Os conselhos da vovó
Dizer que não prá lobo
Que com lobo não sai só...

Lobo canta, pede
Promete tudo, até amor
E diz que fraco de lobo
É ver um chapeuzinho de maiô...

Mas chapeuzinho percebeu
Que o Lobo Mau se derreteu
Prá ver você que lobo
Também faz papel de bobo...

Só posso lhe dizer
Chapeuzinho agora traz
O Lobo na coleira
Que não janta nunca mais...

Lobo Bobo...Huuuumm!

postado por camila baldon as 04:21:33 # 8 comentários
sábado, 11 setembro, 2010
SOBRE AMOR E GATOS


GATO DE BOTAS
.GATO ESCALDADOGATO
PRETOGATO FOFOGATO DE RABO
CORTADOGATO GATOGATAo que é o que é ?
tem rabo de gato?pé de gato?tudo de gato?
e não é gato!!!!!!!!!!para saber mais sobre gatos

conheça a galeria da senhora gallery.

00000000000000000000000000
...........................000000
88888888
6666666



acesse:


http://www.flickr.com/photos/logalery

postado por camila baldon as 10:45:01 # 0 comentários
artigo comentado e coletado sobre a obra e vida do grande mestre maestro ...


""""Mulher Indigesta"""""Noel Rosa

Mas que mulher indigesta!(Indigesta!)
Merece um tijolo na testa
Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar
E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

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    não deixe de ............. 0000000ser feliz.. .promocões 666666777 e @@@@@@@ muito mais ... venha vc também !!!!!!!!!!!!

  • postado por camila baldon as 09:27:16 # 19 comentários
    terça, 24 agosto, 2010
    ndandandandaadnadnndandanda


    n.d.a.!?


    postado por camila baldon as 03:52:19 # 7 comentários
    quarta, 18 agosto, 2010
    silêncio


    Para Ver as Meninas

    Paulinho da Viola





    Silêncio por favor
    Enquanto esqueço um pouco
    a dor no peito
    Não diga nada
    sobre meus defeitos
    Eu não me lembro mais
    quem me deixou assim
    Hoje eu quero apenas
    Uma pausa de mil compassos
    Para ver as meninas
    E nada mais nos braços
    Só este amor
    assim descontraído
    Quem sabe de tudo não fale
    Quem não sabe nada se cale
    Se for preciso eu repito
    Porque hoje eu vou fazer
    Ao meu jeito eu vou fazer
    Um samba sobre o infinito
    Porque hoje eu vou fazer
    Ao meu jeito eu vou fazer
    Um samba sobre o infinito
    Silêncio por favor
    Enquanto esqueço um pouco
    a dor no peito
    Não diga nada
    sobre meus defeitos
    Eu não me lembro mais
    quem me deixou assim
    Hoje eu quero apenas
    Uma pausa de mil compassos
    Para ver as meninas
    E nada mais nos braços
    Só este amor
    assim descontraído
    Quem sabe de tudo não fale
    Quem não sabe nada se cale
    Se for preciso eu repito
    Porque hoje eu vou fazer
    Ao meu jeito eu vou fazer
    Um samba sobre o infinito
    Porque hoje eu vou fazer
    Ao meu jeito eu vou fazer
    Um samba sobre o infinito

    postado por camila baldon as 04:30:33 # 8 comentários
    prolixo,oxilorp,prolixo,oxilorp

    Setembro...

     

     

    Preciso sentir o vento

    Já que os pensamentos espessos

     Dissolvem aos poucos dentro de mim

    Tudo parado...

    Nada se move...

    Apenas o vento dança,

    Gelado;

    A bailar com tudo que está imóvel ......

     

    E já chegou a primavera.............

     

    Mais a chuva não veio....

    pergunto agora para onde foram as flores.......


    postado por camila baldon as 04:25:58 # 0 comentários
    pequeno, pequenininho

    homenagem ao malandro número 2345678,
     lista periódica ao quadrado...
    cumprimento comprido corrompido
    metáfisicamente calculado pelo destino...







    Pequeno Príncipe (trecho)

     

    E foi então que apareceu a raposa:
    - Bom dia, disse a raposa.
    - Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
    - Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
    - Quem és tu? perguntou o principezinho.
    Tu és bem bonita.
    - Sou uma raposa, disse a raposa.
    - Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
    - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
    Não me cativaram ainda.
    - Ah! Desculpa, disse o principezinho.
    Após uma reflexão, acrescentou:
    - O que quer dizer cativar ?
    - Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
    - Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
    - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
    Significa criar laços...
    - Criar laços?
    - Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.

    E eu não tenho necessidade de ti.

    E tu não tens necessidade de mim.

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    Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia:
    - Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.

    E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
    A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
    - Por favor, cativa-me! disse ela.
    - Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
    - A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
    Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
    Mas tu não a deves esquecer.
    Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

    Antoine de Saint-Exupéry






    postado por camila baldon as 03:48:46 # 0 comentários
    domingo, 08 agosto, 2010
    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz


    que

    agora

    que

     morri,

    quero

    garantir

     todos

    os

    meus

    direitos

    de

     morto


    postado por camila baldon as 08:16:45 # 0 comentários
    fhgfhjfh


    ...etc

    postado por camila baldon as 08:12:10 # 0 comentários
    ooooooo

  • Believe In A Thing Called Love.Michelangelo Merisi da Caravaggio
  • (Milão, 29 de Setembro de 1571Porto Ercole,
  • comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) foi um pintor Italiano

    (Milão, 29 de Setembro de 1571

    Porto Ercole, comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) foi um pintor ItalianoMichelangelo Merisi da Caravaggio (Milão, 29 de Setembro de 1571Porto Ercole, comuna de Monte Argentario, 18 de Julho de 1610) foi um pintor Italiano



  • postado por camila baldon as 07:44:33 #
    segunda, 02 agosto, 2010
    "..."por MANUEL DE BARROS E HELIO OITICICA....

    O Livro sobre Nada

    Manoel de Barros


    Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

    Tudo que não invento é falso.

    Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

    Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

    É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

    Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

    Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

    A inércia é o meu ato principal.

    Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

    O artista é um erro da natureza.  Beethoven foi um erro perfeito.

    A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

    Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

    Por pudor sou impuro.

    Não preciso do fim para chegar.

    De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

    Do lugar onde estou já fui embora.


    imagem-parangolé-1964-helio oiticica



    postado por camila baldon as 03:59:15 # 0 comentários
    quinta, 08 julho, 2010
    artigo indefinido ,um pouco de prosa em verso


    Logo depois de ter morrido, lembrei que não tenho mais tantas vidas assim. O corpo um pouco gasto e alma refrigerada deixam  uma espécie de torpor cerebral .Transfigura todos os meus sentidos, por exemplo, há dias não sinto o cheiro das coisas... a última coisa que  senti o cheiro, consumiu toda a minha cota de cheiro da vida;;;Passei horas esmigalhando as leis de Newton,movimentação planetária de Kepler e a única conclusão que cheguei é:

    ' A cama É mesmo o melhor dentre todos os lugares do mundo,'

    O sol arde invisível do lado de fora, e como é linda a luz que fica na sala, (converte a inversão), troco as palavras por canções aleatórias cheia de memórias...]

    Os neologismos de tão sem graça se voltaram pra estante, dizem que de lá só saem depois do inverno, (o casaco ainda pendurado)...]

    Hoje quando  a manhã chegou, estava completamente coberta de nuvem,..../ era o tipo de nuvem fina,transparente e gelada./

    Estou ficando bastante obcecada por coisas grandes, desisti definitivamente das caixas, pastas; interesso-me apenas por {estantes}, prateiras e armários, cansei também dos armários, acumulam poeira demais, não me sinto no direito de desconstruir as solitárias moléculas de água com sujeira,

     Como ando suja,!!!!!
     E ter que admitir que o sujo viva falando do mal lavado, e, por direito legal, com firma reconhecida em cartório, também posso reclamar.
    (a sujeira se localiza de forma organizada no meu corpo),-
    - não quero entrar em detalhes.!!!

    Acabei de pensar no tédio, estou com leves sintomas de entedia- mento por excesso de trabalho, o corpo decidiu entrar em greve, e meu salário mínimo ainda não foi depositado, não tenho como comprar os remédios certos.

    No próximo mês viajo pro rio de janeiro, são Sebastião que me proteja do mal, preciso reencontrar o mar de qualquer maneira, novamente coloco todas as fichas na mesa’, e só desejo não encontrar outra solução depois que o jogo já estiver terminado,

    Definitivamente preciso me aposentar em relação ao pensamento, não quero mais pensar, decidi por excelência legitimada, não quero mais explicar nada,

    Não falo mais, tudo agora será desenhado para um melhor entendimento, reconheço o perigo e não me importo, e só uma questão de gosto pessoal mesmo, prefiro as imagens a as palavras, (ou o contrario) estou confusa, não! Estou deixando tudo confuso, pior ainda, estou confundindo todo mundo, ainda em processo de pior amento, confundo a mim confundindo os outros, os outros me confundem se auto confundindo, e ai se forma o velho e bom novelo, um grande e redondo novelo...

    Por isso precisei morrer desta vez não provoquei a minha morte, talvez seja esse o meu único alivio tava cansada de sustentar uma suicida louca que só sabe encher o corpo de açúcar,

    Desta vez morri de morte matada, não foi intencional, tento acreditar que os meus assassinos não queriam mesmo me matar, tento acreditar que eles queriam me salvar e por um erro de cálculo, acabei morrendo...

     

     

     

    Pra mim está  tudo certo, um morto já não pode reclamar comer, dormir, respirar, correr, trepar.. pois já esta morto mesmo, e morto continuará

    Só que agora que morri, quero garantir todos os meus direitos de morto

    Acabei de me lembrar de uns exercícios para meditação. os cinco exercícios dos llamas tibetanos..lembrei do meu desprezo pelo quinto exercício, como ele me seria ;útil hoje...seria o único ..enfim não importa..consegui fazer a façanha de induzir um outro ser a perder os cinco exercícios de meditação mais importantes da minha vida...

    O pior é que não posso nem arrancar os olhos deste ser e muito menos colocá-lo ajoelhado no milho... isto sim me irrita profundamente...

    Os seres precisam de uma forma ou de outra aprender lições,

    Quem me dera ter poderes mágicos de verdade, avada kedrava.

    E tudo lindo pra sempre... a beleza do fenômeno . Desabafos de um sábado sem maconha...

     

    camila baldon de lima


    postado por camila baldon as 06:28:54 # 0 comentários
    sábado, 03 julho, 2010
    artido urgente a favor do respiro

    artigo indefinido,indefinido pelo indefinido ,

    uma história não se escreve assim tão facilmente, é necessário uma dose cavalar diaria de torpor animal com beleza de flor , escrever exercício contraditório do que nada quer além de existir como palavra,escrever uma história é arrancar dos cabelos fio por fio só para sentir mais leve a cuca ,ter no ármario um bom número de chapeletes  e adornos..
    escrever é difícil , doi e transforma...
    o que é difícil,ainda estou tentando aprender
    o que doi a literatura conta ,e o mais bonito está mesmo  no A.C
    o que transforma,só consegue ser quem se dá o direito ao absurdo,,,,

    descobri agora ,nessa madrugada alta ,sábado, primeiro sábado de julho de dois mil e dez ,um seleção barata de algumas coisas postadas por mim ,
    é isso mesmo ,
    mesmo por que  disse clarice ,,,, a felicidade é mesmo clandestina...

    bom apetide e boa noite IIII



    24.9.07
    já vou indo
    Não te demoras chegar, que meu suor já é sangue...
    E minha bandeira já nem sei em que esquina ficou...
    4.9.07
    ...

    APÓS MORRER POR ALGUNS INSTANTES
    ACORDEI NUM QUADRO VIVO,
    ISTO QUE ESCREVO E UM DESENHO ELETRÓNICO
    E NÃO TEM PASSADO NEM FUTURO
    É SIMPLESMENTE JÁ....

    lispector

    verde ,rosa e lilás
    E os pássaros continuam a cantar o triste canto da solidão...
    Em seus galhos secos cantam a canção da morte...
    E talvez suas lágrimas consigam chegar ao chão antes que o nada absorva o sentido que tenha o amor...
    Talvez seja eu um dos pássaros a chorar e cantar...
    Ninguém que possa enxergar minhas lágrimas e o pranto existente em meu coração...
    Não há ninguém...
    Não existe mais coração...
    E as margaridas há tempos perderam sua cor... há tempos perderam a razão.....
    Eu perdi apenas meu coração...
    E esta com certeza foi a minha maior perda... maior desencanto.........
    Não posso mais...
    até,,,,
    Até,
    Quando,
    não sei onde,
    O tempo que às vezes se desfaz....
    Até quando me fizer forte...
    E meu coração..
    Que vê flores......em todos os jardins que passa.......
    Até .....
    Não sei onde............
    outono

    Meus dias,
    E todos parecem escutar alguma canção...
    E eu só consigo ouvir a dor do meu coração
    Há coração, sinto pena de ti, sinto o quanto está sangrando.
    O gosto de sangue está em mim...
    Meus dias é persistir neste nada profundo
    ...
    AS CORES.............A LUZES MUDARAM DE TOM.......
    VAZIO AGUDO
    ANDO MEIO
    CHEIO DE TUDO


    PAULO LEMINSK

    postado por camila baldon as 02:58:47 # 0 comentários
    domingo, 09 maio, 2010
    silêncio...

    carrego em mim , o cheiro do cansaço, perda, morte e pó...
    sobre minha pele misturam-se e por aglutinação escorrem...
    e ísso é vida...
     perdoe-me a delicadeza...



    camila baldon



    postado por camila baldon as 10:33:51 # 0 comentários
    sábado, 01 maio, 2010
    CONTROLE DO ESTÁTICO para sábado a tarde,

    Antes que a angústia desça é preciso partir
    Não importa para onde, não importa para longe de quem
    Ó como o mesmo céu sufoca e a mesma ventura mata!

    Abandonar o corpo gasto de sol e a alma gasta de sono
    Raspar os velhos sapatos na branca soleira da casa do tédio
    E surgir como um animal morno de silencioso passo.

    Nada a conhecer... Sim, são verdes as montanhas
    E quanta vaga expiação deixam os livros no pensamento
    E acima de tudo existe Deus serenamente inacessível.

    Mas viver, ah, viver é doloroso, é incompreensível
    Não se sabe quando!... não se sabe nunca... e quando sabe-se
    É para receber o golpe mortal da tragédia no mais fundo.


    VINICIUS DE MORAES

    postado por camila baldon as 03:32:55 # 0 comentários
    reticências periódicas PARTE III


    aleatório,aleaTÓRIO............pontos,virgulas,sementes,e pontos...

     se a  loucURA fOSSE  assIM coiSa ,não é coisa, é cheiro,sabor,...
    perto ,onde escorre...pelos lugares que es...............corro...

    nasce hoje uma série autocontolaçodemim...SérIE plANOs de FuGA..
    AÇÃO.EXPERIÊNciAS DO INVÍSIV EL.............



    fragmentos POR  caio fernando abreu
     MEL E GIRASSÓIS
    parte final...

    A luz da lua entrava pela janela. Aquela brisa morna, que não teriam mais no dia seguinte. Ele a viu melhor, então: uma mulher um pouco magra demais, um tanto tensa, cheia de idéias, não muito nova ― mas tão doce. As duas mãos apoiadas nos ombros dele, assim afastando os cabelos, no mesmo momento ela o viu melhor: um homem não muito alto, ar confuso, certa barriga, não muito novo ― mas tão doce. Que grande cilada, pensaram. Ficaram se olhando assim, quase de manhã. Ela não suportou olhar tanto tempo. Virou de costas, debruçou-se na janela, feito filme: Doris Day, casta porém ousada. Então ele veio por trás: Cary Grant, grandalhão porém mansinho. Tocou-a devagar no ombro nu moreno dourado sob o vestido decotado, e disse: ― Sabe, eu pensei tanto. Eu acho que. Ela se voltou de repente. E disse:
    ― Eu também. Eu acho que. Ficaram se olhando. Completamente dourados, olhos úmidos. Seria a brisa? Verão pleno solto lá fora. Bem perto dela, ele perguntou: ― O quê? Ela disse: ― Sim. Puxou-o pela cintura, ainda mais perto. Ele disse: ― Você parece mel. Ela disse: ― E você, um girassol. Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro. Fim

    IMAGEM -HELIO OITICICA

    postado por camila baldon as 02:42:20 # 0 comentários
    reticências periódicas PARTE II


    SONETO-uma canção

    Por que me descobriste no abandono
    Com que tortura me arrancaste um beijo
    Por que me incendiaste de desejo
    Quando eu estava bem, morta de sono

    Com que mentira abriste meu segredo
    De que romance antigo me roubaste
    Com que raio de luz me iluminaste
    Quando eu estava bem, morta de medo

    Por que não me deixaste adormecida
    E me indicaste o mar, com que navio
    E me deixaste só, com que saída

    Por que desceste ao meu porão sombrio
    Com que direito me ensinaste a vida
    Quando eu estava bem, morta de frio


    por BUARQUE CHICO,imagem-ligia clark


    SÉRIE- PLANOS DE FUGA,PARTE II-CANÇÕES,CITAÇÕES E REFERêcias bibliograficas.



    postado por camila baldon as 02:19:24 # 0 comentários
    domingo, 18 abril, 2010
    RETICÊNCIAS PERIÓDICAS......PARTE I

    .

    POR CAIO FERNANDO ABREU...........

    PARA UMA AVENCA VIAJANTE

    Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver
    as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer
    atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia
    destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.




    postado por camila baldon as 02:19:18 # 0 comentários
    terça, 08 setembro, 2009
    prosa .. um folhetim áereo com alguma densidade

    Chacal

    Papo de Índio Veiu uns ômi di saia preta cheiu di caixinha e pó branco qui eles disserum qui chamava açucri aí eles falarum e nós fechamu a cara depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo aí eles insistirum e nós comemu eles. vocês repararam como o povo anda triste ? é a cachaça que subiu de preço a cachaça e outros gêneros de primeira necessidade cachaça a dois contos, ora veja, veja a hora, que horas são, atenção apontar: FOGO

    Ponto de bala

    os mortos tecem considerações

    os tortos cozem quietos

     as crianças brincam

     e bordam desconsiderações

    Ai de mim, aipim. ai de mim, aipim. ô inhame, a batata é uma puta barata. deixa ela pro nabo nababo que baba de bobo. transa uma com a cebola. aquele hálito? que hábito! me faz chorar. então procura uma cenoura. coradinha, mas muito enrustida. a abóbora tá aí mesmo. como eu gosto de abóbora. então namora uma. falô. vou pegar meu gorrinho e sair poraí pra procurar uma abóbora maneira té mais, aimpim té mais, inhame


    postado por camila baldon as 12:41:03 # 0 comentários
    sexta, 31 julho, 2009
    branco e preto


    qQUERIA TER UMA BOMBA


    POR CAZUZA

    postado por camila baldon as 09:20:27 # 1 comentários
    tons ...tons ..tons..tons...


    Roxos
    Todos
    Pretos
    Partes
    Pratas
    Andrades
    Azuis
    Azares
    Amarras
    Amar
    Elos
    Amargores
    Calipsos
    Cortesias
    Cortes
    Cores e
    rancores
    Luzes
    Milagres
    Lilases
    Rosas
    Guimarães...

    Mulatos
    Dourados
    Rubores
    Castigos
    Castanhos
    Castores
    Havanas
    Avanços e
    brancos
    Cobranças
    Cinzentos
    Cimentos
    Crianças
    nas sarjetas
    Nojentas
    Imagens
    Violeta
    Magentas
    Laranjas
    Matizes
    Cremes
    Crimes
    Cobaltos
    Assaltos
    Turquesas
    Pérolas
    aos hipócritas
    Ocres
    Terras
    Telhas
    Gelos
    Gemas

    tons - Adriana Calcanhoto


    postado por camila baldon as 09:09:14 # 0 comentários
    dissolução melancólica


    uma imagem
    pequena imagem
    imagem
    suspiros
    lástimas
    reticências.......................


    postado por camila baldon as 08:58:15 # 0 comentários
    amores partidos


    A Ponto de Partir
     
     

    A ponto de
    partir, já sei
    que nossos olhos
    sorriam para sempre
    na distância.
    Parece pouco?
    Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
    A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
    Lentes escuríssimas sob os pilotis.


    ana cristina cezar


    postado por camila baldon as 08:52:09 # 0 comentários
    valsa 457


    Sabem-se pouco,

    Fala-se menos ainda....

    Desconjuro a besta vermelha acudida atrás do armário; os absurdos que ela lamenta.

    São lágrimas roxas que encardem todo o assoalho....

    ....E seu pranto não para...

    Absurdamente ....

    E a besta chora.............................







    .............CAMILA BALDON..............


    postado por camila baldon as 07:56:05 # 0 comentários
    segunda, 27 julho, 2009
    ....reticências II


    pollock


    postado por camila baldon as 06:33:01 # 0 comentários
    ....reticências


    pollock

    postado por camila baldon as 06:32:13 # 0 comentários
    ......

    Eu sou o medo da lucidez
    Choveu na palavra onde eu estava.
    Eu via a natureza como quem a veste.
    Eu me fechava com espumas.
    Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
    Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
    Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
    Aquele arame do horizonte
    Que separava o morro do céu estava rubro.
    Um rengo estacionou entre duas frases.
    Uma descor
    Quase uma ilação do branco.
    Tinha um palor atormentado a hora.
    O pato dejetava liquidamente ali.

    manoel de barros







    postado por camila baldon as 06:18:16 # 0 comentários
    quarta, 08 julho, 2009
    uma dose ...........


    Ela ....ANA CRISTINA CÉSAR...
    quem é ela ,a moça da janela....a moça de tinta que se fez em tela ,pintura...
    que se fez em pomas ,prosa,amor,delério...sons ...
    Era ela a  moça da janela...linda ,dilacerante...
    Por agora apresento uma pequena e modesta reunião de palavras,poemas,prosas...ainda não consegui definir nem dizer corretamente  sobre sua obra ou quem foi..... ANA CRISTINA CESAR....
    e ela ...
    Oráculo – conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?





    Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir com uma doçura venenosa de tão funda.

     


    Minha boca também está seca deste ar seco do planalto. Brasília está tombada, iluminada como o mundo real. Pouso a mão no teu peito, mapa de navegação. Desta varanda, hoje sou eu que te estou a livrar. Da verdade.

     


    Caixa de areia com estrelas de papel. Balanço, muito devagar... E se eu te disser que te adoro e te raptar não sei como dessa aflição de março, ainda que aproveitando maus bocados para sair do esconderijo num relance?

    Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone. Fiz tudo para te agradar: fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhado na garganta, malandra, gay, vândala, talvez maquiavélica... um dia emburrei-me, vali-me de mesuras, fiz comércio, avarenta, embora um pouco burra, porque inteligente punha-me logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa. E tantas fiz... talvez querendo a glória, a outra cena à luz dos holofotes, talvez apenas o teu caminho. Tantas, tantas fiz...



    Eu era menina e já escrevia memórias, envelhecida. O tempo fazia-se ao contrário. De noite não dormia enquanto os meus olhos viam as luzes dos automóveis velozes no tecto. quando me virava de bruços vinha o diabo e furava-me as costas com um punhal de prata. As mãos interrompiam-se à meia-noite quando chegava o anjo mais escuro que o silêncio. eu era a rainha das cobras.

     

    Um Beijo
    que tivesse um blue.
    Isto é
    imitasse feliz a delicadeza, a sua,
    assim como um tropeço
    que mergulha surdamente
    no reino expresso
    do prazer.
    Espio sem um ai
    as evoluções do teu confronto
    à minha sombra
    desde a escolha
    debruçada no menu;
    um peixe grelhado
    um namorado
    uma água
    sem gás
    de decolagem:
    leitor embevecido
    talvez ensurdecido
    "ao sucesso"
    diria meu censor
    "à escuta"
    diria meu amor




    postado por camila baldon as 06:59:03 # 0 comentários
    .....


    por umas e outras ....talvez falando de algumas palavras soltas,letras avulsas,coisa que por ai passam ,infiltram em lugar algum ,por entre fios ,pelo ar .......












    Camila Baldon

    postado por camila baldon as 06:22:57 # 0 comentários
    domingo, 14 junho, 2009
    DOMINGOIII

                                                                                                                                                

    paulo lemisnk-poeta,escritor e compositor

    1.

    lembrem de mim
    como de um
    que ouvia a chuva
    como quem assiste missa
    como quem hesita, mestiça,
    entre a pressa e a preguiça

    2.

    já me matei faz muito tempo
    me matei quando o tempo era escasso
    e o que havia entre o tempo e o espaço
    era o de sempre
    nunca mesmo o sempre passo

    morrer faz bem à vista e ao baço
    melhora o ritmo do pulso
    e clareia a alma

    morrer de vez em quando
    é a única coisa que me acalma

    3.

    um homem com uma dor
    é muito mais elegante
    caminha assim de lado
    como se chegando atrasado
    andasse mais adiante

    carrega o peso da dor
    como se portasse medalhas
    uma coroa um milhão de dólares
    ou coisa que os valha

    ópios édens analgésicos
    não me toquem nessa dor
    ela é tudo que me sobra
    sofrer, vai ser minha última obra

    4 e 5.

    LÁPIDE 1
    epitáfio para o corpo

    Aqui jaz um grande poeta.
    Nada deixou escrito.
    Este silêncio, acredito
    são suas obras completas.

    LÁPIDE 2
    epitáfio para a alma

    aqui jaz um artista
    mestre em disfarces

    viver
    com a intensidade da arte
    levou-o ao infarte

    deus tenha pena
    dos seus disfarces

    6.

    Aço e Flor

    Quem nunca viu
    que a flor, a faca e a fera
    tanto fez como tanto faz,
    e a forte flor que a faca faz
    na fraca carne,
    um pouco menos, um pouco mais,
    quem nunca viu
    a ternura que vai
    no fio da lâmina samurai,
    esse, nunca vai ser capaz.

    7.

    a estrela cadente
    me caiu ainda quente
    na palma da mão

    8.

    parem
    eu confesso
    sou poeta

    cada manhã que nasce
    me nasce
    uma rosa na face

    parem
    eu confesso
    sou poeta

    só meu amor é meu deus

    eu sou o seu profeta


    postado por camila baldon as 08:11:53 # 0 comentários
    DOMINGO II

    Fernando.....

    Diziam alguns que tudo isso era coisa de gente louca, transviada, acudido demais.

    As senhorias do ponto de ônibus exclamavam, subtendiam a questão maior;...Aquele andar encardido, os olhos sempre fechados!...Por milhões, milhares de vezes se negava a abri-los...---Abra os olhos fulano!E era assim negação e negação...

    É acho que era mesmo louco, transviado e acudido.

    Não se passaram nem tantos anos .....

    E ele caiu morto no asfalto; e naquele dia estava com os olhos bem abertos...

    C.BALDON

    [regopieta-rego.jpg]


    postado por camila baldon as 07:49:06 # 0 comentários
    DOMINGO....

    [boccioni.lastrada]

    Umberto Boccioni

    Padeciam as coisas verdes, rosas e amarelas...

    Com o vento vieram os alicerces azuis.

    A chuva quando  veio trouxe um manto negro,

    Limpou todas as coisas verdes, rosas e amarelas

     todos os alicerces azuis!

    E a chuva não cansou de cair, inundou todas as coisas.

       Todo o redondo

    Todo o quadrado

    Todos os cones.....

    C.BALDON


    postado por camila baldon as 07:30:02 # 0 comentários
    domingo, 24 maio, 2009
    .......dorival era a melodia


    Sequer conheço fulana,
    Vejo fulana tão curto
    Fulana jamais me vê,
    Mas como amo fulana.

    Amarei mesmo fulana?
    Ou é ilusão de sexo?
    Talvez a linha do busto,
    Da perna, talvez o ombro.
    Amo fulana tão forte,
    Amo fulana tão dor,
    Que todo me despedaço
    E choro,menino, choro

    Mas fulana vai se rindo...
    Vejam fulana dançando
    No esporte ele está sozinha
    No bar, quão acompanhada.

    E fulana diz mistérios,
    Diz marxismo, rimmel, gás.
    Fulana me bombardeia,
    No entanto sequer me vê.

    E sequer nos compreendemos,
    É dama de alta fidúcia,
    Tem latifúndios, iates,
    Sustenta cinco mil pobres,

    Menos eu...que de orgulhoso
    Me basto pensando nela
    Pensando com unha, plasma,
    Fúria, gilete, desânimo.

    Amor tão disparatado,
    Desbaratado é que é...
    Nunca a sentei no meu colo
    Nem vi pela fechadura.

    Mas sei quanto me custa
    Manter esse gelo digno,
    Essa indiferença gaia, e não gritar:vem, fulana!

    Como deixar de invadir
    Sua casa de mil fechos
    E sua veste arrancando
    Mostrá-la depois ao povo

    Tal como deve ser:
    Branca, intata, neutra, rara,
    Feita de pedera translúcida,
    De ausência e ruivos ornatos.

    Mas como será fulana,
    Digamos, no seu banheiro?
    Só de pensar em seu corpo,
    O meu se punge...pois sim.

    Porque preciso do corpo
    Para mendigar fulana,
    Rogar-lhe que pise em mim,
    Que me maltrate...assim não.

    Mas fulana será gente?
    Estará somente em ópera?
    Será figura de livros?
    Será bicho? saberei?

    Não saberei? só pegando,
    Pedindo: dona, desculpe,
    O seu vestido, esconde algo?
    Tem coxas reais? cintura?

    Fulana às vêzes existe
    Demais: até me apavora.
    Vou sozinho pela rua,
    Eis que fulana me roça.

    Mas não quero nada disso.
    Para que chatear fulana?
    Pancada na sua nuca
    Na minha que vai doer.

    E daí não sou criança
    Fulana estudo meu rosto
    Coitado: de raça branca
    Tadinho: tinha gravata

    Já morto, me quererá?
    Esconjuro, se é necrófila...
    Fulana é vida, ama as flores,
    As artérias e as debêntures.

    Sei que jamais me perdoara
    Matar-me para servi-la.
    Fulana quer homens fortes
    Couraçados, invasores.
    Fulana é tão dinâmica
    Tem um motor na barriga.
    Suas unhas são elétricas,
    Seus beijos refrigerados,

    Desinfetados, gravados
    Em máquina multilite.
    Fulana, como é sadia!
    Os enfermos somos nós.

    Sou eu, o poeta precário
    Que fêz de fulana um mito
    Nutrindo-me de petrarca,
    Ronsard, camões e capim;

    Que a sei embebida em leite,
    Carne, tomate, ginástica
    E lhe colo metafísicas,
    Enigmas, causas primeiras.

    Mas, se tentasse construir
    Outra fulana que não
    Essa de burguês sorisso
    E de tão burro esplendor?

    Mudo-lhe o nome: recorto-lhe
    Um traje de transparência;
    Já perde a carência humana
    E bato-a; de tirar sangue.

    E lhe dou todas as faces
    De meu sonho que especula;
    E abolimos a cidade
    Já sem peso e nitidez.

    E vadeamos a ciência,
    Mar de hipóteses.a lua
    Fica sendo nosso esquema
    De um território mais justo.

    E colocamos os dados
    De um mundo sem classe e imposto;
    E nesse mundo instalamos
    Os nossos irmãos vingados:

    E nessa fase gloriosa,
    De contradições extintas,
    Eu e fulana, abrasados,
    Queremos...que mais queremos?

    E digo a fulana: amiga,
    Afinal nos compreendemos.
    Já não sofro, já não brilhas,
    Mas somos a mesma coisa

    ( uma coisa tão diversa da que pensava que fossemos.)


    o mito por drummond

    postado por camila baldon as 01:18:52 # 0 comentários
    sexta, 22 maio, 2009
    melodias e palavras...prosa para uma tarde de sol...

    transpiração-

    A inspiração vem de onde
    Pergunta pra mim alguém
    Respondo talvez de longe
    De avião, barco ou ponte
    Vem com meu bem de Belém
    Vem com você nesse trem
    Nas entrelinhas de um livro
    Da morte de um ser vivo
    Das veias de um coração
    Vem de um gesto preciso
    Vem de um amor, vem do riso
    Vem por alguma razão
    Vem pelo sim, pelo não
    Vem pelo mar gaivota
    Vem pelos bichos da mata
    Vem lá do céu, vem do chão
    Vem da medida exata
    Vem dentro da tua carta
    Vem do Azerbaijão
    Vem pela transpiração
    A inspiração vem de onde, de onde
    A inspiração vem de onde, de onde
    Vem da tristeza, alegria
    Do canto da cotovia
    Vem do luar do sertão
    Vem de uma noite fria
    Vem olha só quem diria
    Vem pelo raio e trovão
    No beijo dessa paixão

    ney matogrosso e pedro luiz


    postado por camila baldon as 04:55:44 # 0 comentários
    sexta, 15 maio, 2009
    so.................lar............


    Não tenho bens de acontecimentos.
    O que não sei fazer desconto nas palavras.
    Entesouro frases. Por exemplo:
    - Imagens são palavras que nos faltaram.
    - Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
    - Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
    Ai frases de pensar!
    Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
    Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
    Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
    Outras de palavras.
    Poetas e tontos se compõem com palavras.

    manuel de barros

    trecho retirado do site jornal de poesia


    postado por camila baldon as 04:41:10 # 0 comentários
    quarta, 22 abril, 2009
    .....

    Arte Itinerante Mineira

    Galeria de Arte, Itinerante e Mineira.

    http://arteitinerantemineira.blogspot.com/

    ARTE,POESIA,

    POESIA ,ARTE

    ,


    postado por camila baldon as 03:33:09 # 1 comentários
    segunda, 12 janeiro, 2009
    blá,blá,blá


    tela-salvador dali

    postado por camila baldon as 08:52:20 # 0 comentários
    quarta, 07 janeiro, 2009
    sem pontos


    Estado visceral,

    Contorcendo o verbo.

    O intransitivo direto

    O objeto oculto

    O borbulhar pungente, latente, intrasferível

    Prosas, prós, adverso ao ponto e fim

    Reticências... obscuro e claro

    Transcendente a luz, ao som,

    O quanto se propaga a luz, o som....

    Camila Baldon


    postado por camila baldon as 12:33:50 # 0 comentários
    quinta, 18 dezembro, 2008
    ...

    O último sortilégio

    Fernando Pessoa


    "Já repeti o antigo encantamento,
    E a grande Deusa aos olhos se negou.
    Já repeti, nas pausas do amplo vento,
    As orações cuja alma é um ser fecundo.
    Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
    Só o vento volta onde estou toda e só,
    E tudo dorme no confuso mundo.

    "Outrora meu condão fadava, as sarças
    E a minha evocação do solo erguia
    Presenças concentradas das que esparsas
    Dormem nas formas naturais das coisas.
    Outrora a minha voz acontecia.
    Fadas e elfos, se eu chamasse, via.
    E as folhas da floresta eram lustrosas.

    "Minha varinha, com que da vontade
    Falava às existências essenciais,
    Já não conhece a minha realidade.
    Já, se o círculo traço, não há nada.
    Murmura o vento alheio extintos ais,
    E ao luar que sobe além dos matagais
    Não sou mais do que os bosques ou a estrada.

    "Já me falece o dom com que me amavam.
    Já me não torno a forma e o fim da vida
    A quantos que, buscando-os, me buscavam.
    Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
    Nem já me vejo ao sol saudado ergUida,
    Ou, em êxtase mágico perdida,
    Ao luar, à boca da caverna funda.

    "Já as sacras potências infernais,
    Que, dormentes sem deuses nem destino,
    À substância das coisas são iguais,
    Não ouvem minha voz ou os nomes seus.
    A música partiu-se do meu hino.
    Já meu furor astral não é divino
    Nem meu corpo pensado é já um deus.

    "E as longínquas deidades do atro poço,
    Que tantas vezes, pálida, evoquei
    Com a raiva de amar em alvoroço,
    lnevocadas hoje ante mim estão.
    Como, sem que as amasse, eu as chamei,
    Agora, que não amo, as tenho, e sei
    Que meu vendido ser consumirão.

    "Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
    Tu, Lua, cuja prata converti,
    Se já não podeis dar-me essa beleza
    Que tantas vezes tive por querer,
    Ao menos meu ser findo dividi
    ­Meu ser essencial se perca em si,
    Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

    "Converta-me a minha última magia
    Numa estátua de mim em corpo vivo!
    Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
    Anônima presença que se beija,
    Carne do meu abstrato amor cativo,
    Seja a morte de mim em que revivo;
    E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"


    O Releituras, com essa poesia, junta-se àqueles que comemoram a passagem dos 120 anos do nascimento do autor (1888-2008).


    postado por camila baldon as 09:42:05 # 0 comentários
    terça, 16 dezembro, 2008
    para todos


    "que eu saiba ficar com o nada
    e mesmo assim me sentir
    como se estivesse plena de tudo."

    clarice lispector


    postado por camila baldon as 10:39:10 # 0 comentários
    ....


    O menino azul


    O menino quer um burrinho
    para passear.
    Um burrinho manso,
    que não corra nem pule,
    mas que saiba conversar.
     

    O menino quer um burrinho
    que saiba dizer
    o nome dos rios,
    das montanhas, das flores,
    - de tudo o que aparecer.
     

    O menino quer um burrinho
    que saiba inventar histórias bonitas
    com pessoas e bichos
    e com barquinhos no mar.
     
    .

    E os dois sairão pelo mundo
    que é como um jardim
    apenas mais largo
    e talvez mais comprido
    e que não tenha fim.
     

    (Quem souber de um burrinho desses,
    pode escrever
    para as Ruas das Casas,
    Número das Portas,
    ao Menino Azul que não sabe ler.).

     

    Cecília meireles
     


    postado por camila baldon as 10:08:14 # 0 comentários
    quinta, 11 dezembro, 2008
    e roda..gira..rodaaaa

    Aproveitar o tempo! 
    Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
    Aproveitar o tempo! 
    Nenhum dia sem linha... 
    O trabalho honesto e superior... 
    O trabalho à Virgílio, à Mílton... 
    Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
    É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

    Aproveitar o tempo! 
    Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos - 
    Para com eles juntar os cubos ajustados 
    Que fazem gravuras certas na história 
    (E estão certas também do lado de baixo que se não vê)... 
    Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
    E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
    E a vontade em carambola difícil.
    Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos - 
    Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

    Verbalismo...
    Sim, verbalismo...
    Aproveitar o tempo!
    Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
    Não ter um acto indefinido nem factício...

    Não ter um movimento desconforme com propósitos...
    Boas maneiras da alma...
    Elegância de persistir...

    Aproveitar o tempo! 
    Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
    Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
    Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
    Aproveitar o tempo! 
    Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
    Aproveitei-os ou não? 
    Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

    (Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
    No comboio suburbano, 
    Chegaste a interessar-te por mim? 
    Aproveitei o tempo olhando para ti?
    Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
    Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
    Qual foi a vida que houve nisto?

    Que foi isto a vida?)

    Aproveitar o tempo! 
    Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
    Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!... 
    Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
    A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
    O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
    O pião do garoto, que vai a parar, 

    E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
    E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
    E cai, como caem os deuses, no chão do Destino

    Álvaro de campos


    postado por camila baldon as 11:49:21 # 0 comentários
    sábado, 15 novembro, 2008
    ...uma canção desnaturada...


    ....

    Sentido desconexo revirando o estático movimento ,desprendendo folhas em branco retiradas da parede..rabiscos ...gotas de ácido revirando-se dentro ..........cheio....


    postado por camila baldon as 10:03:48 # 1 comentários
    ....

    uma dose de silêncio e nada...

    onde estou ?no mesmo lugar que você..

    você quem?o todo ,ou tudo ....repartindo o silêncio..

    o som hoje aqui não funciona,não existe,ficou inerte...

    repartindo ,colhendo,

    ...o silêncio


    postado por camila baldon as 09:24:23 # 0 comentários
    terça, 11 novembro, 2008
    uma canção ....até pensei...


    Junto à minha rua havia um bosque
    Que um muro alto proibia
    Lá todo balão caia, toda maçã nascia
    E o dono do bosque nem via
    Do lado de lá tanta aventura
    E eu a espreitar na noite escura
    A dedilhar essa modinha
    A felicidade morava tão vizinha
    Que, de tolo, até pensei que fosse minha
    Junto a mim morava a minha amada
    Com olhos claros como o dia
    Lá o meu olhar vivia
    De sonho e fantasia
    E a dona dos olhos nem via
    Do lado de lá tanta ventura
    E eu a esperar pela ternura
    Que a enganar nunca me vinha
    Eu andava pobre, tão pobre de carinho
    Que, de tolo, até pensei que fosses minha
    Toda a dor da vida me ensinou essa modinha


    até pensei-chico buarque

    tela-chagal


    postado por camila baldon as 09:12:13 # 0 comentários
    sábado, 08 novembro, 2008
    acabou-se a prosa


    tela-guignard

    postado por camila baldon as 08:11:14 # 1 comentários
    prosa....por vinicius de moraes


    Elegia Desesperada
    (O Desespero da Piedade)


    Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
    E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
    Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
    Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.


    Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
    E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
    Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
    E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina


    Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
    Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
    Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
    E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.


    Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
    Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
    Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
    E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.


    Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
    E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
    Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
    E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.


    Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
    Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
    E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
    Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...


    Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
    Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
    Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
    Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!


    Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
    Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
    Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
    Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.


    Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
    Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
    Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
    Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.


    Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
    Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
    Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
    Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.


    E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
    Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
    Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
    Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!


    Tende piedade da moça feia que serve na vida
    De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
    Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
    Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!


    Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
    Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
    E sonham exaltadas nos quartos humildes
    Os olhos perdidos e o seio na mão.


    Tende piedade da mulher no primeiro coito
    Onde se cria a primeira alegria da Criação
    E onde se consuma a tragédia dos anjos
    E onde a morte encontra a vida em desintegração.


    Tende piedade da mulher no instante do parto
    Onde ela é como a água explodindo em convulsão
    Onde ela é como a terra vomitando cólera
    Onde ela é como a lua parindo desilusão.


    Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
    Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
    Mas tende piedade também das mulheres casadas
    Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.


    Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
    Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
    Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
    E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.


    Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
    De corpo hermético e coração patético
    Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
    Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.


    Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
    Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
    Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
    Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.


    Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
    Que são crianças e são trágicas e são belas
    Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
    E que têm a única emoção da vida nelas.


    Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
    Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
    E outra, à simples emoção do amor piedoso
    Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.


    Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
    A vida fere mais fundo e mais fecundo
    E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
    E a loucura reside nesse mundo.


    Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
    Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
    Piedoso com todos, que tudo merece piedade
    E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


    A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.

    tela-edgar degas


    postado por camila baldon as 07:56:46 # 0 comentários
    prosa....por Sérgio Sant'Anna

     Romeu e Julieta
    (minificções)

    Sérgio Sant'Anna


    1


    Você amaria um sujeito com um olho de vidro?

    Ela disse que a venda negra nos olhos até o tornava atraente, misterioso. Ele estava completamente bêbado e falou que as pessoas precisam se conhecer até o fundo. Arrancando o olho de vidro, jogou-o dentro da laranjada dela. Disse que se ela bebesse com o olho dentro do copo, ele ficaria apaixonado para sempre. Ela bebeu.


    2


    Na primeira noite, ele achou que para mulher virgem havia penetrado fácil demais. Mas ele era um sujeito fechado, guardava as coisas para si mesmo, refletindo nelas.

    Quando ela foi ao banheiro, na manhã seguinte, ele verificou rapidamente o lençol. Nenhum vestígio de sangue.

    Um sargento da polícia ninguém passa pra trás.

    Na noite seguinte, ele saiu para a rua, apesar da lua-de-mel. Voltando bêbado e sem pronunciar qualquer palavra, deu vinte e cinco facadas nela. O lençol ficou empapado de sangue.


    3


    Na cama, ele perguntou a ela se podia acender a luz para vê-la. Ela disse que sim, fechando os olhos. E ele perguntou, de repente, se podia fotografá-la, no dia seguinte, completamente nua. Ela sorriu, abrindo os olhos e perguntando: — Por quê?

    — Por nada, apenas para guardar comigo.

    Mas ele estava pensando que o sistema deles era um círculo e eles desceriam novamente ao fundo e que um dia o círculo poderia se romper e eles permanecem para sempre no fundo, atolados no lodo do fundo. Mas restaria uma lembrança dela assim: jovem, bonita e nua.


    4


    Ele voltava muito tarde para casa e sempre bêbado. Batia nela e nos meninos. Nela própria, a mulher ainda podia suportar. Mas nos meninos não.

    Segurando o ferro de passar, ela o esperou na escuridão de um canto da parede. Quando ele entrou, tropeçando e praguejando, ela encontrou uma agilidade que nunca possuíra e acertou em cheio um golpe na cabeça dele. Com um pequeno gemido, ele caiu ao chão.

    Ela montou sobre o corpo caído, já sentindo um cadáver. Mas desferiu vários golpes na cabeça dele, até cansar. Depois ela se levantou e foi até o quarto dos meninos. Ajeitando as cobertas sobre eles, deu um leve beijo em cada um.


    5


    Ela esperava por ele, no escuro. Ele não chegava. Ela se enfureceu. Acendeu a luz e olhou o apartamento vazio. E viu, na parede, o quadro de que ele tanto gostava. Retângulos, e quadrados superpostos. Ele dizia que o quadro era bom por causa de sua simplicidade geométrica. Junto ao quadro, havia um punhal. Ele gostava, também, daquele punhal. Tornava-o próximo de uma rudeza que de verdade ele não possuía. Ela segurou nervosamente o punhal e começou a fincá-lo no quadro. Depois ele viu o quadro destruído e tentou chorar, sem que o conseguisse.

    Ele chegou em casa e perguntou a ela por que fizera aquilo? Ela disse que não gostava do quadro. Ele falou que era mentira e que o quadro era seu e custara dinheiro. Então ela confessou que fizera aquilo porque ele não vinha para casa na hora certa.

    — As horas não são diferentes umas das outras — ele gritou

    Ela disse que tinha vontade de morrer..

    — Pois então morra.

    Ela se aproximou da janela. Havia cinco andares. Ele não acreditava que ela se atreveria, mas nunca se podia ter certeza. Ele teve medo de que ela se atirasse apenas para provar-lhe isto: que era capaz de se atirar. Então ele deu um salto e segurou-a pelas costas, gritando que ela era uma neurótica. Ela deu-lhe um tapa no rosto. Ele a empurrou, com força, atirando-a ao chão. Ela poderia ter-se amparado, se quisesse, mas preferiu cair com violência e escândalo contra o assoalho. Ele teve medo de que ela houvesse realmente se machucado e aliviou-se quando a viu soluçando baixinho e mais calma.

    Ele queria que existisse um outro quarto no apartamento, para onde pudesse ir. Mas não havia e ele pensou em trancar-se no banheiro. Ela estava, porém, caída e descomposta, no chão, com as pernas inteiramente descobertas. E ele foi chegando a mão, devagarinho. As pernas dela se fecharam, tensas, como numa recusa. Ma ele continuou a acariciá-la. E ela foi-se afrouxando, aos poucos, oferecendo-se.


    6


    Estavam apaixonados um pelo outro. Ele era meio teatral e disse, um dia, que as perfeitas histórias de amor terminam com a morte. Como em Romeu e Julieta. Porque, do contrário, chegaria o tempo em que Romeu e Julieta brigariam por coisas mesquinhas e ridículas.

    Quando terminaram mais uma vez de se amar, ela teve medo e perguntou:

    — O que faremos, se isso começar a acontecer?

    Ele disse que na cozinha havia um fogão e neste fogão interruptores e que eles poderiam arrastar a cama para lá e se despirem e depois ligarem os interruptores e se abraçarem, como se nada estivesse acontecendo. Como se o gás já não começasse a penetrar em suas narinas, misturando-se aos estremecimentos e gemidos do corpo e provocando um sono que nunca haveria de se dissipar.

    — É completamente indolor — ele disse, soltando uma gargalhada.

    Mas ela nunca sabia quando ele estava brincando ou falando a sério.



    postado por camila baldon as 07:45:10 # 0 comentários
    prosa...por rubem fonseca

    O Cobrador


    NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.

    Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.

    Só rindo. Esses caras são engraçados.

    Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.

    Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.

    São quatrocentos cruzeiros.

    Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.

    Não tem não o quê?

    Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.

    Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.

    Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!

    Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.


    * * *

    A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.


    * * *

    rubem fonseca


    postado por camila baldon as 06:00:55 # 0 comentários
    fragmentos miguel de cervantes

    um diálogo .....

    em sonetos fragmentados  de um tal conto de miguel de cervantes...

    --olhou ,sorriu e disse.............

    nesta rua jaz minha Esperança,
    A quem de corpo e alma adoro;
    Esperança de vida e tesouro,
    Pois não a tem quem não a alcança.

    Se a alcanço, tal será minha andança,
    Que não invejo o francês, o índio, o mouro.
    Portanto teu favor galhardo imploro,
    Cupido, deus de toda doce folgança.

    Que embora seja esta Esperança tão pequena,
    De anos apenas dezenove,
    Quem a alcance será um gigante.

    Cresça o incêndio pois vale a pena,
    Oh! Esperança, ninguém me demove
    De estar a teu serviço vigilante.

    em resposta

    Saí, Esperança minha,
    A favorecer a alma,
    Que sem vós agonizando
    Quase o corpo desampara.

    As nuvens do termor frio
    Não cobrem vossa luz clara;
    Que é míngua de vossos sóis
    Não render quem os contrasta.


    No mar de meus enfados
    Mantende tranqüilas as águas,
    Se não quiserdes que o desejo
    Tropece com a esperança.

    Por vos espero a vida
    Quando a morte me mata,
    E a glória no inferno,
    E no desamor a graça.

    por agora ,em partes,deste que o pó se perdeu ,mesmo antes da paisagem que enche sempre os olhos ,ter sido encontrada....

    não é nada além,dois pedaços de uma certa história....de um tempo...

    do que talvez o hoje retorna...

    trechos retirados do conto  A FALSA TIA-MIGUEL DE CERVANTES...


    postado por camila baldon as 05:03:30 # 0 comentários
    terça, 04 novembro, 2008
    roda a vida na saia


    Roda a vida na saia.

    Roda a dor, o amor.

    Redenção, desconforto.

    Instabilidade..

    Coragem....

    roda .


    .....http://www.uniblog.com.br/insanidadesa/

    postado por camila baldon as 07:32:30 # 0 comentários
    quinta, 16 outubro, 2008
    água viva...

    NÃO: Não quero nada. 
    Já disse que não quero nada. 

    Não me venham com conclusões! 
    A única conclusão é morrer. 

    Não me tragam estéticas! 
    Não me falem em moral! 

    Tirem-me daqui a metafísica! 
    Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
    Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — 
    Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

    Que mal fiz eu aos deuses todos? 

    Se têm a verdade, guardem-na! 

    Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. 
    Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. 
    Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 

    Não me macem, por amor de Deus! 

    Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
    Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
    Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
    Assim, como sou, tenham paciência! 
    Vão para o diabo sem mim, 
    Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
    Para que havemos de ir juntos? 

    Não me peguem no braço! 
    Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho.  
    Já disse que sou sozinho! 
    Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! 

    Ó céu azul — o mesmo da minha infância — 
    Eterna verdade vazia e perfeita!  
    Ó macio Tejo ancestral e mudo, 
    Pequena verdade onde o céu se reflete! 
    Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! 
    Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta. 

    Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo... 
    E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

    * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *fernando pessoa

    postado por camila baldon as 09:14:14 # 0 comentários
    sábado, 04 outubro, 2008
    ainda não é domingo...

    NO DESENROLAR DA VOZ,DO CANTO ,NA CIDADE....

    no desenrolar ,cortina,panela,garfo e colher.....desenrolar atravessado,corridas,paradas,avesso,fio dental...

    fale pessoa....

    Começo a conhecer-me. Não existo. 
    Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,  
    ou metade desse intervalo, porque também há vida ... 
    Sou isso, enfim ...  
    Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
    Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.  
    É um universo barato.


    postado por camila baldon as 01:21:47 # 0 comentários
    quinta, 02 outubro, 2008
    inerte e azul


    Caro seja meu cantoCaro seja meu canto 
    o que desejo é ser flama 
    que arde neste ar. 
    O que desejo arde 
    em flama neste ar 
    de canto sem encanto. 

    Se o pesar se evola 
    seja volátil este ar 
    de amar em flamas. 
    Seja volátil amar 
    neste ar em flamas 
    que o coração labora. 

    Canto de amor agora 
    se já evola em flamas 
    o que desejo neste ar. 
    Seja volátil o desejo 
    em flamas neste ar 
    de acender o que adora. 
     elson fróes

    "não há imagem que possa hoje transfigurar o que sinto em ausência e angustia."

    postado por camila baldon as 01:19:16 # 0 comentários
    terça, 30 setembro, 2008
    não era saudade

    Guarda estes versos que escrevi chorando como um alívio a
    minha saudade, como um dever do meu amor; e quando houver
    em ti um eco de saudade, beija estes versos que escrevi chorando.

    Machado de Assis

    o quanto estas noites ficaram vazias,

    e chamando pelo seu nome,....ouvi o silêncio dizer ....nunca mais...

     e pelo talvez do talvez......digo eu ....

    Há coisas que melhor se dizem calando.

    Machado de Assis


    postado por camila baldon as 07:18:56 # 1 comentários
    quinta, 04 setembro, 2008
    vou-me embora para pasárgada....


    Procuro a mistura qualquer absoluta, no ar.

    postado por camila baldon as 10:44:14 # 0 comentários
    sexta, 29 agosto, 2008
    ....


    ... Cecilia Meireles
           

    CANÇÃO MÍNIMA
            No mistério do sem-fim
            equilibra-se um planeta.
            E,  no planeta, um jardim,
            e, no jardim, um canteiro;
            no canteiro uma violeta,
            e, sobre ela, o dia inteiro,
            entre o planeta e o sem-fim,
            a asa de uma borboleta.   
           


    postado por camila baldon as 08:46:33 # 1 comentários
    FORA DO AR!!!


    Antes que a angústia desça é preciso partir
    Não importa para onde, não importa para longe de quem
    Ó como o mesmo céu sufoca e a mesma ventura mata!

    Abandonar o corpo gasto de sol e a alma gasta de sono
    Raspar os velhos sapatos na branca soleira da casa do tédio
    E surgir como um animal morno de silencioso passo.

    Nada a conhecer... Sim, são verdes as montanhas
    E quanta vaga expiação deixam os livros no pensamento
    E acima de tudo existe Deus serenamente inacessível.

    Mas viver, ah, viver é doloroso, é incompreensível
    Não se sabe quando!... não se sabe nunca... e quando sabe-se
    É para receber o golpe mortal da tragédia no mais fundo.


    VINICIUS DE MORAES


    postado por camila baldon as 08:37:59 # 0 comentários
    quinta, 28 agosto, 2008
    O efeito placebo em minha coluna vertebral...


    Eu vou indo...

    Conseguir um pouco de calma...

    Qualquer álcool forte no sangue.

    Entorpecer meu corpo, sexo, olfato,

    Compassos profanos... Realidade?

    Um soco, por favor!

    Carolina Belha.C.B


    postado por camila baldon as 10:53:19 # 0 comentários
    segunda, 25 agosto, 2008
    .....

    em algum lugar......

    Deve existir
    Eu sei que deve existir
    Algum lugar onde o amor
    Possa viver a sua vida em paz
    E esquecido de que existe o amor
    Ser feliz, ser feliz, bem feliz

     Vinicius de Moraes


    postado por camila baldon as 09:36:05 # 0 comentários
    domingo, 24 agosto, 2008
    ..."""""""""""""""""........."""""""""""""""""""""...


    No Brasil, lá na Angola, na Alemanha, na ladeira mais triste da Bolívia, nessa poeira que embaça tua sombra, na janela fechada, no mar alto; no `Próximo Oriente e no Distante, na nova madrugada lusitana e na avenida mais iluminada de New York. No Cuzco desolado e nas centrais atômicas atônitas,em teu quarto e nas naves espaciais - é preciso ajudá-lo.
    Nas esquinas,
    onde se perde o amor publicamente, nas cantigas guardadas no porão, nas palavras escritas com acrílico, quando fazes o amor pra ti mesmo. Na floresta amazônica, nas margens do Sena, e nos dois lados deste muro que atravessa a esperança da cidade onde encontrei o amor
    - o homem está
    ficando seco como um sapo seco
    e sua casa já se transformou
    em apenas local de refúgio.

    Lá na Alameda de Bernardo O'Higgins e no sangue chileno que escorria dos corpos dos obreiros fuzilados, levados para a fossa em caminhões pela ferocidade que aos domingos sabe se ajoelhar e cantar salmos.
    Lá na terra marcada como um boi
    pela brasa voraz do latifúndio.

    Dentro do riso torto que disfarça a amargura da tua indiferença,
    no milagre que acende os altos-fornos, no desamor das mãos, das tuas mãos, no engano diário, pão de cada noite, o homem agora está, homem autômato, servo soturno do seu próprio mundo, como um menino cego, só e ferido,
    dentro da multidão.
    Ainda é tempo.

    Sei porque canto: se raspas o fundo do poço antigo de sua esperança, acharás restos de água que apodrece.
    É preciso fazer alguam coisa, livrá-lo dessa seduçãovoraz de engrenagem organizada e fria que nos devora a todos a ternura, a alegria de dar e receber, o gosto de ser gente e de viver.
    É preciso ajudar.
    Porém primeiro,
    para poder fazer o necessário,
    é preciso ajudar-me, agora mesmo, a ser capaz de amor, de ser homem. Eu que também me sei ferido e só, mas que conheço este animal sonoro que profundo e feroz reina em meu peito.'
    Alemanha, setembro de 1974.

    Do livro:
    'Travessia dos navegantes-
    POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA E COM A TUA VIDA'
    Ed: civilização brasileira; 1975

    tela-salvador dali


    postado por camila baldon as 05:41:17 # 0 comentários
    sábado, 23 agosto, 2008
    o amor tem sempre a porta aberta.....


    "O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera"

    C.D.A.

    Vamos celebrar
    A estupidez humana
    A estupidez de todas as nações
    O meu país e sua corja
    De assassinos
    Covardes, estupradores
    E ladrões...

    Vamos celebrar
    A estupidez do povo
    Nossa polícia e televisão
    Vamos celebrar nosso governo
    E nosso estado que não é nação...

    Celebrar a juventude sem escolas
    As crianças mortas
    Celebrar nossa desunião...

    Vamos celebrar Eros e Tanatos
    Persephone e Hades
    Vamos celebrar nossa tristeza
    Vamos celebrar nossa vaidade...

    Vamos comemorar como idiotas
    A cada fevereiro e feriado
    Todos os mortos nas estradas
    Os mortos por falta
    De hospitais...

    Vamos celebrar nossa justiça
    A ganância e a difamação
    Vamos celebrar os preconceitos
    O voto dos analfabetos
    Comemorar a água podre
    E todos os impostos
    Queimadas, mentiras
    E seqüestros...

    Nosso castelo
    De cartas marcadas
    O trabalho escravo
    Nosso pequeno universo
    Toda a hipocrisia
    E toda a afetação
    Todo roubo e toda indiferença
    Vamos celebrar epidemias
    É a festa da torcida campeã...

    Vamos celebrar a fome
    Não ter a quem ouvir
    Não se ter a quem amar
    Vamos alimentar o que é maldade
    Vamos machucar o coração...

    Vamos celebrar nossa bandeira
    Nosso passado
    De absurdos gloriosos
    Tudo que é gratuito e feio
    Tudo o que é normal
    Vamos cantar juntos
    O hino nacional
    A lágrima é verdadeira
    Vamos celebrar nossa saudade
    Comemorar a nossa solidão...

    Vamos festejar a inveja
    A intolerância
    A incompreensão
    Vamos festejar a violência
    E esquecer a nossa gente
    Que trabalhou honestamente
    A vida inteira
    E agora não tem mais
    Direito a nada...

    Vamos celebrar a aberração
    De toda a nossa falta
    De bom senso
    Nosso descaso por educação
    Vamos celebrar o horror
    De tudo isto
    Com festa, velório e caixão
    Tá tudo morto e enterrado agora
    Já que também podemos celebrar
    A estupidez de quem cantou
    Essa canção...

    Venha!
    Meu coração está com pressa
    Quando a esperança está dispersa
    Só a verdade me liberta
    Chega de maldade e ilusão
    Venha!
    O amor tem sempre a porta aberta
    E vem chegando a primavera
    Nosso futuro recomeça
    Venha!
    Que o que vem é Perfeição!...


    postado por camila baldon as 05:16:20 # 0 comentários
    sexta, 22 agosto, 2008
    uma dose de prosa...

    O ÚLTIMO CAPÍTULO-machado de assis

    HÁ ENTRE os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana mais.

    Pois apesar da excelência do costume, era meu propósito sair calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra última pudesse levar-me alguma complicação à eternidade. Mas um incidente de há pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um escrito, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e está
    aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo de autobiografia. E note-se que não dou o segundo escrito senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou ininteligível, sem algum comentário. Disponho ali que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumbi, alugado a um carpinteiro, seja o produto
    empregado em sapatos e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinário. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de há pouco, e o incidente liga-se à minha vida inteira.

    Chamo-me Matias Deodato de Castro e Melo, filho do sargento-mor Salvador Deodato de Castro e Melo e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos falecidos. Sou natural de Corumbá, Mato Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho, portanto, cinqüenta e um anos, hoje, 3 de março de 1871.

    Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Há uma locução proverbial, que eu literalmente realizei. Era em Corumbá; tinha sete para oito anos, embalava-me na rede, à hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu comigo no chão. Caí de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava ocasião de vir abaixo, aproveitou a comoção e caiu também. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito comigo. O Cônego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná conosco, soube do episódio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exatamente este absurdo de cair de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples início de cousas futuras.

    Não me demoro em outros reveses da infância e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além disso, mandei fora o rapaz que me serve, e ele pode vir mais cedo, e interromper-me a execução do projeto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miúdo alguns episódios doloridos, entre eles, o de umas cacetadas que apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas aplaudiram secretamente a ilusão. Também não falo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobríssimo, e minha mãe não lhe sobreviveu dois meses. O Cônego Brito, que acabava de sair eleito deputado, propôs então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veio comigo, com a idéia de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a ação constante do caiporismo.

    Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezesseis anos de idade. Um cônego da Capela Imperial lembrou-se de fazer-me entrar ali de sacristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Mato Grosso, e possuísse algumas letras latinas, não fui admitido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução. Tive até alguns auxílios, a princípio; faltando-me eles depois, lutei por mim mesmo; enfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma exceção na minha vida caipora, porque o diploma acadêmico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de flagelar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não atribuo nenhum influxo especial ao grau jurídico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.

    E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sozinha as algibeiras. Não, senhor; tinha ao lado dela umas outras, dez ou quinze, fruto de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viúva mais velha do que eu sete ou oito anos, mas ardente, lépida e abastada. Morava com um irmão cego, na Rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dous deles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estilo elegante da viúva, mas realmente para que vissem as finas cousas que ela me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viúva não esperava senão que eu concluísse os estudos. Um desses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabéns, acentuando a sua convicção com esta frase definitiva:

    - O teu casamento é um dogma.

    E, rindo, perguntou-me se, por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cinqüenta mil-réis; era para uma urgente precisão. Não tinha comigo os cinqüenta mil-réis; mas o dogma repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descansei em todo esse dia, até arranjar-lhos; fui levá-los eu mesmo, entusiasmado; ele recebeu-os, cheio de gratidão. Seis meses depois foi ele quem casou com a viúva.

    Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazê-lo; cheguei a vê-los, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hipotética; na realidade, não fiz nada. Eles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascensão da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viúva. "Deus, que me ouve (dizia uma delas); sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua..." E, no meu atordoamento, blasfemava comigo: - Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé dele, e por isso desmentiu a viúva; - nem outro dogma além do católico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cinqüenta mil-réis.

    Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi comigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se ele também. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os
    outros, a sucessão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, ano e meio, voltei à Corte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de ano: o Gonçalves.

    Este Gonçalves era o espírito menos jurídico, menos apto para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia à copa e ia palestrar com os criados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de compreensão, nos assuntos menos árduos ou menos complexos, com a facilidade de expor, e, o que não era pouco para um pobre-diabo batido da fortuna, com uma alegria quase sem intermitências. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham, matávamos as horas com excelente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era dele, ou falássemos de política, ou de mulheres, assunto que lhe era muito particular.

    Mas as demandas vieram vindo; entre elas uma questão de hipoteca. Tratava-se da casa de um empregado da alfândega, Temístocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negócio. O Temístocles ficou encantado comigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo próximo. Fui; namorei-me da filha dele, D. Rufina, moça de dezenove anos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meio morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casamo-nos poucos meses depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na igreja, entre as barbas rapadas e as suíças lustrosas, pareceu-me ver o
    carão sardônico e o olhar oblíquo do meu cruel adversário. Foi por isso que, no ato mesmo de proferir a fórmula sagrada e definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, enfim, balbuciei a medo o que o padre me ditava...

    Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e contanto que ela ma enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empresa. Rufina (permitam-me esta figuração cromática) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleópatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apatia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ela nenhuma glória, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do sonâmbulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ela, não; aceitou-me como aceitaria um sacristão, um magistrado, um general, um empregado público, um alferes, e não por impaciência de casar, mas por obediência à família, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ela queria usar também o seu. Nada mais antipático à minha própria natureza; mas estava casado.

    Felizmente - ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domésticas de Rufina davam-lhe muito mérito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janelas. Vivia consigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha "das francesas", como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervalo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a diferença é que, mandando-me Júpiter um cepo, não lhe pedi outro, porque viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse comigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a lógica e a constância do meu destino.

    Outro felizmente; e este não é só uma transição de frase. No fim de ano e meio, abotoou no horizonte uma esperança, e, a calcular pela comoção que me deu a notícia, uma esperança suprema e única. Era o desejado que chegava. Que desejado? Um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento régio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ébano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanelas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, pronto a bailar diante dele, como Davi diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou vazia em Jerusalém; o pequeno nasceu morto.

    Quem me consolou no malogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciência, disse-me; serei padrinho do que vier. E confortava-me, falava-me de outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O próprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.

    - E pensas que não? redargüi.

    Gonçalves sorriu; ele não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começara a converter-se à advocacia, já arrazoava autos, já minutava petições, já ia às audiências, tudo porque era preciso viver, dizia ele. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos dele, e das anedotas, que às vezes eram picantes demais. Eu, a princípio, repreendia-o em particular, mas acostumei-me a elas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que ele mesmo se foi refreando, e dali a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e ele, empalidecendo, respondeu que sim, e acrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensável casar também. Eu, à mesa, falei do assunto.

    - Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?

    - É caçoada dele, interrompeu vivamente o Gonçalves.

    Dei ao diabo a minha indiscrição, e não falei mais nisso; nem ele. Cinco meses depois... A transição é rápida; mas não há meio de a fazer longa. Cinco meses depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.

    Cousa singular: - em vida, a nossa divergência moral trazia a frouxidão dos vínculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina apareceu-me como a esposa que desce do Líbano, e a divergência foi substituída pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ela a vida, onde outrora ocupara tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio à má estrela; era levantar o edifício da fortuna em pura rocha indestrutível. Compreendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precário: as telhas caíam com o abalo das redes, as sobrepelizes recusavam-se aos sacristães, os juramentos das viúvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham trôpegas ou iam-se de mergulho; enfim, as crianças nasciam
    mortas. Mas a imagem de uma defunta era imortal. Com ela podia desafiar o olhar oblíquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes asas de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direção da noite e do silêncio...

    Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objetos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ela morreu, cinco meses antes. Achei uma multidão de cousas minúsculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cipriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio-dia! Urge acabar; o moleque pode vir, e adeus. Ninguém imagina como o tempo corre nas circunstâncias em que estou; os minutos voam como se fossem impérios, e, o que é importante nesta ocasião, as folhas de papel vão com eles.

    Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, anterior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente
    era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

    A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas.

    Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiais dirão que estou doudo, que o delírio do suicida define a cláusula do testador; mas eu falo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeção de que era melhor gastar comigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria único. Distribuindo-as, faço um certo número de venturosos. Eia, caiporas! que a minha última vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos! 
      
      

    (publicado no livro Histórias sem data)


    postado por camila baldon as 08:03:34 # 0 comentários
    sábado, 16 agosto, 2008
    canção da partida..

    Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia
    Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
    "Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
    A gente faz o que o coração dita
    Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão"
    Ai, se eu escutasse hoje não sofria
    Ai, esta saudade dentro do meu peito
    Ai, se ter saudade é ter algum defeito
    Eu pelo menos, mereço o direito
    De ter alguém com quem eu possa me confessar
    Ponha-se no meu lugar
    E veja como sofre um homem infeliz
    Que teve que desabafar
    Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
    Vejam que situação
    E vejam como sofre um pobre coração
    Pobre de quem acretida
    Na glória e no dinheiro para ser feliz

    Dorival Caymmi

    postado por camila baldon as 06:51:44 # 0 comentários
    domingo, 13 julho, 2008
    ...continua...


    TELA-ESCHER

    postado por camila baldon as 08:40:51 # 0 comentários
    ...


    tela-ESCHER

    postado por camila baldon as 08:37:37 # 0 comentários
    ,,,


    tela-Escher

    postado por camila baldon as 08:35:37 # 0 comentários
    quarta, 25 junho, 2008
    ...

    Bom era quando eu ficava muito tempo sem poemas.
    Poema é alma gritando.
    Alma em silêncio assovia.
    Poema é sangue derramado.
    Sangue fluindo é exercício físico.
    Poema é noite sem sono.
    Sono em paz é sexta-feira.


    Poema em primeira pessoa
    (ou como perder o sono noite adentro)

    Compreendo da vida tudo que não for silêncio.
    Abstraio, fujo de mim
    em passos bêbados e desencontrados.
    Armo um escândalo
    sumo
    p’ra retornar depois
    quando só restarem copos vazios.
    A alma soberba em desejos
    também deseja ser corpo e pecar.
    Mas não há luxúria no sono
    não há soneto na tarde
    que encharque vontade
    de não ser novamente sozinho.

    Adentro a janela cerrada
    os anos gentis de minha loucura
    no tempo que não havia tempo
    e seus bancos de praça
    tocavam canções à espera de mim.
    Divido a solidão do quarto
    com teu peso morno de adolescente febril,
    e a noite segue queimando cartas
    ( pedidos de desculpas indizíveis )
    do perdão que adormece sem pedir.

    Calo.
    ...
    ... ... ...
    ... ... ... ...
    E faço pausa nesta dança coxa
    neste rubro circo
    de alegorias impraticáveis
    e sorrisos frouxos dependurados em sua cara.
    Há fantasia neste minuto boêmio
    nesta poesia improvisada de quarto
    que deseja repousar sozinho
    onde você quer fazer companhia.

    Sinto a vida repetir seus tropeços
    e canso-me:
    - sou a preguiça de disfarças seus defeitos.
    Quer do mundo destilar a cobiça
    eu atenho a mim
    o fúnebre momento de arrastar piedoso
    sem lágrimas
    ou versos avulsos que ninguém entende.

    E mato-me.
    Uma última vez
    p’ra que não me encontre na vida
    que você insiste em negar.


    24-06-2008 01:00hs.

    por dell...soares


    postado por camila baldon as 08:30:41 # 1 comentários
    terça, 24 junho, 2008
    ah!!!as rosa não falam...

    Em dias como estes.

    Prefiro apagar a luz do dia...

    Esquecer que o sol brilha...

    Esquecer da cama vazia...

    Em dias como estes...

    Prefiro não pensar nos pássaros.

    Nem nas nuvens a bailar no céu...

    Prefiro não pensar... prefiro esquecer...........

    Em dias como estes...

    Viver a angustia do esquecimento...

    C.B


    postado por camila baldon as 07:28:26 # 0 comentários
    segunda, 23 junho, 2008
    :..:


    :...:

    postado por camila baldon as 06:52:15 # 0 comentários
    terça, 17 junho, 2008
    ....

    TRADUZIR-SE

    Ferreira Gullar

    Uma parte de mim
    é todo mundo:
    outra parte é ninguém:
    fundo sem fundo.
    Uma parte de mim
    é multidão:
    outra parte estranheza
    e solidão.
    Uma parte de mim
    pesa, pondera:
    outra parte
    delira.
     
    Uma parte de mim
    alomoça e janta:
    outra parte
    se espanta.
    Uma parte de mim
    é permanente:
    outra parte
    se sabe de repente.
     
    Uma parte de mim
    é só vertigem:
    outra parte,
    linguagem.
     
    Traduzir uma parte
    na outra parte
    _ que é uma questão
    de vida ou morte _
    será arte?

    Ferreira Gullar


    postado por camila baldon as 11:09:14 # 0 comentários
    segunda, 16 junho, 2008
    linha reta...para molhar a palavra...


    Teresa


    A primeira vez que vi Teresa
    Achei que ela tinha pernas estúpidas
    Achei também que a cara parecia uma perna
     

    Quando vi Teresa de novo
    Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
    (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
     

    Da terceira vez não vi mais nada
    Os céus se misturaram com a terra
    E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

    MANUEL BANDEIRA...

    TELA..NERY


    postado por camila baldon as 01:23:56 # 0 comentários
    segunda, 09 junho, 2008
    saudade

    Será mesmo irremediável a loucura do ser...

    Será mesmo fora do contexto, particípio, principio e fim.

    Serão tantos,

     Corações de barata... E se for mesmo assim?

    .

    O sorriso hábil, forçosamente ébrio, aniquilando qualquer justificativa aparente ou não aparente. Singularmente singular pluralmente plural, olhos tortuosos, quase oblíquos, perfumados pelo descer e subir de qualquer abano de puro lixo desconexo...

    Sorrisos sem sorrir...

    Uma crueldade intermolecular metricamente diluída num copo com gim e mel.

    Absolutamente decorrente coerente aos subtítulos inexistentes.

    Uma roda protegendo o fogo, a quase por completo vela derretida...

    Que reis teriam sido os tais donos de tantos trajetos e por completo aborrecimentos...

    Sorrisos e sorrisos... e formas..Uma espreguiçadeira no canto do quarto...perfeita conclusão de nada decorrente de nada ,que suavizavam  o cheiro podre,com poses de alguém que estava a fotografar..horas..minutos...segundos...milésimos...centésimos...décimos...unidades de tempo...não se ouvia um só som. E barulho maior não existia no momento...

    Era  à hora de escolher o copo, limpar o chão, cozinhar o jantar e servir como prato principal a própria cabeça.

    Carolina Belha....C....B


    postado por camila baldon as 11:23:48 # 0 comentários
    quarta, 04 junho, 2008
    poeira e jasmim


    tela-MATISSE

    postado por camila baldon as 11:09:43 # 0 comentários
    domingo, 01 junho, 2008
    gotas...pó...vapor...


    Impassível em mim,

    As gostas de orvalho que guardo

    dentro de uma caixinha de fósforos...

    O estupor inerente a boca do estômago.

    Por pontos que julgo não convir...

    Transversal convexa acompanhada por prelúdios, o mesmo estribilho...

    Por lapsos de cansaço que dentre as cores que colorem meus dedos,

    Aglutinam;

    Movimentam-se;

    Ressonam.

    tela-picasso


    postado por camila baldon as 02:42:03 # 1 comentários
    quarta, 28 maio, 2008



    Queria que as palavras tivessem som...

    Que elas tocassem música...

    Que eu pudesse enfim tocá-las

    Palavras... melodia........canção...poesia.................

    E que eu pudesse dizer em forma de balé... o que o meu eu insiste em esconder.......... 

    tela ..edgar degas


    postado por camila baldon as 05:45:37 # 1 comentários
    sexta, 16 maio, 2008
    por uma última canção....

    O azul cinéreo destes olhos...;

    pela madrugada ébria destilam framboesas e veneno...

    O azul límpido destes olhos,difundem,confudem...

    abstem-se ao mesmo color sem tom à perturbar-me...

    os azuis, a cólera, a vermelhidão...

    Continuada,paradoxal...

    Vermelhos,azuis,cobre....

    O azul desses olhos

    que não são azuis ....são castanhos....

    sintonizam ..emitem ...Carolina Belha


    postado por camila baldon as 04:59:26 # 0 comentários
    sábado, 03 maio, 2008
    canção para uma tarde de sol


    O que será que me dá
    Que me bole por dentro, será que me dá
    Que brota à flor da pele, será que me dá
    E que me sobe às faces e me faz corar
    E que me salta aos olhos a me atraiçoar
    E que me aperta o peito e me faz confessar
    O que não tem mais jeito de dissimular
    E que nem é direito ninguém recusar
    E que me faz mendigo, me faz suplicar
    O que não tem medida, nem nunca terá
    O que não tem remédio, nem nunca terá
    O que não tem receita

    O que será que será
    Que dá dentro da gente e que não devia
    Que desacata a gente, que é revelia
    Que é feito uma aguardente que não sacia
    Que é feito estar doente de uma folia
    Que nem dez mandamentos vão conciliar
    Nem todos os ungüentos vão aliviar
    Nem todos os quebrantos, toda alquimia
    Que nem todos os santos, será que será
    O que não tem descanso, nem nunca terá
    O que não tem cansaço, nem nunca terá
    O que não tem limite

    O que será que me dá
    Que me queima por dentro, será que me dá
    Que me perturba o sono, será que me dá
    Que todos os tremores me vêm agitar
    Que todos os ardores me vêm atiçar
    Que todos os suores me vêm encharcar
    Que todos os meus nervos estão a rogar
    Que todos os meus órgãos estão a clamar
    E uma aflição medonha me faz implorar
    O que não tem vergonha, nem nunca terá
    O que não tem governo, nem nunca terá
    O que não tem juízo


    O que será (À flor da pele)Chico Buarque...........tela....CEZZANNE

    postado por camila baldon as 03:59:54 # 0 comentários
    quinta, 01 maio, 2008
    prosa .............

    Linda, uma história horrível


    Caio Fernando Abreu

    Para Sergio Keuchguerian
    "Você nunca ouviu falar em maldição
    nunca viu um milagre
    nunca chorou sozinha num banheiro sujo
    nem nunca quis ver a face de Deus."
    (Cazuza: "Só as mães são felizes")


    Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro — agora, que cor? — e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.

    Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim — de fora, de dentro da casa —, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.

    — Tu não avisou que vinha — ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.

    Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.

    — A senhora não tem telefone — explicou. — Resolvi fazer uma surpresa.

    Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.

    — Sai, Linda — ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. — Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.

    — Que idade ela tem? — ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.

    — Sei lá, uns quinze. — A voz tão rouca. — Diz—que idade de cachorro a gente multiplica por sete.

    Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:

    — Uns noventa e cinco, então.

    Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:

    — O quê?

    — A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.

    Ela riu:
    — Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. — Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café?

    — Se não der trabalho — ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.

    As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar — enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria — ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.

    — Tá fresquinho — ela serviu o café. — Agora só consigo dormir depois de tomar café.

    —A senhora não devia. Café tira o sono.

    Ela sacudiu os ombros:

    — Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.

    A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.

    — Vá dormir — pediu. — É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.

    Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.

    — Que que foi? — perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.

    — Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.

    Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:

    — Me dá o fogo.

    Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:

    — Bonito, o isqueiro.

    — É francês.

    — Que é isso que tem dentro?

    — Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.

    Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.

    — Parece o mar — sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.

    Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.

    — Vim, mãe. Deu saudade.

    Riso rouco:

    — Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?

    Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:

    — Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.

    Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.

    — É sina — disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.

    — Já faz tempo, mãe. Esquece — ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?

    Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.

    — E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. — Bateu o cigarro. — E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?

    Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.

    — Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.

    Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.

    — Deixa eu te ver melhor — pediu.

    Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.

    — Tu estás mais magro — ela observou. Parecia preocupada. — Muito mais magro.

    — É o cabelo — ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias.

    — Perdeu cabelo, meu filho.

    — É a idade. Quase quarenta anos. — Apagou o cigarro. Tossiu. — E essa tosse de cachorro?

    — Cigarro, mãe. Poluição.

    Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão
    (*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.

    — Mas vai tudo bem?

    — Tudo, mãe.

    — Trabalho?

    Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:

    — Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.

    — Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme?

    A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:

    — Coitada. Mais esclerosada do que eu.

    — A senhora não está esclerosada.

    — Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? — Esperou um pouco, ele não disse nada. — A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.

    — A Cândida morreu, mãe.

    Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.

    — Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? — Abriu os olhos. — Quer comer alguma coisa, meu filho?

    — Comi no avião.

    Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.

    — Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? — Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. — Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. — Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. — Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?

    — A gente acostuma, mãe. Acaba gostando.

    — E o Beto? — ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.

    Se eu me debruçasse? — ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.

    — Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.

    Ela voltou a olhar o teto:

    — Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. — Apertou os olhos. — Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.

    — Casserole, mãe. La Casserole. — Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. — Foi boa aquela noite, não foi?

    — Foi — ela concordou. — Tão boa, parecia filme. — Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.

    — O Beto gostou da senhora. Gostou tanto — ele fechou os dedos. Assim fechados, passou—os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. — Ele disse que a senhora era muito chique.

    — Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. — Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. — Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? — Voltou a olhar dentro dos olhos dele. — Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo.

    — A gente não se vê faz algum tempo, mãe.

    Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias — os três, ele, a mãe e Linda.

    — E por quê?

    — Mãe — ele começou. A voz tremia. — Mãe, é tão difícil — repetiu. E não disse mais nada.

    Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e — como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo — disse:

    — Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.

    Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.

    — Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.

    Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô — rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.

    Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque.

    Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.

    — Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.


     Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Cia. das Letras, 1988.

    maravilhoso!!!!!!


    postado por camila baldon as 05:35:29 # 0 comentários
    quarta, 23 abril, 2008
    canta sabia..........canta ..........

    andaimes,,,,

    concreto ;;;;;;;;;;;;;;

    amores,versos....impreterivelmente......

    sangue espesso corroendo doce ,pelo meus dedos amarelos e de unhas feitas;;;

    paisagens ,,,,,

    passagem....

    viagens...............

    vertigem...


    postado por camila baldon as 05:31:46 # 1 comentários
    quarta, 02 abril, 2008
    só prosa.....

    Dante Milano


    Fuga do centauro


    Surpreendi-a numa gruta,
    O corpo fosforescente
    Como uma Santa! Porém,
    Rindo, quase com desdém,
    Do meu êxtase inocente,
    Toda nua e transparente,
    Sob o véu, numa impudente
    Postura de prostituta.

     

    Receoso, tentei fugir.
    Ela pegou-me das crinas,
    Em minhas costas montou
    E meus flancos esporeou.
    Quis domar-me com mãos finas.
    Ah, que tu não me dominas!
    Logo aflaram-me as narinas
    E comecei a nitrir...

     

    Fui beijá-la e dei dentadas.
    Havia sangue em seu gosto.
    Espanquei-a com carícias,
    Massacrei-a de delícias.
    Arrastei-lhe o corpo exposto,
    Nua, o gesto decomposto,
    E pus-lhe as patas no rosto.
    — Ela dava gargalhadas.

     

    Estatelada no chão
    Saía dela um calor
    De forno, que a consumia,
    Um hálito de agonia
    E de esquálido suor.
    E vendo-a perder a cor,
    Sentia nela o sabor
    De toda carne: extinção.

     

    Afinal me libertei
    Do seu espantoso abraço
    E larguei-a quase morta,
    Esvaída, a boca torta,
    As mãos hirtas, o olhar baço.
    Afastei-me, firme o passo,
    Respirando um novo espaço,
    Vitorioso como um rei.

     

    Ela ergueu-se e de mãos postas
    Pediu-me, ao ver-me partir,
    Que jamais a abandonasse.
    Tinha lágrimas na face.
    A princípio eu quis sorrir:
    Voltar, depois de fugir?
    E fugi, mas a nitrir,
    Com ela nas minhas costas...


    Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos


    postado por camila baldon as 03:24:59 # 0 comentários
    segunda, 31 março, 2008
    vento e prosa por favor!!!!!!

    O ex-mágico da Taberna Minhota

    Murilo Rubião


    Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
     porque eu sou desvalido e pobre.
    (Salmos. LXXXV, I)

    Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
     porque eu sou desvalido e pobre.
    (Salmos. LXXXV, I)


    Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.

    Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

    Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

    Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

    O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

    Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

    O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o conseqüente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a idéia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

    Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

    A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.

    O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.

    Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.

    Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

    Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.

    Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

    Situação cruciante.

    Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.


    Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.

    Também, à noite, em meio a um sono tranqüilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

    Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.


    Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.

    Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

    Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.

    — O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.

    Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:

    — Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.

    Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.

    Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.

    O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.

    Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um pára-quedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.

    Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.

    Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.

    Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.


    Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.

    Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.


    1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

    Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

    Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

    O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou -me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

    O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

    Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

    1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

    Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

    Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

    Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

    Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

    Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

    Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

    Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

    Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


    O texto acima foi extraído do livro "O pirotécnico Zacarias e outros contos", Editora Companhia das Letras —


    postado por camila baldon as 02:38:48 # 0 comentários
    segunda, 10 março, 2008
    ...

    "Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
    y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
    Parece que los ojos se te hubieran volado
    y parece que un beso te cerrara la boca.
    Como todas las cosas están llenas de mi alma
    emerges de las cosas, llena del alma mía.
    Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
    y te pareces a la palabra melancolía;
    Me gustas cuando callas y estás como distante.
    Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
    Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
    déjame que me calle con el silencio tuyo.
    Déjame que te hable también con tu silencio
    claro como una lámpara, simple como un anillo.
    Eres como la noche, callada y constelada.
    Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
    Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
    Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
    Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
    Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto."

    pablo neruda

    postado por camila baldon as 04:40:20 # 0 comentários
    domingo, 24 fevereiro, 2008
    ........

    ANÁLISE

    Tão abstrata é a idéia do teu ser
    Que me vem de te olhar, que, ao entreter
    Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
    E nada fica em meu olhar, e dista
    Teu corpo do meu ver tão longemente,
    E a idéia do teu ser fica tão rente
    Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
    Sabendo que tu és, que, só por ter-me
    Consciente de ti, nem a mim sinto.
    E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
    A ilusão da sensação, e sonho,
    Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
    Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
    Do interior crepúsculo tristonho
    Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

                  Fernando Pessoa, 12-1911


    postado por camila baldon as 05:48:09 # 0 comentários
    segunda, 04 fevereiro, 2008
    prosa ...cerveja ....carnaval....

    A noite foi feita

     Para dormir?

    Ou  o dormir foi,

    Feito para noite?

    Lembro-me como se fosse

    Ontem,

    Era um fim de tarde de

     Um sábado chuvoso

    O caos viário tomava conta

    Da avenida amazonas...

    Era a primeira bienal do automóvel... em Belo Horizonte ....

    Bienal do automóvel,

    Ou bienal do fim do mundo?

    De alguns de meus

    grandes amores...

    Sinto muito

    muita pena

    deles

    Do matar de minha fome

    Do saciar de meu prazer

    Do aquecer do meu frio

    Até mesmo de meus trintas centavos

    .....Como eu te amo

    Caixinha de fósforos...

    autor...nada a declarar....

    tela-van gogh


    postado por camila baldon as 07:13:52 # 0 comentários
    domingo, 27 janeiro, 2008
    passar o tempo .!!!!...com ferro e vapor???


    Carlos Drummond de Andrade


    (...) Pois de tudo fica um pouco.
    Fica um pouco de teu queixo
    no queixo de tua filha.
    De teu áspero silêncio
    um pouco ficou, um pouco
    nos muros zangados,
    nas folhas, mudas, que sobem.

    Ficou um pouco de tudo
    no pires de porcelana,
    dragão partido, flor branca,
    ficou um pouco
    de ruga na vossa testa,
    retrato.

    (...) E de tudo fica um pouco.
    Oh abre os vidros de loção
    e abafa
    o insuportável mau cheiro da memória.

    (Resíduo)

    tela - Juarez Machado


    postado por camila baldon as 12:26:33 # 0 comentários
    domingo, 13 janeiro, 2008
    ,,,,,,,,,

    Meio sozinho demais...

    Sento-me só e sinto-me solto.
    O copo cheio
    e o cinzeiro transbordando a nostalgia do que ficou por acontecer.
    Na lareira,
    vejo queimar lembranças e fotos
    do passado que repete instintivamente à minha contradição,
    contra-senso
    contra tudo que não me deixa adormecer.
    Aspiro esta alma gélida
    num sopro de vida que me deixa mais próximo do coma.

    E numa esquina qualquer,
    - no mesmo pesadelo onde você habita -
    atravesso apressado
    pela calçada que sempre leva a lugar nenhum.
    E chego tarde
    por que a tristeza causou novo estrago
    neste velho coração chutado.

    Refaço uma vida toda nestas últimas linhas que me sobraram.

    E danço pelas vielas
    sombrias e abandonadas
    da cidade que não quis meu nome
    não quis meu timbre
    não quis minhas mais perversas orgias
    - evangélicas e abstratas –
    Por que o que o mundo não precisa agora é de outro poeta.

    Sirva-me outra dose
    do mesmo e sempre veneno que se não acalma
    desarticula estas opiniões fugidias
    estas sextas-feiras de solidão e rum
    numa canção de amor que a rádio não toca.

    E se meu conceito de perder
    for algo além do fiasco que promete não ser esquecido,
    eu me abstenho da sorte
    da luta
    da morte
    que assovia em meus ouvidos
    a música de ninar corações solitários.

    Quer dos narcisos
    retirar beleza pra contar nossas histórias?
    Quer do caminho
    Subtrair a madrugada para vermos juntos o pôr-do-sol?
    Quer do impasse
    Continuar o mesmo rito dos canalhas que sempre terminam sozinho?
    Quer da distância
    fazer acontecer a dança dos ursos que todo escritor busca?

    Então fuja comigo.
    Talvez você ainda tenha alguma chance quando tudo isto terminar.

    Eu estou em minha contagem regressiva.

    obrigadA ...DELL BLOOMM...PRINCIPALMENTE PELA BOA COMPANHIA...


    postado por camila baldon as 08:28:17 # 1 comentários
    quinta, 27 dezembro, 2007
    perfeito estado contrário em aberto ...

    Contradigo,

    O sim e o não...

    Amor e paixão...

    Desespero e razão...

    Com tantas rimas, tils...

    Estou na verdade cansado desta grande , irremediavelmente, ignóbil contradição...

    E tenho dito;

     ..ou não ????


    postado por camila baldon as 02:04:16 # 2 comentários
    natal

    Um cavalo e seu cavaleiro

    num poste de luz...

    Apenas o acaso.

    Corações de barata...

    O rock´n´roll no portão...

    No meu discurso apenas o não sei...

    FAKE PLASTIC...

    Corações de barata, o céu azul e laranja...

    E o nome do meu amor fora da pauta.

     

     


    postado por camila baldon as 02:01:25 # 0 comentários
    segunda, 24 dezembro, 2007
    débora


    eis tudo... e fim

    postado por camila baldon as 07:42:37 # 0 comentários
    tons

    "Ocasião

    Eu já te disse: não existe calma
    Quando não se pode fazer algo
    É quando tudo ataca você.

    Raspei meus cabelos e fui direto ao fim
    O fogo é apenas ilusão de inferno
    Ouço passos e nem tem mais sombra,

    Virou-se pra mim e não disse mais nada
    Agüentei tudo que acabou e nem começou
    Somos filhos de quem nos odeia tanto?

    Veio-me uma dor cinza que tenho desde menino
    Lá fora o tempo é da cor dos meus olhos
    Sempre tive vontade de não estar aqui,

    Odeio saber que o sol trouxe o amanhã
    Às vezes parece que o dia foi eterno
    Mesmo sabendo que sempre vivemos pela metade."

    Poema de Fernando Luís


    postado por camila baldon as 12:05:17 # 1 comentários
    domingo, 23 dezembro, 2007
    Volando vengo, volando voy...................Deprisa deprisa a rumbo perdido........

    E quando chegar a noite...

    E ver sorrir as marcas do tempo... ver sorrir um sorriso triste...

    E quando chegar o dia... verás que nada foi sonho......

    Verá que nem o tempo passou tão rápido...

    .e tão rápido foi o tempo...

    Verá o que verá no espelho... e o talvez .......


    postado por camila baldon as 01:32:02 # 0 comentários
    Solo voy con mi pena.............Correr es mi destino


    "A  intensidade do mundo ."

     

     

    Não sei o que dizer.......não sei ,não sei,,,,,sei não .............

     


    postado por camila baldon as 01:20:17 # 0 comentários
    sábado, 22 dezembro, 2007
    conversa de bar

    o rato-Senti saudades de um tempo.

    o gato-O futuro que agora é passado.

    o rato-Senti saudades...

    o gato-Do cheiro gostoso de menta...Pecado...E ausência.

    o rato-A velha cortina de renda Porém, estava ali...O  novo velho retrato.

    o rato-Sorrindo pra mim...

    o gato-E quem sorria?

     o rato-Eu mesmo nem me lembro mais.

    o rato-Não consigo lembra-me da tristeza, que na verdade nunca existiu...Nem da alegria constante, que também não estava ali...

    o rato-O sentimento que existia era uma coisa presente...Sem o presente...Uma alegria assim à-toa, descontraída, e exatamente do jeito que tinha que ser...

    o gato-Eu permaneço do mesmo jeito que antes.Talvez alguma mudança ínfima por dentro.Uma coisa qualquer, que ainda não percebi a grande transformação ou diferença perceptível...

    o rato-Continuo levando o mesmo sorriso no rosto...Bem que alguns ainda me confundem dizendo qualquer coisa sobre a cor dos meus cabelos ou algo do tipo...Continuo apreciando uma boa cachaça, nos bares, nas ruas estreitas de Santa Tereza por onde vou indo.

    o gato.-Cantando...Bebendo...Fumando...Toda a desgraça dilacerante que está em todos os lados.Vou feliz.Apesar da velha tristeza me fazer bem...E me fazer assim...

    o rato.-Primeiro dia de verão.Dias de chuva... onde estou e onde sempre estive...Só me bateu está certa saudade, das 78 coisas que quero ao mesmo tempo e o tédio que me acomete sempre quando acaba a festa e quando vejo como são corriqueiros todos que me rodeiam.Como são sempre os mesmos... Com as mesmas fotos, mesmos sonhos e tudo igual...Sinto-me um idiota completo quando acho que me vejo assim...Tipo zumbi assombrando as ruas na noite.

    o gato-Porém, eles sempre sorriem pra mim... Os olhares e a curiosidade.Por eu ser assim...camaleão,às vezes tigre, elefante, leão , por eu ser o charme em pessoa que não vale nem um tostão.

    o rato-Sucederam apenas alguns minutos ou tantos?

    Enfim...

     o gato-Ainda nem é domingo...E nem natal...Ainda faz sol.E chove muito no meu quintal.


    postado por camila baldon as 02:46:17 # 0 comentários
    e o pulso..........

    O pulso ainda pulsa
    O pulso ainda pulsa...

    Peste bubônica
    Câncer, pneumonia
    Raiva, rubéola
    Tuberculose e anemia
    Rancor, cisticircose
    Caxumba, difteria
    Encefalite, faringite
    Gripe e leucemia...

    E o pulso ainda pulsa
    E o pulso ainda pulsa

    Hepatite, escarlatina
    Estupidez, paralisia
    Toxoplasmose, sarampo
    Esquizofrenia
    Úlcera, trombose
    Coqueluche, hipocondria
    Sífilis, ciúmes
    Asma, cleptomania...

    E o corpo ainda é pouco
    E o corpo ainda é pouco
    Assim...

    Reumatismo, raquitismo
    Cistite, disritmia
    Hérnia, pediculose
    Tétano, hipocrisia
    Brucelose, febre tifóide
    Arteriosclerose, miopia
    Catapora, culpa, cárie
    Câimba, lepra, afasia...

    O pulso ainda pulsa
    E o corpo ainda é pouco
    Ainda pulsa
    Ainda é pouco
    Assim...

    rock velho titãs




    postado por camila baldon as 12:46:25 # 0 comentários
    quinta, 20 dezembro, 2007
    ...

    Estou Cansado   Estou cansado, é claro, 
       Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
       De que estou cansado, não sei: 
       De nada me serviria sabê-lo, 
       Pois o cansaço fica na mesma. 
       A ferida dói como dói 
       E não em função da causa que a produziu. 
       Sim, estou cansado, 
       E um pouco sorridente 
       De o cansaço ser só isto — 
       Uma vontade de sono no corpo, 
       Um desejo de não pensar na alma, 
       E por cima de tudo uma transparência lúcida 
       Do entendimento retrospectivo... 
       E a luxúria única de não ter já esperanças? 
       Sou inteligente; eis tudo. 
       Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
       E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
       Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *obrigada, Pessoa...

    postado por camila baldon as 06:43:02 # 0 comentários
     
    Ilumino-me de imenso Hoje mordo como uma criança a teta o espaço Hoje estou bêbado de universo....
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    homenagem ao malandro, por chico buarque de hollanda ,dicionário abstrato sobre o vento
    SOBRE AMOR E GATOS
    artigo comentado e coletado sobre a obra e vida do grande mestre maestro ...
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    Eu sou o medo da lucidez Choveu na palavra onde eu estava. Eu via a natureza como quem a veste. Eu me fechava com espumas.

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