Do Lixo ao Luxo
Do Lixo ao Luxo

quarta, 08 março, 2006
ENTRE SONS

Você tem um cigarro?

Tenho uma alma e um cigarro.

Você poderia me dar os dois?

A alma e o cigarro?

Sim, a alma e o cigarro.

Mas ficarei sem alma?

E sem cigarros, provavelmente.

E o que você fará com eles?

Bem... a alma eu fumarei.

Fumará minha alma?

Sim. Por uma eternidade, apenas.

E o cigarro?

O cigarro se diluí. Ou queima e acaba.

Como eu.

Como você.

Como nós.

Cigarros. Que fumamos.

E almas. Que nos roubam.



postado por Maysa Trash & Bitch as 11:51:02 6 comentários
terça, 28 fevereiro, 2006
PARA UM BURGUÊS SEM SARJETA

Deixe-me dançar, desaparece daqui! Como se não bastasse um delete também bloqueei você da minha vida! Case-se com ela - ela que tem cara de top model que não deu certo - Vire sim funcinário público, barrigudo, careca e cheirando a cerveja, tenha vários filhinhos malcriados e drogados, compre sua casa na beira da praia e passe o resto da vida lavando a louça para sua mulher com rabo de passarela. Desaparece, desintegra, some! Deixe-me dançar em paz. E morra também! Tentamos ir com calma mas perdemos o controle. Tentamos fazer dar certo mas sempre dá errado. Eu que fui a louca por tentar ser a dulcinéia de um dom quixote. Acho que estou enlouquecendo... Mas loucura e dor não matam ninguém, infelizmente. Garoto, era tudo um sonho. Nos divertimos e sonhamos juntos. Queria aquelas coisas legais que um casal faz quando está apaixonado. Sim, queria... Agora me deixa dançar, porra! Seus amigos são tudo para você? Vá para cama com eles! Você não deu tempo ao tempo. Eu sinto a sua falta, eu sinto sim. Mas eu tenho a música. Descobri que você é um babaca e dei o fora. Simples assim. Antes que tudo saia mais ainda do controle, sem flores doces ou palavras perfumadas. Você nunca entendeu nada. Por que sempre eu que tenho que provar? Vá crescer, garoto, e se torne homezinho feito primeiro, antes de amar uma mulher. Como você pode rotular as coisas? Eu não sou a Coca-cola nem a vodka barata que você bebe. É por isso que você não acredita e mim. Porque você não é de confiança. E fica fazendo esse drama. O amor é guitarra afinada. Mas o seu som é tosco. Os tolos nunca poderão realmente amar. Você grita, eu grito, todos gritam! Você está me atrapalhando... dá licença? As pessoas estão olhando pra nós e pensando "que inferno", "que inferno está ocorrendo?" Muitas discussões surdas e mudas. Garoto, nosso amor morreu. E estou aqui velando nessa pista. Nunca serei o suficiente pra nós. Mas eu também mereço o melhor, talvez por isso fiz o pior por você. E na semana que vem, eu ouvirei aqueles gritos esquecidos! Garoto, seja abduzido por ets e adeus. As coisas eram diferentes. Não, na verdade nunca foram. As coisas eram verdadeiras. Não, não eram. As coisas eram intensas. Não, não eram. Eram a mesma droga de sempre. Adeus. Fins são começos. Agora vai morrer em paz e me deixa dançar até amanhecer e acordar nos braços de um outro desconhecido!



postado por Maysa Trash & Bitch as 07:18:01 2 comentários
segunda, 27 fevereiro, 2006
ESCUROS ACESOS

não não não precisa me dizer quem é você e nem de onde vem e para onde vai porque sinceramente não quero saber e nem perderei resto algum do meu tempo questionando o sabor da curiosidade sobre você e para você ou para mim mesma ou a qualquer outro já que a noite traz e leva as pessoas que na própria noite vivem e morrem e nada me fará mudar a idéia de que você é apenas mais um que vem nas estrelas baixas e aporta na porta diante de mim aqui e agora nessa pista de dança impreganada de nada e de tudo sem qualquer intenção de permanecer ancarado pois âncoras são para navios e nós possuímos asas que flanam e pousam e alçam infinitos vôos das mais longas idas e vindas da mesma forma que você me toca e me penetra e me sorri e me ejacula e me finge desinteressada na noite doce e amarga em que todos são atraentes e belos quando cobertos pelo capuz negro da cegueira desejante e até você com esse casaco escuro e cabelo espetado e manoplas de jardineiro e grandes pés de caubói e boca de carne e seda me sorvendo longe com o olhar que morde e esse corpo que expulso feito demônio de muitos pintos eretos quase tão próximos quanto as demais centenas de pessoas repletas de mãos e pernas que disputam o mesmo espaço comigo e com você e com eles que nem sabem ao certo quem são e de onde vêm e para onde vão mas francamente também não me interessa muito mais que alguns minutos eternos próximos de você com esse seu cheiro de homem e perfume de mulher então responda e diga sim claro pelo amor de deus imploro pra saber quem você é de onde vem e para onde vai e o quê fará comigo e sim sim sim



postado por Maysa Trash & Bitch as 11:23:38 3 comentários
quinta, 23 fevereiro, 2006
AQUILO QUE SE PENSA QUANDO SE DANÇA

Será quem dança ao meu lado? Será aquilo que se desmorona para construir? Será o que se guarda a vida toda para a morte levar? Será que ainda dá pra esperar? Será a última gota? Será o embrulho do presente? Será coisa de gente? Será qualquer coisa que valha ser? Será que um dia? Ou uma noite? Será uma farsa? Será no último ato? Será uma fatia, um pedaço?  Será o passo das pernas bailarinas? Será o olhar perdido na multidão dançante? Será a penumbra do banheiro? Será o dia arrastado e a noite arredia? Será quando descem as cortinas? Será Deus acima de tudo? Será o diabo abaixo de tudo? Será o homem entre tudo? Será a droga estragada? Será a boca quente na língua áspera? Será a flor que o inverno esturricou? Será a luz que perfura a cruz? Será o rosnar embravecido do bicho? Será a epígrafe? Será o canto gregoriano? Será o berro estridente? Será cavalo dos troianos? Será o lago trincado da caatinga? Será o perfume da restinga? A espécie humana extinta? Será a chuva sem tom e sem tinta? Será o vento que devasta enfurecido? Será a dor de ter sido partido? Será o grito do parto? Será que um dia parto? Será o remédio que cura a dor? Será a asa do vôo libertador? Será a palavra riscada no muro? Ou será o muro rachado pelo tempo? Será a cidade e suas ruas? Será a noite vazia da madrugada fria? Serão os olhos arrancados de Santa Luzia? Será o computador? Ou será o santo no andor? Será o dedo desfalcado? Será o bilhete garranchado? Será o amor estrangulado? Será o sonho bem sonhado? Será uma clave de sol? Será o manual de instrução? Será o corpo caído no chão? Será o trampolim? Será a missa rezada em latim? Será o sorriso da estátua? Será a fome da areia movediça? Será o mastigar da planta carnívora? Será o serafim? Será que seremos? Será saravá? Será o arroto do lobisomem? Será a parede gelada? Será o porão? Ou o sótão? Será a porta trancada e a janela trancadas? Será o ar condicionado? Será o filme da minha mente tórrida? Será o disco sem regravação? Será o norte e o sul? Será a tesoura sem ponta? Será a rebordosa de amanhã? Será o nó que enxerga? Será o jardim que murchou? Será a cor que desbotou? Será que será? Será que é mas nunca foi? Será que ainda será? Ou será que é? Será que estava sendo? Será que ainda pode ser? Será a música? Será o dj? Será o refletor? Ou nada nem nunca será? Vai ver que sim. Vai ver que não. Será?



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sábado, 11 fevereiro, 2006
NOTURNO

A noite era o seu útero mais quente. Seu berçário profuso. Revestida pela placenta de delíros. O cordão umbilical rompido com os vestígios de fora. Inferno de chamas celestes. O grande paraíso da rajada de ritmos. A partir do momento em que a porta escura e pesada se abria, desvendava-se diante dela o mundo da fantasia nebulosa. Pessoas sem rostos. Vultos dançantes. Na Gomorra de ferro e cimento, a vibração estremecia os fantasmas vivos de cada um. Festim secreto compartilhado com a multidão. Em cada olhar, um mundo inteiro de procuras. Em cada passo, um infinito de descobertas. Músicas e luzes que perfuravam as almas livres. Uma liberdade com asas de cores e sons. Uma euforia prodômica. Braços e pernas como tentáculos da orgia dionisíaca. Móveis fantoches eletrônicos. Intestinos, pâncreas e fígados pulsando no embalo cardíaco da alegria. Doce jardim das delícias das línguas e mãos. A eternidade do momento era o instante mais fugaz. Sua vida toda, naquele momento e naquele lugar, girava na órbita plena e absoluta da satisfação inenarrável. Suores trocando suares. Tudo valia pena se a música não era pequena. Os pequenos diabos internos escorriam para o ralo da sua lixiera mental. Livre. Feliz. Bonita. Salivas se unindo a salivas. Nada nem ninguém poderia furtar a sensação de doçura de ser que lhe era. Ou que estava sendo. Coisa nenhuma enfureceria seu plácido furacão. Devastadoramente devasso. Poluída de pureza. Em hipótese alguma conseguiriam roubar-lhe a glória da festa por dentro e por fora da sua pele. Jamais. Nunca. De jeito algum. A noite era a sua cascata de abrilhamento das cores e das formas. Até que a hora chegasse, a música parasse e as luzes acendessem. E ela pisasse em terra firme, aportando novamente no velho mundo real.     



postado por Maysa Trash & Bitch as 03:46:43 3 comentários
quarta, 08 fevereiro, 2006
COISAS QUE DEVEMOS SUSSURRAR

Só ela chorava, enquanto o mundo dançava. Só ela queria agarrar os ponteiros e parar o tempo enquanto eles viviam o momento. Só ela queria aquele abraço noturno enquanto todos se esparramavam em solidão. Só ela queria o silêncio das confissões enquanto todos alardeavam uma canção. Só ela sentia as coxas umidecidas enquanto todos tinham a plena secura física. Só ela se misturava na névoa enquanto todos dissipavam a fumaça. Só ela tinha na alma um álbum de lembranças enquanto eles perderam o passado. Só ela escondia no bolso os orgasmos reais enquanto todos gozavam falsos. Só ela tocava sua vulva enquanto todos tateavam o nada. Só ela buscava o canto oculto enquanto eles iam para o centro da pista. Só ela queria o escuro do seu beijo enquanto todos buscavam as luzes do sorriso. Só ela havia tentado escrever uma carta enquanto todos picotaram os papéis. Só ela queria devolta o seu próprio pedaço enquanto todos ofereciam suas carnes. Só ela vomitava o negrume enquanto todos engoliam o colorido. Só ela buscava nadar nas lágrimas das íris enquanto todos fechavam as pálpebras. Só ela queria voar, enuanto eles se enraizavam. Só ela sonhava com rosas de verdade enquanto todos gostavam do paraíso artificial. Só ela chamava a morte enquanto todos cantavam a eternidade. Só ela sabia enquanto todos ignoravam. Só ela doía enquanto todos formigavam. Só ela dormiria única enquanto eles amanheceriam juntos. Só ela acordaria, e eles seriam sono. Só ela. Apenas ela. E alguém muito, muito distante. Porém próximo.  



postado por Maysa Trash & Bitch as 03:23:42 1 comentários
domingo, 05 fevereiro, 2006
WWW.OUTRA-GALÁXIA.COM

A respeito do caráter científico da minha missão realizada no planeta Terra, tenho muito mais discordâncias a ressaltar do que concordâncias com o erudito resultado do trabalho apresentado pela minha destinada pesquisa de campo. Tratarei de colocar, com minhas próprias palavras quais são estes pontos de discordância. A preocupação maior, que compactuo plenamente, é com o relacionamento entre as relações físico-emocionais dos terráqueos, relacionadas à atividade científica de acordo com políticas de desenvolvimento determinadas e as condições de desenvolvimento que a própria atividade carnal deles possui. A resposta que parece implícita à minha observação é que os terráqueos utilizam métodos de envolvimento não destinados somente a procriação, mas também para o bel prazer e até como veículo monetário. Possuem membros genitais. As mulheres são dotadas de vaginas e os homens de pênis, coloquialmente conhecidos como “boceta” e “pau”. Cada item relacionado se enquadra um ao outro, como um encaixe. Mas há terráqueos que os usam de formas desiguais, popularmente chamando de “boceta” com “boceta” e “pau” com “pau” ou com orifícios de anéis rugosos chamados de “ânus” ou simplesmente “cu”. Uma prática um tanto estranho e bizarra, e que não condiz moralmente com os paradigmas sociais usuais do meio. No entanto, senhores, sou obrigado a confessar, na realização do experimento, que tal ritual causa uma transtorno comportamental interessante e vicioso. Inexplicável. Peço, portanto, que prorroguem minha estadia nessa planeta maravilhoso de luzes que vaginas que piscam e paus que vibram, para que o objetivo da minha pesquisa progrida mais na prática do que no reles conforme teórico. Dar o cu é bom e vital, prezados chefes. Mesmo para um E.T. como eu. Torno-me membros de uma política científica que, mesmo não entendendo com afinco as condições próprias e essenciais ao ritmo humano, dá-me certa alegria de viver. Algumas destas condições são internas aos diferentes campos científicos: é impossível pesquisar na fronteira da física do ser sem se envolver ou tratar de obter uma aproximação maior com o objeto estudado. Intitulam aqui de “bicha” e “viadinho”, aos seres de sexo masculino que praticam tal pederastia, e de “sapatão” aos femininos sodômicos. É isso, digníssimos. E caso não atendam meu pedido de perpetuar minha fabulosa estadia na Terra, sinto lhes informar que estou providenciando minha fixa residência por aqui. Obrigado por tudo e mandem lembranças a papai  mamãe e a todos do meu antigo planeta de origem. Gozar é visitar outro palenta sem sair do lugar. Aqui se trata de unir todas estas coisas em mais de um modelo próprio, chamado por eles de modelo de “interação” – jamais voltarei a foder telepaticamente, como vocês - e este é sem dúvida um propósito louvável, na medida em que aumenta a noção da grande complexidade da atividade científica dos corpos que se atraem e evita a adoção simplista de visões unilaterais. Beijos. E.T.



postado por Maysa Trash & Bitch as 05:44:42 2 comentários
quinta, 02 fevereiro, 2006
CORAÇÕES E FLORES

Quando o grande amor da sua vida arrasta você para o canto mais escuro de uma boate e a domina em estado braçal, beijando com fúria, as mãos tateando impiedosas, dentes mordendo os lábios e língua perfurando a boca. Quando o grande amor da sua vida não se importa com os seus gritos e pedidos para parar e ignora a sua tentativa de fugir, obrigando você a se dobrar em direção ao seu pênis rijo e chupar com os olhos embotados e pede - pede não, ordena - que você levante a saia e ele enfia na sua carne trêmula a máquina de mover o mundo, forçando o vai-e-vém abrupto de quem se mata com o próprio veneno e você fecha os olhos para que os minutos passem ou tenta se fixar nos desenhos dos corações e flores rabiscados no corredor manchado e de repente não escuta mais a música alta e desiste que alguém - um dos vultos - a socorra. Quando o amor da sua vida finalmente gozar num urro bravio e abandonar você mergulhada no lodo da alma, encostada na parede fria e alisando o são sujo de rastros, deixando dentro da fornalha do seu inferno a semene celestial, e cospe para o lado e fecha o zíper e sai, arrumando a calça, como quem simpesmente mijou, esquecendo você no canto qualquer da boate escura. O que você vai fazer? Saltar da janela mais alta? Lavar-se na pia? Chorar escondida? Tomar um porre? Ingerir comprimidos? Comprar uma arma? Mas não. Você vai continuar a viver todos os dias, comuns. Não vai fazer nada porque você mal consegue se levantar. Porque terá que se olhar no espelho todos os dias, mesmo tendo sido violada na sua santidade mais plena. O seu amor ferido pelo seu amor. E você nunca mais esquecerá as flores e os corações desenhados que lhe sorriam. E vai tratar de curar a ferida. Juntar seus cacos esparramados. Apanhar sua bolsa e os sapatos. Porque é o que resta de você e do amor da sua vida. Porque é o seu amor. O único que você tem. E porque é a sua vida. A única que você possui.   



postado por Maysa Trash & Bitch as 12:46:08 3 comentários
quarta, 01 fevereiro, 2006
O QUE OS OLHOS FAREJAM

De repente, no meio do nada, viu. No centro da pista. Era tudo o que havia esperado durante toda a vida e até depois da morte. Um sonho em matéria. Anjo excomungado. Lá estava. E o seu membro intumescido, afirmativo, de imediato se manifestou, tentáculo do desejo. Ponteiro do corpo. Seu pau grosso e de veias arroxeadas tentou a doce libertação, delineando suas curvas na calça jeans apertada que sufocava sua existência. No redemoinho de corpos dançantes, perdeu de vista a sua presa. E saiu em busca. Uma rodela úmida se formava ainda na cueca amarela. Correu atrás do seu delírio. No labirinto de pessoas. A fera em sua sanha predadora. Perfurando a névoa de pedra. Unhas e dentes afiados para o alvo. A arrogância das garras. Mil tambores no coração tamborilante. O gozo melado escorrendo nas coxas por baixo do tecido. Não poderia perder de vista. Na inércia dos movimentos, ele corria. Enjaulado em desespero. Procurando entre. Parado. Em busca de. Imóvel em seu sufoco físico. Corria. Sem sair do lugar. Mas corria.



postado por Maysa Trash & Bitch as 12:25:58 1 comentários
terça, 31 janeiro, 2006
O CUME

Assim, o abismo. O abismo. Sob e sobre. Era a primeira vez que, enquanto dançava, o chão se rompeu abaixo dos seus pés e uma rachadura singular a afastou de tudo, do outro lado da pista, das pessoas, do seu próprio centro, rasgando um vazio negro entre ela e ela mesma. O ritmo acelerado do som também rasgava sua alma, desgarrando-a da sua pele como aquela fenda fria e larga que crescia diante de si. Estava na beira do abismo. Dançando. Pronta para estender os braços e se lançar no mergulho àquela vagina aberta. Da ponta do precipício que parecia espreitá-la com olhos gigantes para seu túnel acolhedor. O buraco era uma grande garganta aberta esperando para abocanhá-la. E ela se entregava ao ritmo elétrico dos acordes. Na extremidade do penhasco. Sem medo. Sem terror. Sem questionar. Porque tudo nela parecia estar à beira. Sempre. Tudo era um risco. Abismos dos seus vazios. Por isso ela dançada, enfrentando o absoluto. Farta da opulência terrena. Dona do mundo. Invadindo os domínios secretos. Na beirada das suas fronteiras. Limítrofe. Ela e o abismo. O buraco que um dia a devoraria como quem a espera de pau rijo e apontado pronto para foder como o grande amante. Dilacerar seu interno. Seu maior amor. Assim, o abismo.



postado por Maysa Trash & Bitch as 01:30:54 1 comentários
segunda, 30 janeiro, 2006
ÊXTASE EXTINTO

Ela faz de conta que é tudo mentira. Ou verdade. Quem sabe. Um falso real se realiza falsamente. Porque a sua verdade é a mentira concreta das ilusões. Recheada de luzes, música, cabelos, corpos, rostos, perfumes. Borrões humanos de cores mortas que se misturam ao escuro vivo. A pista de dança é um mundo completo. Sua órbita. Ela sabe que a realidade é uma ilusão bem alimentanda, cheia de leite materno do sonho, rechonchuda de vontades famintas. Ao seu redor, pulsam as carnes estranhas. Sua própria carne vulcaniza. Por diversas, diversas vezes, ela sente o súbito. O súbito é um suspiro de dentro. Primeiro devagar, vagarosamente, como tentáculos de um estranho ser, uma misteriosa tarântula da noite, com a pelagem nervosa e ouriçada que se arrasta sonolenta do chào às suas pernas. Sapato. Meia. Pele. O desejo nu e oculto. Até se abrigar, a coisa monstruosa, em baixo da saia, uma toca segura. O animal tateia o melhor canto para suas teias. Então, no arrepio da sua trilha, aloja-se na caverna de paredes tenras, entre as coxas, o abrigo quente de pêlos úmidos. Vulvas que aplaudem. A caverna do negrume sigiloso. Molhada. Dois rochedos macios querendo sorrir. Cova que fareja a vida em plena sucção. Dentro dela, o animal entra, desbravador. E lá, quando o aranhoso ser começa a cavar silencioso e sedento entre o túnel que rumo às profundezas uterinas, ela geme. Umidecida. Ela grita. Altiva. Dançante. Indisfarçada. O som e as luzes a protegem, compondo o cenário do seu orgasmo aracnídeo. Ela e a aranha, uma só. Uma dentro da outra. Antes de subirem pelas paredes e desaprecerem se rastejando para outra fresta. Outras vaginas.       



postado por Maysa Trash & Bitch as 08:42:32 5 comentários
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