
Ela faz de conta que é tudo mentira. Ou verdade. Quem sabe. Um falso real se realiza falsamente. Porque a sua verdade é a mentira concreta das ilusões. Recheada de luzes, música, cabelos, corpos, rostos, perfumes. Borrões humanos de cores mortas que se misturam ao escuro vivo. A pista de dança é um mundo completo. Sua órbita. Ela sabe que a realidade é uma ilusão bem alimentanda, cheia de leite materno do sonho, rechonchuda de vontades famintas. Ao seu redor, pulsam as carnes estranhas. Sua própria carne vulcaniza. Por diversas, diversas vezes, ela sente o súbito. O súbito é um suspiro de dentro. Primeiro devagar, vagarosamente, como tentáculos de um estranho ser, uma misteriosa tarântula da noite, com a pelagem nervosa e ouriçada que se arrasta sonolenta do chào às suas pernas. Sapato. Meia. Pele. O desejo nu e oculto. Até se abrigar, a coisa monstruosa, em baixo da saia, uma toca segura. O animal tateia o melhor canto para suas teias. Então, no arrepio da sua trilha, aloja-se na caverna de paredes tenras, entre as coxas, o abrigo quente de pêlos úmidos. Vulvas que aplaudem. A caverna do negrume sigiloso. Molhada. Dois rochedos macios querendo sorrir. Cova que fareja a vida em plena sucção. Dentro dela, o animal entra, desbravador. E lá, quando o aranhoso ser começa a cavar silencioso e sedento entre o túnel que rumo às profundezas uterinas, ela geme. Umidecida. Ela grita. Altiva. Dançante. Indisfarçada. O som e as luzes a protegem, compondo o cenário do seu orgasmo aracnídeo. Ela e a aranha, uma só. Uma dentro da outra. Antes de subirem pelas paredes e desaprecerem se rastejando para outra fresta. Outras vaginas.
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