
Assim, o abismo. O abismo. Sob e sobre. Era a primeira vez que, enquanto dançava, o chão se rompeu abaixo dos seus pés e uma rachadura singular a afastou de tudo, do outro lado da pista, das pessoas, do seu próprio centro, rasgando um vazio negro entre ela e ela mesma. O ritmo acelerado do som também rasgava sua alma, desgarrando-a da sua pele como aquela fenda fria e larga que crescia diante de si. Estava na beira do abismo. Dançando. Pronta para estender os braços e se lançar no mergulho àquela vagina aberta. Da ponta do precipício que parecia espreitá-la com olhos gigantes para seu túnel acolhedor. O buraco era uma grande garganta aberta esperando para abocanhá-la. E ela se entregava ao ritmo elétrico dos acordes. Na extremidade do penhasco. Sem medo. Sem terror. Sem questionar. Porque tudo nela parecia estar à beira. Sempre. Tudo era um risco. Abismos dos seus vazios. Por isso ela dançada, enfrentando o absoluto. Farta da opulência terrena. Dona do mundo. Invadindo os domínios secretos. Na beirada das suas fronteiras. Limítrofe. Ela e o abismo. O buraco que um dia a devoraria como quem a espera de pau rijo e apontado pronto para foder como o grande amante. Dilacerar seu interno. Seu maior amor. Assim, o abismo.
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