
Quando o grande amor da sua vida arrasta você para o canto mais escuro de uma boate e a domina em estado braçal, beijando com fúria, as mãos tateando impiedosas, dentes mordendo os lábios e língua perfurando a boca. Quando o grande amor da sua vida não se importa com os seus gritos e pedidos para parar e ignora a sua tentativa de fugir, obrigando você a se dobrar em direção ao seu pênis rijo e chupar com os olhos embotados e pede - pede não, ordena - que você levante a saia e ele enfia na sua carne trêmula a máquina de mover o mundo, forçando o vai-e-vém abrupto de quem se mata com o próprio veneno e você fecha os olhos para que os minutos passem ou tenta se fixar nos desenhos dos corações e flores rabiscados no corredor manchado e de repente não escuta mais a música alta e desiste que alguém - um dos vultos - a socorra. Quando o amor da sua vida finalmente gozar num urro bravio e abandonar você mergulhada no lodo da alma, encostada na parede fria e alisando o são sujo de rastros, deixando dentro da fornalha do seu inferno a semene celestial, e cospe para o lado e fecha o zíper e sai, arrumando a calça, como quem simpesmente mijou, esquecendo você no canto qualquer da boate escura. O que você vai fazer? Saltar da janela mais alta? Lavar-se na pia? Chorar escondida? Tomar um porre? Ingerir comprimidos? Comprar uma arma? Mas não. Você vai continuar a viver todos os dias, comuns. Não vai fazer nada porque você mal consegue se levantar. Porque terá que se olhar no espelho todos os dias, mesmo tendo sido violada na sua santidade mais plena. O seu amor ferido pelo seu amor. E você nunca mais esquecerá as flores e os corações desenhados que lhe sorriam. E vai tratar de curar a ferida. Juntar seus cacos esparramados. Apanhar sua bolsa e os sapatos. Porque é o que resta de você e do amor da sua vida. Porque é o seu amor. O único que você tem. E porque é a sua vida. A única que você possui.
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