
Só ela chorava, enquanto o mundo dançava. Só ela queria agarrar os ponteiros e parar o tempo enquanto eles viviam o momento. Só ela queria aquele abraço noturno enquanto todos se esparramavam em solidão. Só ela queria o silêncio das confissões enquanto todos alardeavam uma canção. Só ela sentia as coxas umidecidas enquanto todos tinham a plena secura física. Só ela se misturava na névoa enquanto todos dissipavam a fumaça. Só ela tinha na alma um álbum de lembranças enquanto eles perderam o passado. Só ela escondia no bolso os orgasmos reais enquanto todos gozavam falsos. Só ela tocava sua vulva enquanto todos tateavam o nada. Só ela buscava o canto oculto enquanto eles iam para o centro da pista. Só ela queria o escuro do seu beijo enquanto todos buscavam as luzes do sorriso. Só ela havia tentado escrever uma carta enquanto todos picotaram os papéis. Só ela queria devolta o seu próprio pedaço enquanto todos ofereciam suas carnes. Só ela vomitava o negrume enquanto todos engoliam o colorido. Só ela buscava nadar nas lágrimas das íris enquanto todos fechavam as pálpebras. Só ela queria voar, enuanto eles se enraizavam. Só ela sonhava com rosas de verdade enquanto todos gostavam do paraíso artificial. Só ela chamava a morte enquanto todos cantavam a eternidade. Só ela sabia enquanto todos ignoravam. Só ela doía enquanto todos formigavam. Só ela dormiria única enquanto eles amanheceriam juntos. Só ela acordaria, e eles seriam sono. Só ela. Apenas ela. E alguém muito, muito distante. Porém próximo.
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