
A noite era o seu útero mais quente. Seu berçário profuso. Revestida pela placenta de delíros. O cordão umbilical rompido com os vestígios de fora. Inferno de chamas celestes. O grande paraíso da rajada de ritmos. A partir do momento em que a porta escura e pesada se abria, desvendava-se diante dela o mundo da fantasia nebulosa. Pessoas sem rostos. Vultos dançantes. Na Gomorra de ferro e cimento, a vibração estremecia os fantasmas vivos de cada um. Festim secreto compartilhado com a multidão. Em cada olhar, um mundo inteiro de procuras. Em cada passo, um infinito de descobertas. Músicas e luzes que perfuravam as almas livres. Uma liberdade com asas de cores e sons. Uma euforia prodômica. Braços e pernas como tentáculos da orgia dionisíaca. Móveis fantoches eletrônicos. Intestinos, pâncreas e fígados pulsando no embalo cardíaco da alegria. Doce jardim das delícias das línguas e mãos. A eternidade do momento era o instante mais fugaz. Sua vida toda, naquele momento e naquele lugar, girava na órbita plena e absoluta da satisfação inenarrável. Suores trocando suares. Tudo valia pena se a música não era pequena. Os pequenos diabos internos escorriam para o ralo da sua lixiera mental. Livre. Feliz. Bonita. Salivas se unindo a salivas. Nada nem ninguém poderia furtar a sensação de doçura de ser que lhe era. Ou que estava sendo. Coisa nenhuma enfureceria seu plácido furacão. Devastadoramente devasso. Poluída de pureza. Em hipótese alguma conseguiriam roubar-lhe a glória da festa por dentro e por fora da sua pele. Jamais. Nunca. De jeito algum. A noite era a sua cascata de abrilhamento das cores e das formas. Até que a hora chegasse, a música parasse e as luzes acendessem. E ela pisasse em terra firme, aportando novamente no velho mundo real.
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