Luzes na Floresta
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quarta, 31 maio, 2006
Guerras insanas

Após três anos de ocupação, os Estados Unidos contabilizam mais de 2600 soldados mortos. A grande maioria das baixas foi registrada após a queda do regime de Sadam Hussein, na interminável guerra civil e de resistência à ocupação estrangeira que dilacera o Iraque desde então. Na última segunda, 29, uma equipe de jornalistas da rede norte-americana CBS morreu num ataque da insurgência num subúrbio de Bagdá, quando uma bomba destroçou uma patrulha militar estadunidense. São dezenas os jornalistas que perderam a vida em meio a uma guerra marcada pela mais cruel violência, assim como são milhares de civis chacinados, oferecidos em holocausto no altar sagrado dos interesses geopolíticos das grandes corporações dos Estados Unidos e da Europa.

Sob o impacto dessa barbárie sem fim, recolhi dois exemplos da arte a serviço da denúncia da desumanidade de todas as guerras: a foto do genial fotógrafo húngaro Robert Capa (1914-1954), que ilustra esse post, retratando um soldado norte-americano que jaz morto, atingindo por  franco-atiradores alemãs, em Leipzig (18 de abril de 1945); e uma poesia da genial Cecília Meirelles, intitulada “Guerra”, que reproduzo a seguir:

“GUERRA

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.
Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.
Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão ali
como tábuas sem uso.
Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidas...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...
Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...
- e alcançariam as estrelas.
E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,

e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
-tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas”.

Cecília Meireles



postado por 9449 as 03:45:17
1 comentários:

Tatá:
No domingo que passou o Papa alemão Benedictus XVI visitou Aushwitz, o brutal acougue nazista que recebia seus prisioneiros com uma epígrafe, pregada no pórtico de entrada, que afirmava como escárnio: só o trabalho liberta. Acompanhei a cerimônia pela CNN como forma de passar as primeiras horas do dia. Na verdade ali havia pouca novidade, a menos pela nota de que antes ela havia sido realizada por um membro da resistência polonesa, Carol Wohtyla, já na condição de Papa João Paulo II, e esta, mais recente, estava sendo testemunhada por um membro da juventude hitlerista, o antigo Cardeal Ratzinguer.
Chamou-me atenção o empertigamento do religioso alemão e a sua decisão de chamar por Shoah o que comumente se diz Holocausto ou o genocídio étnico promovido pelos nazistas alemães durante a II Guerra MUndial. Estaria ali um exemplo de que um homem pode superar erros tão graves como se deixar submeter a ideologias tão abjetas quanto o nazismo?
Estava eu assim diante ao aparelho de TV quando atentei para as informações que cruzavam diante dos meus olhos, na base da tela. Enquanto o Sumo Pontífice da Igreja Apostólica Romana se penitenciava pela omissão de sua igreja quanto aos assassinatos em massa ocorridos durante a última guerra mundial, nombrando todos os povos que ali tiveram o seu calvário, o letreiro embaixo dizia das guerras e violências que atormentam o mundo no Oriente Médio, no Extremo Oriente, na África... hoje.
Não era intencional, tratava-se apenas de chamadas para as próximas notícias que seguiriam àquele segmento.
O que estava ocorrendo era uma advertência de que nada havia mudado, e entre as cercas de Auschwitz continuava suspenso no ar o grito do último torturado e dos que assistiam horrorizados a queda dos corpos envenados de seus companheiros pelo Zyclon B durante o banho, antes do corpo deles próprios serem aparados pelo chão frio, sujo e úmido com os olhos vidrados fitando o nada. Gritos que encontravam outros distantes dali e que também aquí não escutávamos, mas que existiam falavam daquela clara manhã de domingo com o horror da atualidade.
31/05/2006
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