
Depois do ciclo das duas grandes guerras – 1914-45 -, os territórios do capitalismo desenvolvido deixaram de ser cenários de guerra. Os EUA, por sua vez, cruzaram um século tão mortífero sem ter de amargar conflitos bélicos em seu território, embora tivessem sido o maior protagonista de guerras no século. No entanto, centenas de conflitos se multiplicaram na periferia do mundo desenvolvido. No final do século XX, sobreviviam cerca de 50 conflitos armados.Alguns deles se revezavam no noticiário, ciclicamente – Angola, Etiópia/Eritréia, Afeganistão, Palestina, Chechênia, Chiapas, Colômbia, Iraque, Kosovo, Congo -, quando ficamos sabendo que a paz não chegou a se impor, enquanto outros nem chegam a ter esse status, tão repetitivos ou longínquos são.(...) Apenas desde que foi decretada a paz no mundo, cerca de160 conflitos eclodiram, causando 40 milhões de mortos – o dobro do que teve a URSS, a maior vítima da Segunda Guerra. Desses mortos, apenas um quarto – 10 milhões – foram soldados, ou outros 30 milhões foram civis, incluindo 2 milhões de crianças. Noventa por cento dos conflitos armados se dão nos países chamados subdesenvolvidos, particularmente nos países pobres. Setenta por cento da transferência de armamentos se faz com esses países, embora todos os grandes produtores sejam países chamados desenvolvidos, que faturam anualmente centenas de bilhões de dólares com essas vendas, uma parte das quais clandestina. (...) Nos milênios de guerras que a humanidade já protagonizou, calcula-se que foram mortas cerca de 150 milhões de pessoas. Desse total, o século XX é responsável por 111 milhões de mortos (...).
(Emir Sader, Século XX, uma biografia não-autorizada – O século do imperialismo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2000) Foto: Robert Capa Ataque aéreo sobre Barcelona, 1939
|