
A imprensa de hoje notícia que o escritor, poeta, político e lutador social Benedicto Monteiro, 82 anos,paraense de Alenquer, sofreu um AVC e está em estado grave numa clínica do Rio de Janeiro. A saúde do Bené não anda muito bem nos últimos tempos, mas é com a garra de sempre que ele vem resistindo e contornando seguidos reveses. Oxalá que possa superar mais este, brindando-nos com sua arte e com seu exemplo de alguém que há décadas luta em defesa do povo pobre de sua terra amada. Há muito sua extensa e premiada obra literária alcançou o status de referência em termos da melhor literatura brasileira. É impossível esquecer do extraordinário Verde Vagomundo ou de sua enxuta, mais igualmente brilhante, produção poética. A mim, por exemplo, são de uma qualidade ímpar seus versos no O Cancioneiro do Dalcídio, editado pela PLG Comunicação e pela Falangola editora, no já distante 1985. Como se sabe, esta obra verte para a poesia textos em prosa do grande Dalcídio Jurandir, valorizando e, ao mesmo tempo, extrapolando a perspectiva e abrangência da produção original. Entre tantas poesias, destaco "Memória Perdida", cujo ponto de partida foi um exerto de Primeira Manhã (Dalcídio Jurandir, 1968): "(...)Meu Deus, de onde venho, que flor sai eu deste enxerto preto e branco? Vadios malfeitores ratoneiros ladrões condenados, tais foram os primeiros colonos do Pará, assim falava o pai num tom de lástima e troça. Dos brigues da África descarregavam o sofrimento". MEMÓRIA PERDIDA Meu Deus de onde venho eu que flor saiu deste enxerto preto-e-branco mais preto do que branco mais branco com alma preta mais carne do que alma mais calma do que carne mais homem ou mais mulher? Oh meu Deus de que Deus sou eu da mata ensolarada da selva enverdecida do campo ensombreado do rio manso perdido ou da lua do sol do céu? Que sangue me acalora que desejo me devora que alma me apavora que sonho me comemora que fui que sei que sou? (Benedicto Monteiro) Foto:www.verdevagomundo.com.br Deputado estadual, Benedicto Monteiro, com o ex-presidente Jango Goulart (início dos 60)
|