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segunda, 30 junho, 2008
Erro histórico: uma confissão

Desde que emergiu das sombras o homo sapiens, – não importa como nem quando, – a vida nômade cedeu espaço aos clãs, grupos, tribos, comunidades e sociedades isoladas, até se chegar à complexa interação da sociedade globalizada. Todos sabem disso e conhecem os misticismos, as torturas e as matanças sempre presentes na evolução social em tudo que é canto do planeta. E no transcorrer desses tempos de ocorrências naturais igualmente destruidoras da vida humana, os adoradores de muitos deuses se foram rendendo à visão ocidental do Deus único e do Diabo, e à idéia do BEM contra o MAL em batalha eterna... Nada demais, portanto, esta visão dual tão marcante em nossas vidas, mas eis que surge a Física Quântica a destruir intocáveis verdades científicas e a abalroar dogmas indefectíveis. E quanto mais o homem avança no conhecimento dos fenômenos naturais, e quanto mais se avolumam e emaranham os fenômenos sociais, ele, o homem, conclui pela incerteza do que ocorre dentro e em torno de si.

Com efeito, está cada vez mais difícil, senão impossível, estabelecer caminhos unívocos para se atingir objetivos, tanto no ambiente natural como no social. As linhas simples deram lugar às curvaturas sinuosas e às redes complexas, com as correções de rumo se impondo tão velozmente que os que adrede não as consideram colidem com barreiras e se defrontam com abismos intransponíveis. Tudo porque não medem as probabilidades, não antevêem as variáveis ambientais e suas mutações para fugir ou tirar proveito delas. Preferem o imediatismo à visão prospectiva, e pagam um alto preço: abraçam-se ao desastre natural ou social e vão à morte.

Sem desconsiderar a importância das ciências físicas e biológicas, vamos nos fixar na convivência social, e na chamada “sociedade”, focando, em raciocínio apertado, o seu principal contraste: a “comunidade”. A sociedade (caracterizada pela formalidade) em visão dual sugere o predomínio da “ordem” (BEM) em contraposição à “desordem” (MAL); propõe um sistema de “dever ser” em detrimento do “ser”; enfim, suscita um rígido “Contrato Social” (Rousseau) em vista do “malfeitor” a ser eliminado sob pena de morrer o Estado, ou defende o Leviatã de Hobbes em vista da desconfiança em indivíduos e grupos, propondo uma força estatal controladora de todos. Já a comunidade equivale bem mais ao “ser”, que, de certo modo, e em muitas ocasiões, se confunde com a “desordem”. Sob o prisma dual, “comunidade” seria a representatividade social da “desordem”, em especial devido ao seu caráter informal e orgânico.

Hora de contestar: “Mas tudo não passa de conceito, de abstração simplória!”... Seria, sim, mero conceito, se dele não adviessem importantes decisões dos detentores do Poder, capazes de transformar conceito em preconceito, e deste à discriminação basta-lhes um estalar de dedos. E quando se sublinha a palavra “Poder”, deve-se logo explicar que não se trata tão-somente de “Poder Público”, pois este se submete aos seus paradigmas (ou senhores), especialmente aos ditames capitalistas e/ou religiosos. E, por fim, há o argumento mais eloqüente: o Poder das Armas, este que, ao se sagrar vencedor, impõe-se sem dissimulações – marca o seu domínio em incontestável absolutismo, ignora as críticas externas e retalia internamente os recalcitrantes. Exemplos extremos e opostos: a Cuba de Fidel Castro e o Chile de Augusto Pinochet. (Que tal inserir as Favelas dos Traficantes e das Milícias?...). Mas as dominações pelas armas não excluem a influência do capital e da fé; também não excluem as ideologias, que, por sua vez, igualmente se rendem aos supracitados ditames. Assim o tempo se esvai, pessoas morrem e outras gerações imprimem nova dinâmica à convivência coletiva, porém sempre arrastando consigo o inelutável dualismo resumido em quem manda e em quem obedece (opressor e oprimido). Eis como roda o círculo vicioso da evolução social...

Vivemos num mundo de paradoxos. Quando não há o mando das armas, há de haver a retórica a exercer poderosíssima influência sobre a mente humana, com os meios de comunicação de massa garantindo a disseminação das “monumentais idéias” dos poderosos e endinheirados. Vivemos numa Sociedade de Informações, e elas, as informações, podem ser facilmente manipuladas para influenciar multidões, dependendo apenas de uma “fonte fidedigna” e de uma bem aquinhoada mass media. A partir daí, é feita a propagação das idéias, e todos se resignam ante a superfluidade delas. Lembra-me, neste ponto, o conto machadiano – A Igreja do Diabo: “As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.”

(“No Rio, a favela é uma celebração da vida” – Louis Leterrier – diretor francês, que filmou numa favela carioca cenas da superprodução O INCRÍVEL HULK). Neste nosso mundo real das absurdas desigualdades, ressalta-se o panorama virtual das comunidades favelizadas, usualmente engrandecidas pela mídia societária – como no supracitado exemplo publicado nas “Frases da Semana” (sic) de O GLOBO (15/06/2008) – em função de pequenos focos de “cidadania”: projetos de lazer para a gurizada faminta, cursos de corte e costura para as donas-de-casa e concursos de modelo em que uma adolescente entre milhares é destacada em glamour, até ser esquecida e tornar ao seu miserável nicho de algibeiras vazias e não raramente com o ventre ocupado por mais um filho sem pai. Assim o sonho desaparece, em fade diabólico, e emerge a realidade dos tiroteios, e da morte banalizada, e das sangrentas escaramuças (como nos tempos remotos, como em todos os tempos, e como hoje...): bandidos contra bandidos, polícia contra bandidos, bandidos contra polícia, polícia contra polícia, mineiras, milícias e quejandos. Questão de ordem (ou de desordem) pública, sem dúvida, eis a reduzida explicação hodierna. Ou seria uma questão de sobrevivência num mundo ainda incivilizado?... Não?... Mas, e os outros ordenamentos constitucionais pátrios? Cadê o ordenamento social, já que o jurídico-legal se resume ao supradito? Por onde andam a educação, a saúde, o saneamento básico, o transporte público, a distribuição da renda, o emprego, a moradia, enfim, cadê o direito à vida digna? Como pode haver cidadania sem isso?

Ora, a “cidadania favelada” é a do “pecado original” da desesperança, esta que, a pretexto de ser vencida, põe o Diabo a jorrar muitas representatividades nas favelas, claro que com suas cestinhas capitalistas a recolher os míseros centavos daquelas machadianas “turbas entusiasmadas” ante a possibilidade de, pelo menos, “salvar suas almas no futuro Reino dos Céus”. Eis a vida favelada, sofrida e resumida ao anseio de uma paz inalcançável, já que ao favelado não é dado o direito a mais nada referente à cidadania, que, para ele, é apenas virtual. O seu real, mesmo, são os tiroteios e a morte sanguinolenta de inocentes a pretexto de a tal “sociedade” exigir ação policial restrita à “comunidade”, tudo isto elevado ao máximo da venalidade dos que defendem o “dever ser” para outrem, enquanto fraudam o fisco e burlam as leis em benefício de suas algibeiras cheias. E o mais paradoxal: a polícia que invade as favelas em nome do “dever ser” societário é oriunda da “comunidade”, é nascida e criada naquele ambiente comunitário do “ser”, o que sugere a idéia de que nós praticamos, – nós, policiais igualmente mortos de fome, – nós praticamos diuturnamente um “genocídio em nome da lei”.

Toda essa digressão crítica diz respeito principalmente a mim, confesso-o com a veemência que me impele a alma. Fui um desses policiais que combateram traficantes em favelas, aliás, numa região em que não havia nada mais que favelas e bairros proletários, os chamados “periféricos”: a Zona Norte do Rio de Janeiro. Não nego que tive sorte e sucesso. Sorte porque não enfrentei problemas de balas perdidas e morte de inocentes, pelo menos que eu tivesse conhecimento; sucesso porque apreendi grandes quantidades de substâncias entorpecentes (maconha e cocaína) e armas, e aprisionei aquele que era, na época (1989-1990), considerado o maioral do tráfico: o famigerado Cy de Acari (foto abaixo). Por isso, fui aclamado pela mídia, afagado pelos societários e apupado pelos comunitários. Ah, não me importei com os apupos, sentia-me o “salvador da pátria”, sentia-me um autêntico “societário”, embora a minha origem não fosse outra se não a de um miserável periférico de Niterói (Engenhoca), que já até ganhara umas injustas castanhas de um delegado de polícia, visivelmente bebum, que comandava uma blitz no bairro em que eu malmente me abrigava, pois aquilo não era residir.

Retornava eu do colégio a casa (sempre a caminhar longa distância por falta de dinheiro para pagar o ônibus), por volta de 23h (trabalhava de dia e estudava à noite, sem direito a jantar), quando fui convocado pelo delegado para dentro de um bar (ele faleceu, porém jamais me esqueci dele nem da cena constrangedora por que passei, com ele a me bater na cabeça com os nós de seus dedos prendendo uma chapinha amassada da garrafa de cerveja com a qual se deliciava). Eu “portava” meus cadernos e livros e a marmita vazia do almoço (feijão, arroz e ovo). Enfim, depois disso, – e embora eu nunca, nem em sonho, haja feito algo semelhante com qualquer pessoa, – depois disso, eu me deveria manter “comunitário”. Mas a “lavagem cerebral” que adiante recebi fez-me diferente. Para fugir à fome, sepultei o meu impossível sonho de ser médico e ingressei na Polícia Militar. E o “Poder de Polícia” que lá me ensinaram fez-me arrogante; e assim depois eu também ensinei, como se fora “papagaio” do sistema societário, a muitos outros jovens PMs.

Ah, eu gostei, sim, do aplauso societário! Nem sei se poderia ser diferente; afinal, eu nada mais era que “gado de rebanho”, passível de sofrer todas as influências que meus companheiros igualmente sofreram, e durante muito tempo eu mesmo fui o agente a influenciá-los, movido pela certeza absoluta de que aquele era o caminho perfeito para lutar pela ordem pública. Mas hoje, avelhantado, e depois de bastante retaliado pelo mesmo sistema societário que me impeliu à ação como a um autômato, concluo que nada do que fiz resultou boa coisa. Sim, se antes fui “rebanho” a aprender e a ensinar errado, depois fui “boi pé-duro” a ostentar o chocalho no pescoço a direcionar a boiama ao mesmo erro, porém todos nós tangidos a pico de lança pelos detentores de um poder muito acima e além de todos.

Hoje, pelo que observo e analiso, a situação da desordem pública é a mesma. Não! Não! É mais grave que antes! Mas tudo funciona como na época dos meus confrontos (nem sempre bem-sucedidos, perdi nove comandados durante um ano à frente do nono batalhão da PMERJ), apenas com a agravante do aumento de tudo: da população favelada, das violentas escaramuças em favelas, das aclamadas apreensões de drogas e armas e das festejadas prisões de “cabeças do tráfico”; e, principalmente, da morte estúpida alcançando milhares de policiais, bandidos e pessoas inocentes. E me indago: até quando esse erro histórico persistirá?



postado por 13181 as 04:02:42 #
20 Comentários
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sexta, agosto 07, 2009 06:00 

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quinta, agosto 06, 2009 11:04 

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quinta, agosto 06, 2009 08:47 

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