Políticas Públicas
Políticas Públicas e Controle Social: encontros e desencontros da experiência brasileira

1. INTRODUÇÃO

Este texto tem a pretensão de apresentar uma reflexão sobre a realidade contraditória que as políticas públicas, especialmente as políticas sociais, estão enfrentando na concretização dos preceitos constitucionais estabelecidos pelas diretrizes de descentralização político-administrativa e da participação da sociedade civil organizada no controle e na formulação das políticas setoriais.

A Constituição Federal de 1988, ao estabelecer novos princípios e diretrizes para as políticas públicas realizadas pelo Estado brasileiro, definiu parâmetros precisos ao processo de elaboração e fiscalização das diferentes políticas setoriais. Não obstante, quase vinte anos pós-promulgação da Constituição Federal, é possível identificar alguns componentes que aproximam e/ou distanciam a efetividade desses novos princípios e diretrizes.

A universalização do atendimento proposta no sistema de proteção social brasileiro, por exemplo, encontra-se, objetivamente, muito aquém do pretendido por esse princípio constitucional. A descentralização político-administrativa, tanto no tocante a formulação, quanto no financiamento e no controle social, encontra resistências político-burocráticas apesar de avanços na normatização de áreas como a saúde, a educação e a assistência social.

Ressalta-se que não pretendemos esgotar esse tema, mas indicar aspectos que precisam ser conhecidos e debatidos por indivíduos que atuam nessas políticas e que pretendem colaborar com a constituição de políticas públicas efetivamente republicanas.

 

2. AS POLÍTICAS PÚBLICAS E A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA: UMA TRAJETÓRIA INACABADA

Refletir sobre as políticas públicas, em particular àquelas denominadas de políticas sociais em uma sociedade capitalista, remete a necessidade de termos que compreender que essas políticas apresentam em sua constituição uma complexidade histórica, já que surgem em uma íntima relação com as características históricas de cada realidade social em que emergem.

É por isso que devemos localizar as políticas públicas em uma contextualização, haja vista que resultam de forças históricas contraditórias. Portanto, a forma e o conteúdo das políticas públicas estão diretamente associados a conjugação de fatores estruturais e conjunturais de cada processo histórico de um determinado país.

Desta forma, a particularidade mais comum nas políticas sociais, independente no país que são formuladas, é que nascem no cerne de um conflito econômico-político e social em que as contradições sociais se avolumam ao ponto de gerarem uma mudança na estratégia adotada pelos governos para manterem a sua governabilidade.

Isto quer dizer que as políticas sociais têm em comum um marco histórico que identifica o seu registro de nascimento. Um marco que sinaliza uma conjuntura social em que os conflitos sociais não podem mais ser enfrentados unicamente com os instrumentos tradicionais para a solução das questões sociais: as ações repressivas.

A história econômica, política e social de cada país desenha o momento em que as políticas sociais passam a ser adotadas como estratégia de governabilidade. Assim, as políticas sociais adquirem a coloração específica das conjunturas históricas de cada país. Por isso mesmo, a forma como as políticas sociais foram implantadas e operacionalizadas no Brasil tem o seu desenho próprio.

É por isso que as políticas públicas em nosso país já tiveram uma marca explicitamente repressiva. O Estado atuava junto a sociedade como aquele que tinha que garantir a ordem e a paz social. A implicação desta conotação é de que as políticas públicas eram organizadas a partir de uma total desconsideração das questões sociais que assolavam a realidade nacional.

Por outro lado é o próprio processo histórico que faz com que o papel das políticas públicas mude, haja vista as inúmeras lutas sociais que colocaram, e ainda colocam em cheque as ações repressivas como estratégia para o enfrentamento da chamada questão social.

Com efeito, a questão social, constituída em torno do pauperismo e da miséria das massas, representou o fim de uma concepção idealista de que a sociedade, por si só ou, quando muito, acossada pela polícia, pudesse encontrar soluções para os problemas sociais. Constatada a falácia dessa concepção, impôs-se outra, apoiada na necessidade do sistema liberal-burguês de responder, por meio da regulação estatal efetiva e ampliada, os efeitos diruptivos da questão social (PEREIRA, 2002 p.31).

É a partir desse momento histórico que o Estado passa a assumir uma característica em especial, o seu papel regulador, ou seja, passa a intervir diretamente nas questões de natureza econômica, política e social da sociedade para manter a sua legitimidade.

Isto evidencia outra característica comum nas políticas sociais que é destacada por Behring (1998), uma vez que passaram a integrar “a estratégia global anticrise do capital após 1929” (p.168). Isto quer dizer que as políticas sociais foram adotadas nos países capitalistas como parte de uma estratégia de superação das crises cíclicas do capital.

É assim que as políticas públicas, especialmente as políticas sociais, se tornaram importantes estratégias na manutenção das relações de poder que o Estado representa. Por isso mesmo Galper (1986) destaca que as políticas sociais nos países de Estado de Bem Estar tem duas funções básicas, uma função econômica já que os recursos gastos nas políticas sociais contribuem para a manutenção das taxas de lucro do capital, e uma função de legitimação, uma vez que mantém uma imagem de preocupação do Estado com os interesses da classe trabalhadora e assim garantem a conservação do controle social.

Mais próximo da contemporaneidade podemos destacar uma série de medidas políticas, econômicas e sociais adotadas pelo governo brasileiro, que desde a década de 90 tem repercutido significativamente na forma e no conteúdo das políticas públicas: as medidas neoliberais do Consenso de Washington da ampla abertura comercial; da desregulamentação dos fluxos financeiros; da privatização das empresas estatais; da ampla reforma administrativa do Estado (para acabar com estabilidade no emprego público e para abrir os serviços públicos a iniciativa privada); e da reforma dos direitos sociais.

Essas medidas têm gerado fortíssimos reflexos no conjunto dos direitos sociais reconhecidos pela constituição federal de 1988, pois se constituíram em uma nova investida do capital no momento em que outra crise cíclica atingia o sistema. Aa solução encontrada para manter a lucratividade exigia, entre outras coisas, o desmonte dos sistemas de bem estar social que, segundo os neoliberais, eram os grandes responsáveis pelos gastos públicos e as crises fiscais que os Estados passavam. Assim, “a reestruturação produtiva vem sendo conduzida em combinação com o ajuste neoliberal, o qual implica a desregulamentação de direitos, o corte dos gastos sociais, deixar milhões de pessoas à sua própria sorte e ‘mérito’ individuais” (BEHRING, 1998 p.180).

Nesse conjunto de elementos contemporâneos, as políticas sociais são taxadas ideologicamente como políticas paternalistas que não contribuem para a autonomia do indivíduo e impedem o estabelecimento de uma “saudável desigualdade” geradora de uma “necessária concorrência” (SADER e GENTILI, 1995). Desta forma:

A política social entra no cenário como paternalismo, como geradora de desequilíbrio, como algo que deve ser acessado via mercado, e não como direito social. Daí as tendências de desresponsabilização e desfinanciamento da proteção social pelo Estado, o que, aos poucos, vai configurando um Estado mínimo para os trabalhadores e um Estado máximo para o capital (BEHRING, 1998 p.186).

Como conseqüência, as políticas sociais assumem a orientação da focalização enquanto finalidade de ação, o que reforça o deslocamento do princípio da universalização dos direitos inscrito da CF de 1988.  O resultado direto do conjunto de forças que atacam e destroçam as políticas sociais no Brasil é a instituição de uma compreensão e uma conduta passiva que gradativamente aceita a argumentação de que grande parte dos serviços públicos deveria “ter como clientela somente as camadas mais pobres da população, que encontram-se desorganizadas e possuem uma pequena capacidade de pressão política” (ARAÚJO, 1998 p.23).

É a consolidação de uma cultura que acredita que os serviços públicos devem ser destinados para os pobres. Essa cultura corrobora com as ações políticas do neoliberalismo que destina parte significativa da população para os serviços privados.

Esse panorama cria aquilo que Sposati (1995) chama de inclusão excludente, ou aquilo que Albuquerque (1986) refletindo sobre o poder em instituições chama de reconhecimento e desconhecimento. Esses binômios expõem que o reconhecimento do usuário como sujeito de direitos no momento que ele é incluído em serviços públicos descartáveis, de péssima qualidade, ou por meio do processo imputador de uma ressocialização virulenta junto ao usuário, na realidade, acaba excluindo o cidadão atendido de sua condição política enquanto cidadão e também gera um desconhecimento de sua expressão inteira como ser humano, pois passa a ser identificado e reconhecido a partir de sua carência social ou de um número identificador do atendimento recebido.

É no percurso das mudanças da forma e do conteúdo das políticas públicas que podemos encontrar pistas ao mapeamento da construção efetiva da cidadania. Isso ocorre porque a mudança e ampliação/diminuição das políticas públicas está diretamente associada a mudança e ampliação/diminuição do próprio conceito de cidadania.

Para Campos (2001 p. 13) a cidadania significa o “conjunto e a conjugação de direitos civis, sociais e políticos assegurados aos membros de uma determinada sociedade. Tais direitos adquirem efetividade através do exercício das liberdades individuais, da participação política e do acesso a bens de consumo e à proteção social pública”.

Isto quer dizer que a medida que a cidadania vai sendo expandida ou diminuída em decorrência do conjunto das lutas sociais, é possível encontrar uma estreita relação com a expansão ou diminuição das políticas públicas, uma vez que o reconhecimento de direitos de cidadania implica em uma correlação direta com a organização, a sistematização e a implementação das políticas públicas pelo Estado.

É por isso que as políticas sociais são “o conjunto de ações públicas, governamentais ou não, destinadas à satisfação de necessidades coletivas. Estas ações públicas integram o elenco de estratégias utilizadas pelo Estado com vistas à reprodução da força de trabalho e a preservação de ordem sócio-econômica e política vigente” (CAMPOS, 2001 p. 13).

Assim, a compreensão da complexa relação entre as políticas públicas e a cidadania é muito importante, pois “embora o Estado não seja condição suficiente para a emergência e consolidação de um determinado padrão de cidadania, somente a esfera pública tem se revelado, historicamente capaz de reduzir os impactos competitivos do mercado” (CAMPOS, 2001 p.13), pois as lógicas que orientam o mercado e a cidadania são ao mesmo tempo distintas e conflitantes.

Isto quer dizer que aceitar as idéias que defendem que o cidadão pode e deve encontrar no mercado os meios para a sua reprodução social é, no mínimo, uma posição ingênua. A cidadania é um produto construído em um ambiente contraditório em que a organização social e a participação cidadã são fundamentais para o reconhecimento e a legitimação dos indivíduos enquanto cidadãos. É por isso que deve ser vistas com muita reserva as adjetivações dadas constantemente para o cidadão, como por exemplo, o de cidadão consumidor, uma vez que estas qualificações tendem a destituir o caráter político que está contido no cerne do conceito de cidadão e de cidadania.

Devemos então perguntar: qual é o ambiente que nutre e alimenta a própria cidadania e, por correspondência fortalece o papel do cidadão no controle das políticas públicas? Obviamente que esse lugar é o ambiente democrático. Isto quer dizer, que um ambiente democrático tem um grande efeito sobre a constituição de um Estado de direitos, que por princípio, se organiza para atender as necessidades sociais das maiorias sociais.

É por isso que os direitos sociais são aqueles que “representam a via por meio da qual a sociedade penetra no Estado, procurando: conhecê-lo, controlá-lo e interferir na sua estrutura administrativa, nos seus processos de legitimação e regulação, nas suas prioridades e objetivos” (PEREIRA, 2002 p.34).

Não obstante o processo de conquista dos direitos cidadãos não é homogêneo e linear, o que faz com que o reconhecimento da cidadania nem sempre ocorra sob a perspectiva da universalidade. É assim que, na história dos direitos de cidadania no Brasil, “muitos dos direitos sociais foram implantados através de um viés corporativista, visando atender as demandas dos segmentos mais organizados dos trabalhadores e com maior capacidade de pressão política, e, portanto, não se tornaram universais” (ARAÚJO, 1998 p. 22).

A força do corporativismo nas políticas sociais brasileiras deixou muitas cicatrizes, uma vez que tendeu a deslocar a questão da universalidade dos direitos sociais. Uma vez deslocada a questão da universalidade, as políticas sociais organizadas para operacionalizar direitos sociais puderam assumir configurações e formatações de menor alcance, com qualidade questionável e com uma fragmentação irresponsável.

É isso que fez com que Sposati (1995) afirmasse a existência do componente “assistencial, como mecanismo presente nas políticas sociais” (p.30). O componente assistencial presente nas políticas sociais desloca o direito e reitera o usuário como assistido, beneficiário, ou favorecido. Isso quer dizer, que o cidadão, neste formato de política social, não é reconhecido como tal, mas como um indivíduo que tende a receber um serviço público sem reconhecê-lo como direito, como público.

Desta forma, “a existência formal de direitos não garante a existência de um espaço público” e de uma “sociabilidade política que a prática regida pela noção de direitos é capaz de criar” (TELLES, 1999 p.71). Ou seja, o reconhecimento formal do direito, a despeito de sua relevância e importância não é condição suficiente para a sua efetivação. Especialmente quando somos uma nação em que a presença do autoritarismo fincou raízes fortes na imagem individual e coletiva de um Brasil (CHAUÍ, 2001) que se aquiesce e se submete as várias ações governamentais depreciativas dos direitos dos cidadãos.

Por isso, o caminho que vai do direito formal a efetivação deste pode ser entrecortado com atalhos e desvios que acabam confiscando o direito social, seja porque os instrumentos construídos para dar operacionalidade ao direito (leis, decretos, burocracia institucional, procedimentos operativos, e outros) podem dificultar o acesso em vez de torná-lo exeqüível, seja porque o campo institucional em que o direito é operacionalizado pode formar um processo de ressocialização em que a sociabilidade realizada pelo usuário acaba submetendo-o conformadamente ao poder avassalador da instituição para que ele não perca o “direito” ao serviço oferecido.

 

3. Descentralização e Controle Social: entre o ideal e o real

O movimento democratizador que precedeu a Constituição Federal de 1988 foi produto de uma intensa mobilização de diferentes segmentos sociais, que procuravam sedimentar no processo constituinte propostas de cunho democrático. As organizações da sociedade civil que participaram intensamente do processo da constituinte brasileira traduziram a conjunção de lutas que amadureceram qualitativamente e se ampliaram quantitativamente desde o regime militar.

A unificação das demandas localizadas se fez ao redor de setores problemáticos do social. Embora houvesse um cruzamento intenso de formas organizacionais de setores das camadas médias (lutas das mulheres, dos estudantes, dos ecologistas, dos negros etc.) com setores das classes populares (lutas por equipamentos coletivos, bens e serviços públicos, pela habitação e pelo acesso à terra), havia alguns denominadores comuns: a construção de identidades através das semelhanças pelas carências; o desejo de se ter aceso a direitos mínimos e básicos dos indivíduos e grupos enquanto cidadãos; e fundamentalmente, a luta contra o status quo predominante: o regime militar (GOHN, 1991, p. 13).

A construção de uma identidade comum, a partir das carências sociais, de certa forma, embasou o esforço em torno da luta pela consolidação de direitos básicos do cidadão, voltados a gravar na nova Constituição Federal os fundamentos de uma moderna cultura social: a cultura dos direitos sociais.

Assim, a atual Constituição brasileira, enquanto produto de interesses conflitivos, em decorrência das pressões organizadas de grupos, instituições e segmentos identificados com os interesses populares, trouxe para a esfera legal a consolidação de diversas reivindicações das classes populares.

Em que pese o congresso constituinte ter sido marcado por um perfil conservador, observou-se que este incorporou (sob pressão) demandas e reivindicações democráticas. De certa forma legislaram sob o signo de um novo tempo. Por isso, a Constituição de 1988 inaugurou medidas importantes como na Seguridade, na Assistência Social, na Criança e Adolescente, e outros.

Outro importante destaque na Constituição Federal foi o reconhecimento formal do município como ente da federação (Municipalização). O município foi reconhecido como lugar onde se desenvolve o “viver das pessoas” (JOVCHELOVITCH, 1998). Desta forma, as políticas sociais municipais públicas (saúde, educação, Assistência Social) deveriam ser orientadas para contemplarem a participação municipal, assegurando a presença da sociedade local na formulação e no controle social.

Por isso, dentre as conquistas estabelecidas na Constituição de 1988, destaca-se o ganho significativo em torno das lutas municipalistas que conseguiram garantir que os municípios ultrapassassem a condição de elementos passivos frente às determinações do governo central.

É possível especular sobre quais objetivos orientaram as expectativas descentralizadoras e municipalizadoras na Constituição Federal: 1. Elas buscavam aproximar o poder político das reivindicações da sociedade local; 2. Pretendiam descentralizar e simplificar a estrutura burocrática que engessa as ações do governo; ou 3. Ambicionavam democratizar o poder público assegurando a participação popular na gestão municipal?

Esses objetivos apontaram para uma inferência: os constituintes sugeriram, com a descentralização, a superação de práticas governamentais totalitárias e, ao mesmo tempo, a construção de uma nova cultura política ancoradora de uma gestão democrática.

Abandonar a velha tradição totalitária e construir uma cultura democrática é um grande desafio de toda a nação, pois descentralizar e municipalizar são matérias de natureza política, e como tal, envolvem em seu debate interesses divergentes e contraditórios, pois dizem respeito a questão do poder. Portanto, esse debate mexe com a cobiça maior dos partidos e dos políticos que não querem dividir poder para não perder os benefícios já “naturalmente” oriundos deste poder.

Desde a promulgação da Constituição até os dias atuais existe uma tensão posta entre o reconhecimento do município como ente da federação e a permanência de um centralismo federal exacerbado nas decisões políticas que retarda a emancipação municipal. Isto porque, a descentralização precisa ser vista como um processo, o que se constitui em um desafio no tocante à construção de estratégias de contraposição ao centralismo federal.

No entanto, existe um paradoxo posto em relação à descentralização, pois esta é defendida tanto pelos movimentos sociais, quanto pelos governos locais, regionais e central! Qual é o paradoxo? A resposta está justamente na natureza dos objetivos, da finalidade e da compreensão de que descentralização se quer alcançar. Isto é importante para não se cair na crença de que se fala a mesma linguagem e que todos os defensores da descentralização tem as mesmas aspirações.

O governo defende a descentralização principalmente porque a concebe como um modo de aumentar a eficiência e a eficácia do gasto, já que aproxima problemas e gestão, aumentado a interação, no nível local, dos recursos públicos e não-governamentais para o financiamento das atividades sociais. Enfim, amplia a utilização de formas alternativas de produção e operação dos serviços mais facilmente organizados na esfera municipal (DRAIBE, 1990; ARRETCHE, 2000). Como resultante dessa defesa, desenvolve-se a argumentação em favor da focalização, como direcionamento dos gastos sociais com programas e públicos que são seletivamente escolhidos pela sua maior necessidade e urgência.

Outra defesa em favor da descentralização se efetiva na argumentação de que o deslocamento da produção de bens e serviços públicos para o setor privado lucrativo deveria aliviar a crise fiscal, fortalecendo, desta forma, a distribuição de bens e serviços públicos para o setor privado não-lucrativo, composto por associações de filantropia e organizações comunitárias, ou ONG’s  - privatização (DRAIBE, 1990).

Por isso mesmo, no Brasil, particularmente a partir da década de 90, as ONG’s “passaram a enfatizar as políticas de parceria e cooperação com o Estado, destacando que estão em uma nova era onde não se trata mais de dar costas ao Estado, ou apenas criticá-lo, mas de alargar o espaço público no interior da sociedade civil” (GHON, 1998, p.16).

Assim, o “eixo articulatório que passou a fundamentar o princípio da participação nos anos 90 é dado pelo princípio da solidariedade ao redor de causas com as quais se identificam” (Idem, p. 18), como carências sociais, problemas ambientais e outros. Desta forma, a solidariedade, o voluntarismo e a parceria passaram a ser palavras de ordem na relação Estado x Sociedade que começou a ser gestada.

Na realidade a descentralização defendida pelo governo e por alguns políticos da direita significa realmente desconcentração, pois transfere responsabilidades para os municípios sem dotá-los de condições para que este possa cumprir com suas funções de gestor das políticas públicas a nível local (ARRETCHE, 2000; IBARRA, 2000; UGA,1991).

Entretanto, descentralizar significa o deslocamento de poder, com o custeio necessário para que os municípios possam gerir suas próprias políticas públicas para a maioria. Por isso, descentralizar implica em um processo que fortalece as estruturas político - administrativa locais efetivarem a formulação das políticas de natureza local.

Descentralizar implica também em fortalecer a autonomia do poder local que é formado pelo poder econômico local (conjunto de setores capitalistas cuja lucratividade depende das ações de regulamentação e de produção levadas a efeito pelo poder político local); pelo poder social (as elites locais se erigem como poder social, no sentido de influir em decisões municipais, tendo como base material um conjunto de instituições próprias como associações empresariais, de profissionais liberais, clubes esportivos e de serviços, meios de comunicação de massa local. Os movimentos sociais: formado especialmente pela carência comum - sindicatos, associações de moradores); e pelo governo local em si (onde se concentra o exercício da maior parcela do poder político local).

Conhecer a constituição do poder local pode oferecer boas pistas para a efetivação do processo de descentralização e municipalização, pois é preciso se levar em conta os diversos atores constitutivos do poder local nos momentos de formar alianças e saber contra ou a favor de que projeto se deve lutar.

Nesse sentido, um elemento central para a descentralização, numa perspectiva democrática, é a efetiva participação social. Esta não pode ser confundida com o formato da adesão consentida que tradicionalmente foi forjada em nas políticas sociais brasileiras.

A participação, no plano constitucional, é garantida por meio de mecanismos de controle social sobre as políticas públicas com a criação dos conselhos de políticas públicas. É a instituição da democracia participativa como meio legtítimo de expressão da cidadania e da democracia.

[...] a constituição estabelece bases jurídicas para a construção de um novo formato de cidadania, agora contemplando o ramo social como direito do cidadão e dever do Estado. Mas não apenas isto, agora a cidadania política transcende aos limites da delegação de poderes da democracia representativa e, expressa-se através da democracia participativa, através da constituição de conselhos paritários, que se apresentam como novo lócus de exercício político (CAMPOS e MACIEL, 1997, p. 145).

O canal de participação legalmente constituído para o exercício do controle social das políticas sociais é o Conselho de Políticas Públicas. Este deve ser constituído nas esferas da União, estado e município. No caso da política públicas da assistência social, o artigo 6º da Lei Orgânica de Assistência Social (Lei 8.742 de 07/12/93) dispõe que:

As ações na área de assistência social são organizadas em sistema descentralizado e participativo, constituído pelas entidades e organizações de assistência social abrangidas por esta lei, que articule meios, esforços e recursos, e por um conjunto de instâncias deliberativas compostas pelos diversos setores envolvidos na área.

Os Conselhos são espaços privilegiados para o exercício político, uma vez que representam, do ponto de vista da lei, uma iniciativa que possibilita o estabelecimento de novos fóruns de participação e novas formas de relacionamento entre o Estado e a sociedade civil. Os Conselhos são investidos de prerrogativas deliberativas e fiscalizadoras. Conforme o artigo 16 da Lei Orgânica, “As instâncias deliberativas do sistema descentralizado e participativo de assistência social, de caráter permanente e composição paritária entre governo e sociedade civil, são os conselhos”.

A experiência proporcionada pelos Conselhos de Políticas Públicas impõe um processo ao mesmo tempo dinâmico e contraditório acerca da fiscalização das políticas sociais. Isto porque, a relação entre sociedade civil e Estado adquiriu, em tese, novos contornos e novos conteúdos. Essa nova relação exige uma participação ativa por parte da sociedade civil organizada. Entretanto, como processo histórico, a participação social sempre se realiza em um contexto sócio-econômico, político e cultural amplo em que diferentes forças sociais compõem o desenho e a moldura da forma e intensidade da participação realizada em determinada realidade social.

Pensar o Conselho Paritário como “lócus” do fazer político, é pensá-lo como espaço contraditório. Como uma nova modalidade de participação. Diz respeito a um formato de exercício democrático que questiona, tanto a tradição elitista do fazer político no âmbito da sociedade quanto sugere repensar as práticas de precária experiência democrática, predominantes na sociedade civil (CAMPOS e MACIEL, 1997, p. 150).

Desta forma, os Conselhos de Políticas Públicas ensejam a oportunidade de agregar novas formas de participação cidadã para além da democracia representativa, e assim ampliar a experiência de cidadania que passa a requerer, tanto do governo quanto da sociedade civil, a superação de práticas de delegação que não se sustentam em uma representação legítima oriundas de processos de delegação pouco democráticos.

Por isso, as funções deliberativa e controladora impõem aos Conselhos de Políticas Públicas um importante papel na construção e consolidação de experiências de democracia participativa nas políticas sociais. Não obstante, existem óbices muito fortes a instituição das funções deliberativa e controladora dos Conselhos de Políticas Públicas.

A presença do autoritarismo em nosso país, por exemplo, encontra fundamento dentro da nossa própria história sócio-cultural (CHAUÍ, 2001), que tende a se constituir em uma verdadeira trincheira de resistência do conservadorismo às novas estruturas das políticas públicas pós-constituição de 1988.

Esse autoritarismo criou, entre outras coisas, um conjunto de justificações ideológicas para que sua ação encontra-se um ambiente cultural que o legitimasse. É por isso que a sociedade, vez por outra, é tachada de amorfa, débil, incapaz de se organizar, incompetente de se auto-gerir. Com base nessas justificações, o governos brasileiro, em suas diferentes instâncias (União, Estados e Municípios), tendeu para a constituição de um modelo de gestão que tutelou os indivíduos por considerarem a população incapaz e incompetente.

Paradoxalmente, esse mesmo modelo de gestão pouco democrático do governo tendeu a se tornar um paradigma de gestão também para a sociedade civil, uma vez que ela passou a incorporar em sua organização, via de regra, o formato da hierarquia, o modelo centralizador de decisão, a representação sem legitimidade, nas suas próprias estruturas de funcionamento.

Por isso, não é incomum encontrar organizações da sociedade civil que funcionam dentro de uma dinâmica que, a despeito do discurso cidadão, não fomenta um ambiente democrático, ou seja, que tendem mais a deformar o cidadão em sua cidadania do que estimulá-lo em sua potencialidade participativa e atuante politicamente.

Essas situações podem ser observadas em várias áreas da sociedade civil como em associações de moradores, em organizações que representam segmentos sociais vulnerabilizados ou que representam categorias profissionais em que as práticas sociais dentro delas se aproximam dos comportamentos privatistas adotados historicamente pelos diferentes governos no Brasil. Tendem a ser espaços privados embora estejam vocacionados, em sua origem, a uma ação pública e também a serem um espaço público.

A luta pela reversão dessa situação, somente poderá ter alcances mais significativos se o foco das ações sociais dos movimentos populares, de trabalhadores, dos segmentos sociais diversos, ocorrer em favor de uma experiência republicana que realize um Estado efetivamente público. Essa experiência republicana precisa ser solidificada nas práticas sociais desenvolvidas no exercício cidadão em diferentes ambientes sociais em que os indivíduos atuam.

Isto porque a tradição de autoritarismo e de elitismo subtrai a participação como componente do fazer-ser cidadão e sustenta a institucionalização da lógica privatista dos diferentes espaços públicos. Mesmo em correlações de força a favor da classe trabalhadora, a preservação de práticas autoritárias e elitistas mantém uma sinergia em favor do não direito, da não cidadania.

De certa forma, essa tradição colabora para uma experiência associativa frágil em solo brasileiro. Por isso mesmo a presença de organizações da sociedade civil na maioria municípios tende a ser fraca seja em termos de quantidade e diversidade, seja em termos de qualidade da participação ensejada pelas organizações de matriz filantrópica e caritativa.

Outros elementos também obliteram a realização de um processo democrático à efetivação das funções de deliberação e controle social dos Conselhos de Políticas Públicas. Uma vez que os Conselhos estabelecem um novo paradigma para a relação entre Estado e sociedade civil, as experiências até então existentes nesses Conselhos* permitem identificar dois vetores que influem na atuação destes: o desconhecimento dos objetivos e funções do Conselho por parte dos seus membros; e a desqualificação dos atores que atuam como Conselheiros.

Esses vetores tendem a produzir um conjunto de equívocos muito comuns. Primeiro, o Conselho é visto como um espaço sem contorno, sem fronteiras, como palco de todos os sonhos e devaneios de quem está fazendo parte do mesmo. Segundo, o conselho é compreendido limitadamente a ações restritivas, devendo estar a serviço de particularismos secundários, o que limita e restringe sua ação política.

Terceiro, o Conselho tende a ser confundido ou como uma confraria de amigos, ou como um palco de discórdia em que os membros deixam escapar a finalidade maior deste de atuar em favor de deliberar e controlar uma determinada política setorial. Portanto, os membros do Conselho deveriam, em tese e apesar dos interesses conflitantes, exercitar o diálogo e o aprendizado democrático em favor da política destinada a todos os cidadãos.

Como correlata do terceiro equívoco, é comum encontrar uma participação social operada por conselheiros que valorizam fins individualistas ou corporativos que, na prática, obliteram a construção de uma política pública voltada para a maioria.

Um componente adicional nas dificuldades existentes para o exercício da função deliberativa e controladora dos Conselhos de Políticas Públicas está relacionado ao seu funcionamento operativo. Esses Conselhos tem uma autonomia legalmente instituída, no entanto, estão vinculados aos órgãos do poder executivo que respondem pela gestão da respectiva política setorial.

Esses órgãos são responsáveis em dotar os Conselhos de Políticas Públicas das condições institucionais: infra-estrutura, recursos e outros, necessários ao seu funcionamento. Embora os Conselhos deliberem e controle a gestão dos recursos, não são ordenadores de despesas, mesmo que a sua manutenção esteja especificada em rubrica própria na Lei Orçamentária da esfera governamental a ele relacionada.

Para funcionar os Conselhos precisam dispor de uma infra-estrutura mínima que envolve espaço físico, equipamentos, pessoal técnico e administrativo, e outros que forem necessários. Desta forma, não é incomum encontrar Conselhos que funcionam de forma precária, com ausência de espaço e equipamentos mínimos, ou de profissionais qualificados.

Essa situação oblitera o desempenho das funções dos Conselhos que, tendem a ser pressionados pelas próprias exigências das normatizações das políticas setoriais são obrigados a acessarem a internet para aprovarem on-line a prestação de contas dos gestores governamentais, como já ocorre na saúde e na assistência social. Outra exigência normativa presente na área da assistência social e da criança e do adolescente diz respeito ao registro e a fiscalização das entidades prestadoras de serviços socioassistenciais a população. A ausência de corpo técnico impede os Conselhos de operarem adequadamente as funções citadas, uma vez que os Conselheiros tem função política que, para ser bem executada, precisa ser respaldada por pareceres técnicos que avaliam criteriosamente as condições e os requerimentos solicitados aos Conselhos.

Outro elemento que soma aos processos que dificultam a efetividade dos Conselhos está relacionado ao próprio funcionamento administrativo e organizacional destes. Não é incomum, por exemplo, as reuniões com pautas importantes e delicadas serem convocadas sem respeitar um período mínimo de tempo que permitiria o Conselheiro discutir a pauta com os membros da organização que representa para qualificar o debate e a posição que será defendida e deliberada no colegiado do Conselho.

Essa prática esvazia a participação política dos Conselheiros uma vez que, pressionados pelo discurso da urgência do assunto e da deliberação, são impedidos de poderem aprofundar a discussão e a posição política a ser defendida no pelo no Conselho.

 

4. Considerações Finais

A proposta da descentralização e do controle social, em termos legais, propõe um caminho inovador para as políticas públicas brasileiras. Permitem, em tese, a maior presença do cidadão na fiscalização dos recursos e da gestão das políticas setoriais. Uma presença que pode influir significativamente na agenda do governo em relação as prioridades e as metas a serem desenvolvidas nas áreas compreendidas pelas respectivas políticas.

Essa maior presença e influência na agenda governamental requisita um exercício democrático que prescinde de uma qualificação dos atores que representam a sociedade civil organizada, como também de uma disposição política para a gestão democrática por parte do atores governamentais.

Esse exercício, na realidade, está em construção histórica, uma vez que a sociedade brasileira não tem uma experiência republicana que instituiu a cidadania e a democracia como prática social cotidiana nos diferentes espaços sociais em que os brasileiros atuam.

Quanto a descentralização das políticas públicas, é importante destacar que a diversidade geopolítica dos municípios brasileiros tende a não ser considerada na implantação dos processos de descentralização das políticas setoriais. A descentralização de competências e responsabilidades para os municípios não estão sendo acompanhadas por uma correspondente descentralização de recursos que financiaria as políticas locais para a construção de propostas efetivamente pautadas nas características do território local. Essa situação tende a manter os municípios prisioneiros dos programas federais que, centralizados, se tornam os meios para acessarem os recursos financeiros existentes para a realização de ações setoriais.

Acresce-se também um dilema referente a questão socioeconômica: embora os municípios sejam responsáveis pela elaboração e execução de políticas setoriais destinadas a garantia de direitos sociais da população local, até onde se estende a responsabilidade dessa unidade da federação quando os efeitos sociais sentidos no local são gerados por decisões macro-econômicas em que o município não tem influência.

Carlos Alberto Batista Maciel*

* Assistente Social, Doutor em Sociologia e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Pará.

 

 

 

 

Referências

 

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