
Ai ai ai...
Eram 18:30 e eu estava tomando banho, sábado, senti-a que aquela noite ia ser muito especial. Sai do banho, estava frio, meus pés sempre foram muito gelados, e desta vez estavam anda mais. Olhei-me no espelho (me odiei no espelho, afinal quem me conhece sabe, o quanto sou desprovido de beleza) me enxuguei e ao sair pela porta do banheiro chutei sem querer o marco da mesma só com o dedo mínimo do pé esquerdo. Cara não foi fácil, senti que meu dedo havia sido arrancado fora por causa do frio, me doeu até o joelho. Sentei em uma cadeira da cozinha e fiquei espraguejando. Depois de gastar todo o meu repertório de palavrões (o que não foi pouco), fui mancando até o quarto, e daí sim foi bonito. Calça nova, camiseta do Jethro Tull e paletó do Pink Floyd sem contar é claro de um perfuminho, pois sabia que para onde eu estava indo haviam visitas femininas lá do estado de Santa Catarina (nunca se sabe né?). Meu irmão ficou me olhando da porta do quarto e disse:
-- Ué? Quer enganar quem se arrumando todo assim?
Eu respondi
-- Nunca se sabe né bródi to com um ótimo pressentimento hoje.
-- Humm, e quem é a vitima?
-- Não sei não conheço.
-- Tu és louco mesmo, se arruma todo assim pra ir ver quem você nem conhece.
-- Como eu disse nunca se sabe. E eu estou me sentindo bem mesmo hoje. Sabe? Ótimo pressentimento. Sei lá alguma coisa vai acontecer.
-- Bom se você ta dizendo. Quer uma fumada?
-- Claro.
Dei uns tapinhas no cigarro de ervas dele, e fui até a Marta. (Fica aqui um parênteses sobre a Marta. A Marta é minha bicicleta, Linda ela, na cor prata com pedais de alumínio e toda vaidosa. Um grande amor na minha vida) Ai então sai, eu todo arrumado e a Martinha orgulhosa por eu levar ela pra passear estando arrumado e cheiroso. Pedalei até o Bairro do Boi Morto aqui em Santa Maria, Local onde mora um dos meus irmãos o Elisandro. Alias as moças de Santa Catarina, são sobrinhas da esposa deste meu irmão. Demorou uns 20 minutos e cheguei em frente a casa dele. Quando desci da Marta ouvi o barulho de algo grande e pesado correndo, um cachorro enorme, parecia mais um terneiro atacou-nos ele latia e babava muito e por causa do frio saiam jatos de fumaça de sua boca e narinas, a visão do inferno. Se não fosse a dureza da marta (e talvez a sua falta de gosto) este que vos escreve não mais estaria a contar este conto. Passado o susto, entrei no pátio e encostei a Marta em um lugar onde ela fica-se confortável (afinal havia cometido um ato heróico). Bati na porta e meu irmão me recebeu:
-- E ai Julian? Beleza cara? Que bom que você veio.
-- Qual nada cara você sabe que eu adoro vir aqui. Tem bebida?
-- Claro tem um monte as “gurias compraram umas garrafas de Vodka.”
-- Beleza, cadê elas?
-- As meninas ou as garrafas?
-- O que estiver mais próximo.
Nisso fomos interrompidos pela esposa dele que veio pra me cumprimentar
-- Oi meu querido
-- Oi minha linda, como está hoje?
-- Estou bem. Que bom que você veio. Ela me disse, e eu respondi:
-- É sempre um prazer, uma boa companhia, bebida e um bom papo.
-- Com certeza, vamos ali na sala quero te apresentar minha sobrinha.
E eu respondi
-- Ok baby vamos nessa.
Foi quando aconteceu...
A vi pela primeira vez, ela estava sentada no sofá com as pernas erguidas nele de calça de abrigo e camisetinha folgada, cabelo vermelho curto e encaracolado. A pele dela parecia neve branca e era totalmente uniforme. Senti que não estava mais ali, me deu algo estranho no estomago. Como se eu estivesse olhando dentro de um cano e só ela aparece-se na outra ponta. Acho que ali senti o que talvez seja o amor. Acho, porque ainda não li nenhuma descrição sobre amor suficientemente convincente para que eu o entende-se, nem tão pouco consigo descrever o que eu acho que seja (outra hora eu tento). Mas acho que a sensação era aquela.
Meu irmão nos apresentou:
-- Julian esta é a Rafaela, Rafaela este é o Julian Alcohol, meu irmão que eu tinha te falado.
Fiquei com vergonha e disse:
-- Prazer...
E ela respondeu
--Prazer...
Viram como o meu dialogo foi de uma pessoa totalmente abobada. Eu devia ter dito algo mais elaborado do que “Prazer”. Pensando bem agora achei até bem sacana. “Prazer”. Não que ela tenha gostado.
Dei então 3 beijinhos em seu rosto. Não lembro de ter beijado algo tão gratificante quanto aquela pele branca e suave. Pareciam as bochechas da minha irmãzinha quando a beijava. Apenas um pouco mais geladinho, mas isso, eu penso, deve-se ao frio.
Ela sentou-se novamente, e não me olhava, eu de quando em vez dava uma olhadela e ela estava a me olhar, mas quando eu a colocava na mira ela virava o rosto para outro lado bem ligeiro. Tomei a iniciativa e perguntei pro Elisandro:
-- E a bira moçada?
Já estava nervoso, afinal estava ali já a algum tempo e ainda não tinha aparecido nada para beber.
E a Rafa me ajudou:
-- É tio, e a bira?
Ele respondeu:
-- Já vai, já vai.
E saiu para arranjar algo para bebermos. Eu automaticamente pensei: - Agora sim vou ficar aqui com essa gata e vou tentar uma aproximação. Mas, parece que ouviram o meu pensamento, pois em instantes apareceu a Irmã da Rafa e a Prima. Prima esta que eu já conhecia.
-- Oiiii Julian... Tudo bem contigo?
Como as pessoas gostam de perguntar isso já repararam?
-- Tudo bem Gata. Eu respondi e dei um abraço nela.
-- Ó Julian esta é a Rê, irmã da Rafa, que acho que você já conhece.
-- Felizmente sim. Respondi.
Reparei que a Rafa ficou um pouco sem jeito. Abracei e dei 3 beijinhos na Rê. Cabe aqui um parênteses sobre a Rê. Sabe aquele tipo de pessoa que sempre que você olha esta sorrindo com toda a força que tem. É incrível pois toda a vez que eu olhava pra ela estava com os olhos quase que completamente fechados e toda a boca aberta. Pessoa de um sorriso encantador.
A Rê levantou e foi ajudar o Elisandro a fazer a bira então a Rafa também levantou, mas foi para o quarto com a prima.
Sentamos todos na garagem da casa em um circulo e começamos a trabalhar na birita. Um Abacaxi sem o seu interior cheio de vodka, gelo e açúcar tomado com uma bomba de tomar chimarrão. Estava delicioso. Já tínhamos tomados umas três servidas quando ela apareceu de novo. E daí sim eu tomei um abalo tremendo, uns 7 graus na escala Hitcher. Ela havia se arrumado. Estava com uma calça jeans azul coladinha, uma blusinha verde, e com o cabelo meio bagunçado. Olhou-me e eu gelei. Ficou na cara que eu estava babando. Gostaria de deixar claro que eu até o momento não havia creditado a possibilidade de uma Gata daquelas pensares em um dia, talvez dar bola pra mim. Contrariando a normalidade, ela veio e sentou do meu lado.
Seguimos tomando aquela Vodka e conversando. Lá pela 4º garrafa a galera começou a me olhar estranho. E a largar indiretas do tipo:
-- Iiii, acho que vai rolar.
Sabia que falavam de mim.
E eu meio sem jeito, pois não acreditava que uma gata daquelas poderia estar dando bola para uma pessoa tão desprovida de beleza como eu (Sério gente, sou feio mesmo). E sério mesmo, juro que não acreditava que ela estaria dando bola pra mim. Mas de repente pensei, o momento, perdê-lo-ei (rimou) se não fizer algo logo. Então disse uma bobagenzinha qualquer (acho que citei um Oscar Wilde) e ela que estava sentada ao meu lado encostou sua testa na minha e ficamos rindo e nos olhando por alguns segundos. Ao tentar beija-la ela encostou a cabeça em meu ombro. E disse:
-- Você é demais. É muito fofo.
Eu respondi:
-- Você é que é. E a beijei como nunca tinha beijado ninguém em minha vida.
Acordei ao lado dela, depois da noite mais incrível que já presenciara (apesar de eu não me lembrar de todos os detalhes e ter sido induzido a imaginar outros por suas palavras e gestos mágicos) Ela então levantou e saiu para comprar cigarros. Fazem exatamente 7 meses.
Eu aqui sozinho, continuo feio e nunca mais a vi.