Surpreende-me e alegra-me a constatação de que em meio a tanto cérebro, dinheiro e desencontros ainda existam pessoas capazes de perceber o outro, pessoas sensíveis aos sentimentos humanos. Alegra-me ainda mais o fato de eu fazer parte dos pensamentos de uma dessas pessoas, de ter sido inspiração a suas palavras, tão doces e verdadeiras.
Canto de um oaristo distante
Eu te busco nesta noite quente, não para
afugentar teu sono,
mas para olhar teus olhos na inexata
profundidade que quero.
Eu te burlo, querida,
e não te peço licença. Aliás,
ao que é árvore me lanço verde
e me sustento no que é sorriso, apesar
de tantas paredes.
Os minutos de hoje não foram
os de ontem, enegrecidos diante
da turba da indiferença
sadia
que passava em nossa frente.
Os minutos de hoje são
os instantes do amanhã solar, cremoso e em
especial reserva refrescante e bloqueadora.
Por vezes me lanço,
âncora,
ao teu recinto de águas,
e sinto o líquido anímico de tuas puras
distâncias...
Como é bom senti-la, querida, mesmo
se tarde
for esse meu apego em delírio
e gozo. Não te entendes dos homens
insensíveis,
e como isso me é dor!
Não te entendes das ilusões e das máscaras,
porque em ti não há máscaras. Eu sei...
Mas te busco,
mesmo em nefasta aventura
de não poder com tua fuga.
Mas eu te burlo em não
fraudar-te em enganos e furtos.
A ninguém é dado o direito do surrupio
de sentimentos.
E teu sentimento é rio, e nele
as gralhas dançam em veneração.
Olhe,
querida, olhe o alto moinho a rodar
a hélice do tempo
e espera,
calmamente, como quem espera o fim
do imorredouro estio,
que o vento, esse deus de forças
e magias,
renderá os devidos votos de alegria
e correspondência
de que tanto mereces.
Mas, por enquanto, fica comigo.
Fica no meu poema inscrito no ângulo da luz,
que ele necessita do teu arcano
para iluminar!
Fica!
E não te vais em lâmpadas
a deixar-me no escuro
dos sentidos. Fica, querida, que ainda há
homens
em contemplação eterna do que é impulso;
que ainda há
homens
que te beberão em seca sede o futuro
de tuas acéquias, de tuas ilhargas
e de teus morangos.
Caminha o lume de cada elaboração
divinamente quista, que teu barco sôfrego de mulher
que me apareces não tombará em desnavios.
Peço que venhas, pois nas noites de frios
doentes
guiar-te-ei em amavios.
Germano V. Xavier













