
Ultimamente tenho percebido uma preocupação constante da mídia em tratar sobre preconceito. Motivados por temasdiferentes – em alguns lugares se concentram na diferença religiosa, noutros nadiferença racial ou ainda na opção sexual –, os debates acerca do preconceito eda discriminação são polêmicos no mundo todo. Apesar do direito de igualdadegarantido pela Constituição brasileira, é consenso que a prática desses crimes,mesmo velada, existe. Negros, brancos, pobres, índios, homossexuais, mãessolteiras, desempregados. Qualquer pessoa pode ser vítima deles. E não hálugares fixos onde podemos encontrá-los.
Digo isso por experiência própria. Já presenciei e sofri preconceitos por vários motivos, mas o principal foi por conta da minha condição socioeconômica. Empresas que nem se dispunham a me ouvir depois que eu dizia ser natural da Ceilândia ou colegas do IESB que me olhavam com cara feia (e continuam olhando) quando eu defendo a cultura nordestina ou o direito dos moradores das satélites irem e virem à Brasília quando bem entenderem sem serem rotulados de "Povão"(acreditem, até isso se discute. Algo que é uma garantia constitucional).
Há algumas semanas atrás, Nice,uma de minhas melhores amigas (negra, africana, jovem, linda, inteligente), e eu fomos a um restaurante famoso na 210 Sul. Chegamos um pouco antes do horário que normalmente serviam o almoço e, enquanto esperávamos os funcionários terminarem de dispor as comidas, começamos a discutir acerca de pesquisas de opinião. Nice aproveitou, perguntou a uma garçonete se era permitido fumar naquele local e, com a devida afirmativa da funcionário, sacou seu cigarro Cammel, fumando tranqüilamente. Quando terminou de dar suas pitadas, fomos almoçar. Depois de uns 40 minutos, o garçom nos abordou em nossa mesa, afirmando que um dos clientes tinha sentido o cheiro de cigarro e pediu para que minha amiga parasse de fumar. Detalhe: o cigarro dela já estava apagado há quase uma hora. Havia mais umas quatro mesas com pessoas brancas fumando. Fiquei tão indignado na hora, chamei a atenção do garçom e pedi que ele levasse um recado um pouco feio àquele cliente. Nice, coitada, ficou encabulada. Mas me perguntou: "Será que me interceptaram porque sou negra, mulher ou jovem?".
Situações como estas mostram que o preconceito ainda existe em nossa cultura. Pessoas "de classe" não aceitavam o fato de uma negra estar no mesmo restaurante que eles. Me senti na França contemporânea, neo-nazista, onde os filhos de imigrantes africanos, franceses natos, vivem em guetos, à margem da sociedade. Se bem que nem precisamos sair de Brasília pra ver estes exemplos de exclusão.
Não consigo entender como as pessoas podem discriminar alguém por conta de raça, religião (ou falta dela), sexualidade, gênero... enfim... não somos todos iguais? Não consigo entender como a mesma igreja que ensina o amor ao próximo tem a cara-de-pau de condenar os homossexuais ao inferno. Usam o discurso: "Eu te aceito como você é, mas você tem que mudar suas práticas". Afinal de contas, Jesus não veio para dar significado à palavra amor? Eu não encontrei passagem alguma na Bíblia onde Ele tenha apontado o dedo na cara de um excluído (seja gay, escravo, prostituta) e tenha dito: "Você vai pro inferno! Você é um pecador". Mais uma vez entra em cena a prepotência humana de querer ser Deus ou um de seus representantes. Pastores e padres que julgam e condenam os diferentes ao fogo eterno. Afinal de contas, quem não é diferente? Será que somos todos uma massa? Uma coisa só?
Esse tipo de situação me deixa muito entristecido. Enquanto não ensinarmos nossos filhos, irmãos, familiares, amigos, enfim... todos que nos rodeiam que o diferente também é bonito; que o diferente também é inteligente (tem gente que acha que é perfeita só pelo fato de não ser negra ou pobre); e que o diferente também é gente e merece ser respeitado, não conseguiremos mudar esta realidade que tanto nos envergonha.
Portanto, lembre: Não se escolher ser branco, negro ou amarelo. Não se escolher hétero, homo ou bi. Não se escolhe ser rico ou pobre. Mas se escolher ter bom caráter ou não. Se escolhe respeitar ou não. Se escolhe trabalhar ou buscar um novo emprego.
Cor, Sexualidade e Situação Socioeconômica estão fora do poder de escolha. Logo devemos apenas respeitar. Afinal, todos nós temos teto de vidro.















