jbcardoso
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segunda, 28 julho, 2008
AS PROMESSAS

Carlos sentia-se mal sempre que via a mãe chegando em casa com as trouxas de roupas de pessoas que ela mal conhecia para lavar e ganhar poucos trocados e assim sustentar a ele e ao irmão menor. Por isto, decidiu conseguir um emprego, afinal já tinha quinze anos e desde que o pai sumira, se sentia na obrigação de ajudar a mãe. Mas a decepção era maior a cada dia. Num lugar a resposta era: “Tu ainda não tem experiência”. Em outro: “Puxa, tu mora meio longe, né?”. Ou ainda: “Não temos vagas no momento”.

 

Ele sabia que outros fatores influenciavam: Não havia concluído o ensino fundamental, morava em uma vila famosa pela violência, sua cor não era nem branca nem preta, entre outros. Sabia de amigos que estavam ganhando dinheiro fazendo coisas erradas, mas ele sempre preferiu ouvir a mãe e procurava não se envolver com o pessoal barra-pesada da vila.

 

Um dia, voltando das recusas de emprego, um amigo lhe chamou: “Carlinhos, como vai,cara? Anda sumido”. Ele parou para conversar e descansar, pois a subida do morro era trabalhosa. “Eu to procurando emprego, mas ta difícil”. O amigo chegou perto: “Eu tenho um bico pra ti. Ta a fim?”. Mesmo desconfiado, responde: “Só se não for uma fria. Eu sei que tu anda metido nos rolos de droga”. O amigo abre um sorriso: “Claro que eu não vou te meter em fria. Vem aqui hoje, pelas sete da noite. Serviço fácil. Cinquentinha garantido”. Carlos responde: “Cinqüenta? Tudo bem, vou pensar. De repente eu venho ver qual é”.

 

Quando chegou em casa encontrou a mãe preocupada com o irmão pequeno doente. Uma das clientes das roupas não havia pago e ela não tinha dinheiro nem para levá-lo ao médico. Resolveu aceitar o convite do amigo. Quando saiu avisou a mãe: “Vou ver um negócio aí. Parece que consegui um serviço”.

 

Carlos foi ao encontro do amigo, que lhe perguntou: “Tu sabe pilotar moto?”. Surpreso respondeu: “Eu até sei, mas não tenho carta, sou de menor”. O amigo o tranqüiliza: “Tudo bem, é aqui perto. É só levar este pacote neste endereço, pegar o dinheiro e me trazer” falou entregando um embrulho e um papel. Carlos pegou a moto e saiu, só pensando no dinheiro que ganharia.

Havia recém saído da vila quando avistou a viatura, e um policial fazendo sinal para parar. Lembrou que não tinha carteira, e se parasse não poderia entregar a encomenda e não receberia o dinheiro. Resolveu tentar passar direto. De repente ouviu um estampido. Em seguida outro.

 

Ela só conseguiu adormecer depois que a febre do pequeno diminuiu, por isto assustou-se quando ouviu as batidas na porta. Quando abriu e viu o homem fardado teve um estranho pressentimento. “Desculpe acordá-la senhora, mas Carlos de Santana é seu filho?” “É sim...” disse ela quase em desespero, ainda sem saber porque. “Ele se envolveu em uma ação da Polícia Militar e precisamos que a senhora nos acompanhe”.

 

O corpo caído ao lado da moto e um soldado falava para um oficial: “Foi como eu falei, tenente. O rapaz não obedeceu meu sinal, quando ele passou por mim, eu atirei para cima, mas mesmo assim ele não parou, então atirei nele”. O tenente coloca a mão no ombro do soldado e fala: “Eu sei que tu fez o certo. Tem cocaína naquele pacote. O difícil vai ser explicar isto para a mãe dele que está chegando. Me dê a sua arma”.

 

Ao lado da trágica cena, um outdoor carcomido pelo tempo ainda mantém em letras chamativas as promessas de um candidato em alguma eleição passada: “SEGURANÇA, SAÚDE E EMPREGO PARA TODOS”.



postado por 87801 as 12:36:32
quinta, 22 maio, 2008
Troca de Camisas

Julio César entrou esbaforido no hospital, ignorou o elevador, subiu as escadas de três em três degraus, avançou pelo corredor até a porta do quarto, de onde avistou Verônica deitada amparando o bebê com o braço esquerdo, pois o direito estava conectado ao soro fisiológico. Entrou no quarto com o sorriso que somente um pai que vai ver o filho recém nascido pode estampar. Beijou a mulher, olhou carinhosamente o menino, rostinho enrugado, meio inchado, dormindo tranqüilamente no braço da mãe. Depois de afagar a criança, pegou um pequeno pacote do bolso, abriu e tirou uma pequena toalha de rosto com o escudo do Grêmio estampado. Verônica quase não se surpreende: “Mas já? Não poderia esperar um pouco mais?”. O marido responde enquanto coloca a toalha ao redor da criança: “Eu não achei camiseta do tamanho dele. Comprei logo antes que o PC trouxesse uma camisa do Inter”.  A mulher tem um estremecimento ao ouvir o nome do amigo do marido, mas tenta se manter calma. JC – assim era conhecido – pega o celular e liga: “Alô, Paulo, o guri nasceu. Como tu vai ser o padrinho, tem que visitar hoje. Claro, vou ficar aqui até o fim da tarde. Ta bom, te espero”. “Não sabia que tu ia convidar o PC para padrinho” fala Verônica, tentando aparentar calma. “O cara é meu melhor amigo. Claro que tem que ser ele”.

           

Paulo César, o PC, entra no corredor do hospital ainda remoendo a idéia de ser padrinho daquela criança. Não poderia recusar, sob pena da verdade vir à tona. Quando entrou no quarto, cruzou com o olhar apreensivo de Verônica, mas controlou-se e cumprimentou o casal, enquanto acariciava o menino, que já se encontrava no pequeno berço ao lado da cama. Fixou-se nos traços da criança, procurando algum sinal revelador, mas concluiu que era muito cedo, podia se acalmar. Abriu um sorriso quando percebeu a toalha ao lado do bebê. “Já vai encaminhar mal o guri?” “Prefiro me prevenir”. E todos riram com a rivalidade de ambos.

           

PC e JC se conheciam há muito tempo. Jogavam futebol no mesmo time há anos, Paulo César um meia de ligação com muita visão de jogo, e Julio César um atacante definidor. A amizade entre ambos sempre foi muito forte. Os dois sempre se visitavam, com as esposas. Agora, como compadres, as visitas se tornaram mais freqüentes. Com o passar do tempo, PC percebe que o afilhado começa a apresentar alguns traços seus – as sobrancelhas, a orelha direita com uma pequena dobra – mas JC nunca tocou no assunto. Até que um dia, enquanto estavam no vestiário, ele deu a notícia ao amigo: “A Carmem ta grávida. Já tem dois meses e meio”. O amigo dá-lhe os parabéns, mas PC não percebe o leve sorriso que surge na boca de JC. Ambos entraram em campo para mais um jogo, e JC jogou com nunca, marcando quatro gols, e ainda deu passes para outros dois.

           

No dia em que foi comunicado do nascimento do filho, Paulo César chega no quarto, beija Carmem, acaricia o menino, pega o celular, liga para Julio César: “Nasceu o teu afilhado. Vem conhecer o futuro atacante do Inter”. Coloca o celular no bolso, finge não perceber o olhar aflito da esposa. Puxa o roupinha do bebê, e lá está aquilo que imaginava, mas que nunca poderá falar. Uma mancha escura no ombro direito. Igual à que JC tem. Recobre a criança, olha para Carmem e diz: “Antes que aquele gremista chegue, vou correndo comprar algo do Inter para o meu filho. Já volto”. Beijou a esposa e saiu.



postado por 87801 as 11:51:41
domingo, 13 abril, 2008
O Estrategista

O ESTRATEGISTA

Demóstenes era respeitado por ser muito eficiente. Seus planos estratégicos para a empresa geralmente eram bem sucedidos. Ele só não ficara rico na profissão porque se recusava a ser puxa-saco. “Tenho capacidade suficiente para ganhar bem sem me rebaixar”, pensava.

Um belo dia Demóstenes resolveu que iria planejar o futuro do filho. “Já que eu não enriqueci, posso fazer com que ele fique rico”, conjecturou. E dedicou-se por um bom tempo a elaborar o mirabolante plano, que ele chamou de “Futuro Rico”, uma dupla alusão ao apelido do filho Henrique e à situação financeira que o primogênito teria.

Quando entendeu que estava tudo bem esquematizado, chamou Rico e avisou: “Vou te arrumar uma noiva”. O rapaz tentou argumentar: ”Pai, eu tenho dezessete anos, não quero casar agora”. Demóstenes deu o golpe de misericórdia: “Mas a noiva é neta do Antonio Ermírio de Moraes”. O jovem arregalou os olhos e suspirou “Ah bom, se é assim”.

Foi complicado, mas passados alguns dias, conseguiu uma audiência com o empresário e apresentador Senor Abravanel, que o Brasil conhece como Sílvio Santos. Na frente do maior comunicador do país, e dono de uma das maiores fortunas também, foi direto: “Tenho o futuro diretor comercial do SBT”. Silvio respondeu: “Ma, ma, mas eu já tenho um diretor comercial no SBT”. Demóstenes respondeu: “Mas este jovem promissor é o futuro marido de uma das netas do Antonio Ermírio de Morais”. O Homem do Baú recostou-se na poltrona e comentou: “Há, hai...mas se é assim...”

Após algumas semanas de tentativas, Demóstenes conseguiu uma reunião com Antônio Ermírio, um dos homens mais ricos do país. Quando estavam frente a frente, não perdeu tempo: “Sr Antonio Ermírio, eu tenho uma noiva para sua neta mais nova”. Ermírio estranhou. “Minha neta mais nova tem quinze anos. Acho que ela nem pensa em se casar”. O estrategista respondeu: “Mas o noivo que eu quero lhe apresentar é o futuro diretor comercial do SBT.Homem de confiança do Silvio Santos”. O dono da Votorantim arqueou as grossas sobrancelhas e falou, com sua voz grave: “Ah, bom. Se é assim...”



postado por 87801 as 09:31:34 2 comentários
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