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domingo, 27 janeiro, 2008
O TREM DAS DEZ E MEIA

Anselmo entrou na cozinha apoiando na velha bengala o peso de seus noventa e três anos, olhou para o sobrinho Cláudio e perguntou: “Tu viu quando chegou o trem?”. Cláudio, já acostumado com a mesma pergunta, repetida pelo tio ao longo dos últimos anos, respondeu resignado: “Não chegou quem o senhor estava esperando, tio”  sem desviar o olhar do prato massa que acabara de servir. Anselmo levantou a cabeça, olhou o horizonte pela janela, e falou o mesmo que falava sempre que ouvia a resposta de Cláudio: “Ela deve chegar amanhã.” Voltou nos mesmos passos vacilantes para o quarto.

Célia, esposa de Cláudio, senta-se à mesa, olha para o marido, e comenta: “Quando será que o Tio Anselmo vai descansar?”. Cláudio nem pára de comer para responder: “Quando a gente menos esperar.”

 

Anselmo vivia com eles desde que não tinha mais condições para o trabalho na fazenda, já fazia mais de vinte anos. Porém, nos últimos anos ele começou a falar algumas coisas que no início deixou todos preocupados. Dizia que Catarina, uma namorada que tivera na juventude, estava voltando para casar-se com ele. Acreditava que ela chegaria no trem das dez e meia, vindo de Santa Maria. Este foi o trem que ela tomou, há mais de setenta anos, quando foi embora com a família, acompanhar o pai militar que havia sido transferido. Logicamente que era um delírio, pois a Estação de Trens de Montenegro havia sido desativada muitos anos antes. Ele próprio contava histórias da Estação para as pessoas que mostravam interesse. Inclusive a história da amada que fora embora para Santa Maria num chuvoso dia de Julho. Quem mais se interessava pela história era Simone, filha de Cláudio e Célia, menina romântica que cresceu ouvindo as histórias do tio-avô.

Todos os dias quando o sobrinho chegava para o almoço, ele saía do quarto, perguntava se o trem havia chegado, e voltava para o quarto depois de ouvir a resposta negativa do filho.

Os dias transcorriam assim, com as perguntas do velho, com as respostas do sobrinho, a resignação do velho...

 

Um belo dia de sol se descortinava pela janela da cozinha. Eram oito e meia da manhã quando Célia assustou-se com o barulho da bengala. “Ué tio, resolveu madrugar hoje?”. Anselmo sentou-se vagarosamente à mesa e disse calmamente, num tom de voz mais firme que o que usava ultimamente: “Madrugar para mim é três e meia, quatro horas, como eu levantava na fazenda. Eu ando é preguiçoso. Tu pode me servir o café?”. Célia achou estranha a voz de Anselmo, mas respondeu: “Claro, tio.”

Depois de tomar o café, Anselmo voltou para o quarto, e lá ficou por quase meia hora. Quando saiu, estava bem arrumado, com um terno azul. Olhou para Célia e disse: “Eu tenho um compromisso. Talvez não volte para o almoço.” Preocupada, Célia pergunta: “Aonde o senhor vai. Quer que eu mande a Simone acompanhar o senhor?”. Já saindo na porta, Anselmo responde, enquanto arruma o chapéu na cabeça: “Vou até a Estação. Se a Simone quiser, pode vir.”

 

O velho sai à rua, olha o movimento, sente o calor do sol na face, vira-se para o final da rua, pensa em ir até o rio, mas desiste; é muito longe e ele não quer se atrasar.

Caminha pela Rua Ramiro Barcelos, observando o movimento dos carros, das pessoas, do entra-e-sai das lojas, das conversas, dos risos dos adolescentes e crianças. Recorda-se de quando veio à cidade pela primeira vez, quando tinha treze ou quatorze anos, para ajudar o filho do seu patrão, dono da fazenda onde morava desde que nasceu. Como perdeu os pais muito cedo, vítimas de doenças brabas, foram criados, ele e o irmão – pai de Cláudio -  por um casal de agregados. Lembra-se que era muito diferente. A rua era de terra batida, o movimento era de carroças e pessoas a cavalo, as pessoas não tinham tanta pressa, os poucos automóveis andavam muito mais devagar. Com seus passos miúdos e vacilantes ele chega à esquina com a Rua Osvaldo Aranha, e toma o rumo da Estação Férrea, pois é lá que tem um compromisso muito importante.

 

Célia começa a preocupar-se com a demora de Simone. Liga para o celular da filha e ouve o telefone tocar em cima da mesa da sala e fala, irritada: “De que adianta ter celular e não carregar junto?”. Resolve ligar para o marido, mas Cláudio tenta tranqüilizá-la: ”Fica calma, o tio deve ter ficado com vontade de dar uma volta. Ele não vai longe. E todo mundo conhece ele.” Célia ainda pergunta: ”Que compromisso é esse, tu sabe?”. Cláudio mantém a tranqüilidade: ”Há muito tempo eu não me preocupo com estas bobagens do tio. Fica fria que daqui a pouco ele aparece. Se a Simone chegar mande ela procurar por ele.”

 

Célia não se lembrava, mas quando Simone saiu avisou que iria até a casa de uma amiga para fazerem um trabalho de escola. A menina estava na casa da colega, pesquisando na Internet, quando falou: “Pati, vamos fazer a pesquisa na biblioteca. Eu prefiro procurar nos livros.” Patrícia faz um muxoxo e fala: ”Tava demorando. Eu faço tudo na Internet, mas tu prefere ficar lendo por horas em livros velhos para encontrar o assunto que quer. Mas tudo bem; vamos lá.”

 

Anselmo chega em frente às ruínas da Estação Férrea, olha a fachada do prédio e resolve subir a escadaria. Um homem percebe a dificuldade do velho, reconhece-o e pergunta: “O senhor quer ajuda, seu Anselmo?”. Anselmo dá um sorriso, bate levemente no ombro do homem dizendo: “Não precisa meu filho, acho que cheguei um pouco cedo, tenho tempo para subir devagarzinho”. No meio da subida ele para e olha para o prédio, vê o movimento das pessoas que conversam animadamente em grupos e pensa: “Devem estar esperando pelo trem”. Respira fundo e retoma a escalada. Quando finalmente chega ao topo, escora-se no muro, sente o suor molhar sua face e percebe o mesmo homem de antes ampará-lo. “Venha, vovô, senta neste banco. O senhor está bem?”. Anselmo levanta os olhos para o homem e agradece: “Claro, meu amigo, obrigado. Só acho que ando um pouco enferrujado.” O homem, que ficara preocupado quando viu Anselmo subir sozinho a escada e subiu atrás por precaução, resolve deixá-lo e vai embora.

 

Simone e a colega chegam à Biblioteca Pública e começam  a procurar os livros para a pesquisa. Quando estão com vários livros sobre a mesa, Simone resolve avisar a mãe de onde está. “Pati, posso usar teu celular para avisar minha mãe?”. Com a concordância da amiga, ela liga para casa e percebe a aflição de Célia. “Eu to preocupada com o tio. Ele saiu daqui dizendo que tinha um compromisso. Acho que ele falou alguma coisa de ir até a estação. Queria te chamar, mas tu deixou o celular em casa.Tu pode dar um pulo lá? “ Simone tranqüiliza a mãe dizendo: “Claro, mãe, eu to na biblioteca. Eu e a Pati vamos tentar encontrar o tio. Fica tranqüila.” Simone desliga e fala para a colega: “Meu tio Anselmo saiu de casa e minha mãe acha que ele ta demorando. Parece que ele foi para a estação. Vamos ver se achamos ele?” Pati não gosta da idéia e diz: “Nosso trabalho ta atrasado. Acho que vou ficar pesquisando. Depois tu volta.” Simone concorda e sai.

 

Anselmo continua observando o vai-e-vem das pessoas na estação. Carroças e carros deixam pessoas. Os motoristas dos carros de aluguel estacionados em frente da estação aguardam a chegada do trem para levarem os que chegam aos seus destinos. Moças bonitas esperam seus namorados ou noivos. Rapazes aguardam a chegada de novas famílias para ver se há moças bonitas entre elas. A Estação Férrea é um importante espaço de encontros e partidas. Lágrimas começam a brotar dos olhos do velho quando ele lembra daquela manhã chuvosa, em que ele se despediu de Catarina e seus pais no saguão da estação. Enquanto observava o trem partindo, viu que a moça colocou a cabeça para fora da janela do vagão e acenou para ele. Era a última imagem que tinha dela. Mas resolveu esperar a vida inteira pela volta da amada. Enquanto esperava o trem que estava trazendo-a de volta, relembrou o momento em que a conheceu. Foi num baile de um clube tradicional de Montenegro, quando ele acompanhou o filho do patrão. Havia se impressionado com a beleza e simpatia da moça que o amigo lhe apresentara como colega da escola. Após dançarem algumas músicas, tomaram um refrigerante e ele a pediu em namoro. Ela concordou, mas teriam que falar com os pais dela que estavam no mesmo baile. A princípio percebeu um certo desconforto da parte dos pais da moça, devido à sua origem humilde, porém obteve autorização para visitá-la uma vez por semana, na casa deles, sempre acompanhados pela mãe dela. O pai era militar que estava havia menos de um ano na cidade e era muito ocupado.

O namoro seguiu muito bem durante um tempo. Anselmo conquistou  a confiança dos pais de Catarina devido à sua índole e às informações do patrão, homem conhecido e respeitado em Montenegro. Porém, um dia a namorada tinha uma notícia nada boa para ele: “Papai foi transferido e vamos mudar para Santa Maria.” Naquele tempo não havia argumentação para que uma moça de respeito ficasse com um namorado de poucos meses e não seguisse a família. De modo que não houve alternativa para Anselmo e Catarina a não ser se despedirem naquele dia frio e chuvoso. A ultima frase dela foi: “Um dia eu volto...”.

 

Aquela frase acompanhou Anselmo durante mais de setenta anos. E hoje ele sabia que ela estava chegando. No trem das dez e meia. Ele ouviu o apito do trem anunciar a chegada. Percebeu as pessoas se movimentarem para o interior da estação. Mas ele preferiu ficar ali. Queria vê-la quando aparecesse no portal. Tinha tantas coisas para falar com ela. Contaria a ela como fora sua vida desde a mudança. Como ficara triste por muito tempo. Como nunca mais quis ter outra namorada. Como sempre teve a certeza de que ela cumpriria a promessa: “Um dia eu volto...”. 

Em meio a todo o movimento das pessoas ele pode vê-la. Catarina estava linda como sempre. A roupa era a mesma do dia da partida. O mesmo vestido azul, o mesmo chapéu enfeitado com uma flor do campo. O mesmo sorriso com que o recebia nas visitas do tempo de namoro. Ela aproximou-se e com um sorriso disse: “Agora não haverá mais separação.”

 

Simone subiu correndo a escadaria da velha estação e correu para o banco onde estava Anselmo. Percebeu o leve sorriso no rosto do velho. Abraçou-o e percebeu que não havia mais tempo de ajudá-lo. Anselmo já estava descansando, como sua mãe costumava falar, quando uma pessoa deixava esta vida. O relógio da menina marcava 10h32m.

*Conto classificado em 2º lugar no Concurso Literário AMES - Jornal Ibiá 2005



postado por 87801 as 04:40:09
1 comentários:

JAIR:
Endereço novo e o mesmo velho talento. Parabéns! É um belo conto. Montenegro, como Macondo de Gabriel Garcia Marques, se presta a ambiente de um texto de densidade e dramaticidade como este. Continuo fã de teus escritos.
30/01/2008 12:02:19
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