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quinta, 22 maio, 2008
Troca de Camisas

Julio César entrou esbaforido no hospital, ignorou o elevador, subiu as escadas de três em três degraus, avançou pelo corredor até a porta do quarto, de onde avistou Verônica deitada amparando o bebê com o braço esquerdo, pois o direito estava conectado ao soro fisiológico. Entrou no quarto com o sorriso que somente um pai que vai ver o filho recém nascido pode estampar. Beijou a mulher, olhou carinhosamente o menino, rostinho enrugado, meio inchado, dormindo tranqüilamente no braço da mãe. Depois de afagar a criança, pegou um pequeno pacote do bolso, abriu e tirou uma pequena toalha de rosto com o escudo do Grêmio estampado. Verônica quase não se surpreende: “Mas já? Não poderia esperar um pouco mais?”. O marido responde enquanto coloca a toalha ao redor da criança: “Eu não achei camiseta do tamanho dele. Comprei logo antes que o PC trouxesse uma camisa do Inter”.  A mulher tem um estremecimento ao ouvir o nome do amigo do marido, mas tenta se manter calma. JC – assim era conhecido – pega o celular e liga: “Alô, Paulo, o guri nasceu. Como tu vai ser o padrinho, tem que visitar hoje. Claro, vou ficar aqui até o fim da tarde. Ta bom, te espero”. “Não sabia que tu ia convidar o PC para padrinho” fala Verônica, tentando aparentar calma. “O cara é meu melhor amigo. Claro que tem que ser ele”.

           

Paulo César, o PC, entra no corredor do hospital ainda remoendo a idéia de ser padrinho daquela criança. Não poderia recusar, sob pena da verdade vir à tona. Quando entrou no quarto, cruzou com o olhar apreensivo de Verônica, mas controlou-se e cumprimentou o casal, enquanto acariciava o menino, que já se encontrava no pequeno berço ao lado da cama. Fixou-se nos traços da criança, procurando algum sinal revelador, mas concluiu que era muito cedo, podia se acalmar. Abriu um sorriso quando percebeu a toalha ao lado do bebê. “Já vai encaminhar mal o guri?” “Prefiro me prevenir”. E todos riram com a rivalidade de ambos.

           

PC e JC se conheciam há muito tempo. Jogavam futebol no mesmo time há anos, Paulo César um meia de ligação com muita visão de jogo, e Julio César um atacante definidor. A amizade entre ambos sempre foi muito forte. Os dois sempre se visitavam, com as esposas. Agora, como compadres, as visitas se tornaram mais freqüentes. Com o passar do tempo, PC percebe que o afilhado começa a apresentar alguns traços seus – as sobrancelhas, a orelha direita com uma pequena dobra – mas JC nunca tocou no assunto. Até que um dia, enquanto estavam no vestiário, ele deu a notícia ao amigo: “A Carmem ta grávida. Já tem dois meses e meio”. O amigo dá-lhe os parabéns, mas PC não percebe o leve sorriso que surge na boca de JC. Ambos entraram em campo para mais um jogo, e JC jogou com nunca, marcando quatro gols, e ainda deu passes para outros dois.

           

No dia em que foi comunicado do nascimento do filho, Paulo César chega no quarto, beija Carmem, acaricia o menino, pega o celular, liga para Julio César: “Nasceu o teu afilhado. Vem conhecer o futuro atacante do Inter”. Coloca o celular no bolso, finge não perceber o olhar aflito da esposa. Puxa o roupinha do bebê, e lá está aquilo que imaginava, mas que nunca poderá falar. Uma mancha escura no ombro direito. Igual à que JC tem. Recobre a criança, olha para Carmem e diz: “Antes que aquele gremista chegue, vou correndo comprar algo do Inter para o meu filho. Já volto”. Beijou a esposa e saiu.



postado por 87801 as 11:51:41
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