O CHEFE
João Fernando Kassa Era uma empresa nacional. Fabricava elásticos e coisas do gênero. No comando sempre esteve o sr. Gustavo. Mas, com o tempo, a idade foi chegando e, para que a empresa não acabasse com ele e ele com a empresa, resolveu se aposentar. Para seu lugar nomeou o próprio filho, Gustavo Jr. O rapaz tinha uns 30 anos, era bonitão e bronzeado de praia. Porém, de negócios não entendia nada. E como não queria perder a pose, dava ordens e mais ordens. As mais absurdas, não admitindo conselhos ou orientações. Seis meses após ter assumido, viu que se continuasse daquele jeito afundaria o império construído pelo pai. Decidiu então trabalhar com uma assessoria, para tentar salvar a fábrica. Contudo, desde o início muitos de seus funcionários ficaram sabendo de sua incompetência profissional e passaram a relaxar em tudo o que produziam para ele. Até porque nem aparecer na empresa ele aparecia. Os escritórios da fábrica ficavam num prediozinho no centro. Dava gosto trabalhar lá. Ninguém fazia nada, à exceção de Beth, a telefonista, que se entregava de corpo e alma ao batente. A única preocupação (ou distração, segundo os empregados) consistia na batida do ponto, que tinha de ser acionado quatro vezes ao dia por cada um. Fora isso, a ociosidade geralmente imperava. Ricardão, responsável pelo setor de vendas, localizado no andar térreo, preocupava-se quase que exclusivamente com a loteria esportiva: passava boa parte do tempo analisando e discutindo com os interessados os jogos da loteca. Julciléia adorava ir à rua para tomar ar e comprar pirulitos. Já Odílio gostava de telefonar. Para qualquer um. Discava um número aleatório e aventurava-se num papo. Ainda tinha o Sílvio, que preferia um radinho para ouvir música. E, por fim, o contínuo (ou "office-boy"), contratado algumas semanas antes, vagabundo por natureza, que odiava o trabalho e certamente mataria o inventor desse troço, caso o encontrasse pela frente. Ali parecia casa de jogo, loja de doces, companhia telefônica, estúdio de rádio, repartição pública e também redação de jornal: é que sempre tinha alguém lendo um jornalzinho ... Alguns dias depois, Gustavo Jr., apoiado em sua política de salvar a fábrica, teve uma idéia brilhante: visitaria todas as seções da sede repentinamente, sem mais nem menos. Assim, veria como trabalhavam seus funcionários. Conversou com os assessores e eles aprovaram sua atitude. A telefonista, num golpe de sorte, ouviu a conversa e contou todos os detalhes para o Ricardão. O chefe viria, de surpresa, num dos próximos dias. Ricardão largou imediatamente seus jogos e tentou colocar ordem na casa. Não conseguiu. Deu um murro na sua mesa. Nada. Berrou e teve um ataque nervoso. Nada ainda. Aí, como último recurso, dirigiu-se ao centro do setor e falou calmamente aos demais: - O salário deste mês só será pago no mês que vem. Parou tudo. - Obrigado pela atenção. ... Ainda funciona o truque, hem? ... Ouçam bem: o nosso amado chefinho vai fazer uma "visitinha" surpresa pra gente dia desses. A partir de agora, quero que todos vocês comecem a arrumar isto aqui, para que este lugar pareça um local de trabalho exemplar ... pelo menos pra ele. Fui claro? Ótimo. Então, cada um vai ter uma função a desempenhar. - Mas, Ricardo, o que vou fazer? - indagou Odílio - Não sei o que é trabalho há seis meses! - Toma! Pega essas fichas. Você vai codificá-las. - Codificar? ... O que é isso? - É fácil: é só colocar um número em cada quadradinho desses aí. - E eu? - perguntou Julciléia, com três pirulitões na boca. - Você ajuda o Odílio. Vai ditando os números pra ele. ... E o Sílvio vai fingir que está conversando com alguém no telefone. ... Hum, acho melhor trocarem de tarefa. É, Sílvio, você troca com o Odílio. - E quanto a minha pessoa? - questionou o contínuo - Também tô nessa! - Você vai pagar contas em Nova Iguaçu. - Então dá as contas agora que eu vou pra casa e amanhã eu trago. - Não, é só uma desculpa. Você só vai pagar as contas depois que ele aparecer. ... Ele aparece, você some. Entendeu? No dia seguinte, lá pelas três horas da tarde, fizeram uma festinha de aniversário para a Beth no ... banheiro das mulheres. É que o Ricardão estava com medo da "visitinha" do chefe. Todavia, manteve a tradição: a cada data de aniversário, o setor parava para comemorar. Mandou o contínuo para o lugar da telefonista, na entrada do pequeno prédio. - Se aparecer algum estranho, avisa a gente! Logo depois, o coitado do contínuo, todo atrapalhado e xingando tudo o que encontrava pela frente (por que logo ele teria de ficar ali?), viu surgir na recepção uma pessoa bem vestida. - Boa tarde - disse o desconhecido. - Boa tarde. O que o senhor deseja? - O senhor Ricardo está? - Não, não está não. ... Ei, não entra aí não! - e o contínuo saiu atrás do homem bem vestido, que já estava entrando numa das salas vazias - ... O senhor não pode entrar aí não! ... Eu não te conheço! ... Ei, por favor, espera lá fora! O estranho não deu atenção ao que o rapaz falava e passou a revistar as mesas. O outro tentou impedi-lo e acabaram caindo no pau, criando a maior confusão. Ouvindo o barulho, os demais funcionários saíram correndo do banheiro e ainda pegaram o final da briga, vencida pelo homem bem vestido. - Seu ... Gustavo! O senhor por aqui ...! - exclamou Ricardão. ... O contínuo, por ter tentado evitar a entrada de um desconhecido, foi promovido. Ricardão acabou sendo suspenso, já que era o responsável pelo setor e permitiu aquela bagunça. O restante ganhou uma advertência. Ah, sim, ia me esquecendo: Beth, a telefonista, foi despedida. Para que deixasse de ser fofoqueira ... Nota do autor: Nova Iguaçu é um dos municípios que fazem divisa com o município do Rio de Janeiro. A região é conhecida como "grande Rio".
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