VIAGEM DE ÔNIBUS
João Fernando Kassa Pedrinho estava ali nas Laranjeiras, quase na divisa com o Cosme Velho, esperando um ônibus qualquer para levá-lo ao Flamengo. Loiro, olhos azuis, todo arrumadinho no uniforme de um colégio particular, relógio caro num dos pulsos, queria chegar logo em casa para ver o aparelho de "videogame" novo que o pai tinha comprado. Pegaria o primeiro que aparecesse. Seu relógio marcava seis e 15 da tarde, horário em que não dá para se andar decentemente em muitos coletivos no Rio de Janeiro: a hora do "rush". De repente, surgiu um no meio dos carros que parecia não estar tão cheio. A turma, já no desespero, gritou: - Olha lá! - Sai da frente! - Que droga! Não vai parar! Parou. Pedrinho entrou e se encolheu no meio daquela gente pobre, humilde e sofrida. Quase esmagado, conseguiu passar a roleta. Já se arrependia de ter pego o ônibus, mas resolveu ficar na sua. E a turma continuou: - Vai lá em casa amanhã, João? - Não sei. Eu vou na feira com a Maria. - Feira?! Isso é coisa de pobre, ô! ... Vai trocar o carteado por aquela mina? ... Ei, passaram a mão no meu traseiro! Aí repararam nele. Um deles disse: - Pergunta aí pro russo que horas é! Todo assustadinho, temendo alguma encrenca ou mesmo ser assaltado, saiu andando para a frente, pisando nos calos alheios e imprensando quem estava perto. Deu para sair do veículo e respirou aliviado quando o viu se distanciar. Porém, teve de voltar ao colégio: na pressa, esquecera as fitas de jogo na carteira ... Nota do autor: Laranjeiras, Cosme Velho e Flamengo são bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.
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