Texto: Hélio Euclides
No dia 7 de novembro, no Centro Cultural Euclides da Cunha, na Ilha do Governador, a escritora Adriana Kairos lançou seu livro de estréia intitulado Clarabóia. Uma obra com coletânea de poesias e mini-contos em que, dentre outros temas, a autora tentar retratar o olhar dos marginalizados de uma maneira poética e reflexiva, evidenciando o poder-pensante, característico dos poetas de periferia.
Clarabóia significa uma abertura envidraçada no feita no teto ou na parede externa de prédios ou casas, a fim de permitir a entrada de luz ou a passagem de ventilação. E dessa forma, a moradora da Maré, professora, ex-aluna do Pré-Vestibular REDES da Maré, e estudante de Letras na UFRJ, quis iluminar os olhos dos leitores que recebem a poesia para clarear toda a escuridão. “Os amigos elogiavam meus textos no blog recanto das letras, e pediam um livro”, comenta Adriana Kairos, de 33 anos, tendo dois na carreira de escritora.
No agradecimento do livro a escritora faz uma dedicação especial aos moradores de sua terra: “A todos os meninos e meninas, donas de casa, pais de família, trabalhadores... Enfim. A todos os moradores do meu querido Complexo da Maré, meu respeito e admiração por sua força e luta diária”. Ela em breve deve lançar sua obra na Biblioteca Popular Lima Barreto, na Nova Holanda. “O que quero mesmo é lançar o Clarabóia na Maré”, diz empolgada. Depois desse livro Adriana já tem mais duas sinopses, uma é de um livro que será lançado em Portugal.
Quem desejar ler novidade da escritora Adriana Kairos pode acessar três blogs:
http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=38013
http://cartografianalma.blogspot.com/
http://adrianakairos.blogspot.com/
E quem anseia por adquirir o livro que custa R$ 20,00 + valor do frete, é só entrar em contato pelo e-mail: adrianasantoskairos@gmail.com
Segue abaixo o prefácio feito pelo Professor de Português do Pré-Vestibular REDES da Maré, João José Coelho, o popular JJ:
Conheci Adriana K., em uma sala de aula, aluna se preparando para o exame vestibular. De grande curiosidade intelectual e não menor preocupação social, seus textos já àquela época apontavam para um caminho que está concretizado agora: Adriana é uma escritora! E de prosa e de verso!
Sua sensibilidade poética—também presente nos seus contos—está aqui, em Clarabóia, superiormente aguçada. E posta a serviço não de um “mundo caduco” nem de um “mundo futuro”. Adriana está, com Drummond, “presa” ao tempo presente, aos homens presentes, à vida presente.
Clarabóia representa um grande e importante passo na caminhada literária de Adriana. E, sem dúvida, é um belo presente para todos nós.
JJ Coelho
Para dar água na boca, um mini-conto extraído do livro Clarabóia:
Depoimento
Eu vi quando aquela mulher saiu correndo, moço. Foi depois do tiroteio. Desceu correndo descalça, tinha os olhos aperreados; eu não sabia o porquê. Tava comum vestido de chita barata de florzinhas, tão alvinha. Ela chorava muito.
No fim da rua muita gente se amontoava pra ver. Os miolos do neguinho espalhados pelo chão e a dona descalça acariciando o seu rosto, colocando-o em seu colo como se o pusesse pra dormir. Acho que o seu choro foi ouvido por todo o morro. La Pieta.
No chão, lavados pelo sangue do moleque, uns cadernos e uma caderneta de escola. Tinha muito gente indignada, diziam que era menino bom e que voltava da escola. Eu mesmo já tinha visto ele no “pacote” lá no mercadinho.
Eu vi tudo isso, moço, mas não consegui chorar não. Isso foi meio-dia. Só chorei a noite, na hora do jornal quando o repórter falou assim: “Ação da polícia mata menor envolvido com tráfico de drogas no morro...”
Porra moço, o neguinho era estudante... O moleque era estudante...
