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quinta, 23 novembro, 2006
A estrela sobe


Passado o calor da refrega eleitoral, é preciso dimensionar o real significado da vitória do petista Paulo Guedes na sua primeira tentativa de ter assento na Assembléia Legislativa de Minas. O feito não é pequeno. “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”, diz conhecida frase, atribuída ora ao escritor e dramaturgo francês Jean Cocteau (1889/1963), ora ao filósofo chinês Lao Tse, que teria vivido seis séculos antes de Cristo, mas de quem não se sabe ao certo se realmente existiu. Ela explica com razoável precisão a campanha vitoriosa do agora deputado.

Contra todas as previsões, o ex-vereador por Manga e ex-coordenador do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) conseguiu a façanha que parecia impossível acaso tivesse sido profetizada há pouco mais de 15 anos, quando ele iniciou sua carreira na política manguense. Paulo abraçou a nascente estrela vermelha do Partido dos Trabalhadores ao tempo em que isso uma opção ideológica tão somente, sem nenhuma promessa de cargos ou recompensa. Pagou o preço da incompreensão, pois luta de classe era um tema bastante remoto entre as preocupações da elite agropastoril que desde sempre domina o município. Tal incompreensão chegou às vias de fato, em conhecido episódio de triste memória da nossa crônica política, quando ele foi agredido em praça pública. 

Os louros da vitória estão mais à mão dos que se atiram adiante sem medir os riscos inerentes à empreitada. Vistas em retrospectiva, as decisões de Paulo Guedes parecem conter um cálculo. É o necessário "stop and go" (o parar e avançar) que revela o instinto do político: saber escolher as melhores oportunidades para não acrescentar derrotas ao currículo. Mas, há cálculo de fato nesse tipo de decisão? Não. A ninguém é dado o privilégio de antever o futuro. O que há é uma boa dose de sorte e o destemor de não medir conseqüências, de se lançar no espaço vazio, que em política clama para ser preenchido.

Fosse outro o final da jornada, Paulo Guedes mereceria, sabe-se lá, uma notinha de pé de página a título de registro do seu fracasso. A crônica dos vencedores é menos madrasta. Contra todas as expectativas, repito, o agora deputado passou um trator por cima de nomes tradicionais da política, outros nem tanto, especialmente na política manguense. Mas não foi só. Caciques de Montes Claros foram obrigados a rever seus planos em razão da chegada em cena de um sujeito intrujão, vindo do canto mais recôndito das Minas Gerais que, sem pedir licença nem alvará, reivindicou seu espaço na imensa sesmaria em que essa gente transforma o Norte de Minas a cada quatro anos.

Paulo Guedes ainda flutua na nuvem benfazeja que envolve os vitoriosos. Ele sorve, meio ébrio e tonto, a taça doce do triunfo. A recente e consagradora vitória de Lula para mais um mandato reforçou essa espécie de Nirvana em que Paulo se encontra desde o 1º de outubro. Queixo erguido, sorriso permanente no rosto, ele, por vezes, parece fitar as pessoas e não reconhecê-las de imediato. Na definição de amigo comum, ainda parece "anestesiado e meio cego". Numa possibilidade ainda mais assertiva: a ficha ainda não caiu. Vez por outra, ele volta os olhos aos mapas de votação para se certificar mais uma vez que o imponderável aconteceu.

É isso. Após atravessar o Rubicão da sua carreira política, parece não existir limites para Paulo Guedes. Uma explicação sobre o Rubicão: em 49 a.C., Caio Júlio César, general e estadista romano, tomou a decisão crucial de atravessar o rio Rubicão com seu exército. O ato foi uma declaração de guerra civil contra Pompéia, que detinha poder sobre Roma. A decisão de César mudou o rumo da história. Antes que ele atravessasse o rio, a tomada de Roma era apenas uma idéia, um desejo que ele poderia concretizar. Atravessar o Rubicão virou sinônimo de "pensar grande", ultrapassar fronteiras, defrontar-se com um caminho sempre difícil e desconfortável. César, apesar disso, atravessou o Rubicão.

Paulo Guedes trilha, até aqui, um caminho venturoso: vereador por três mandatos em Manga, ele colhe agora sua quarta vitória consecutiva nas chamadas eleições proporcionais. Sem contar a passagem pela direção da Avamns (Associação dos Vereadores da Área Mineira da Sudene), etapa que serviu para ele alargar seus contatos em toda a região Norte de Minas.

Ele foi o único filho de uma numerosa família de 12 irmãos a cruzar o portal da universidade e ainda assim foi obrigado a abondonar o curso de Direito ainda no primeiro período para se dedicar ao trabalho no DNOCS, plataforma que lançaria seu nome para além das fronteiras da provinciana Manga. Paulo veio à luz na Fazenda Bebedouro, a cinco quilômetros de São João das Missões e outro tanto da aldeia dos índios Xakriabá. Seu pai, José Carlos Saraiva, o "Zé de Chico", falecido há alguns anos, precisou lançar mão do recurso de montar um alambique para criar prole tão numerosa. É que para a cachaça nunca falta mercado, em que pese o risco de tornar a família refém do vício fácil. O vício de Paulo, felizmente, era outro, muito embora a política não figure como tradição familiar.

Quando a Funai (Fundação Nacional do Índio) fez a demarcação da reserva, a pequena gleba, insuficiente para a tarefa de prover tanta gente ficou ainda menor. O sítio não produz mais a cachaça, mas continua lá, como referência da infância difícil, sim, mas feliz. O olhar vigilante da mãe, Maria das Dores Saraiva, acompanha à distância os passos de Paulo Guedes. Ela se orgulha do vôo do filho e, às vezes, parece não entender exatamente a dimensão da sua trajetória política. Mas há uma certeza: o filho é um predestinado. Quando
criança, Paulo caiu dentro de um tacho que fervia uma mistura para preparo de sabão caseiro. Coisa aí de uns 100ºC. Saiu ileso e sem seqüelas, graças a uma promessa que a mãe fez em desespero.

Paulo Guedes também deixou o seu Rubicão para trás. O pequeno Itacarambi, o afluente do Rio São Francisco que divide Manga do atual município de São João das Missões (naquela época ainda um distrito de Itacarambi). Paulo foi para Manga continuar os estudos na Escola Estadual Presidente Olegário Maciel. Ali, conheceu a estrela símbolo do PT, aquele das greves do ABC paulista e do combate à ditadura militar. O PT de então era um partido totalmente deslocado da realidade agrária e nordestina do extremo Norte de Minas. A estrela vermelha acompanha Paulo Guedes desde então e parece recompensar, com o êxito que agora se vê, a fidelidade passional que ele lhe dedica. O mais da história ainda está para ser escrita. O novo deputado é uma estrela em ascensão, muito embora sua eleição, por si só, não represente nenhuma panacéia para os problemas da microrregião. Há uma voz do extremo  Norte de Minas na Assembléia. O que não é pouco.


postado por 38839 as 11/23/2006 10:17:40 #
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