BLOG DO LUÍS CLÁUDIO GUEDES
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terça, 06 fevereiro, 2007
CONTO


A inundação

Começava mais um ano como todos começam. A família reunida para as festas do Ano Novo, como, aliás, já o fizera uma semana antes por ocasião do Natal. O homem agora contemplava o rio, os cotovelos apoiados no muro de balaústres do velho cais e o corpo ligeiramente inclinado para frente. Atrás dele a pequena praça, com as suas casas antigas construídas em adobão. Do lado sul, na mesma direção em que o rio formava uma pequena baía, ficava o imponente prédio de tijolos à vista do novo Fórum, numa elevação do terreno, de onde era possível avistar o rio se contorcendo todo para envolver a pequena ilha no formato de coração.

A jusante, o homem podia ver a bela paisagem na caminhada do rio em direção do outro Estado. O pequeno atracadouro, lá bem longe, antecedia a imaginária linha no horizonte, ali na justaposição do azul do céu com o verde no leito do rio, ambos se imiscuindo num torvelinho de vastidão. Os olhos do homem percorriam a paisagem à sua frente num lento vai e vem, como um pêndulo vagaroso que desejasse traçar a metade de uma circunferência, dividida pela linha do muro do cais logo a seus pés.

O ano que se iniciava seria o quadragésimo da sua vida, pensava o homem. Saindo de sua abstração, notou os movimentos do pescador que se esforçava para manter a proa da canoa na direção da outra margem, o remo manejado com excelência cortava a água como lâmina. O rio estava calmo naquele fim de tarde, a superfície das águas balançava placidamente e refletia os raios do que ainda restava do sol a intervalos regulares. Ele acomodou-se melhor na mureta e se entregou às reminiscências, estimuladas pelas águas cintilantes dos beijos do sol que se preparava para partir.

O leito calmo do rio transforma-se numa imensa tela para a projeção dessas suas lembranças. Como num filme de realismo fantástico, o homem revia a grande enchente.

Um grupo de adolescentes fazia fila para subir na balaustrada e dali se atirar nas águas turvas e apropriadamente próximas do nível da pracinha junto ao cais, que ameaçavam invadir um dos pontos mais altos da cidade e a jogar por terra (ou por água, para ser mais apropriado) a crença de que o local seria uma fortaleza inexpugnável à fluxão do rio. 

Não foram fáceis os dias da grande inundação. As vítimas daquele flagelo se perguntavam se aquilo não seria uma nova versão do dilúvio bíblico. A chuva caiu fina, fria e intermitente por mais de 30 dias, período em que o sol raramente aparecia, a sua força toda impotente agora para romper a teimosa espessura das nuvens.

A cidade ficou isolada do resto do mundo. O homem lembrou-se de como os preços ficaram inflacionados, a gasolina e o gás de cozinha racionados. Quanto à gasolina, uma providência inútil, pois quem possuía veículos a motor não tinha mesmo para onde ir.

Naquela época não havia ainda o dique que serpenteia o barranco ao longo do beira rio e as águas, na sua desesperada busca por espaço, invadiram a cidade por uma depressão que a dividia em duas, a alta e a baixa, numa violenta inversão daquilo que a geografia local estabelecera como fluxo fluvial. Resultando que os moradores dessas duas regiões ficaram isolados entre si, os de baixo não podendo ir ao alto e vice-versa. Do seu posto de observação o homem imaginou rever o frenético sacudir das ondas de águas sujas e enrugadas, que se estendiam até perder de vista, não sem antes engolir o porto das embarcações na margem oposta, do qual só se via agora a cumeeira das casas e o verde das copas das árvores mais frondosas.

Sentados na pequena muralha do cais, os pés quase tocando as ondas que se chocavam no concreto, os meninos da cidade matavam o tempo contando os troncos e galhos de árvores e gravetos e tábuas e as grotescas figuras dos animais mortos e os refugos de toda espécie que a grande enchente ia abraçando no seu caminho, numa procissão que parecia não ter mais fim.

No seu transe, o homem ouvia o barulho das chegadas e partidas das brigadas de voluntários misturando-se com o burburinho dos curiosos. A balsa de travessia, sem ter agora o que atravessar nem o barranco na outra margem onde se atracar, tinha sido arregimentada pela Capitania dos Portos para os trabalhos de salvamento.
 
Num pequeno casebre em local ermo, o grupamento de salvação encontrou uma família inteira, pai, mãe e cinco filhos acabrunhados sobre a viga de sustentação do telhado da casa pobre em que viviam. A água chegava nos batentes das pequenas janelas e passeava tranqüila por entre os cômodos. Ao lado da casa, amarrados aos troncos de um pequeno curral coberto, uma triste vaca mocha e um velho cavalo de arado cochilavam à espera do fim iminente. Em cima, no telhado, uma fileira de galinhas se misturava com as cores das roupas da família, cuidadosamente presas aos caibros e longe do alcance da água. Um leitão esquálido, pendurado por uma corda que lhe envolvia o tornozelo, esgoelava sem parar cada vez que as águas ameaçavam roçar-lhe o focinho. Sua incômoda posição de ponta cabeça a não deixar dúvidas sobre o absurdo da situação.

E todos os dias e de todos os lados chegavam levas de desabrigados, salvos por improvisadas arcas de Noé. Bichos e homens vindos das ilhotas, das fazendas, dos pequenos povoados e do mato inundado. O gado ficou isolado em pequenas elevações do terreno das fazendas e as raposas, as onças suçuaranas, cervos, além das cobras penduradas nos galhos das árvores. Náufragos todos. Quando a chuva finalmente foi embora, viu-se o rastro da destruição por todos os lados e o temor das doenças transmitidas pela urina dos ratos que, desabrigados de suas tocas, ameaçavam espalhar as pragas de um novo Egito.

Sentado no paredão do velho cais, as pernas balançando no vazio, o homem recordou tudo isso até perceber que a noite já caíra, o crepúsculo chegava chamando o rio para as brumas. Ele desceu da mureta de blocos vazados, atravessou a praça e voltou para casa. Aquela foi a primeira vez em que se sentiu velho.


postado por BLOG DO LUÍS CLÁUDIO GUEDES as 02/06/2007 10:09:38 #
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