
Vilares diz que falta profissionalismo aos blocos januarenses
Aurélio Vilares: estresse para garantir a folia (Foto: Fátima Cruz)
JANUÁRIA – Esta cidade do Norte de Minas está em suspense para saber se o Carnaval 2007 será mesmo realizado. Numa reunião na noite de segunda-feira, 12, que contou com as presenças de representantes das polícias Civil e Militar, da secretária de Turismo do Município, Ana Teresa, da gerente do Sesc/Laces, Sônia Aquino, da imprensa, além de carnavalescos e representantes dos setores de hotelaria e bares decidiu-se pela realização do Carnaval. O organizador do evento, o promoter Aurélio Vilares, propôs cobrar R$ 3 pelo ingresso mais um quilo de alimento não perecível. A proposta inclui ainda o aluguel do espaço a ser ocupado pelas barracas e foi a solução encontrada após o anúncio de que a prefeitura não vai mais patrocinar o evento. A decisão do prefeito João Lima (PSDB) pegou os foliões de surpresa e foi justificada pela necessidade de priorizar o atendimento aos cerca de cinco mil desabrigados pela inundação do início deste mês.
A realização ou não do evento está condicionada a um reforço no quesito segurança, já que os organizadores estão preocupados com os eventuais riscos que a enchente do rio São Francisco possa representar para os foliões mais exaltados. A novidade para este ano será a presença de equipes do Corpo de Bombeiros que serão deslocadas de Montes Claros para apoiar a festa barranqueira. O promotor de evento Aurélio Vilares, que já respira Carnaval 24 horas por dia há mais de um mês, atravessou uma das semanas mais tumultuadas da sua vida. Vilares é o proprietário da Dark Eventos, empresa com vários anos de atividade na promoção de eventos em Januária e parceira da Star Promoções na realização do Carnaval de Januária nos últimos quatro anos. A decisão de manter a folia mesmo sem o apoio da prefeitura tem tirado o sono do empresário Vilares, mas ele garantiu na reunião da noite de ontem que é impossível retroceder do ponto em que a organização parou, pois já há contratos assinados e parte dos abadás já foi vendida.
Vilares disse que será preciso cobrar um valor simbólico do folião. “A entrada para o circuito será de R$ 3 mais um quilo de alimento não perecível. Será cobrada ainda taxa de locação para barracas”, disse o promoter. A Dark Eventos assumiu todas as despesas dentro do circuito. Toda infra-estrutura de segurança privada e das polícias Civil e Militar já está confirmada. A afiliada da Rede Globo em Montes Claros, a InterTV, deve gravar matéria nesta quarta-feira para mostrar que a festa está de pé.
Um dos idealizadores do bloco Pirão de Peixe e responsável pelos desfiles dos blocos, Aurélio Vilares garante que a estrutura a ser oferecida aos foliões em 2007 vai manter o mesmo padrão dos anos anteriores. Os pequenos ajustes programados vão oferecer melhor comodidade aos foliões dos blocos e da pipoca.
O promoter Vilares diz que os atrasos registrados nos horários de saída dos blocos, motivo de críticas dos foliões no último Carnaval, não vão se repetir em 2007. Para resolver o problema, ele diz que o palco principal vai ser instalado novamente na Praça Getulio Vargas. Já os camarotes voltarão a ser montados em frente ao Hotel Girassol. “Vale lembrar que não tem como o bloco chegar na praça antes das duas horas da madrugada, pois temos o compromisso com os nossos patrocinadores e com os foliões que pagaram pelo abada de garantir a festa até o nascer do sol do dia seguinte. Se sairmos muito cedo a festa também acaba cedo”, ele explica.
Bombardeado por todos os lados e correndo contra o tempo para garantir a
realização da festa, Vilares ainda entrou de forma involuntária noutra polêmica. O jornal O Médio São Francisco (que cede esta matéria para este blog) apurou que outra crítica ao Carnaval do ano passado foi a pequena participação dos blocos tradicionais da cidade – casos do Couro de Gato, Tô Garrado e Janucaré. A “importação” do Bloco Bole-Bole de Montes Claros nos últimos anos também desagradou ao januarense, muito cioso de suas tradições e reconhecidamente bairrista. Aurélio Vilares é implacável com essas manifestações de desagrado ao sustentar que os blocos alternativos de Januária “ainda estão no amadorismo”, apesar de toda a tradição que possuem. “O mercado exige hoje um esquema profissional de planejamento e execução e esses blocos ainda dependem muito do poder publico”, critica.
Vilares sustenta que a cada ano os blocos ficam mais dependentes do apoio logístico da prefeitura. Ainda assim, ele defende as negociações para apoiar essas agremiações, que são parte da tradição do Carnaval local. “Quero ressaltar que há espaço garantido para todo mundo que queira participar do Carnaval, mas a participação ou não de cada bloco depende muito do objetivo de cada um”, complementa.
Indústria cultural
Mas há controvérsias. A integrante do Bloco Couro de Gato Suely Rocha diz que não participa do Carnaval 2007 pelos mesmos motivos dos anos anteriores: a falta de incentivo por parte da prefeitura e a “mercantilização” da festa. “O carnaval de Januária virou uma indústria e deixou de ser uma festa genuinamente cultural. Não fui procurada por ninguém até agora e como cidadã januarense desconheço a programação do Carnaval daqui”, dispara. Já o presidente do Bloco To Garrado, Antenor Ribeiro, conta
que decidiu não sair no ano passado porque a prefeitura não respondeu à proposta do grupo para a realização do Carnaval.
“Nossa idéia era fazer exatamente o quê eles estão realizando neste ano”, informa. Antenor acrescenta que a prefeitura sempre deixa os preparativos para a participação dos blocos para a última hora, o que inviabiliza a participação. “Não temos condições de colocar um bloco do porte do Tô Garrado nas ruas em menos de um mês”, reclama o carnavalesco. Ele diz que a administração deve trabalhar o assunto com uma antecedência de pelo menos seis meses. Com um melhor planejamento, destaca, o carnaval de Januária poderia ser bem melhor. Procurada pelo Médio, a porta-voz do Bloco Janucaré, Kátia Frota, foi lacônica: “O nosso bloco não vai sair neste Carnaval por falta de apoio e incentivo. Eu sequer fui procurada para tratar do assunto”, afirmou.
A Secretaria de Turismo local firmou parceria com empresas privadas para a realização da festa no formato dos carnavais da Bahia - talvez a mais poderosa indústria de entretenimento na área musical do país. Uma questão de escolha, ainda que isso resulte em prejuízo para o Carnaval mais tradicional. Aurélio Vilares disse ao Médio que, pelo acordo firmado com a sua empresa (a Dark Eventos) e a Star Produções, o poder publico entra com a logística do circuito e o Bloco Pirão de Peixe contrata o trio elétrico e bandas de “nível nacional”. O desse objetivo desse acordo é colocar o Carnaval januarense no mesmo patamar de outras cidades norte-mineiras que investem nesse tipo de evento.
“Nossa expectativa é a melhor possível. A venda de abadás está em ritmo acelerado”, comemora Vilares. A empresa de Vilares teve participação ativa na implantação do novo modelo de carnaval adotado pela Prefeitura de Januária. “Temos mão-de-obra especializada no assunto, o que representa garantia total de sucesso para o evento a um custo mais em conta para o município”, avalia. A euforia do promoter Vilares está em claro contraste com o desânimo do pessoal dos blocos - o que revela que havia uma certa falta de sintonia entre a prefeitura e a parcela mais tradicional dos foliões da cidade. O que parece faltar é o bom senso que busque o equilíbrio entre o modelo show business de Vilares e o jeito mais artesanal dos antigos carnavais. A tal briga entre a “indústria das micaretas” e o amadorismo denunciado por Vilares.

















