Mariana
Venho de duas noites insones, que se esvaíram lentas em um quarto de hospital. Tudo se deve à benfazeja chegada da Mariana, minha segunda filha, que leitor vê na foto aí ao lado. Mariana ainda tenta se adaptar ao fuso horário de todos os brasileiros e troca o dia pela noite, quando faz uma sinfonia chorona, forma de reivindicar o peito que lhe satisfaça a insuspeita fome para organismo ainda tão pequeno.
Foi longa a travessia até que Mariana chegasse, na boca da noite da terça-feira, 31 de março, horário estipulado não pelos caprichos da mãe natureza, mas pela agenda atribulada dos médicos que atenderam ao parto. Mas eu dizia da longa espera, da dedicação apaixonada da minha mulher, Sandra Rita, aos detalhes de enxoval e arrumação do quarto em que Mariana vai passar sua primeira infância.
Sandra não é marinheira de primeira viagem, pois traz na memória os contratempos do nascimento da Ana Luísa, a primogênita, agora com 11 anos. Ainda assim, não faltaram chateações com lojistas que cobram caro e atendem mal, sem falar na cultura do descartável com que tudo é feito hoje em dia. Fizemos algumas viagens a Goiânia, onde os preços dos artigos para bebê não competem com a contaminação esnobe dos novos ricos aqui da capital da República. E o pai da Mariana ali, como ajudante de navegação em um universo estranho, onde tudo é tratado no diminutivo: cueirinho, luvinhas, mantinhas, babadorzinhos, enfim tudo “inho”, para simetria do ser que se avolumava na barriga da mãe.
A vinda de Mariana foi o estopim para a troca do antigo apartamento de dois quartos para o atual, com três dormitórios. Luta inglória outra vez, porque o mercado imobiliário de Brasília cobra valores que nem de longe faz frente à qualidade do que oferece, pelo menos aqui no Plano Piloto, onde os prédios bons são antigos e os novos deixam muito a desejar. Mas é o preço que se paga para morar perto do “Cara”, segundo Obama, e de toda a pompa que o poder central oferece a incautos retirantes.
Mas tudo isso é passado. Mariana chegou com seu apetite de gigantão Pantagruel e fica estabelecido que pouca coisa será como antes na rotina dos que a cercamos. Ao longo da travessia, fiz algumas digressões vãs sobre o mundo em que Mariana chega, os tantos perigos no horizonte de quem tem toda uma vida pela frente, ameaças que derivam do modo de vida imprevidente da humanidade e da baixa preocupação do bicho-homem com a sustentabilidade dos recursos que se esvaem tão rapidamente.
Mas há que se ter esperança. Mariana é uma vida que começa, com as mais belas promessas de renovação nos destinos da nossa espécie. Tudo o mais, a crise e nossos anseios de classe média perante o mundo inóspito ficam para depois. O choro de Mariana tem total prioridade.

















