Neben- núcleo de estudos benjaminianos
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segunda, 30 outubro, 2006
Brokeback Mountain

Olá, Acabei de ler esse texto muito bom do Zizek sobre homofobia que tem a ver com alguns assuntos que surgiram na última reunião, assim gostaria de disponibilizá-lo no Blog.
Rodrigo


Por que "Brokeback Mountain" perdeu?

SLAVOJ ZIZEK 

Previsivelmente, o fato de "O Segredo de Brokeback Mountain" não ter ganho o Oscar de melhor filme no domingo passado foi rapidamente denunciado em alguns círculos como expressão da homofobia oculta de Hollywood. A idéia era que a vitória de "Crash - No Limite" seria um acobertamento hipócrita: para acalmar sua consciência, pesada devido à traição covarde feita a "Brokeback Mountain", a academia teria optado por um filme anti-racista, dotado de plenas credenciais liberais e politicamente corretas. 
Entretanto é "Brokeback Mountain" que é um filme verdadeiramente escapista -um romance trágico, apropriadamente ambientado numa "América profunda", atrasada, décadas atrás. 
Dessa maneira, o cinéfilo liberal de hoje, que vive em uma cidade grande, pode refletir com satisfação sobre como a vitória já foi ganha: o filme ao qual está assistindo não diz respeito realmente a nossos problemas -em contraste com "Crash", que trata de problemas inequivocamente atuais. O escapismo mais refinado consiste em evitar os problemas do presente, trazendo à tona os problemas já resolvidos do passado. Assim, o verdadeiro ato de escapismo teria sido a vitória de "Brokeback Mountain". 
Mas será que a batalha já foi realmente ganha? "Brokeback Mountain" não foi atacado por muitos grupos cristãos de direita, que o viram como tentativa de macular a imagem do caubói, o próprio ícone da vida americana, com a pecha do homossexualismo? 
A resposta fácil a dar a essas vozes consiste, é claro, em dizer que a ética do western é profundamente anticristã: é uma ética de vingança e violência que não prega "volte seu outro lábio para aquele que lhe bate", mas, sim, "tome a justiça em suas próprias mãos e revide". Não surpreende que o discurso belicoso da administração Bush pós-11 de Setembro tenha ressuscitado o código dos heróis dos faroestes. 
Outra coisa para a qual se chamou a atenção de imediato foram as alusões homoeróticas óbvias do próprio universo do western, com seu foco sobre as relações estreitas entre homens e a depreciação que faz das mulheres. A armadilha que se deve evitar aqui é enxergar nessas alusões uma espécie de subtexto "subversivo", uma "resistência" oculta ao regime ideológico oficial, patriarcal, heterossexual etc. 
 
Homossexualidade frustrada 
Pelo contrário: essa camada de homossexualidade constitui ingrediente-chave do universo do western e é uma característica que salta ainda mais aos olhos nas comunidades militares. A administração Clinton procurou resolver o impasse dos gays no Exército americano com a fórmula de meio-termo expressa na frase "não pergunte e não diga". 
Ao mesmo tempo em que essa medida oportunista foi criticada, com razão, por endossar em silêncio a atitude homofóbica em relação ao homossexualismo (na prática, ela elevou a hipocrisia à condição de princípio social, como a atitude adotada em países católicos tradicionais em relação à prostituição), seus críticos, em sua maioria, deixaram passar despercebida a ironia contida nessa medida. 
Ou seja, precisamos formular uma pergunta ingênua, mas crucial: por que o universo do Exército opõe resistência tão forte à aceitação pública de gays em suas fileiras? Só existe uma resposta coerente possível: não porque a homossexualidade represente uma ameaça à economia libidinal supostamente "fálica e patriarcal" da comunidade militar, mas, ao contrário, porque a economia libidinal da comunidade militar depende de uma homossexualidade frustrada e não reconhecida como componente-chave dos vínculos masculinos formados entre os soldados. 
De minha própria experiência do serviço militar, prestado em 1975, me recordo de como o velho e infame Exército Popular da Iugoslávia era homofóbico ao extremo. Quando se descobria que alguém tinha inclinações homossexuais, essa pessoa era imediatamente transformada em pária, tratada como não-pessoa, para então ser formalmente afastada do Exército. Ao mesmo tempo, porém, o cotidiano do Exército era excessivamente permeado do ambiente das alusões homossexuais. 
Por exemplo, enquanto os soldados faziam fila para as refeições, uma brincadeira muito comum consistia em enfiar um dedo no traseiro da pessoa que estava à sua frente e depois tirá-lo rapidamente, de modo que, quando o soldado espantado se virava, não sabia qual dos homens às suas costas, todos com um estúpido sorriso obsceno no rosto, era o responsável pelo ato. 
Essa coexistência frágil entre a homofobia violenta e a homossexualidade "clandestina" frustrada é testemunha do fato de que o discurso sobre a comunidade militar só pode funcionar quando censura seu próprio fundamento libidinal. Fora dos limites da vida militar, não é fato que encontramos um mecanismo inteiramente homólogo de autocensura, sob a forma do populismo conservador contemporâneo, com seu viés sexista e racista? 
Assim, quando Andrew Longman, em sua coluna "Renew America", rejeitou "Brokeback Mountain" dizendo que "não dá para combater o islamismo com caubóis gays", ele estava duplamente equivocado. Para começar, os soldados americanos que combatem o islamismo no Iraque e outras partes do mundo são, sim, "caubóis gays" de um certo tipo, cuja identidade de grupo é sustentada por vínculos homossexuais. 
 
O modelo positivo 
Em segundo lugar, é possível, com toda certeza, "combater o islamismo com caubóis gays": a maneira de realmente vencer a batalha contra o islã militante consiste em trazer à tona o erotismo reprimido dos vínculos masculinos entre militares. 
Então como um filme deveria tratar o tema da homossexualidade hoje? Devemos chamar a atenção para "Capote" como modelo positivo contrário a "Brokeback Mountain". Quem enquadrou ambos os filmes na mesma categoria de "tópicos gays" deixou passar despercebida uma diferença crucial: enquanto "Brokeback Mountain" é de fato um filme sobre a homossexualidade, sobre a situação trágica de um casal homossexual que leva seu amor adiante sob condições adversas, "Capote" é um filme sobre um personagem que, por acaso, é gay. 
O foco do filme está em outros fatores, e a homossexualidade não é aquilo que define fundamentalmente o personagem principal. Não seria essa a verdadeira vitória para os gays? O fato de que o herói principal de um filme possa ser abertamente gay, sem que esse elemento faça sombra a todos os outros?
 

Slavoj Zizek é filósofo esloveno e autor de "Um Mapa da Ideologia" (Contraponto). Ele escreve regularmente no Mais!. 
Tradução de Clara Allain.


postado por 37423 as 11:55:45 #
8 Comentários

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