Todo e qualquer assunto controverso é perigoso pois gera mais polêmica e geralmente envolve opiniões pessoais e paixão, resultando em discussões sem utilidade e acabando no senso comum. Mas não posso deixar de abordar esse assunto por vários motivos, citando três: o atual ministro da saúde é favorável a um plebicito nacional, justo por isso a mídia tem abordado o assunto com insistência e, em terceiro, o assunto, de per si, é útil e pertinente para qualquer pessoa em idade reprodutiva.
Existem pessoas, entidades e organizações que possuem opiniões contra e a favor da discriminalização do aborto. Há motivos suficientes dos dois lados. Mas vou abordar apenas um de cada lado, tentando contribuir para um melhor entendimento do assunto.
Acredito que todo o segmento religioso seja contra a prática do aborto por considerar que a vida inicia-se no ato da fecundação quando é originado o zigoto, uma célula viva. Creio que justamente aqui esteja o ponto controverso desse pensamento (e de todo assunto): quando começa a vida? O zigoto é uma célula viva sim. Mas o espermatozóide também o é! Assim como as células de nossa pele, ou da parede do rim. O argumento religioso defende que ao ser originado o zigoto, este já está programado para, potencialmente, originar um ser vivo e, em assim sendo, o aborto impediría sua concretização. Eliminaria toda a chance do nascimento de um ser vivo.
Por outro lado, crime ou não, todos sabem que a prática do aborto ocorre (e continuará ocorrendo) sem freio de duas formas: 1. nas "clinicas" clandestinas frequentadas,cada vez mais, por adolescentes despreparadas para a vida de mãe e por mulheres adultas. Ambas de baixa renda. O que significa dizer que o procedimento é realizado, na maioria dos casos, sem os devidos cuidados higiênicos e profissionais colocando em risco a vida da paciente; 2. mulheres mais "afortunadas" financeiramente também usufruem dessa prática, só que cercada por todas condições favoráveis de higiene e profissionalismo a um custo elevado. Mas o sigilo está garantido para a paciente e equipe médica.
Em vista destas duas situações o aborto é um caso de saúde pública e como tal devería ser tratado pelo Estado (nos 3 níveis), que forneceria todas as condições para um possível aborto. E por que possível? Entendo que a discriminalização do aborto forneceria a possibilidade de ocorrer o aborto, e não simplesmente fazer-se o aborto como quem compra sonrisal. Antes dessa ocorrência a mãe é ouvida por uma equipe multidisciplinar de especialistas em diversas áreas, para a verificação da real necessidade ou não do procedimento.
De qualquer forma penso que o assunto deva ser discutido pela sociedade, baseando em fatos e não impulsionado pelo senso comum, ou pela religiosidade das pessoas.













